Melhores do Mundo

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Ago 15

Encarnação do demônio

Confira a crítica do excelente filme Encarnação do demônio escrita pelo camarada e leitor por Helil Neves, o Robobos.

[Mais:]

José Mojica Marins é um autodidata. Diferentemente da maioria dos cineastas de sua geração (e de todas as gerações seguintes), ele não é oriundo da classe média, mas da classe trabalhadora. Seu pai trabalhou durante muitos anos como gerente e faz-tudo de uma sala de cinema, o que explica o fascínio do menino pela nobre arte, e seu vasto conhecimento de filmes, cuja lista vai de Chaplin até os seriados do Flash Gordon. Seu conhecimento empírico não se resumiu ao que percebia na tela, pois, ainda garoto, se aventurou com amigos na confecção de pequenos filmes amadores realizados com sua câmera super 8mm que ganhou do pai. Esse aprendizado, na cara e na coragem, aproximou-o dos primeiros realizadores brasileiros, um quê do chamado cinema inocente, os homens da Belle Époque (que, mais do que ninguém, o que faziam era experimentar, visto que não havia paralelos a se comparar, não havia ainda a linguagem).

A linguagem de Mojica é primitiva — nesse sentido, uma vez que ele não foi domesticado por academia nenhuma. Seu cinema é o do instinto, e como é, dá um banho em muito academicuzinho por aí — ele é foda pra caralho, sem medo de fazer o que normalmente outro cineasta não faria. E isso não quer dizer que ele não sabe o que faz: ao contrário, o danado sabe exatamente o que está fazendo, e isso causa todo o espanto em torno de sua figura – não só dos espectadores, mas dos técnicos que trabalham com ele, e que num primeiro momento podem não levar muita fé no que está sendo filmado. Até que o resultado é projetado na tela...

Muito que bem; Mojica é um autodidata, que sequer terminou o primário, e que não é lá um grande leitor de livros. O negócio dele pra ler são gibis.

Sem medo de errar eu afirmo: Ele nunca leu Nietzsche. Nem Shakespeare.

A formação do Mojica é popular; seu cinema é popular. Eu digo popular, e não pop — quero dizer que ele tem uma grande ligação com as tradições populares. Daí que ele pode ao mesmo tempo filmar um monólogo na melhor tradição do Bardo inglês (que é um produto da tradição popular, e não um monumento acadêmico), e logo depois noutra cena encenar um melodrama — também da tradição popular.

Quem duvida quando digo dos discursos shakespearianos de Zé do Caixão em À meia-noite levarei tua alma, basta ver o monólogo dele no cemitério, efusivamente dirigido aos mortos, e comparar ao monólogo de Lear à tempestade que desaba.

O conhecimento cinematográfico de Mojica é vasto, mas não-organizado em sua mente. Difícil dizer que ele pára a pensar mais ou menos assim: "vou fazer esse plano como naquele filme tal..." Isso fica para os outros. A informação está lá, mas surge não conscientemente.

***

Mas falemos agora sobre Encarnação do Demônio. Infelizmente a bilheteria está baixa, e por isso o filme deve sair de cartaz no Odeon, ficando apenas uma semana em cartaz... é uma pena. Se continuar assim, o filme sairá das outras salas também. Mais sobre isso, visitem o blog oficial do filme.

(O site também, está fantástico; dêem uma visitadinha)

Quem conhece os filmes de Mojica sabe que suas introduções são bem elaboradas, com uma bela apresentação do que estamos para ver. Neste filme, essa introdução leva o benefício de uma tecnologia digital para criar uma animação ilustrando a narração. Ainda assim, vemos motivos dos filmes anteriores por ali. Aquelas imagens medievais de deformidades humanas, de monstros mitológicos sem cabeça, e outras aberrações, enquanto o discurso "eugênico" de Zé do Caixão nos arrebenta no cérebro, é simplesmente estimulante (seja lá por qual emoção que você se deixar envolver — desde a animação do fã, ao horror do incauto).

Muito já se falou do plano seqüência inicial na cadeia. É realmente sensacional. Mas uma vez que já foi dito e lembrado, prefiro ir por outro caminho.

