À meia-noite levarei tua alma Tweet

Inovador. Essa palavra resume bem o filme À meia-noite levarei tua alma, primeira incursão de José Mojica Marins no mundo de seu mais famoso personagem: o Zé do Caixão.
Alô, amigos; sei que a maioria de vocês teve seu primeiro contato com Zé do Caixão através do programa noventista Cine Trash, e acham que o personagem se resume àquela pantomima, e que o Mojica é apensas um sujeito muito estranho, engraçado e que fala errado. Bem, sinto desapontá-los; não é uma gracinha, essa definição? Mas está errada!!!!
Atualmente, José Mojica Marins é o nome mais importante vivo do cinema nacional. E não estou exagerando. Mojica era adorado por diretores do calibre de Rogério Sganzerla (diretor do clássico O bandido da luz vermelha); Luis Sérgio Person (São Paulo S/A), Gustavo Dahl (O bravo guerreiro), Roberto Santos (A hora e a vez de Augusto Matraga), Jairo Ferreira (Horror Palace Hotel), Carlos Reichenbach (Filme Demência) e de Glauber Rocha (que dispensa apresentações). Chamado de gênio pra cima por essa gente.
Primeiramente, por que que um filme como À meia-noite[...] é tão inovador assim? O mais óbvio está na cara: foi o primeiro filme de terror brasileiro. Por si só já é uma grande ousadia. Mas não pára por aí: Mojica conseguiu fazer um filme de terror no Brasil, mas não meramente um filme de terror feito no Brasil – é um filme de terror brasileiro!!! Brasileiríssimo, ainda por cima!!!!
Rubens Francisco Luchetti (o papa da Pulp, hehe), antigamente, costumava achar que era impossível criar um personagem de terror no Brasil. Isso até ver Zé do Caixão. O Mojica mostrou que não precisávamos imitar os filmes americanos, com seus vampiros e suas múmias... nada disso. Zé do Caixão se mostrou uma figura revolucionária e iconoclasta até a medula. Era um personagem como até então não se vira em parte alguma.
Como assim? Pra início de conversa, gente, vamos nos deter nos dois filmes que compunham até bem pouco tempo a saga de Zé do Caixão. Os demais filmes são diferentes, com uma abordagem diferente da personagem, encarando-o não como o agente funerário da saga, mas sim como o público enxergava aquela figura de preto e unhas enormes...
Bem, À meia-noite levarei tua alma nos apresenta ao Zé do Caixão. Mas quem afinal é o Zé? Será um sujeito engraçado que apresenta programas de terror na televisão? Cara, eu tou falando de um filme realizado nos anos 60. Em 1963!!!! Tem muito tempo que essa película foi rodada e fez o tremendo bafafá que fez...
Zé do Caixão é um personagem oposto aos personagens clássicos que o público na época estava acostumado. Nada de um ser sobrenatural como um vampiro, ou uma múmia, ou lobisomem. Zé é bem humano, demasiadamente humano.
Diferente também dos personagens cientistas loucos do pós-guerra, com suas manias de criar monstros geneticamente alterados... Repito: Zé é um homem comum, como você ou eu.
Ou quase: em meio ao Brasil rural da década de 60 (pois a industrialização ainda caminhava lentamente, não esqueçamos), Zé era o sujeito diferente, numa daquelas cidadezinhas de interior, e funcionava como um perfeito bicho-papão, ou melhor, como o sujeito mal de um faroeste.
Como assim? Só porque ele usa roupa preta e as unhas enormes? Não, amiguinhos... Zé do Caixão, naquele meio conservador, ousava ser o cara diferente — ele era absolutamente materialista e ateu!!!! Sim!!!! Ao contrário do que se possa pensar, o personagem não tem nenhuma parte com forças sobrenaturais, ele só crê em si mesmo, e se impõe naquela sociedade de ovelhas cristãs.
Ele não crê, nem em Deus nem no diabo. Como ele diz, não existe uma força justiceira invisível. Se os homens se resignam com suas vidinhas miseráveis, é por essa imbecilidade da fé na imortalidade do espírito. Se você não combate a vida, ela o dominará.
A fé de Zé do Caixão é diferente. Ao invés da continuidade do espírito, ele crê, sim, na continuidade do homem, mas através do seu sangue, na forma de um filho. Zé do Caixão quer um filho, e sua saga está toda baseada nessa busca, doa a quem doer.

À meia-noite[...] está carregado de situações em que Zé tem a oportunidade de escarnecer da fé em geral, seja cristã ou não. Famosa é a cena da procissão da sexta-feira Santa que passa bem em frente à casa de Zé. O que ele faz questão de fazer?: ele come, da janela, à vista de todos, uma perna de carneiro!!!! Isso num único e belíssimo plano, numa situação de quadro dentro do quadro – coisa de deixar Orson Welles orgulhoso.
Há outra cena em que Zé rouba de um despacho, na maior sem-serimônia.
Há que se lembrar, que Zé se sente sumamente superior aos fracos homens de fé, e por conta disso não se exime de fazer o que bem entender (isso inclui desde mutilações à assassinatos). Uma vez que sua esposa não pode lhe dar um filho, ele simplesmente se livra dela. Se a outra guria não tá querendo dar nenhuma atenção por conta do namorado, já era esse namorado (não importando que o dito cujo fosse amigo do Zé — o único amigo, saliente-se).
O filme vai se desenrolando, o personagem parece invencível, até o momento da praga que dá título ao filme. No momento em que as forças espirituais se manifestarem para castigar o funerário, aí o bicho pega, e pega bonito.
Esse é um filme obrigatório, não só para nós, brasileiros, mas para todo mundo. Mojica, na crista da onda sem o saber, sem se influenciar por lado nenhum, já dava os primeiros passos para uma filmografia do chamado gore. Ainda então o cinema fantástico era bem comportadinho nesse quesito, e Mojica, embora não tenha influenciado ninguém, (os estranja não tinham visto seu filme na época) tampouco foi influenciado. Criador, um cineasta criador, além de mestre.
Para deixar vocês mais interessados: esse filme também demonstra uma estrutura baseada nos quadrinhos de terror dos anos 50 (Mojica, antes de qualquer um de nós nascer, já era rato de banca — possui uma coleção invejável de quadrinhos raros). O filme começa com uma cigana que nos avisa dos perigos de seguir em frente ao assistir o filme. Que o melhor era irmos embora. Isso é tirado dos antigos mestres de cerimônia dos quadrinhos da EC Comics (muito antes dos Contos da Cripta, dos anos 90). Além disso, os cortes de plano, pouco usuais e que não se preocupam em se manter invisíveis (ao contrário – é para se fazerem notar), os closes tais quais acontecem nos quadrinhos, nos momentos de ação, o bom uso da chamada voz over (não confundir com voz of, que é somente uma voz fora do quadro), que funciona tal qual um recordatório com os pensamentos do Zé, e por aí vai - faz desse filme um filme nerd, e não só cult.

