Melhores do Mundo

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Ago 8

Esta noite encarnarei em teu cadáver

Esta noite encarnarei em teu cadáver começa onde À meia-noite levarei tua alma parou.

Esta frase está no início do próprio filme. E é exatamente isso o que vemos na tela: um a verdadeira continuação, daquelas que realmente prosseguem com a história, mas com diferenças notórias, pode apostar.

[Mais:]

Parece que Zé do Caixão, após levar aquele cacete bonito no final apoteótico do primeiro filme, retorna com um reforço bem exagerado da narrativa (talvez porque o personagem estivesse mais louco, ou talvez porque o orçamento fora triplicado). Mas não se deixem enganar: ainda assim a grana era uma merreca – Mojica tira leite de pedra que é uma beleza.

Na adversidade é que o homem prospera. Mojica parece ter ido às telas para provar esse conceito. Como nos lembra Rogério Sganzerla, o Mojica consegue, do nada, fazer tudo, ao contrário daqueles que têm tudo e não fazem nada.

Do que adianta, por exemplo, o cinema brasileiro hoje ter grana e só fazer filmes com cara de tele-novela? Muito melhor um filme independente com poucos recursos, mas macho (e pagão, no caso do Zé).

Zé do Caixão retorna conseguindo, entre outras coisas, escapar das garras da lei, por falta de provas. Ao mesmo tempo, ele está convalescendo de uma operação nos olhos (interessante como, muitos anos depois, o Mojica mesmo também os operou . Mais sobre isso, procurem um texto do Primati, sobre a fascinação do diretor por olhos).

Bom... Zé do Caixão volta para casa provocando pavor nas pessoas da rua, que voam pra longe dali, com sua chegada. Em meia a tanta ignorância, o funerário não desistiu de seu intento. Longe disso “[...]A verdade será aceita. Nem que para isso seja preciso fazer de seus olhos verterem lágrimas de sangue”.

Bem, com o final dos créditos iniciais (muito interessantes, aliás – e ainda mais interessantes do que os créditos do filme anterior), vemos que Zé agora conta com o auxílio de um corcunda deformado de nome Bruno. Como é?! Isso mesmo!!! Eu não disse que o personagem ganhara um reforço? Até meio exagerado, se compararmos com a simplicidade do filme anterior. Se antes o Zé era um homem comum, agora, ele é até comum ainda, mas por exemplo, possui em casa uma câmara de tortura, com alçapões e o que mais for preciso (como por exemplo, buracos na parede para espiar moças bonitas...

Nada disso fere a saga, que continua deliciosa, mas há que se notar essas mudanças nas unhas, por exemplo, que ficaram enormes (antes eram apenas grandes).

Essas mudanças, não são só nos acessórios do personagem, mas também no seu modus operandi. Se antes ele queria uma mulher que pudesse lhe dar um filho, agora, mais do que isso, ele quer a mulher mais adequada possível: a mulher superior.

Para isso, ele rapta sete mulheres, a fim de promover um teste que provasse qual delas seria a adequada.

O curioso é que entre as mulheres seqüestradas, encontrava-se entre elas a mulher de um Coronel (o espaço é rural, não esqueçam), Márcia. Ela estava com um chato no seu pé, a porra de um leão de chácara do Coronel do lugar. Isso faz com que ele seja um dos suspeitos. Só que o tal Coronel põe o nome dele em defesa do jagunço e o delegado deixa passar (ai, essa polícia...).

Quem se torna o próximo suspeito, logo de cara? O povo todo acusa Zé do Caixão, uma vez que ele tem parte com o demônio. A galera está pronta pra sair pro pau, quando, ao se virarem, dão com Zé os olhando. Não tem um sequer que ouse continuar: seu domínio é perfeito (um domínio maior, só se eles encarassem o Batman, huahuahuah!!!).

O mais maneiro é que ele vira a situação e mostra que podia ser qualquer um ali. Ainda mais: ele diz que trará o culpado à Justiça, na maior cara de pau!!! Muito foda!!!!

O teste das mulheres envolve a exacerbação da cena da aranha do filme anterior. Se lá, ele soltava uma aranha em cima de uma mulher amarrada, aqui, as moças são pegas de surpresa enquanto dormem, por aranhas sorrateiras — e são muitas!!! A cena é super bem trabalhada. A brincadeira com o voyerismo do personagem, que as espia pela parede (e nós, que estamos na sala acompanhando, hehe), as imagens impressionantes das aranhas, quase que na pele nua, uma vez que as mulheres usam apenas leves babydolls, além do suspense até elas acordarem e dar pela coisa.

É até difícil falar desse filme sem entregar a história. Eu posso dizer que, quem não passar no teste não volta pra casa. Não volta pra lugar nenhum...

Atenção nessa cena para o plano de quadro dentro do quadro desse filme — é simplesmente sádico, e sensacional!!!! Por sobre um alçapão, Zé e sua escolhida presenciam uma massacre, enquanto Zé se prepara para papar a moça, antes dela decepcioná-lo.

É esse o momento que dá o título do filme — e mais uma vez a ameaça sobrenatural sobrevoará a cabeça do funerário.

O próximo interesse de Josefel Zanatas (o verdadeiro nome do personagem, que aparece neste filme, e não no Encarnação), seu novo interesse é logo a filha do Coronel, que retorna de viagem de anos estudando na capital. O confronto com a o poder local não o faz recuar, afinal, ele é superior a tudo isso.

