DC Especial #16 Tweet

Para terminar a publicação mais que atrasada da série Gotham City Contra o Crime, a Panini lançou um encadernado com mais de 200 páginas com as últimas histórias do título. E não estavam exagerando quando colocaram na capa a chamada "Espetacular conclusão da série!".
Confiram a resenha abaixo, mas cuidado com os spoilers (que nem são tão spoilerentos, já que a essa altura o destino dos personagens já é sabido até por aquela sua tia meio surda que acha que RPG é um troço pra melhorar a postura).
Demorou, mas chegou. Pra vocês terem idéia do quanto a série ficou defasada em relação ao resto do Universo DC, a última edição contida neste volume saiu lá fora na época da Crise Infinita.
Tudo bem que a série não tem uma ligação direta com os acontecimentos do DCverso, mas, graças a essa diferença, mesmo quem não lê os sites gringos já sabe o destino de personagens-chave da série, como Renee Montoya e Crispus Allen.
Entretanto, mesmo com o atraso, a Panini merece os parabéns por ter publicado (com os tropeços típicos das publicações da editora) a série na íntegra em encadernados. E vamos às histórias que fazem parte deste último volume, que aqui ganhou o apropriado título de "Caso Encerrado".

Natureza
Quem acompanha GCCC está acostumado a ver o cotidiano de policiais honestos em uma cidade conhecida por sua polícia corrupta. O que vemos nessa história é a inversão disso, a corrupção vista pelo ponto de vista de um típico policial corrupto de Gotham.
Ao contrário do que costuma acontecer no mundo real, na história de Greg Rucka (roteiro) e Steve Lieber (arte) o policial desonesto recebe o seu castigo. A catarse para o leitor é imediata. Pena que mais pra frente na mesma revista temos algo parecido (só que ainda pior), porém com desfecho diferente.

Robin Morto
Escrito pela dupla Ed Brubaker e Greg Rucka e com arte de Kano e Stefano Gaudiano, este arco em quatro partes reúne as melhores qualidades da série. Um crime com alguma ligação inusitada com o DCverso que conhecemos de outros gibis, a ação pulando de uma equipe de policiais para outra, sempre com ótimo desenvolvimento de personagens, momentos engraçados e momentos trágicos, pistas que vão se encaixando como um grande quebra-cabeça, a idéia de circularidade e inevitabilidade da trama, tá tudo aí.
A história mostra bem como a normalidade dos policiais de Gotham é afetada pelo absurdo de um mundo de super-heróis fantasiados. O que acontece quando alguém que pode ser o Robin é encontrado morto? O Batman é um suspeito? Se descobrirem a identidade da vítima, não vão descobrir a do Batman também? Como chamar os Novos Titãs (amigos conhecidos da vítima) pra depor?
É interessante ver como esse universo de super-heróis é tão fantástico para as pessoas comuns que vivem nele. Até os buchinhas dos Titãs conseguem maravilhar os policiais ao aparecerem na central. O Batman, então, é uma verdadeira lenda urbana. Como já disse aqui anteriormente, GCCC tem a melhor versão do Homem-Morcego nos quadrinhos atuais.

Domingo Sangrento
Aqui a dupla Rucka e Lieber apresenta uma história diferente das que costumam aparecer em GCCC, que mostra a participação dos detetives Allen e Montoya em um dos prelúdios para a Crise Infinita (aquele que teve o Espectro, não sei o nome).
Mais do que em outros momentos da série, em que a única presença "sobre-humana" é a de Batman e seus vilões, aqui vemos como os policiais, seres humanos comuns, ficam indefesos diante de ameaças tão grandiosas que podem significar o fim do mundo.
É emblemática a parte em que o Capitão Marvel se mostra preocupado com a segurança de sua família, levando Crispus Allen a fazer a reflexão lógica "se ele tá preocupado com a sobrevivência da família dele, que esperança a minha tem?". É a imagem perfeita do homem que se vê impotente diante das circunstâncias.
Outro fator interessante nesta história é o quanto certos elementos ganham um significado maior ao sabermos o futuro destino de Crispus Allen. A fé perdida, a visão do Espectro no céu e alguns pequenos detalhes dos diálogos e recordatórios já fazem referência ao futuro papel de Allen do Universo DC.

Corrigan II
Escrito por Rucka e com arte de Kano e Gaudiano, o arco de três partes que fecha a revista e a série mostra o acerto de contas entre o corrupto perito da polícia Jim Corrigan e os detetives Allen e Montoya.
Merece destaque o personagem-título do arco. O corrupto incorrigível Corrigan é tão detestável e tão verossímil que é quase impossível não soltar um "filho da puta!" em voz alta ao ler seus diálogos, prova da excelente construção de personagem executada por Rucka.
Uma observação: apesar de homônimo do antigo hospedeiro do Espectro e da semelhança de profissão, o Corrigan de GCCC não parece ter nenhuma ligação direta com o "agente divino da vingança".
Quem estiver esperando um momento de catarse como o da história "Natureza" pode ir tirando o cavalinho da chuva. A DC tinha planos para Allen e Montoya que só poderiam ser concretizados se os personagens saíssem da polícia, cada um do seu jeito. Então nesse arco eles precisam se dar mal e é isso o que acontece.
Não que a história seja ruim. É, talvez, uma das melhores do título. A idéia de circularidade aparece com destaque aqui, retomando acontecimentos que vêm ocorrendo desde os primeiros números da série. Apesar de dar atenção a diversos policiais (e até à estagiária Stacy) ao longo de suas 40 edições, Gotham Central era a história de Allen e Montoya e isso fica bem claro neste último arco. Por isso, mesmo sabendo que esses personagens ainda terão importância no Universo DC, não há como não ficar triste com o belo e dramático final da série.
Gotham Central foi uma criação conjunta dos roteiristas Ed Brubaker e Greg Rucka e do desenhista Michael Lark. O desenhista saiu do título depois de algum tempo ao assinar um contrato de exclusividade com a Marvel. Com a saída de Brubaker pelo mesmo motivo após o arco "Robin Morto", Rucka decidiu encerrar o título, pois sentia que era um trabalho dos três criadores e não via motivos para fazê-lo sozinho, o que talvez explique o espírito pessimista da conclusão.
DC Especial #16 vem com 9 histórias, sumário (que omitiu uma das histórias do arco "Robin Morto" – aliás, por que a Panini sempre tem que dar uma cagada nos sumários? Fazer um sumário não é uma tarefa tão difícil assim. Você procura o começo da história, anota o número da página e escreve lá na frente. Qualquer leitor do MdM conseguiria fazer isso direito. Mas estou divagando...), apresentação dos personagens (meio defasada, mas tá valendo), resumo da edição anterior e galeria de capas.
Sugiro que o leitor que ainda não conhece a série não comece por aqui. Gotham City Contra o Crime não é para todos os gostos e não recomendo que você gaste mais de 20 reais em algo de que pode não gostar. O ideal seria procurar o primeiro arco (publicado em DC Especial #5) em gibiterias, pois ele é mais barato e tem o início da série. Para quem já leu algo da série e gostou, pode investir seu dinheiro sem medo.
Nota: 10
(Gotham Central #32-40)
Formato americano, papel Pisa Brite, capa couché, 212 páginas, R$ 21,90 (apesar do site da Panini indicar R$ 23,90), distribuição setorizada, desaconselhável para menores de 18 anos.



