Melhores do Mundo

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Fev 14

Da janela do quarto dos fundos #4

BLACKSAD - Nação Ártica

Sabe quando uma história em quadrinhos, caracterizada por juntar diversas linguagens artísticas em um só meio, consegue ser irregular em sua concepção, com texto excelente e arte nem tanto? Já percebeu que em geral é mais fácil perdoar um lance mal desenhado (claro que sem chegar ao nível do Rob Liefeld e do Jim Lee, não exageremos, por favor) do que um texto mal escrito?

É exatamente nesse meandro que se perde a Graphic Novel Blacksad, dos espanhóis Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido. A qualidade dos desenhos -- do traço à arte-final, sem esquecer a noção de movimento, o tratamento das cores, as anatomias perfeitas (lembre-se, o cara fez uma junção de animais com seres humanos, e isso, na mão de alguém menos habilidoso, poderia muito bem resvalar para o ridículo) -- do cara é supimpa, o que só piora tudo, pois cria uma expectativa que o texto não sustenta, pelo menos não no número que li (aqui na minha cidade, a de setembro/outubro tinha acabado de chegar... em dezembro, a de novembro/dezembro, falamos depois, pois ainda não li) para fazer esta resenha. Vamos à história.

Usando o recurso de fábula, o hermano dá voz e sentimentos humanos a uma fauna bastante diversificada. E esta exagera tanto em mimetizar a existência humana que arruma um jeito esquisitíssimo de ser racista. A saber, bichos de toda espécie se unem em torno de um ideal racista (e especificamente humano) baseado na cor dos pêlos, penas, plumagem etc da bicharada branca, defensora de uma tal Nação Ártica, que tem por símbolo um floco de neve, usado em faixas afixadas nos braços direitos, por sobre o uniforme. Além disso, há uma subtrama em que o detetive gato preto investiga o seqüestro de uma filhote de pelagem também preta.

Para muito além do clichê mais do que óbvio da analogia com o nazismo, a boa tentativa advém exatamente do fato de os bichos serem de tudo quanto é espécie: eqüinos, caprinos, aves, ursos, roedores, gatos, cachorros. Mas isso se torna também o ponto fraco da história, pois se resume à redução simplista e bem humana do contraste entre o branco/puro, limpo com o negro/degradado, sujo. Se isso fosse melhor explorado – por exemplo, os tigres começarem a achar que os caprinos todos tinham a obrigação de ser escravos, por serem mais fracos, ou os ursos trancafiarem todas as gatas em colônias sexuais (como o Japão fez com a Coréia no início do século XX) etc etc -- o plot poderia render ótimos momentos e discussões pesadas sobre eugenia, limpeza étnica, valores morais, clonagem e o diabo a quatro, porém tudo se resume à cor dos seres, o que mata a fabulação e reduz as idéias a um grau por demais comum. Além disso, o texto se perde em tensões que não evoluem, em boas idéias que não se realizam, há uma tentativa de aumento gradativo na tensão que não chega a lugar nenhum, o ritmo é modorrento, os diálogos são bastante fracos.

A sacanagem gigantesca é que a arte é primorosa, rapaz! Preste atenção às seqüências de combate, com tanto movimento, lembra os melhores momentos das HQs clássicas do Demolidor e do Homem Aranha na época do formatinho -- década de 1980 --, quando o cabra tinha que ser bom mesmo de braço pra fazer ficar verossímeis os socos e pontapés certeiros de ambos.

O detetive gato preto é hábil com os punhos, ágil e durão na medida certa, só que à certa altura – de novo, por culpa do texto – vem aquela sensação de “então tá, então”.
O que resta agora é esperar que a Panini não interrompa a circulação da publicação, creditada como bimestral, pois entre erros e acertos, eu pago numa boa os R$ 13,90 só pra ter aqueles desenhos.

Rodivaldo Ribeiro é radialista, jornalista e escritor.


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