A Mão Que Cria - Entrevista com Octavio Aragão Tweet

Nosso grande colunista The Dog encontrou o escritor Octavio Aragão e fez uma matéria bacana sobre seu livro A Mão Que Cria. Cliquem aí e dêem uma olhada.
Doutorando e mestre em artes visuais, graduado em design gráfico pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Octavio Aragão exerce hoje a função de professor assistente no departamento de design da Universidade Federal do Espírito Santo.
Foi editor de arte das revistas Internet.br, Internet Business e Web Guide, da Ediouro, sub-editor de arte do jornal O Dia e coordenador de arte do jornal O Globo.
Estreou como escritor em 1998, com a publicação do conto "Eu matei Paolo Rossi", na antologia Outras Copas, Outros Mundos, da editora Ano Luz, mas ficou um pouco mais conhecido como o criador e editor do Projeto Intempol, que reúne desde 2000 vários criadores em torno de um mesmo Universo Ficcional, onde cada conto contribui para construir um panorama diversificado da literatura fantástica contemporânea produzida no Brasil.
Sobre o livro: Num mundo povoado por alguns dos mais célebres personagens da literatura fantástica, essa história leva o leitor ao cerne de uma luta secular entre duas famílias e dois ideais. Frutos da engenhosidade humana, o Ariano e Lours McKenzie vivem os últimos lances de um duelo iniciado por paixão e ódio no século XIX. O conflito, porém, acontece numa Europa modificada pelos sonhos tecnológicos implementados durante o mandato de Júlio Verne como presidente da França. Com isso, submarinos inspirados na nau do Capitão Nemo e armas maravilhosas desenvolvidas para combater as tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial dividiam espaço com outros prodígios da tecnologia. Mas, uma luta maior e mais importante para o mundo acontece nas profundezas dos mares.
A Mão Que Cria é uma obra de autoria de Octavio Aragão, uma ficção alternativa lançada pela Editora Mercuryo.
No fim do ano passado eu tive o prazer de conhecer o Octa, que já era um "amigo da Internet" há um ano, quando me entrevistou para o seu site Intempol.
Confiram abaixo a entrevista que realizei com ele em dezembro de 2006 e somente agora estou postando... Sim, ocorreram atrasos, mas que agora compensam.
DOG: Pra começar: como surgiu o projeto de A Mão que Cria?
OCTAVIO ARAGÃO: Começou como um projeto de mini-série para o site de fanfics Hyperfan. Rolava uma discussão a respeito da insalubridade de determinados personagens, de como seria impossível criar uma boa história para, por exemplo, o Aquaman. Aí eu comecei a pensar a respeito... o que fazia esse personagem especificamente ser "difícil"?
Quase ao mesmo tempo li os livros de Philip José Farmer, Tarzan Alive e Doc Savage: His Apocalyptic Life, travei contato com Eric Henriet, o especialista em Uchronia (ficções que lidam com alterações do tempo e da história) francês, criador do termo "ficção alternativa". Tudo isso ficou rodando na minha cabeça, até que, por um acaso, o livro Anno Dracula, de Kim Newman, caiu na minha mão e – logo em seguida, a série The League of Extraordinary Gentleman começou a ser publicada nos EUA. Aí, danou-se. Tudo isso criou um turbilhão na minha cabeça e acabou virando um mix.
DOG: Como é o seu "estilo orgânico" de escrever?
OA: Não sei bem o que é "estilo orgânico", mas falando em termos de carpintaria de texto, geralmente penso o trabalho como uma composição cheia de allegros e pianíssimos. Vou alternando cenas de alto impacto - cheias de descrições "físicas" – com momentos reflexivos, tomando cuidado para plantar ganchos mais ou menos em espaços de vinte páginas.
E, claro, muita pesquisa.
DOG: Qual é o personagem predileto de seu livro?
OA: Ah, não sei bem. Todos têm seus momentos. Simpatizo com todos eles, de Waldemar a Harris, de Cora a Léotard. Mas acho que tem um sujeito que vem angariando um fã-clube na internet: Kronn. No início fiquei meio confuso com isso, depois compreendi. É que brasileiro adora caras que vão lá e decidem uma parada sozinhos, sem ficar arengando, sujeitos do tipo Romário ou Rivelino. Kronn, de todos os personagens do livro, parece o menos perturbado, o que tem menos dúvidas a respeito do que fazer e de como resolver um problema. Ele simplesmente vai lá e resolve a parada. Ou tenta.
