Melhores do Mundo

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Mar 31

Dicas de livros: Os atalhos de Samanta

Como O jogo do exterminador tem grau de pagação de peitinho zero e conheço meu público, dou mais uma palha de literatura, essa não estritamente nerd.

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Os atalhos de Samanta – Márcio Paschoal

Os atalhos de Samanta conta a história de uma cantora-eclética-de-MPB de voz mediana que usa o charme, o corpo e a astúcia para conseguir seu lugar ao sol. O livro é quase todo a história da produção de um CD, o primeiro de Samanta (ou Sam Gregório), e a capa reflete isso: a frente é o CD de frente, a quarta capa é a parte de trás do CD com as músicas. Ela entra em contato com executivos de gravadora, promoters, compositores, sambistas, advogados, guitarristas, mantém casos paralelos com alguns deles, pega uma doença venérea, lida com a mãe doente da cabeça, e batalha seu CD música a música até conseguir colocá-lo na praça.

Já deve ter dado para perceber que Os atalhos de Samanta tem muita putaria. Mas sem apelar demais. É um daqueles livros em que o narrador é mais inteligente que os personagens; cita Sartre e Maquiavel, sem nunca parecer empolado. De quebra você ainda fica sabendo dos podres da indústria fonográfica nacional – claro que é uma obra de ficção e qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência, mas episódios do livro como aquela criação de factóide sobre o Chico Buarque são absolutamente plausíveis. E trechos como esse, logo depois que Samanta afirma ser uma cantora-eclética-de-MPB que não gosta de mulher:

— Pode fingir.
— Fingir?
— É isso mesmo. Provocar suspense. As pessoas podem e devem imaginar o que bem quiserem. Ou mal quiserem, tanto faz...
— Como assim?
— Não precisa transar com ninguém se não quiser. Mas deixa rolar umas cenas: beijinho na boca, um abraço mais demorado, umas deixas que ama fulana, ama sicrana... Quanto mais dúbio, melhor. Todas agem assim, e nem metade é homossexual.

Como dá para ver, os diálogos são outro ponto forte do livro. Outro incentivo para ler é a história em si, cheia de ganchos e personagens interessantes com suas próprias motivações. Não espere, porém, nenhuma mensagem edificante ou lição de moral, e nem que Os atalhos de Samanta vá mudar a sua vida. É um bom livro e só.

PS: É bom apontar a semelhança de Os atalhos de Samanta com um clássico de outro autor brasileiro que anda meio esquecido - deve ser porque sacaneava todo mundo: Marques Rebelo. O nome do livro é A estrela sobe, e é basicamente a mesma coisa, só que na era do rádio (década de 30). Leniza, uma moça pobre que mora com a mãe, sonha em ser cantora do rádio. Para isso, ela se deixa seduzir por um vendedor de rádios, engravida dele, faz um aborto, quase empacota, mas acaba melhorando; finalmente consegue uma vaga no rádio, depois descobre que tem que dormir com algum diretor para aumentar o minguado salário de artista... Além de ser melhor que Os atalhos de Samanta, também tem um certo grau de devassidão (para a época). Leniza não é uma mocinha romântica. Está mais para arrivista estabanada.

A estrela sobe existe em qualquer biblioteca pública, não precisa comprar não. Mas se poeira te faz espirrar, compre aqui.

Por Simone Campos

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Melhores do Mundo Email • 18:30:09 • Livros, A gente lemosPermalink 15 comentários
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