52 #13 Tweet

Mais atrasado que a prestação do Chevette 89 do Change, eis que trago a vocês finalmente a resenha da última edição da revista onde um ano demora 13 meses (sim, insisto na piadinha infame pelo absurdo da coisa).
O que aconteceu no final de 52? Quem morreu? Quem viveu? Quem caiu pra segundona? Jacaré no seco anda? Clica aí pra saber disso e muito mais. Mas fiquem avisados que tá cheio de SPOILER!!!

A semana 49 começa do mesmo jeito que a semana anterior terminou, com Chang Tzu querendo vender o agora indefeso Adão Negro para quem fizer a melhor oferta. No geral essa é uma semana bem fraca (a pior desta edição) e a arte meia-boca do desenhista Eddy Barrows só confirma isso. Na verdade, não temos muita ação nessa semana, que é apenas uma preparação para a destruição desenfreada da semana seguinte.
No lado dos heróis, acompanhamos a discussão sobre a absurda proteção dos Dez Grandiosos, os super-heróis chineses, ao criminoso Chang Tzu e seu grupo de cientistas loucos. O que poderia se tornar uma crise diplomática ou mesmo um começo antecipado para a Terceira Guerra Mundial, acaba se resolvendo com a ajuda de um X-9 chinês.
Dentro do complexo científico, vemos finalmente o doutor Will Magnus partir para a ofensiva, depois de bancar o prisioneiro obediente por quase um ano. Apesar da luta dos Homens Metálicos em miniatura contra Chang Tzu ser até divertida, chama a atenção é a explicação que Magnus dá à origem da equipe, o que contraria umas duas versões da origem dos personagens.
O momento de maior relevância da história é a libertação do Adão Negro pelo Esmaga-Átomo, que se sente culpado por ter trazido indiretamente a destruição e o caos para a vida perfeita que seu antigo amigo havia conseguido. Forçando-se pateticamente a acreditar na inocência do ex-monarca do Kahndaq, o herói deixa Adão Negro partir e dar início à tal Terceira Guerra Mundial.

Terceira Guerra Mundial. Adão Negro varrendo o mundo em busca de vingança. Dezenas de heróis atacando juntos (em página dupla!) para deter o ex-vilão-ex-herói enlouquecido. A semana 50 teria tudo para ser o grande momento "massa véio" de 52, mas felizmente escapou do desfecho mais previsível.
Um das surpresas foi desagradável. Quando foram apresentados, os Dez Grandiosos pareciam um belo acréscimo ao DCverso, um tipo de Liga da Justiça da China. Mesmo que um ou outro tendesse mais pra vilão mesmo, pensei que ao final da série os membros de boa índole (como o Médico Perfeito e Realizado, que ajudou Ralph Dibny) provariam que superseres de outras partes do mundo podem ser heróis tão bons quando os made in USA.
Mas o que ocorre nessa semana é que uma dezena de novos personagens interessantes foi transformada em bucha de canhão pra apanhar do Adão Negro e precisar da ajuda dos bravos heróis americanos. Tremendo desperdício.
Por outro lado, temos uma boa surpresa com a crítica (sistemática na série) dos super-heróis "instantâneos" de Lex Luthor, a Corporação Infinito. Reforçando os valores da própria DC contra os heróis cheios de atitude tipo Image, a história mostra a molecada da Corporação amarelando na hora de enfrentar um inimigo aparentemente invencível. Não bastam poderes e um visual maneiro pra ser super-herói, é preciso ter dentro de si a capacidade de enfrentar as dificuldades mesmo correndo riscos.
A forma como o vilão foi derrotado também foi inesperada e muito interessante. Em vez da tradicional prisão ou morte (que nunca é eterna nos quadrinhos), o vilão simplesmente perdeu seus incríveis poderes e fugiu. Mas o poder continua existindo, é só ele dar a sorte de descobrir a palavra mágica e o mundo estará novamente em perigo. A derrota temporária do vilão deixando no ar a ameaça ainda existente que pode retornar a qualquer momento é uma resolução de conflito típica de lendas e mitos da tradição oral de várias partes do mundo, inclusive na região do Oriente Médio onde se localiza a fictícia Kahndaq. A cena que mostra o antes todo-poderoso monarca andando como um mendigo desolado em seu próprio país é uma das melhores da série.

Em vários sentidos, a semana 51 é um final antecipado, ou um começo de final, para 52. Algumas das tramas principais se encerram aqui. Podemos acompanhar o desfecho da participação de Homem-Animal, Adam Strange, Estelar e Lobo. Além de disso, temos um reencontro da comunidade de heróis, repetindo o evento ocorrido na semana 1, dessa vez com a presença (disfarçada) de toda a Trindade.
Uma coisa me deixou intrigado sobre essa nova identidade da ex-Mulher Maravilha. Na semana 47, vimos a amazona em Nanda Parbat. Como é que um mês depois ela já está trabalhando numa agência governamental sob nova identidade? Esses caras do governo não checam os antecedentes de seus agentes? "Olha, não existe nenhum registro dela com mais de um mês, mas vamos contratar ela assim mesmo, porque ela é gostosinha e até lembra a Mulher Maravilha." Se houver explicação pra isso nas histórias da MM, contem aí nos comentários, pois olhando só por aqui parece uma mancada dos roteiristas mesmo.
E finalmente somos levados ao gancho da trama mais importante (e mais confusa) da série, que explica a relevância do número 52. Rip Hunter e o Gladiador Dourado (com a ajuda de F.U. Turo) partem para o confronto com a versão supersayajin do Sr. Cérebro. Um ótimo trabalho do desenhista Joe Bennett, que desenhou o vilão com uma aparência bem nojenta e ameaçadora.

