Melhores do Mundo

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Jul 25

Harry Potter and The Deathly Hallows

Minha cicatriz está doendo. Não, peraí: é minha cabeça mesmo. A Bloomsbury deu um "Reducio" na letra do Harry Potter novo ou é porque dessa vez comprei a edição infantil, que vem com a fonte menor que a dos adultos-de-vista-cansada?

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Vou começar sem spoilers. Até a metade (página 298) do livro você se sente enrolado. É como entrar num livro não-editado do Tom Wolfe. É quase em tempo real, e não é muito interessante, já que são acontecimentos de telenovela, como pessoas casando.

Desta vez Harry Potter, Hermione Granger e Ronald Weasley não estão acorrentados à escola (pois é, largaram no meio, que foi? Cortaram a bolsa-magia? Não, você vai ver). Em vez de aproveitar isso para mostrar mais da interação entre trouxas e bruxos, os três adolescentes têm que ficar escondidos sem contato com o mundo exterior, cheios das angústias emo que já conhecemos muito bem dos outros livros, até a página 298. Francamente, isso é tema pro Sartre (tem uma peça dele chamada Entre quatro paredes, o título já diz tudo). Esse não é um livro para se meter a existencialista, tanto é assim que do meio pro final a Rowling não faz isso... e isso é que salva o livro!

Depois da página 298 é só ação. Muitas baixas. O melhor é que não dá para ter a menor idéia do momento em que as coisas já esperadas vão acontecer — e só depois que acontecem, você concorda que tinha que ser naquela hora. Tem um momento missão-impossível, outro senhor-dos-anéis, outro maquiavélico (de Maquiavel mesmo). O final é bem satisfatório, o epílogo achei meloso.

Agora tem SPOOOOILER ***AROOOGA*** SPOILER! Fiquem tranqüilos que não vou contar o final, nem estragar as maiores surpresas, nem contar quem morre, que afinal uma semana depois do lançamento do livro AINDA É SPOILER!

A primeira parte é lerda porque a Rowling estava guardando certas revelações pro Natal, querendo dar tempo de um certo bebê nascer e encaixar a batalha final com o final do ano letivo em Hogwarts. Só que isso explica, mas não justifica. Você fica pensando: com tanto MacGuffin para procurar — os Horcrux, as tais Relíquias Mortais e as tralhas que o Dumbledore deixou pros três maguinhos — como é que a história não anda?

Nessa primeira parte, o Lupin mostra um lado que não conhecíamos, o elfo dos Lestrange mostra um lado que não conhecíamos e o Ronald mostra seu lado bucha, que até o livro acabar vai ser muito bem trabalhado. O Harry Potter é que continua na mesma, sentindo dorzinha na cicatriz e fugindo da Ginny. Até ele resolver arriscar o pescoço, o leitor morre de sono.

Como eu já disse, depois da metade o livro fica bom. Tem momentos impagáveis, como o Neville Longbottom sendo macho e a matriarca Weasley rodando a baiana em batalha - e mais não falo, senão estraga. Você vai ver que o velho Dumbledore era mais astuto do que se sabia, e que previa o futuro muito melhor com suas deduções detetivescas do que a picareta Sibila Trelawney com seu "dom".

Lá pro final fica tudo muito dark e o Potter parte sozinho para a quebradeira final com o Voldemort. A luta é arrepiante. Mal dá pra esperar para ver o Ralph Fiennes incorporar a escrotidão da cena.

Não é o melhor da série, mas tem uma grande qualidade: faz os pirralhos aprenderem a esperar pela gratificação. O leitor passa pela parte lenta pensando que depois vai melhorar e é recompensado pela sua paciência. Podia ser melhor, mas também podia ser pior: você esperar melhorar e não melhorar.

Se você estiver insatisfeito e quiser um quase-spoiler, aqui eu tinha previsto duas opções de final pra esse livro. Uma delas estava certa.

Simone Campos é escritora, autora dos romances No Shopping e A Feia Noite.


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