Dicas de livros: Jesus Kid Tweet

Jesus Kid é uma excursão pela mente abençoadamente tresloucada do escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli.
Na escola, tivemos que ler romances onde o que acontece é literal, especialmente no Realismo – espero pelo menos que alguém se recorde de O cortiço, pela alta taxa de PPP (putaria por página) que apresenta. Com Jesus Kid, do escritor e quadrinista brasileiro Lourenço Mutarelli, é outra história. É um exemplo de como a boa nova literatura, não só a brasileira, está enveredando pelo caminho da fábula, da lenda, do mito. O que está no papel não é para ser tomado como "acontecimento", mas como "mensagem".
Portanto, seria difícil explicar o enredo de Jesus Kid sem fazê-lo parecer absurdo, pelo simples fato dele ser absurdo. Mas vamos tentar.
Eugênio ("eu gênio" -- morô?), um escritor de livros de faroeste, é contratado para ficar três meses num hotel escrevendo um roteiro de cinema. Este roteiro deve falar sobre a própria experiência de ficar três meses num hotel escrevendo. Com isso, Eugênio vai ganhar trinta mil reais, desde que não saia do hotel sob hipótese alguma. Ele aceita a proposta, e aí é que fica realmente estranha a coisa. O pistoleiro Jesus Kid, personagem principal dos seus faroestes, freqüentemente aparece para ele e até encarna no corpo dele. No hotel acontece todo tipo de bizarrice: convenções de pin-ups, repetidos sumiços de tampinhas de banheiras, pedidos de socorro no biscoito da sorte do restaurante japa... Eugênio apelida todo mundo que encontra pela frente: seus contratantes são "os Gargantas", o recepcionista é "Chet", a instrutora de ginástica da TV vira "Cadela em Pink". A galeria de tipos marcantes é infindável, mas os campeões são a Enfermeira Nurse + Boneco de Cera (o velho babão de quem ela cuida), e Geraldo Antunes, o diretor de teatro gay que dá a solução para a crise criativa do escritor, não sem antes cobrar um "pedágio"...
É um livro muito engraçado, mas não é leve. A mensagem que ele encerra certamente seria reprovada pela Disney. Rola putaria aqui e ali, mas não é esse o problema. É que a história de Mutarelli nos obriga a pensar em como a vida pode ser absurda às vezes, e por nossa culpa. O escritor que não pode sair do hotel por três meses pode simbolizar as cercas que nos colocamos; a dificuldade do artista em enxergar além dos detalhes cotidianos e ser original; o fato de que a criatividade não precisa ser limitada pelo espaço físico, a não ser que você deixe; e por aí vai, use sua criatividade... lembrando que, às vezes, uma bizarrice é apenas uma bizarrice.
A tempestade de referências que nos assola hoje em dia também é bem satirizada. Os Gargantas só querem saber de hype, recomendando Tarantino e Fante como inspiração para o escritor; Geraldo Antunes, o diretor de teatro, puxa a brasa para sua sardinha e menciona Eugène Ionesco, o Eugênio que inventou o Teatro do Absurdo...

Jesus Kid acaba sendo um livro sobre um cara que está fazendo um roteiro sobre o fazer de um roteiro. O livro é, acima de tudo, uma autobiografia que consegue a façanha de não ser chata. Afinal, "Escritor de westerns que passa para o cinema" = "Quadrinista que passa para a literatura" (como fez Mutarelli). Quer dizer, trocar uma profissão desvalorizada, que produz uma obra considerada "subgênero", por outra que dá prestígio e até grana... Deve ter sido doloroso passar essa experiência para o papel, porque, ao contrário de muitas egotrips emas que há por aí (cof cofClarahAverbuckcof cof), Mutarelli não tem pena de desancar seu alter ego. Eugênio sofre mesmo, sem emices: é fraudado, é chifrado, cobrado, surrado e, ao que parece, até comido. Mas também há redenção. Tão apoteótica e tresloucada quanto merecia ser.
Mas não é preciso ser hiperculto e enxergar tantas teorias conspiratórias para apreciar Jesus Kid. Garanto que até quem só lê gibi da Mônica vai curtir. A "superfície" da história é muito bem-escrita, alternando delírios, ação e deliciosos diálogos. Vale a pena.
Por Simone Campos
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