O primeiro plano que surge logo depois do título, o portão da cadeia se abrindo, e Zé do Caixão a sair para a luz do sol, é maravilhoso. É um plano rápido, mas, pontuado pelas guitarras do Abujamra, é um plano sem precedentes. Pra mim, aquele é a verdadeira volta do personagem. Desde a primeira vez que vi o filme (até agora vi 5 vezes), esse plano me emocionou e chamou a atenção; desde a primeira vez que vi, esse plano me fez lembrar do personagem irmão de Zé do Caixão. Aquele plano me lembrava, não sabia porque, o Antônio das Mortes de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

Na segunda vez, percebi que o início do filme tem muito de O Dragão da Maldade[...], sim. No filme de Glauber Rocha, Das Mortes volta ao sertão anos depois, e encontra um lugar modificado historicamente. É notório o contraste entre o Brasil das rodovias asfaltadas com o velho matador de cangaceiros. E essa mudança faz com que o personagem pare a pensar sobre suas ações passadas, e a que conseqüências elas levaram o mundo (o sertão é o mundo) a chegar. Isso é sabido.

Encarnação[...] começa também mostrando o contraste entre o Brasil que Zé do Caixão deixou lá em 1967, quando foi preso, e o de hoje, agora que ele está livre. E ele vê que o mundo não melhorou em nada — ao contrário: só piorou.

Ao contrário de seu irmão, Antônio das Mortes, que percebe que esteve sempre apoiando as forças erradas, e se vira em apoio à massa popular e à figura da Santa, Zé do Caixão fica convicto de que é imperativo que sua busca recomece imediatamente. Pois, se Antônio era a força bruta de uma autarquia bizarra com é a do Nordeste brasileiro, e que portanto deveria, para sua redenção mudar o vetor de sua força para algo melhor...

...Zé sempre foi o destruidor das normas vigentes, o iconoclasta, aquele que veio para jogar para o alto a falsa moral e da cordialidade bovina do homem comum, que se deixa adestrar pelos donos da terra. Somente o homem superior pode virar essa mesa (e arrancar o olho do filha da puta do outro lado).

Esse diálogo com o filme de Glauber faço eu. O Dragão da Maldade[...] não serviu de referência ao roteiro de Encarnação[..] que eu saiba. No entanto é totalmente viável encontrar esses links (mesmo que não intencionais) entre obras distintas. Afinal estão imersas no mesmo cadinho social. Isso inclusive é uma tendência de análise bastante atual. Pra ficar claro: Encarnação[...] não faz referência ao Dragão da Maldade[...]: mas os dois filmes dialogam (ao menos ao meu ver).

Se formos falar de referência mesmo, de inspiração assumida, devemos falar do Cavaleiro das Trevas do Frank Miller. Dennison Ramalho (co-roteirista de Encarnação [...]) sempre afirmou que a história seria uma espécie de Cavaleiro das trevas do Zé do Caixão; e é por aí mesmo, como já disse. Assim como Bruce Wayne, Zé retorna à atividade depois de muitos anos (40 anos, no caso do Zé) e volta muito mais violento e obsessivo.

Quem viu o filme sabe o quanto ele é foda pra caralho, e corajoso, desde o fato de mostra policiais covardes matando crianças numa favela, sob o discurso do capitão: "segurança para a população, economia para o Estado..." Prefiro falar de um outro ponto, muito atacado por alguns criticuzinhos tolinhos...

Pois esses jumentos, sem terem feito seus deveres de casa, se meteram a falar sobre o que não sabiam. Nada mais estúpido que isso.

Dizer que o Mojica embarcou na onda dos filmes do Eli Roth, é no mínimo não saber do que se está falando. Espero isso de um espectador que esteja se deparando com Zé do Caixão agora. Mas, de um entrevistador? Pois, não sabem vocês, no filme episódico, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, no episódio Ideologia, Mojica nos brinda com cenas que antecedem em muiiiiitos anos O Albergue de Roth, ou aos Jogos Mortais. E ainda pior: trata pejorativamente os filmes que usam dessa linguagem. Aí, meus caros, nem quero falar. Que o puritanismo de um parvo desses vá pra Conchinchina. Deixem esses camaradas voltarem para suas novelas, onde tudo é sempre o mesmo, e é seguro. Deixa eles verem Avassaladoras pela enésima vez (esta frase é uma citação, hehe).

