Melhores do Mundo

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Jun 5

Post do Leitor #3: A maldição do Morcego – Uma aventura ao longo de uma vida septuagenária

O texto do Leitor desta semana é do camarada Richard Matis, que faz um belo estudo sobre os 70 anos do Homem-Morcego! Clique aí e dê uma olhada!

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AS ORIGENS

Já se vão quase 70 anos desde a primeira aparição do Batman, ocorrida na Detective Comics de maio de 1939, e ainda estamos cercados pela sua influência. Provavelmente Bob Kane não tinha a menor idéia do que estava criando quando lançou a personagem para atender a encomenda de um editor, que queria um herói que fosse o contraponto do superman, mas que tivesse o mesmo carisma do homem de aço. Não tão badalado com Bob Kane, Bill Finger foi o co-criador do homem-morcego e seu primeiro roteirista. Ainda hoje corre a lenda de que a figura do Batman seria uma cópia de um filme mudo de 1926 chamado ‘The Bat’, já que as características da personagem estavam presentes no herói (vestido de preto, máscara em forma de morcego, planador, sinal luminoso e um “cinto de utilidades) com o diferencial que no filme o “Bat” era um ladrão. Bob Kane entretanto sempre disse que suas fontes de inspiração foram o Zorro e o Sombra.

Logo depois da criação do Batman, Bob Kane ganha um assistente, o talentoso Jerry Robinson, que ajudou a criar, e foi base de inspiração para o Robin, ajudante do Batman. Mas Jerry não parou por aí, foi dele, apesar dos créditos de co-autoria com Bob Kane, a criação do maior antagonista e segundo ele próprio, personagem mais interessante (até mesmo do que o Batman) do Universo de Gotham City: o Coringa. É também criação de Jerry personagens como a Mulher-Gato e Pingüim. Antes disso, Batman perseguia apenas bandidos comuns e gângsters da máfia, mas Jerry, já na faculdade, e sempre curioso sobre as fábulas populares, queria criar um antagonista mitológico de alto impacto, para que a balança não pendesse tão fortemente para o lado do Batman.

Apesar de seu surgimento, voltado para o lado obscuro da personalidade humana, a editora sentiu a necessidade de suavizar os contornos do herói, para atrair um público maior, como acontecia com a revista onde o Superman era o protagonista, sucesso de vendas na época. E por esta razão, com o passar do tempo, o caráter sombrio de Batman foi sendo atenuado, com alterações inclusive em seu uniforme em favor de um personagem menos pesado, desvinculando-o da idéia original.

A QUEDA

Apesar de ser um herói de grande apelo entre o público, no início da década 60, Homem-Morcego sofreu uma verdadeira ‘crise de identidade’, com a multiplicação de personagens que a DC implantava, através da compra de editoras menores e o primeiro conflito de continuidade entre os chamados personagens da Era de Ouro. Foi criado então pela editora o conceito de terras paralelas, para dar vazão aos delírios inconseqüentes dos roteiristas que já a partir daquela época começavam a misturar e perturbar a cronologia do herói. E é a partir desta idéia de se criarem diversos “universos paralelos” que o Batman original passou a ser visto como antiquado para os nascentes padrões dos executivos de plantão e assim concebeu-se o conceito de um Batman da terra paralela, já aposentado, casado com a ex-mulher-gato e pai de Caçadora. Mesmo com o mega-evento Crise nas Infinitas Terras, em 1985 que expurgou qualquer cronologia a respeito desta versão, o temor de uma cronologia sem nexo continua rondando a Editora.

Talvez o tiro de misericórdia na imagem do homem-morcego tenha sido a série de televisão que trazia Adam West no papel de Batman e Burt Ward no papel do menino-prodígio. A popularidade da série de TV de 1966 levou Adam West a ser reconhecido com uma das personalidades da década, a cultura ‘camp’ chegava a seu auge e forçou a própria DC Comics a tornar o quadrinho cada vez mais parecido com a série. Estava estabelecida a primeira onda da Batmania.

Mas os verdadeiros fãs do herói não gostaram nada daquela faceta cômica e muitas vezes abobalhada. A série foi acusada de passar uma falsa noção da dupla dinâmica, inclusive com a acusação de incitar desvios de condutas morais (principalmente o homossexualismo), tão temidos pelos censores norte-americanos.

Os produtores saíram em defesa da série, mas o estrago já havia sido feito e ela não duraria muito mais tempo. O surgimento de um desenho animado nos moldes da série em nada ajudou a desassociar a imagem do Batman do caricato.

Com sua imagem completamente arrasada, o homem morcego viveu uma fase de ostracismo, apenas superada em parte com uma revitalização do personagem nas mãos do roteirista Denny O’Neil, e desenhado por Neal Adams, resgatando elementos originais do herói e destacando o lado mais psicológico das tramas, com enfoque nas ações noturnas do herói.

O RETORNO

Mesmo assim, o personagem ainda parecia longe de uma recomposição completa em sua imagem de combatente sombrio do crime. Foi quando, nos anos 80, a DC Comics chamou Frank Miller para reformular completamente o personagem. Miller que já tinha tido grande sucesso com personagens como Demolidor e Ronin, tinha agora em suas mãos a responsabilidade de fazer o Batman reassumir a posição de destaque na Editora.

Naquela época, Miller estava em sua melhor fase e entendeu a necessidade de repensar todo o contexto da trama, dando a Batman a imagem da qual ele verdadeiramente necessitava. Fruto de um trauma de infância, Batman não poderia ser menos do que é no Cavaleiro das Trevas, um sujeito frio e embrutecido pelo trauma do assassinato de seus pais e com a identidade obcecada pela imagem do morcego.