Gente, podem acusar o Mojica de tudo, menos de falta de criatividade. Enquanto a história vai desenrolando, ele humilhando o homem do coronel, matando e armando aqui e ali, levando pra casa a filhota pra casa ("você não gosta de mim, mas sua filha gosta"), surge a seqüência em que Zé é levado ao Inferno. Rapaz, aquilo é de dar na cara!!!!

Zé se dá mal justo porque, dentre aquelas mulheres que ele manda pro beleléu, uma delas estava grávida. Quando ele descobre, não consegue se perdoar pela morte da criança (lembrem-se de que esse é o fraco do personagem. Logo no início da fita ele salva um guri de ser atropelado por um motociclista. O idiota chega depois para o Zé e lhe diz, que ainda bem que ele aparecera, que fora Deus quem o enviara)

("Deus? E Por que não o diabo? Fanatismo idiota! Uma criança é a coisa mais importante do universo. Cuide dela, senão, nem teu Deus te livrará do inferno!!!")

Dividida em cenas, a ida ao inferno começa com o surgimento de uma figura fantástica negra e sem rosto, magra e alta de dar gosto, uma coisa que quem vislumbrar perto da cama não acorda mais pra contar. Pois é na cama que essa figura agarra o Zé e o leva, sem que ele possa fazer nada para impedir, puxado pelo pé, escadas abaixo. A mulher a seu lado na cama segue acorda, bicho!!! O cara se esgoela, mas não tem jeito: acaba levado ao cemitério, donde surgem mãos que buscam puxá-lo (cena essa maravilhosa e toda feita no quintal do "estúdio" do Mojica na época, que não passava de uma sinagoga desativada.

O cara é puxado — eu disse, puxado!!!! — para dentro da terra!!! Quem falar que é mal feito leva porrada!!!!!

Dali ele vai para o inferno, que é a surpresa da película — é todo em cores!!!! E cores berrantes, que lembram o trabalho dos filmes de Mario Bava (menos elaborado, no entanto). No DVD, se vocês se aventurarem a pegá-lo, saibam que essas imagens foram mexidas pelo pessoal da Cinemagia. As cores não são as mesmas — estão mais exageradas, estouradas, e até adulteradas. Sei disso porque já cansei de ver esse filme de trás pra frente, no cinema ou não. Até na cópia furreca da Continental, as cores são diferentes (ainda que lá a cena esteja cheia de cortes). Se quiserem ter uma idéia de como são as cores corretas, vejam no DVD o trailer do filme, que lá está como realmente é.

Essa seqüência é de imaginário bem católico, ainda que o inferno Mojicano seja gelado, com direito até a neve, torturas, gente presa na parede, com braços saindo pra fora da parede, ou então só as pernas, ou então só a cabeça, ou sei lá. O teto também é cacheado dessas imagens... O chão se abre no meio para derrubar o personagem em outro plano, há crateras que explodem, e por aí vai. Tudo feito com criatividade, a despeito dos parcos recursos (essa é a beleza da coisa).

Não deixem de ver quem que manda no Inferno!!! Cara — é muito bom!!!!!

Quando volta, Zé tem consciência de que ele próprio não é perfeito, uma vez que essas imagens, esse imaginário todo, essas culpas ainda existem nele, contaminam seu subconsciente. Um filho se torna ainda mais imperativo.

Não percam a cena dos jagunços que o Coronel arruma para acabar com o coveiro, e nem o que se sucede quando a cidade inteira o deixa sozinho a mercê daqueles assassinos contratados. A edição de som, numa cena de cabeçada, com mostra todo o gênio do diretor.

E como ele consegue dá cabo de três duma só vez, enquanto tranqüilamente fuma seu cachimbinho e ouve música (acreditem: vocês nunca mais ouvirão Tico-tico no Fubá da mesma forma).

Mas será que Zé será pai, ou não? Mais eu não posso contar, embora eu ache que falei até demais, por agora. Posso dizer que ainda tem muito a acontecer, e muita criatividade também, seja de fazer raios por meio de cruzar cabos de energia, ou pântanos por meio de buracos de três por dois metros no chão. Dá até pra usar canoa 

Gente, fico por aqui, concluindo que o final, infelizmente foi adulterado pela censura da época, que obrigou o Mojica a dublar o personagem e fazer dele um crente, no final — ou a fita não saía. O fim foi mudado segundo as exigências, de modo a dar uma "mensagem positiva".

Agora, com o advento do Encarnação do Demônio, Mojica teve a chance de consertar esse bigode que o obrigaram a pintar em sua Monalisa. E posso adiantar que ficou do caralho. Não deixem de ver, que vale a pena. É um cinema experimental, bárbaro, barato, subdesenvolvido, brasileiro, e totalmente autoral. Simplesmente imperdível.

E cá entre nós: não é todo diretor que pode ser comparado a Jodorowsky, por exemplo (nem a Welles, Hawks, Fuller...).

Não posso evitar a imperfeição de meus pais. As taras – o legado infame de um povo medíocre. Moral — costume de um povo. Apenas costume!!! Burgueses imbecis, tentando justificar a própria incapacidade. Tudo isto ainda vive em mim. Laura, Laura... preciso de um filho, Laura! Para que nele fique a marca do homem superior!

Por Helil Neves - Robobos.


Falecido Ultra Email • 17:00:39 • Cinema, Das Antigas, Post do LeitorPermalink 22 comentários
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