Melhores do Mundo

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Dez 8

Filhos da Esperança


O título parece coisa de novela mexicana, mas não se enganem. Filhos da Esperança (Children of Men, no original) é ficção científica de primeira qualidade.

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O filme começa com a notícia da morte do bebê Diego, o ser humano mais novo do planeta. Segundo o noticiário, o bebê foi morto por um fã (!) que teve um pedido de autógrafo recusado (!!) e que teria sido empurrado por Diego (!!!). "E como é que pode ser verdade uma porra dessa, hein, Bátima?" Na verdade, o tal "Bebê Diego" é Diego Ricardo, de 18 anos, uma celebridade planetária por ter sido o último ser humano a nascer. É 16 de novembro de 2027 e há quase 19 anos toda a humanidade está estéril.

O surto de esterilidade global foi tão repentino quanto misterioso, deixando os cientistas sem uma explicação para o fenômeno ou uma forma de combatê-lo. A falta de uma explicação convincente, aliada ao desespero pela ausência de novas gerações, leva o mundo ao caos, com revolta civil, guerra nuclear e terrorismo desenfreado. As grandes potências econômicas e militares caem, mas a Inglaterra, por sua localização insular e seu governo totalitário, consegue se manter firme como nação (lembrando um pouco a Inglaterra de V de Vingança), mesmo enfrentando vários problemas internos. O maior deles é a questão dos refugiados (ou "fúgis") de outros países atraídos pela relativa estabilidade inglesa, gerando uma política anti-imigração que resulta numa clara divisão de classes e cria gigantescos guetos para os fúgis, que em contrapartida organizam grupos terroristas para derrubar o governo.

É em Londres desse mundo que vive Theo Faron (Clive Owen, sempre com esses papéis de sujeito cínico), ex-ativista político e agora um burocrata resignado. Theo leva uma vida apática, exceto pelas visitas ao amigo Jasper Palmer (Michael Caine), um ex-cartunista político que vive escondido numa floresta do interior cuidando da esposa, uma repórter fotográfica que ficou catatônica em conseqüência das torturas que sofreu de agentes do governo. Tudo muda quando Theo é seqüestrado pelo grupo terrorista conhecido como "Os Peixes", que tem como líder sua ex-esposa Julian Taylor (Julianne Moore). Julian oferece 5 mil libras para Theo se ele arranjar passes de transporte para uma certa fúgi chamada Kee (Claire-Hope Ashitey) chegar à costa, mas as coisas se complicam e Theo se vê obrigado a levar pessoalmente a jovem Kee e proteger o segredo que pode afetar não só os fúgis, mas toda a humanidade.

O futuro próximo mostrado em Filhos da Esperança impressiona por sua naturalidade. Enquanto uma elite sócio-econômica tem acesso às últimas gadgets eletrônicas (vistas principalmente nos primeiros minutos de filme), o resto do mundo parece até um pouco mais precário que o atual, devido às guerras e ao colapso econômico mundial. A missão do (anti-) herói Theo não faz uso de apetrechos tecnológicos ou sofisticados instrumentos de comunicação; sua saga lembra mais a clássica jornada épica.

Baseado no livro homônimo da autora inglesa P.D. James, o filme foi dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón (de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), que também assina o roteiro, juntamente com outros autores cujo nome não lembro agora. Como é típico nos filmes sobre futuros "não-tão-distantes", a obra de Cuarón mostra claros paralelos com a nossa própria época. Não é apresentada nenhuma explicação para a infertilidade humana, que é dada como um trágico fato consumado. As conseqüências desse fato é que são exploradas, com a questão da imigração, do terrorismo, dos governos autoritários e bélicos, das guerras civis, coisas que vemos nos telejornais todos os dias.

Os terrores de uma sociedade em ruínas são apresentadas de forma seca e estéril (como tudo mais no filme). Até a luz de Londres é fria e estéril, mas de uma forma que combina com a cidade atual, mérito do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (de Desventuras em Série). As mortes (são muitas) são realisticamente secas e brutais. Não espere ver mortes heróicas ou discursos de dois minutos de um personagem agonizante. Mas a morte dos personagens é sentida (pense Blade Runner) através de mudanças no ritmo do filme e principalmente da música.

Outro mérito do trabalho de câmera em Filhos da Esperança é a parte em que os personagens entram numa zona de conflito. A perfeição das cenas e dos efeitos chega a incomodar, dando a ilusão de que estamos assistindo a um documentário de guerra (em determinado momento o sangue "espirra" na câmera, que continua rodando assim mesmo, quebrando a ilusão ficcional do filme).

***AQUI TEM SPOILER***
O mais impressionante no filme são suas diversas leituras implícitas. A estátua recuperada do David de Michelangelo, símbolo do humanismo renascentista, apresenta uma prótese para substituir a parte danificada, como uma pessoa mutilada pela guerra. Essa degradação do humano e a busca da esperança em um mundo caótico são os principais temas da obra de Cuarón.

O aparecimento de uma jovem grávida tem óbvios paralelos religiosos. A gravidez de Kee é considerada um "milagre" por muitos e a própria Kee cita a concepção imaculada do cristianismo ao brincar com Theo dizendo ser virgem.

Numa observação mais nerd, a pequena Kee, com seu manto acinzentado e seu esforço para esconder seu "precioso" segredo ao atravessar terras perigosas, lembra o Frodo dos filmes de O Senhor dos Anéis.

Por fim, a jornada épica de Theo e Kee em busca de uma "terra prometida", de um lugar pra recomeçar, é um tema bastante comum na mitologia e nas artes em geral, mas o detalhe de buscar esse lugar nas brumas dos mares da Inglaterra lembra imediatamente a Avalon das lendas arturianas.
***FIM DO SPOILER***

Alfonso Cuarón mostra o tempo todo a vida e a morte simultaneamente na tela. Animais aparecem perambulando pelos ambientes o filme todo, mas ao mesmo tempo vemos incontáveis pessoas mortas. E, com certa ironia, os personagens procuram sobreviver correndo por funerais e tiroteios, onde por alguns momentos a câmera desvia a atenção da cena principal para vermos o lamento de uma mãe sobre o corpo sem vida do filho, uma imagem familiar nos noticiários sobre zonas de conflito. Isso só acentua o efeito da seqüência extremamente inverossímil em que os dois lados de uma batalha param para que a vida possa passar em segurança, algo de uma beleza poética realmente tocante (isso soou extremamente aviadado, mas é verdade!).

Se há algo negativo no filme? Talvez só o pouco tempo de tela de Julianne Moore e de Michael Caine, cujos personagens são muito interessantes e (mesmo aparecendo pouco) fundamentais para o andamento da obra. Ambos têm uma ótima química com Clive Owen, excelente no papel do personagem que sustenta toda a narrativa. Além disso, Filhos da Esperança não é para qualquer público, pois as imagens são fortes e a temática é pesada.

De resto, é uma obra muito caprichada e equilibrada, apresentando grandes períodos de tensão com pitadas de humor e ironia na hora certa. É um belo filme, que emociona e provoca reflexão.

Nota: 10


Nerd Reverso Email • 18:30:22 • A Gente VimosPermalink Deixe seu comentário
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