Melhores do Mundo

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Abr 5

Nerd Show: Laerte

A genialidade visceral, fenomenal, real, imortal, sensacional e com mais "al" do que teria um cachorro (heh) está nestas pairagens! Laerte, o homem e o mito, respondeu nossas perguntas por e-mail (se eu fosse ele também não me encontraria pessoalmente) para um nerd show supimpa sobre o seu mais novo trabalho Laertevisão!

Ah sim: a foto acima e todas deste post são de Gabi Lima e foram fornecidas pela editora Conrad.

[Mais:]

Ultra: Em Laertevisão, você fala dos quadrinhos que lia quando criança. Pode dizer mais sobre quais eram seus quadrinhos preferidos na infância?

Laerte: Assim por alto: Bidu (do Maurício), Pererê (do Ziraldo), Tarzan, vários de faroeste, pato Donald, Mickey, além de um monte de gibi e livro que meus primos mais velhos tinham guardado de outras eras.

Bugman: uma das coisas mais legais do livro é a coleção de fotos e até do código de honra que você fez com a sua irmã. Como surgiu a idéia de acrescentar todos essas relíquias? Não teve como achar a sua cápsula do tempo com a mensagem sobre JFK?

L: O Rogério de Campos teve essa idéia - de publicar as histórias que eu tava fazendo na Folha, mas com uma perspectiva mais ampla do que a mera coletânea. Minhas fotos e desenhos antigos estavam guardados, em boa parte, pelo cuidado da minha mãe. Quanto a Kennedy, infelizmente, teremos que confiar na mídia tradicional.

Change: Fala Laerte! Aqui é o Change, seu fã número 1! De vez em quando eu produzo algumas tirinhas pro Melhoresdomundo.net e já tive alguns outros blogs com outras tiras. Por isso, uma coisa que eu sempre quis perguntar é: como DIABOS vocês conseguem criatividade para uma tirinha nova todo santo dia? Você não surta ou enlouquece pensando na tirinha de amanhã?

L: Surtar não chego a surtar. Às vezes fico cansado, às vezes meio seco, mas, como dizia o anúncio do creme de barbear bozzano: aperta aqui, aperta ali…pronto! - mais uma barba.

Bugman: a gente está em uma época da discussão da TV digital, convergência de mídias e tudo mais, enfim, um momento em que se discute o futuro da TV. E você lança um livro sobre a TV com o título "coisas que eu não esqueci". Houve algum pensamento nessa frase e nesse momento para lançar esse livro que olha para o passado (e presente, quando cita a Xena) da telinha?

L: A frase foi um cuidado que preciso ter com o conceito de memórias; a minha memória é muito ruim, no sentido de esquecer e no sentido de distorcer. Eu deveria dizer “coisas que não esqueci nem distorci”, mas algumas estão distorcidas.

Ultra: você acredita em mais quadrinhos nacionais nas bancas mensalmente?

L: Acredito no sentido religioso da palavra? Tipo ter fé? Não, não acredito. Acho que é possível que um dia voltemos às bancas, mas é um tanto remoto por enquanto.

Bugman: seu filho, Rafael, trabalhou na organização das tiras. E esse é um livro que fala também do Laerte criança, jovem e adulto. Como foi esse encontro de gerações e de épocas para você? Houve alguma escolha dele que lhe surpreendeu?

L: Toda a edição foi surpreendente - foi feita por ele e pelo grupo em que ele atua, a Base-V. Gosto muito de trabalhar com o Rafael, que é um desenhista máximo; já fizemos uma animação juntos e espero que ainda trabalhemos em outras coisas.

Change: Todos nós sabemos que os artistas passam por fases. Em alguns casos isso fica bem claro se analisarmos uma seqüência de tiras de qualquer autor (dá até para ver "fases" em artistas mais "comerciais", como o Jim Davis e seu Garfield). Recentemente sua fase da Folha de São Paulo foi bem surreal (eu pessoalmente achei legal bagaraio, principalmente pela total liberdade para interpretação das tiras). Há algum motivo especial para essa sua fase?

L: No Brasil temos - ao contrário de outros países, especialmente os Estados Unidos - uma grande liberdade na condução de uma tira diária, coisa muito positiva, mesmo sendo um fenômeno ligado ao caos e à imaturidade do nosso mercado de quadrinhos.

Na Folha, por exemplo, nós (Angeli, Glauco, Adão, Caco Galhardo, Fernando Gonsales, Karmo e Allan Sieber) podemos empregar uma quantidade e diversidade de personagens, situações e procedimentos gráficos impensável no contexto americano.

Seja dito que nem todo jornal brasileiro permite esse forescimento em suas páginas. A Zero Hora e a Tribuna de Vitória, por exemplo, cortaram a minha tira em suas páginas por causa dessa mudança que adotei de uns anos pra cá.

Respondendo à sua pergunta, foi uma mudança provocada pelo sentimento de término de um ciclo e consequënte necessidade de renovação.

Bugman: Ainda sobre fases, em um trabalho como Laertevisão isso fica menos explícito. Você acha que isso pode alterar a forma como aquelas tiras podem ser interpretadas, em um contexto diferente?

L: Não sei direito. O procedimento em relação às tiras é diferente porque são tiras, um formato que me sugeriu a possibilidade de “pequenos contos” diários. Já o espaço do Laertevisão me faz pensar em outro tipo de vôo - hoje estou desenvolvendo uma ficção em torno de um seriado fictício na tevê pré-videotape dos anos 50 - semelhante ao Falcão Negro.

Mallandrox: Já teve algum personagem criado por outra pessoa, seja nacional ou estrangeiro, que você pensou "putz! Eu adoraria fazer umas histórias desse personagem"?

L: Não me baseio muito em personagens - trabalho mal com eles, em outras palavras. Sou mais um criador de situações. Quase todo personagem me inspira inveja.

Bugman: você perdeu um filho há três anos e isso parece ter afetado seu trabalho que manteve a veia cômica, mas parece ter ganho mais reflexão, sensibilidade e profundidade. Como você vê esse contexto? Acredita que não há mais como voltar a fazer tiras como antes de 2005?

L: Em 2004 eu já tinha começado a trabalhar de um jeito diferente e estava amadurecendo algum tipo de mudança. O que a morte do Diogo mudou é infinitamente mais complexo do que o meu humor.


Bugman Email • 09:00:03 • Nerd Show, HQ nacional, já!Permalink 33 comentários
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