Mais sobre isso, o texto do Omelete fala muito bem (inclusive da auto-flagelação do religioso — que cena foda!!!), e por isso não vou me prolongar sobre isso. Só vou observar, duas coisas ainda a esse respeito: sobre uma suposta misoginia do filme (e não do personagem); parece que quem escreveu isso não viu que, no filme, são torturadas não só mulheres, mas homens também. E não o são gratuitamente, mas por se oporem ao Zé (no caso dos e das policiais – que aliás, ironicamente são torturadores profissionais, como nos lembra o Zé); e também os tais testes a fim de selecionar a mulher escolhida.

Digo ainda mais: são torturados homens e mulheres, por homens e mulheres (mais de três mulheres são mostradas nesse ofício, aliás — não se trata de violência contra a mulher, e nem de nada gratuito ou pelo prazer do torturador... embora exista espaço para esse tipo de filme também).

Segundo ponto: aproveito o gancho que o texto do Omelete deixou sobre os closes dos olhos do Zé... é muito interessante notar, na cena do buraco do rato (só vendo pra entender, e mais não digo, pra não estragar nada), não só temos o close dos olhos de Zé do Caixão, mas o close dos olhos DELA, a mulher, participando ao mesmo nível, seja da filosofia ou da loucura do protagonista. Ali sentimos que a busca estava terminada... mas não estava; estava? Tinha mais ainda o que rolar por essa fita... Vejam para saber.

Ainda sobre criticuzinhos desavisados: trash de cu é rola!!! Zé do Caixão não tem nada de trash, pelo amor de Deus!!!! Parem com essa besteira!!!! Mojica pode ter apresentado o Cine Trash, mas seus filmes NUNCA passaram nesse programa!!! Isso, porque todos os envolvidos no Cine Trash tinham consciência de que o Zé nada tinha a ver com aqueles filmequinhos vagabundos. Os filmes do Mojica chegaram a ser exibidos na época na Bandeirantes, mas foi nas madrugadas de sábado à noite, e só depois do Cine Prive (lembro muito bem disso... bons tempos, hehe...).

Se duvidam do meu discurso, deixo aqui a palavra do Dennison Ramalho, um senhor diretor (e o novo nome do terror brasileiro), para deixar clara essa questão do trash:

Acho que ficou claro. Vamos continuar com a programação normal...

O que dizer da cena formidável em que ele aproveita o gancho entre o Encarnação[...] e o Esta noite[...], e corrige a imbecilidade perpetrada pela censura. Zé do Caixão deixa claro que não se tornou nenhum carola, como quiseram fazer os boçais servidores do Estado.

(Vale avisar que esse gancho não aparece no início da película, mas pelo desenrolar dela, em um flash back).

Mais: Mojica ainda aproveita esse momento de reflexão para provocar o público, quando Zé diz, como que se dirigindo a seus inimigos: "Pensam que eu estou vencido, enfraquecido pelo tempo?" É um discurso diegético, uma divagação do personagem de si para si e para seus seguidores, mas serve também para os espectadores descrentes de que Zé do Caixão ainda renderia alguma coisa no cinema, ou que Mojica ainda teria a mesma capacidade, a mesma genialidade na condução de um longa metragem. Bem... insisto que devem assistir ao filme. Eu digo que o homem é O CARA. Mas isso não quer dizer muita coisa, não é? Vocês só vão SABER (e é saber mesmo, de sentir o sabor, pois há sabor — nem que seja de sangue, mas há), só vão saber, vendo.

Zé do Caixão, o super-homem tupinambá... Quem perder essa fita no cinema, há de arder-se de arrependimento, pois o bom humor do homem superior está afiadíssimo. Ante a sentença clássica do "só por cima dos nossos cadáveres", ele não se faz de rogado... porque não tentar fazer diferente? Quem viu, sabe do que estou falando "Não era bem isso que eu tinha em mente..."

