Perdeu DC ou perdemos (todos) nós? Tweet

Valerie D’Orazio, que já trabalhou como assistente de edição na DC Comics, escreveu um post em seu blog criticando não apenas a editora, mas também suas últimas sagas. O texto repercutiu em diversos sites por descrever os motivos para a decadência comercial da DC Comics.
De acordo com o Universo HQ, o mercado editorial nos EUA passou a discutir os problemas da DC Comics após a publicação do post. "A DC não é a Marvel", é o primeiro argumento defendido pelo texto no blog Occasional Superheroine. Valerie só teve a idéia do texto após ler uma entrevista de Dan Didio ao Newsarama sobre a série Countdown.
Ela afirma trabalhar com quadrinhos desde adolescente e chegou a trabalhar em títulos como JLA e Crise de Identidade. Para ela, a humanização e defeitos de personagens da Marvel não são simplesmente jogados, mas trabalhados em anos de caracterização.
— Por sua vez, as sérias falhas de personalidade impostas a alguns personagens da DC na gestão de (Dan) Didio (editor da DC Comics) - como os sociopatas assassinos Maxwell Lord e Superboy; a Supergirl nada boazinha; o estuprador Dr. Luz; a antiética e cruel Dra. Leslie Thompkins e a Liga da Justiça amoral - foram sobrepostas, adicionadas artificialmente, desnecessárias, critica Valerie, que lembra ainda que há 20 anos o objetivo da editora não era se tornar mais semelhante à Marvel e sim ser mais singular, o que gerou Watchmen e o selo Vertigo, entre outros sucessos.

A saída de Axel Alonso, que deu lugar a Didio, é citada no texto. Valerie lembra que enquanto Alonso buscou dar uma linha mais adulta para vários títulos da Marvel, o editor tentou tornar a DC mais teen... Com sagas que tornassem a editora mais próxima da Marvel, porém recheadas de inúmeros títulos interligados. A Casa das Idéias também faz mega-sagas, mas com histórias fechadas que se completam.
Didio é o principal alvo das críticas de Valerie. Os poucos elogios que Valerie faz à DC não são referenciados ao editor, mesmo apesar do sucesso de 52, que é publicada no Brasil atualmente. Situações como a morte da menina-Robin (Stephanie Brown) e a mudança da Supergirl são até mesmo usadas para citar um revés na situação das mulheres nos quadrinhos. O lançamento do selo Arena é comparado ao Marvel Zombies. A comparação é correta: são os dois selos mais pops sem nenhuma intenção de trazer qualidade e sim de aumentar as vendas. Valerie nem citou situações com semelhanças mais óbvias como o selo All Star lançado depois do sucesso do universo Ultimate, da Marvel.
— Sim, matar os Novos Deuses de Kirby em uma imensa saga irá inicialmente aumentar suas vendas. Mas então, você terá pisado e queimado sua história, critica a assistente, que afirma que a DC voltou no tempo e está em 1992, apesar do inegável sucesso dos dois primeiros anos de Didio. "De qualquer jeito, eu sinto a mudança no horizonte", afirma, após descartar Axel Alonso e Mark Waid como possíveis substitutos de Didio.
Apesar de criticar uma empresa na qual já trabalhou e ter uma certa dose de má vontade com o editor (que inegavelmente tirou a DC de um certo marasmo), as críticas de Valerie fazem muito sentido. Há tempos, a DC parece querer ser para a Marvel o que a SBT é para a Rede Globo: uma versão mais genérica e de baixa qualidade, satisfeita com o segundo lugar (na verdade, nem em segundo a DC anda ficando). A "humanização" de diversos personagens seria saudável até certo ponto, mas as circunstâncias parecem apontar para uma chatice só.
Alan Moore chegou a comentar certa vez que detestava o que Watchmen fez com os quadrinhos. Sua história criou um marco e foi encarada como um xeque-mate nos quadrinhos, que passaram a tratar o realismo como uma sofisticação-chave para o sucesso de qualquer personagem. A DC não soube se impor, a Marvel criou seu nicho e, hoje em dia, existe gente que diz que o Super-Homem não é um bom personagem porque é poderoso demais.
Curiosamente, Moore fez de seus trabalhos posteriores histórias que poderiam apontar o caminho que a DC Comics poderia ter assumido, como a ótima Tom Strong e a excepcional Promethea (publicada pela Pixel Media e, indubitavelmente, o melhor trabalho do escritor inglês). São idéias que se referenciam à melhor fase dos quadrinhos e que se distanciam dessa sofisticação realista e repetitiva que consome as HQs.
O marasmo em que a DC se encontra (muito semelhante àquele que estava após aleijar o Batman, enlouquecer Hal Jordan e matar o Super-Homem) não é bom nem para os marvetes. Digam o que quiserem, é menos concorrência e menos história boa na banca.
Quem perde somos todos nós.
Bugman perdeu



