Eternos #4 Tweet

O que acontece quando seres tão poderosos que já foram considerados deuses precisam enfrentar um poder que eles mesmos consideram um deus? Essa é a grande questão respondida na conclusão da mini-série que reintroduz os Eternos no Universo Marvel pelas mãos da telentosa dupla Neil Gaiman e John Romita Jr.
Como vocês já estão mais carecas que o Bugman de saber, tem spoiler.
Se na edição anterior Mark Curry/Makkari ficou a maior parte do tempo "desativado" para dar espaço aos outros personagens, aqui ele volta a ser o protagonista. A história é dele. Gaiman e Romitinha transformaram conceitualmente e visualmente um velocista genérico num dos personagens mais interessantes do Universo Marvel na atualidade.
Quando o esforço dos Eternos (com uma pequena "ajuda" dos Vingadores) para impedir a fúria do Celestial Sonhador fracassa, sobra pra Makkari a tarefa de salvar a humanidade. E a conversa entre criador e criatura (literalmente) que ocorre na mente do eterno é sensacional! Principalmente considerando o histórico dos Celestiais como "entidades caladonas" da Marvel.
O tema, entretanto, não é novidade para Neil Gaiman. Em Sandman, o autor inglês já trabalhou com o conceito de "deuses dos deuses" ao criar os Perpétuos. A diferença aqui é o foco nos Eternos, esses seres tão acima da humanidade (Zuras chega a comparar a Guerra Civil, o grande acontecimento do ano na Marvel, a uma discussão entre crianças) e tão abaixo dessa divindade cósmica.

Quando a série ainda estava saindo nos Eua, a Marvel dizia que ela poderia dar início a uma série mensal ou a outra mini-série. Lendo a revista, é fácil entender por quê. Se Gaiman cumpre plenamente a missão de trazer a mitologia dos Eternos, Deviantes e Celestiais para o Universo Marvel, ele também cria um final aberto e deixa vários elementos que podem ser utilizados no futuro por outros criadores (se a Marvel for esperta, os Eternos podem ser um trunfo em Secret Invasion).
Entre as pontas soltas, temos um Celestial dourado gigante em São Francisco, o fato do Homem de Ferro saber da existência dos Eternos, um garoto humano (e um cão!) vivendo em Olympia, uma Sersi sem compromisso nem com os Eternos nem com a comunidade heróica, Druig no comando de um país, uma nova e poderosa ameaça conhecida como "A Horda" ("os gafanhotos do universo", segundo o Celestial), a busca pelos Eternos "adormecidos" e o papel de profeta de três povos de Makkari.
A mudança do personagem fica clara na maneira como ele resolve o confronto com os Deviantes. Em contraposição ao amigo Ikaris, o retrato do super-herói típico que enxerga tudo em termos de preto e branco e resolve seus problemas com o uso da força, Makkari se torna um conciliador, um messias, um filósofo, um tipo de herói que segue um ideal, lembrando em alguns momentos o Surfista Prateado de Stan Lee e o Homem-Animal de Grant Morrison.
Entre os diversos ótimos momentos de Eternos #4, merece destaque o diálogo final entre Zuras e o Duende, com um desfecho inesperado. Ótima também foi a idéia dos editores da Panini de colocar uma galeria com todas as capas do Romitinha no final da revista.
Mas pra não dizer que não há pontos negativos, há um erro de continuidade no flashback da conversa de Zuras com o Homem de Ferro, onde o regente dos Eternos aparece com sua roupa tradicional em vez da roupa de mendigo que usava antes. Na mesma cena, um erro de tradução fez Zuras dizer "somos seus deuses" em vez de "fomos/éramos seus deuses" (no sentido de que os humanos antigos os consideravam deuses) e se contradizer logo depois, parecendo um maluco que não sabe o que diz. Esses deslizes, porém, não interferem na qualidade da história e da edição, uma das mais caprichadas da Panini nos últimos tempos.
Nota: 9,5
(Eternals #6-7)
Mini-série mensal em quatro edições, formato americano, papel LWC, distribuição nacional, 76 páginas, R$ 6,90.