A HQ ‘Cavaleiro das Trevas’ mostra uma Gotham City vinte anos em um futuro alternativo e caótico. Bruce Wayne, aposentado da luta contra crime, depois de dez anos da morte de Jason Todd, o segundo Robin (que tinha sido assassinado pelo seu grande inimigo, o Coringa), é impelido a retomar seu traje e traumas quando Harvey Dent retorna ao crime, mesmo depois de Wayne financiar sua recuperação e alta de um hospital psiquiátrico. Os métodos utilizados por este Batman fazem com que a sociedade debata publicamente se ele é um salvador ou uma ameaça.

Provavelmente, a fórmula para o sucesso da revista tenha sido justamente o aspecto de ambigüidade moral e o constante choque entre expoentes de ideologias distintas: Batman e Superman. Frank Miller, em entrevista concedida à Wizard ainda no auge da badalação em torno da HQ disse sobre o Batman que, ‘‘...ele é quase um terrorista...’’, “tem soldados que apóiam a sua causa (os filhos de Batman) e enfrenta prontamente o governo americano encarnado na figura do Super-Homem”.

O Cavaleiro das Trevas não só restabeleceu a posição central de Batman no Universo da Editora junto com Superman, que ele havia perdido desde o final da década de 60, mas também iniciou um nova onda de Batmania na segunda metade da década de 80, culminando com o filme ‘Batman’ de Tim Burton, que provocou reações mais diversas entre os fãs, mas que em geral aprovaram o estilo do diretor. Infelizmente as seqüências não agradaram aos fãs, em especial as dirigidas por Joel Shumacher. (abro um parênteses para uma nota pessoal: ‘Batman Eternamente’ e ‘Batman e Robin’ devem ser erradicados da existência, para o bem do próprio morcego).

Nos anos 90 foi a vez de estrear provavelmente a maior contribuição para o ressurgimento do personagem perante o grande público; a animação ‘Batman: The Animated Series’ de Bruce Timm, foi um dos pilares para outras que trilharam o mesmo sucesso, como por exemplo Batman Beyond, Liga da Justiça e Liga de Justiça Sem Limites. Com esse sucesso ficou claro que o personagem também precisava de um soerguimento na grande tela, depois de tantos maus-tratos na mão de Joel (mamilos) Schumacer e em 2005 estreava nos cinemas ‘Batman Begins’, de Chris Nolan, o filme teve o predicado de agradar tanto aos fãs do morcego quanto ao público em geral. Sinal que estão no caminho certo, espero que continuem nessa trilha.

O ESTIGMA

As origens do desvio de imagem do Cavaleiro das trevas é mais antiga do que o seriado. O personagem começou a ser estigmatizado com a publicação do livro ‘A Sedução do Inocente’, do psicólogo Frederic Wertham, um alemão naturalizado americano, louco para subir no conceito dos censores de plantão, que declarava abertamente que Batman e Robin tinham uma relação sexual perniciosa para os padrões da época (será que esses padrões mudaram tanto assim, ou estamos numa era de dissimulação hipócrita da filosofia do politicamente correto?). Wertham chegou a afirmar que: "Constantemente eles se salvam um ao outro... Às vezes, Batman acaba em uma cama, ferido, e mostra-se o jovem Robin sentado ao seu lado. Em casa, vivem uma vida idílica. São Bruce Wayne e Dick Grayson, vivem em aposentos suntuosos com lindas flores e grandes vasos. Batman é, às vezes, mostrado em um robe de chambre... é como um sonho de dois homossexuais vivendo juntos". Essas e outras declarações iniciaram uma verdadeira caça as bruxas nos quadrinhos e culminaram com a criação de um rigoroso código de censura para os quadrinhos nos Estados Unidos, o ‘Comics Code’.

Mas Batman não foi a única vítima do livro, quase todas as HQs da época sofreram ataques do autor do livro, da violência de uma quadrinização de Macbeth ao lesbianismo da ilha paraíso da Mulher Maravilha, das orelhas fálicas do Pernalonga às mulheres seminuas de Tarzan, passando por Sheena, Fantasma, clássicos de terror e quadrinhos policiais e até mesmo o Superman. Mas então por que o homem-morcego foi eternizado como ícone da homossexualidade?

Pelo simples fato de que esta imagem além de não ter sido descaracterizada à época foi cada vez mais sendo reforçada, seja através de sua ligação cada vez mais estreita com Robin nos quadrinhos, seja pelo uso indiscriminado de metáforas em sua série televisiva, o imaginário popular agregou e não mais separou a imagem de Batman e Robin da relação homossexual perfeita. Não mais adiantava fazer o Robin crescer e se separar do Batman, não mais adiantava estabelecer uma atmosfera sombria e por vezes claustrofóbica às novas estórias, nem mesmo fazer uma eleição para matar o novo pupilo do herói, que anos depois apareceu lépido e fagueiro nas revistas do encapuçado. Não adiantou nem mesmo a DC vir a público e afirmar categoricamente que o Batman é heterossexual.

Que me perdoem os fãs mais desesperados e preconceituosos de Batman, mas para o grande público ele é sim um símbolo gay, que atravessa gerações, sendo ele homo ou hétero, isso já não mais importa. Que me perdoem também os detratores do morcego, mas o Batman é, acima de tudo, um ícone do que as HQs PODEM oferecer de melhor em termos de estórias e densidade para um personagem. Espero que a DC também pense da mesma forma.


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