Foi muito legal ler na internet leitores exclamando "KRONN MANDA!", principalmente tão pouco tempo depois do lançamento.
DOG: Qual é a melhor passagem de AMQC, na sua opinião?
OA: Ah, tenho de concordar com os leitores... O relato da Primeira Expedição a Tunguska é minha parte favorita. Depois, ali colado, gosto da cena de abertura em Notre Dame.
DOG: A Mão que Cria está repleto de referências das mais variadas mídias (literatura, quadrinhos, filmes etc). Como foi a pesquisa?
OA: Longa. Durou uns dois anos e entrou por dentro da confecção da história. Mas foi divertido. Teve um momento em que as coisas pareciam estar em sincronia e pulavam em cima de mim. Para você ter uma idéia, li Vinte Mil Léguas Submarinas em francês mesmo, pra sacar o "tom" do livro, que é bastante sombrio e, apesar de não parecer, muitos detalhes de composição de personagens e detalhes técnicos vieram de livros de Verne, como Viagem à Lua e A Volta ao Mundo em 80 Dias.
Mas a pesquisa que mais gostei de fazer foi referente a armamentos e submarinos. Quando descobri que o submarino Jason existia mesmo, foi uma epifania. E a concepção do Celacanto foi divertida também. Misturar conceitos de arquitetura de LeCorbusier com o castelo do Rei Ludovico da Bavária foi muito engraçado.
DOG: Já está planejando alguma continuação?
OA: Bom, a editora quer A Mão Que Pune para o ano que vem, mas não sei se vou conseguir, não... tem meu doutorado no meio do caminho.
DOG: Você tem outros projetos literários, não relacionados com AMQC, que você planeja para o futuro?
OA: Claro! Um romance de hard SF cujo título provisório é O Piscar. Mas esse vai ser dose para leão, porque envolve conceitos de física quântica e, bem, digamos que meu forte nunca foi o setor de engenharia da Enterprise...
Tem meu segundo romance, que já está quase no fim, Reis de Todos os Mundos Possíveis, mas que teve de dar uma parada por causa de A Mão que Cria e, claro, do doutorado e do concurso para a Universidade Federal do Espírito Santo, no qual eu passei. Reis é uma história da série Intempol.

DOG: O que acha do retorno da ficção e fantasia às livrarias brasileiras (sendo você um pouco responsável por isso, com AMQC)?
OA: Quanta responsabilidade nas minhas costas, Douglas! Eu não sou responsável, não. Isso já estava pintando e, hoje, me parece que são favas contadas. Veja aí a revista Scarium, que já tem uns bons anos de estrada, sempre com sua pequena e fiel legião de assinantes. E até já está surgindo uma espécie de imprensa especializada, com jornalistas do peso do Antônio Luiz da Costa, da revista CartaCapital, que tem cabedal e conhecimento de causa para falar a respeito da nossa produção.
Na minha opinião, o mercado e o respeito ao autor nacional irão se sedimentar nos próximos anos. O pior já passou.
DOG: Quais são seus livros de ficção prediletos?
OA: Especificamente de FC? Ah, rapaz... meu livro-base foi O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury. Mas os óbvios e indispensáveis Admirável Mundo Novo e 1984 foram romances que li na adolescência, graças a meu pai.
DOG: Quais são os seus autores prediletos?
OA: Meus autores formadores foram Monteiro Lobato, Edgar Allan Poe, Bradbury e Stephen King. Depois teve o Kafka.
Hoje o leque está muito mais aberto e inclui Thomas Pynchon, Dan Simmons, Guimarães Rosa, José Saramago, Ítalo Calvino, Borges, Cortázar, China Miéville... muita gente diferente.
DOG: Qual é o seu livro de cabeceira?