Ainda que, para mudar o mundo, fosse preciso mais do que um Zé do Caixão, é de se espantar (novamente), com o quanto o mundo, mesmo que piorado, ainda continua o mesmo... ignorante, como diria Zé. Há uma cena em que crianças assassinadas pela polícia vão ser enterradas. O padre diz seu discurso velho-encarquilhado. Um dos moradores reage. Como assim foi Deus que quis? Nesse momento sentimos que haverá uma reação, uma revolta, diferente da apatia comum do povo-boi. Mas a revolta é mal direcionada. O camarada não se revolta contra a polícia, mas contra o Zé do Caixão! "Pra mim ele tem parte com o demo. Quem é ele, o quê que ele quer?" E ainda mofa das unhas do funerário, que reage (derrubando o idiota, e com um discurso):

"Até quando continuarão como escravos e covardes? O que é o homem? Um ser para ser dominado? Enquanto negociam com seu Deus, eu cuido dos meus cadáveres."

Deixa agora eu voltar ao Macbeth... nesse filme, ele está mais parecido com esse personagem do que nunca. Agora, Zé sofre de alucinações quase que o tempo todo, assim como o sanguinário usurpador escocês. Ele ainda as renega, como mentiras, mas quem ganha com essas imagens somos os espectadores. Maravilhosas e surpreendentes. Os espectros das vítimas surgem, como já foi comentado em outros textos por aí, esses espectros surgem em preto e branco, em contraste com o fundo que é colorido (o filme é em cores, ao contrários dos outros dois da trilogia). Quem se divertiu muito filmando, foi o outro Zé, o Celso Martinez... não vamos esquecer que ele também já foi diretor de cinema, e quanto ao Encarnação[...], ele curtiu muito o roteiro, e sua parte, em específico. Vejam o making of do filme... ele fala um pouco; é bem interessante:

Quem ainda duvida da capacidade de causar horror de Macbeth, veja o filme do Polanski — um verdadeiro filme de terror!

Uma coisa que faltou eu dizer, e que vocês me lembraram: sobre o uso dos clichês... a questão não é o clichê em si, mas como você trabalha com ele. Alan Moore brinca com os clichês dos super-heróis, ou com o clichê do Super-Homem, e consegue resultados magníficos. Tudo, tudo, vira clichê. Lembro de uma entrevista do Bressane, em que ele diz sobre O Anjo Nasceu que nesse filme ele trabalhou com os clichês de Terra em Transe. Como assim Terra em Transe possuir clichê? Se existe, e ele reutilizou, vira um, não é verdade?

O clichê só é ruim se for uma macaqueação... Eu disse que o Mojica é um cineasta brasileiríssimo. Ele não IMITA os filmes de terror estrangeiros. Ele não MACAQUEIA. Ele ANTROPOFAGISA, e cospe algo deliciosamente nacional e bárbaro. E não pára por aí. Como já disse noutro texto, ele não é só um Mestre que trabalha com o que já existe: ele também é criador. Não esqueçam que À meia-noite[...] meio que antecede o gore de Gordon Lewis (Banquete de Sangue também é filmado em 63)(e, francamente, entre Banquete de Sangue e À meia-noite levarei sua alma, eu fico com o brasileiro — e digo a mesma coisa se trocarmos À meia-noite[...] por O Estranho Mundo de Zé do Caixão).

Vejam, e digam lá o que acham. Aqui termino minha contribuição com o Especial Zé do Caixão.

"Das trevas surge o oculto. O ventre perfeito gesta a maior criação: um ser que desconheça qualquer limite. Apenas força e fulgor; ímpeto e desejo. A perfeição suprema em meio ao caos. Excesso que surge do completo vazio. Para além de qualquer dor, ou loucura. Mais alto que Deus, mais baixo que Satã. Poderosa, indômita, impiedosa, lasciva, livre. É preciso gerar esta criança. Forjá-la na continuidade de meu sangue."

PS: Alguém por aqui disse ter visto um filme do Mojica sobre um cara que se revoltava e virava uma espécie de Rambo (com bazuca e tudo). Esse filme se chama Tortura Selvagem: a grade e foi DIRIGIDO por Affonso Brazza, o Rambo do Cerrado. Mojica participa, mas dizer que o filme é dele, é forçar muito.


Falecido Ultra Email • 12:00:02 • Cinema, A Gente Vimos, Post do LeitorPermalink 41 comentários
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