E por falar em voz off, que tremenda é a cena da morte de Lenita (a esposa de Zé), por causa de uma baita aranhona... Camaradinhas, aquilo é que é cinema, não é só soltar o bicho em cima da coitada da atriz, não. O jogo de som fora/ e imagem na tela é soberbo, e o cinismo e cara de pau do funerário são simplesmente brilhantes. "Foi um belo espetáculo; obrigado.").
Além disso, ainda possui lampejos de Shakespeare (e eu não estou de sacanagem!!). Zé do Caixão lembra muito Macbeth (a peça) em alguns momentos. Não só pelas, assim chamadas pelo personagem, alucinações, mas pelo seu gosto por discursos inflamados, verdadeiramente Shakesperianos (e que em nada lembram o arremedo das performances do Mojica para a televisão). Sério: nos filmes, a performance está na medida certa, muito bom de se ver, com certeza.
E a fina ironia do personagem? O cinismo? Caralho: não dá pra não se divertir com um filme desses...
É também um filme experimental. Se não basta para vocês ele estar experimentando um gênero novo no país, que tal ele se jogar na experimentação da criação de efeitos especiais? A aura que o fantasma de Antônio apresenta ("Fooooogoooooo!!!!!") foi conseguida não com uma imagem captada no negativo, mas colada à parte, mais tarde, por sobre o negativo. E era o que?, minha gente: purpurina, cuidadosamente colada quadro à quadro ao redor da imagem do ator. Absolutamente foda, essa iniciativa... ou ainda o close dos olhos, que se injetam de sangue (dois anos antes de Christopher Lee surgir com os olhos com aquelas lentes vermelhas), Zé do Caixão conseguia um tremendo efeito com o uso de uma fusão de seus olhos para uma foto tirada de ângulo semelhante e retocada para possuir os vasos injetados.
E nenhum texto sobre este filme estará completo sem mencionar as dificuldades que foi para realizá-lo. Mojica teve que literalmente vender a casa, os móveis, as roupas e o mais que pode, além de contar com a vaquinha dos seus alunos na época, que eram também seus atores. O filme tira leite de pedra, graças a habilidade dos técnicos, desde a fotografia até a direção de arte (e que direção de arte!!!) O filme é praticamente todo rodado em estúdio, e transformar um estúdio naquela floresta enorme que aparece o filme (considerando que o espaço era de 20 metros quadrados), é um feito e tanto.
Ainda falando dessa floresta, e dos demais cenários, há que se dizer que não há no filme nenhuma preocupação em fazer desta floresta, ou desse cemitério, ou daquele bar, um ambiente oriundo dum filme anglo-saxão ou mesmo americano. Como já foi dito aqui, o filme é brasileiríssimo, e nem mesmo a casa da bruxa/ cigana escapa disso (sendo cheia de quinquilharias de nosso imaginário mágico e folclórico. E é muito bem feito. Palmas para Giogio Atilli ( o fotógrafo) e José Vedovato (cenógrafo).
O único ponto fraco do personagem, parecia ser as crianças . Parecia: não vamos esquecer do punhal imaginário do Zé. Isso porque, para ele, elas são a personificação do instinto puro, em oposição aos adultos idiotizados, seja pela igreja, seja pela sociedade (moral: costume de um povo. Apenas costume!!!!).
Olha, por agora chega; não quero estragar nenhuma surpresa, caso vocês resolvam assistir ao primeiro filme desse Nietzsche tropicalista. Deixo-os agora com uma citação de um dos discursos mais interessantes do Zé, tirado do filme seguinte, o Esta noite encarnarei em teu cadáver, o qual falarei mais tarde:
"Não... não sou louco; nem tampouco perverso. Ao contrário. Sou a salvação tua e de toda a humanidade. Quem sabe, o único ser que luta sem exigir paga, pela sobrevivência de uma raça que infelizmente não despertou. Esperam a ajuda... de um Deus. Hahahahahah... Se assim fosse, meu caro amigo, eu estaria aí, e você, aqui. Então, está provado! Não existe uma força justiceira invisível. Mas algo tem que reger a Terra... Uma força perfeita. Ahhhh... A natureza... Não!!!! Está provado!!!! Até onde vão essas unhas se eu não cortá-las? Até prender meus movimentos... Sim, no entanto há uma força superior: a mente do homem perfeito, livre de sentimentos, guiado pelo instinto, e eu vou imortalizá-lo!!!"
Acho que é isso. No próximo falamos mais. Até.
Por Helil Neves - Robobos.