Para quem ainda não sabia (aquela sua vó que diz que vai votar no Getúlio na próxima eleição), o segredo de 52 era a volta do multiverso. Sim, depois daquela zona toda de Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora, Crise Infinita, deram um jeito de colocar múltiplos universos na DC novamente. Pelo menos agora são limitados a 52, com o conteúdo temático de alguns já definido, o que teoricamente diminui a chance dos roteiristas bagunçarem muito a cronologia. Mas vamos à história...
Boa parte da semana 52 não se passa na semana 52, uma das conseqüências de uma batalha entre viajantes do tempo. O que parecia ser um combate desigual entre três buchas loiros (o novo Supernova, Daniel Carter, se junta a Rip Hunter e Gladiador Dourado) contra um inseto gigante comedor de universos acaba se tornando uma ótima aventura.
Rip Hunter é cheio de surpresas. Pra começar, a roupa dele se alterna entre roupas civis e um traje de combate de uma página pra outra, típico erro de continuidade dessas histórias "all-star" feitas por vários desenhistas. Além disso, Hunter é um tipo de Bátima oxigenado; ele sempre tem um plano escondido na manga, só que não conta pra ninguém até o último momento pra posar de fodão. Um personagem divertido.
Algo de interessante no novo multiverso é que as diversas Terras deveriam ser iguais, mas foram diferenciadas de acordo com os anos e eventos daquele universo devorados pelo Sr. Cérebro. Por esse raciocínio, a Nova Terra é a única Terra "íntegra", enquanto que as outras 51 são Terras em que "falta algo", ou seja, são Terras "menores". É curioso pensar que a própria DC considera o universo Wildstorm ou o universo de O Reino do Amanhã não como alternativas, mas como sub-universos. Resta saber se isso será aproveitado em futuras histórias.
Mas o momento mais bacana da história, e possivelmente da série toda, é o reencontro crucial entre dois velhos amigos, Besouro e Gladiador, o Azul e o Dourado. A data do encontro no primeiro dia após a primeira Crise não é uma coincidência. A DC é um universo ficcional cheio de tradições e legados. Mas a maior parte dessas tradições vem da Era de Ouro e Prata, sendo apenas atualizados com o passar dos anos. A amizade entre esses dois personagens é uma das poucas tradições realmente marcantes nos últimos 20 anos de histórias da DC. O reencontro de certa forma fecha um ciclo que vai da unificação das Infinitas Terras até este ressurgimento do multiverso. É uma cena que vale o preço do gibi.
De volta ao tempo normal, é mostrado o término da semana 52, com as últimas participações de Aço (com apenas dois quadrinhos), Ralph Dibny (que conseguiu um tipo bem esquisito de "final feliz"), Gladiador Dourado e Will Magnus. Por fim, Renee Montoya, a nova Questã, repete um gesto do falecido Questão no início da série, fechando o círculo de 52 e apontando um novo começo.
A última origem escrita por Mark Waid para 52 logicamente é a da Liga da Justiça. Com os ótimos desenhos de Ivan Reis, mais uma origem é modificada, contrariando inclusive a ótima Liga da Justiça: Ano Um, escrita pelo próprio Waid. Mas, pelo visto, isso é o que tá valendo agora.
Desde o início de 52, tenho lido leitores falando mal da série, dizendo que piorava a cada semana, que o final era uma bosta e coisas do tipo. Sinceramente, acho que vocês leram uma história diferente da que li. Ou esperavam algo diferente do que a própria DC dizia oferecer na revista.
A DC corajosamente correu um risco duplo com 52. Realizar uma série semanal de quadrinhos é um pesadelo logístico, tanto pelo ponto de vista da produção quanto da distribuição. Realizar uma história longa e de fundamental importância para o futuro do DCverso sem ter nenhum dos Três Grandes como protagonista era uma tarefa muito delicada. A editora conseguiu vencer os dois desafios muito bem. A história focada em heróis considerados "de segunda linha", com ganchos quase toda semana funcionou melhor do que o esperado (tanto que emendaram outra série semanal logo depois).
Para os que esperavam uma grande batalha com todos os heróis da editora contra um grande vilão como Darkseid, com muitas mortes que seriam revertidas três meses depois, 52 deve realmente ter sido uma decepção. Para os que queriam ler uma história onde os protagonistas enfrentam desafios e mudanças que acabam transformando eles mesmos e os tornam personagens melhores do que antes, então 52 foi uma grata surpresa. Quem quiser algo "massa véio", que vá ler um gibi do Mark Millar.
Nota: 9,5
(52 #49-52)
Formato americano, 116 páginas, papel Pisa Brite, capa couché, R$ 8,00, distribuição nacional, editora Panini.



