Quadrinhos na Web ainda não buscam navegabilidade Tweet

A popularização da Internet democratizou não apenas o acesso, como também a produção da informação. Aspirantes a escritores podem criar hoje em dia seus blogs, o que só comprova que a produção literária foi a mais beneficiada do mundo online. Outras mídias, como o vídeo, precisaram de algum tempo na adaptação - ou quem sabe "acomodação" - para marcarem presença nos navegadores de cada internauta. Nesse contexto, as histórias em quadrinhos ainda estão lentamente descobrindo como sair da transposição para a adaptação. No primeiro caso, os usuários lêem algo produzido para o meio impresso em uma tela de computador, enquanto no segundo, o artista cria pensando no internauta.
O desenhista Scott McCloud aborda em seu livro "Desvendando os Quadrinhos" que uma definição possível para os quadrinhos é "arte seqüencial visual", lembrando que o espaço está para a nona arte como o tempo está para o cinema. De acordo com o autor, o que qualifica os quadrinhos não é simplesmente a sua característica pictórica, mas principalmente o que ocorre na sarjeta (espaço em branco que existe entre cada quadro, onde a imaginação do leitor dialoga com o talento de cada artista).
Uma das principais dificuldades dos autores é em estabelecer HQs para a Internet. Em muitos casos, artistas criam seqüências que não são pensadas para uma tela de computador. A genial Nine Planets Without Intelligent Life, de Kit Roebuck, é um exemplo ímpar de criatividade somada a pouca usabilidade. Para ler a tira filosófica, o caminho é usar o teclado ou o mouse em uma longa e insistente peregrinação. Em contrapartida, o G1 criou uma forma mais simples de se conhecer a história da Operação Navalha, via nona arte.
No caso do trabalho de Roebuck, o formato segue o de uma tira de jornal. A comunicação entre os quadros depende da velocidade com que o leitor consegue passar cada um. Já o G1, optou por um slideshow, que pode desafiar a convenção do que são quadrinhos, onde vários quadros em uma mesma página parece ser a ordem. Porém, se o importante é o diálogo entre as imagens, importa como elas estão dispostas?

Com a honrosa exceção das tiras de jornais, todo gibi sempre dependeu do folhear de uma página (muitos chegaram a usar quadros de uma página inteira, muitas vezes para causar mais apreensão no leitor do que viria a seguir). Hoje, essa afirmação se aplica tanto no meio real quanto virtual. O clique que leva a uma nova seqüência é tão "quadrinesco" quanto uma mão que vira a página. Se as HQs souberam sair da limitação da tira do jornal, não há motivo algum para os quadrinhos online (QO) ficarem restritos a um formato que exige a tradicional disposição horizontal ou mesmo a vertical, que, conseqüentemente, demandam mais tempo para a página ser carregada e mais paciência do usuário, o grande foco em qualquer projeto virtual antenado com o século 21.
O QO A Garçonniere, de Patrícia Claro, por exemplo, é descrito pelo jornal O Estado de S. Paulo com o título "o primeiro gibi brasileiro lançado no Second Life". Entretanto, a história é um PDF feito com imagens de avatares do ambiente de relacionamentos . Não há, em nenhum momento, uma tentativa de fazer um QO voltado para a melhor navegabilidade dos usuários do site, e sim uma forma de usar a estética do game como atrativo para a história, disponível para qualquer pessoa, seja ou não usuário do site. Não há a possibilidade de adaptar a experiência da nona arte para o ambiente e sim uma transposição com avatares.
O blog Second Life complementa a informação, lembrando a polêmica entre reformulação e releituras quando o assunto é estética:
"Uma vertente muito usada na arte é a reformulação, releitura, reciclagem de obras anteriores para dar uma nova roupagem, algo mais atualizado e que faça sentido (ou não) para a sociedade para a qual ela será apresentada. É... Uns até filosofam desse jeito, outros chamam de cópia na cara-dura, preguiça de fazer algo novo. Julgamentos de valores à parte, o fato é que o Second Life tem se mostrado um meio propagador de muitos eventos artísticos e sido alvo dos mesmos. Chegou às bancas virtuais do SL o quadrinho brasileiro ‘A Garçonniére’, realizado somente com personagens e cenários do metaverso".
O site Nona Arte, maior repositório de quadrinhos na Internet, segue a mesma linha, disponibilizando PDFs em vez de páginas virtuais para muitas histórias (embora seja possível ler vários trabalhos página por página ou carregando uma única página para a história inteira). Sinal de que os artistas ainda vêem a Internet como um meio de divulgação e não como o fim de um processo.
Mesmo fora do aspecto da navegabilidade, existem outras formas de quadrinhos e Internet interagirem. Scott Adams, ao descrever seu processo criativo, afirma que usa um documento de Word onde guarda algumas sugestões de leitores. "Para ver o que me inspira", afirma.
Assim como ocorreu com outras mídias, a Internet traz outras possibilidades para os quadrinhos, hoje com problemas comerciais quando não se refere a mangás e demais exceções. Por isso mesmo, a idéia de transpor HQs para a tela de um computador é tão funcional quanto esperar que adolescentes leiam Dom Quixote em seus notebooks. O formato pede idéias específicas para cada mídia. Até aqui, vemos poucos exemplos de QOs que usam isso arduamente.
Bugman curte muito as QOs



