Nós Vimos: Speed Racer Tweet

Como não havia ninguém disposto a ver a adaptação bullettimeana de um desenho animado das antigas, sobrou pra mim a tarefa de assistir à aventura do piloto afeminado. E não é que o filme é bem divertido?
Logo no início temos uma amostra incrível de algo difícil de transpor para filme: um garotinho sonhando acordado, imaginando-se como um grande piloto de corridas de automóvel. A cena lembra os bons momentos de desenhos como O Fantástico Mundo de Bobby e Muppet Babies. Logo depois, o Speedinho passeia pela "realidade", um mundo hipercolorido e exagerado. Está dado o recado: o mundo de Speed Racer é um desenho animado em live-action e tudo o que vem a seguir é decorrência disso.

Se vocês querem ver um "filme de esporte" ou um filme sobre automobilismo, é melhor não irem ao cinema. A trama aqui foge do conceito do atleta talentoso/esforçado superando obstáculos e alcançando a vitória. Speed Racer é uma aventura de ação, assim como o desenho animado homônimo. As manobras apresentadas, o desempenho dos carros e as próprias leis da física não têm qualquer relação direta com o automobilismo real. A idéia aqui é mostrar as proezas impossíveis que não por acaso saíram das mentes dos mesmos birutas que bolaram Matrix.
Entretanto, os Wachowskis sabem que, mesmo numa obra centrada nos efeitos especiais, o público precisa ter uma história para acompanhar e se envolver. O roteiro é simples e eficaz, com direito a algumas reviravoltas pra preencher os 135 minutos de duração do filme. A noção de "herói familiar" é até melhor desenvolvida que na série animada, com cada um dos membros da "Família Racer" tendo o seu momento de destaque, ainda mais com bons atores capazes de soar verossímeis nesse mundo de technicolor.

Emile Hirsch apresenta um Speed muito interessante, ao mesmo tempo arrogante e ingênuo. O bonachão John Goodman encarnou tão bem o personagem Pops quanto seu colega não menos bonachão Depardieu fez com Obelix no filme dos bravos gauleses. A mãe de Speed ganhou mais importância do que em toda a série animada na pele de Susan Sarandon, mas continuou sem nome. E Christina Ricci faz uma Trixie-quase-Trinity, com suas mil e uma habilidades. A exceção é o personagem Sparky (Kick Gurry), que mal aparece durante a trama e se torna "amigo de fé, irmão camarada" do Speedy pouco antes do clímax do filme. Provavelmente outras cenas de desenvolvimento do personagem foram cortadas, deixando essa cena solta no filme.

Matthew Fox como o Corredor X
Para aqueles que tinham medo de que a adaptação virasse uma cópia modernosa dos campeonatos pra americano ver, tipo Nascar, podem ficar tranqüilos. Uma parte considerável da trama se desenvolve num daqueles ralis malucos no meio do deserto, cheio de trapaças e armadilhas tecnológicas, uma homenagem direta ao desenho clássico, com o Speed usando a camisa azul com o lenço vermelho no pescoço e correndo com o "velho" Mach 5.

A história principal não é nada ruim, mostrando o processo de amadurecimento de um jovem de procura um propósito na vida, enquanto vê aquilo que ele mais amava sendo destruído por um mundo malvado e cruel. Só por não ser mais um filme com o protagonista sofrendo chantagem pra entregar a corrida/o jogo/a luta, já me senti menos ofendido. Mas quem rouba a cena mesmo é a dupla Gorducho (o moleque Paulie Litt) e Zequinha ("interpretado" pela dupla de chimpanzés Willy e Kenzie). Além de servir de alívio cômico como na série animada, a dupla resgata ao longo do filme a premissa inicial da imaginação infantil ganhando vida (a luta estilo Dragon Ball Z é sensacional!), o que se reforça no momento em que Speed vê o Gorducho como um reflexo de si mesmo anos mais novo.

O visual do mundo criado pelos Wachowski e as fantásticas cenas de ação hiperexageradas valem a ida ao cinema, já que muito desse impacto visual se perde na passagem para a tela pequena. Só tomem cuidado se tiverem tendência a crises epilépticas, pois em alguns momentos a luz parece piscar alguns zilhões de vezes por segundo.
Nota: 9
PS: Não pisquem durante o filme, ou vocês correm o risco de não ver a fração de segundo em que aparece o carro da Petrobras. Sairia mais em conta se tivessem anunciado aqui no MdM...