OA: Ah, isso eu não tenho, não. Quer dizer, tenho, mas eles sempre variam. Hoje, quem está na cabeceira é o Ilium, do Dan Simmons, que é um baita prosador e sabe mesclar com rara eficiência influências díspares como Shakespeare, Homero e Proust com física, astronomia e teoria da relatividade com conhecimento de causa.
DOG: Em que pé está o Projeto Intempol?
OA: Depois do fiasco do contrato com a editora Comic Store, que tinha planos de publicar uma nova antologia de contos inéditos - que está pronta, por sinal, com material de gente como Giulia Moon e Jorge Candeias, de Portugal - logo após o sucesso de crítica que foi o álbum The Long Yesterday, ainda lançamos a HQ Belvedere Blues na revista Wizard, que catapultou o Projeto a um público novo. Foi um passo arriscado, mas bastante proveitoso tanto para a dupla Osmarco Valladão e Manoel Magalhães, quanto para mim, como criador da Intempol.
Mas espere... novidades aparecerão no ano que vem.
DOG: Sobre o mercado literário para novos autores de FC e Fantasia, qual a sua opinião?
OA: Bom, acho que a internet, ambiente onde esses autores perambulam, é a proverbial faca de dois "legumes": ela pode servir como playground, mas falha no que diz respeito ao crescimento técnico do aspirante a escritor.
O mercado é pequeno e precisamos de mais criadores que saibam o que estão fazendo, com controle da caixa de ferramentas, que tenham consistência, para que não acabemos transformando-o num nicho, numa "panela". Acho que a maioria ainda tem de dar um pulo de transição, deixar de pensar como um fã que quer reprisar o texto de seu ídolo, seja Tolkien, Rowlands, Lovecraft ou Clarke, e partir para encarar o que faz com maior objetividade, com personalidade própria e, principalmente, com garra. Tem que botar sangue no que faz, cara, e essa hemoglobina tem de transparecer para o leitor. O objetivo, para mim, é escrever uma prosa que grude o leitor na cadeira, que tire o fôlego do sujeito, que o apaixone. Se eu conseguir isso, ficarei feliz. Mas, claro, trata-se de minha opinião. Nunca ouvi falar que James Joyce ou Thomas Mann tivessem esses objetivos.
Outra coisa que percebo é que o pessoal por aqui não está antenado com o que se faz lá fora. Como resultado, temos um bando de gente reinventando a roda, escrevendo coisas que já deixaram de ser novidade quando o John Campbell era editor nos EUA. Falando sério: ser fã de Asimov e Heinlein hoje é o mesmo que achar que a pintura parou no impressionismo.
Autores como os já citados China Miéville e Dan Simmons, além de outros como Neal Stephenson, David Zindell, Cory Doctorow e Robert Charles Wilson estão aí cheios de gás, botando para quebrar, com conceitos novos e idéias impressionantes. Ah, não tem publicado em português? Sinto muito, gente. No mundo contemporâneo, ser monoglota é suicídio cultural.
DOG: Que dicas você daria para novos autores que pretendem ingressar no mercado livreiro:
OA: Leiam de tudo. Até bula de remédio. As melhores idéias vêm de onde a gente menos espera. Burilem o texto, revisem sempre – coisa que eu mesmo faço mal, sou um cara que tem de revisar até o infinito e além. Não sejam auto-indulgentes. Na hora de analisar o texto, sejam cruéis com vocês mesmos. Não tenham pena de massacrar seus personagens. Quanto mais sofrerem, mais fortes ficarão. Construam os cenários com detalhes, mesmo que eles não apareçam numa primeira leitura. Pesquise muito sobre tudo.
Saiba tudo sobre tudo.
É impossível, eu sei. E daí? Isso vai te impedir de tentar?
DOG: Agora a dúvida do século: Quem é Osmarco Valadão?
OA: Um grande amigo de mais de vinte anos, desde os tempos de UFRJ. Trata-se de um grande criador e, segundo as más línguas, escreve melhor que eu, fato pelo qual eu jamais o perdoarei.
DOG: Você topa outra entrevista pentelha como essa no futuro?
OA: Errr... você vai ficar triste se eu disser que sim?
The DOG! leu o livro em dois dias e até agora imagina cenas cinematográficas da obra.
By The Dog



