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Mar 19

Dicas de livros: O jogo do exterminador

Muito tempo se passou desde a última indicação. Primeiro porque não quero ficar recomendando qualquer coisa. Tem que valer a pena. Depois porque ler um livro demora, e não adianta ficar recomendando um monte quando vocês só vão ler um ou dois.

[Mais:]

O jogo do exterminador – Orson Scott Card

Andrew Wiggins, vulgo "Ender" ("Exterminador"), tem seis anos. Ele é o terceiro filho de uma família que já tinha dois, o que, numa sociedade sob estrito controle populacional, resulta em várias perseguições a ele. O governo só deixou que ele fosse concebido porque queria outro gênio. A raça humana precisa treinar crianças superdotadas para ganhar uma guerra espacial contra a raça insetóide dos abelhudos, que atacou primeiro. Seus irmãos mais velhos, Peter e Valentine, eram superdotados, mas não tinham personalidade adequada para a guerra; um era psicopata, a outra coração-mole.

O governo acerta na mosca: Ender acaba sendo o meio-termo e é ele quem vai para a academia espacial, para indignação do ardiloso Peter.

Mesmo separados, Ender e seus irmãos se influenciam mutuamente. Só para não ficarem sem ter o que fazer na Terra, Peter e Valentine montam um esquema de dominação mundial pela internet. É como A arte da guerra (Sun Tzu) e O príncipe (Maquiavel) transpostos para uma história de ficção científica.

Enquanto isso, como Ender se destaca muito e sempre, alguns colegas ficam putinhos; não é incomum que se forme um bonde e tente sabotá-lo ou cercá-lo num canto pra meter a porrada. E é claro que os professores não vão protegê-lo, porque guerra é guerra e ele tem que apanhar com Avaiana de Pau pra aprender:

"Vai vir direto na minha cabeça", pensou Ender. "Vai tentar acima de tudo machucar o meu cérebro. E, se a luta for longa, vai vencer. Pode me controlar com a força dele. Se eu quiser sair andando daqui, vou ter que vencer rápido, e de uma vez por todas." (pg. 255)

Mas Ender também tem amigos:

— Parem!
Por um momento Ender pensou que era um professor que viera para apartar a briga, mas era só Dink Meeker. Os amigos de Bonzo o pegaram na porta e o seguraram.
— Pare, Bonzo! — gritou Dink. — Não machuque ele!
— Por que não? — perguntou Bonzo, sorrindo pela primeira vez.
"Ah", pensou Ender, "ele adora que reconheçam que é ele quem está no controle, que tem poder".
— Porque ele é o melhor, só por isso! Quem mais vai lutar contra os abelhudos?! É só isso que importa, seu idiota: os abelhudos!
Bonzo parou de sorrir. Era justamente a coisa que ele mais detestava sobre Ender. Que Ender era realmente importante para outras pessoas, e que, no final das contas, Bonzo não era. "Você acabou de me matar com essas palavras, Dirk. Bonzo não quer ouvir falar que eu posso salvar o mundo." (pgs. 255-256)

Orson Scott Card é bom de diálogo, de descrição e de caracterização psicológica. É um cara multitarefa. O jogo do exterminador vai virar filme com roteiro do próprio autor. Ele escreveu diálogos para os jogos The Secret of the Monkey Island e The Dig – joguei os dois e aprovo. Orson Scott Card também roteirizou a origem do Homem de Ferro Ultimate. Fui conferir e não deu outra, lá estavam as mesmíssimas obsessões do autor: crianças superdotadas, umas boas tendo que agir impiedosamente, e outras psicopatas e obcecadas pelo poder; escolas secretas do governo para alunos especiais; professores sacanas que colocam os alunos mais promissores em situações fodidas para eles ficarem espertos (*cof cofTropadeElitecof cof*). Não tem problema: dentro dessa fixação, Card é capaz de criar um universo diferente do outro. Ler o Homem de Ferro Ultimate antes é um bom jeito de descobrir se a literatura de Card é pra você ou não.

Tem coisas que só dá para fazer nos livros, assim como há coisas que só dá para fazer nos quadrinhos – perguntem ao Neil Gaiman. O jogo do exterminador se aprofunda mais e melhor nos pensamentos e conflitos do fedelho superdotado da vez, enquanto que os quadrinhos escritos por Card puxam mais para a ação. Como os pensamentos de Ender são bem diferentes dos de uma criança qualquer, acho que o livro é bem mais recompensador. Não que seja só psicologia. Os jogos que dão para Ender desenvolver sua inteligência e psiquê vão de simulações aparentemente pacíficas, gênero Second Life, até Salas de Perigo em zero-G.

O jogo do exterminador teve várias seqüências (que continuam surgindo): Orador dos mortos, em que Ender vai parar numa colônia fundada por brasileiros, Lusitânia (Card viveu no Brasil como missionário mórmon); Xenocida; e Os filhos da mente. Há também um livro de contos revisitando alguns momentos da série e uma outra série paralela. A Devir diz que planeja publicar a primeira série e o tal livro de contos. Aliás, Orador dos mortos já saiu.

Por Simone Campos

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Orador dos mortos


Melhores do Mundo Email • 17:10:21 • Livros, A gente lemosPermalink 36 comentários
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