Tropa de Elite Tweet

Fui escalado para cobrir a exibição do polêmico filme de José Padilha no auditório do jornal O Globo (é possível ler minha matéria aqui. O site exige cadastro). O debate mediado pelo jornalista Paulo Otávio e com o diretor, o coronel da Polícia Militar Ubiratan Ângelo, os sociólogos Michel Misse e Luiz Eduardo Soares complementou a história.
O filme conta a história do Capitão Nascimento (Wagner Moura), um oficial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) em busca de um substituto para que possa sair do batalhão. Os oficiais Neto e André Mathias aparecem como sua possibilidade de redenção. Mas será que eles estão preparados?
Tropa de Elite é um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos. Roteiro, atuações e direção bem acima dos filmes da O2 Filmes que exploravam o outro lado do conflito. Desta vez, é o lado dos policias que é exposto. "Ou você se corrompe ou você se omite ou você entra pra guerra", explica o capitão Nascimento. "Os dois personagens desses filmes têm Nascimento no nome", explicou Padilha durante o debate, se referindo ao documentário Ônibus 174.

Tanto o documentário quanto esta ficção geraram críticas políticas. O primeiro legitimaria o seqüestrador Sandro do Nascimento enquanto que este legitimaria a tortura. Infelizmente, existe uma confusão entre a intenção do filme e a intenção do personagem, conceitos que funcionam da mesma forma tanto em experiências documentais quanto ficcionais.
A intenção de Nascimento é sobreviver. E para sobreviver ele precisa impor o terror, ainda que seja um pai de família. Essa ambigüidade é bem representada pela brilhante atuação de Wagner Moura, que exprime bem não o medo ou a humanidade, mas a hesitação do personagem. Já a intenção do filme é mostrar quais são as regras do jogo e como um lado atua no tabuleiro, os policiais.
Durante o debate muito se falou da escala de valores que vê como reserva técnica e moral um batalhão que tortura, mas não se corrompe. Seria a corrupção menos pior do que a tortura? Depende de quem vê o filme. O morador da favela que é "barbarizado" por policiais mesmo sendo honesto certamente acha que a corrupção é um problema menor, mas os moradores da classe média podem achar que "bandido bom é bandido morto".

O roteiro de Bráulio Mantovani impressiona, mas é a fantástica direção de Padilha em uma montagem absolutamente espetacular que torna o filme tão bom. Poucas vezes vi duas horas de filme tão bem editadas e em um ritmo que funcione de forma tão espetacular.
A jornada dos dois policias não tem a pretensão de retratar a realidade – e é triste quer alguém ache que qualquer filme tenha essa intenção – ou mesmo de assumir o lado. Estas são as regras do jogo. Para mudar o tabuleiro não basta mudar os jogadores, precisamos mudar as regras. Com quase dois meses de debate que incluiu pirataria, legalização das drogas, classe média etc., Tropa de Elite não vai mudar o mundo e nem a violência brasileira. Mas pode ser o primeiro passo.
Nota: 10
Bugman achou Tropa de Elite do caralho.



