Melhores do Mundo

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Nov 9

Da janela do quarto dos fundos #3

Saudações a todos.
Por motivos de férias e força maior – a natural indisposição pra qualquer coisa que não seja ficar deitado, lendo, bebendo ou simplesmente dormindo que advém dessa condição – fizeram-me atrasar a periodicidade da coluna em quase duas semanas e meia. Porém, para o desgosto de alguns, cá estou
novamente. Aproveito para dizer aos interessados que decidimos que o melhor é manter a coluna quinzenal. Logo, vamos ao que interessa.

Digressões sobre O Senhor das Armas

Filme escrito e dirigido por Andrew Niccol, O Senhor das Armas deixa antever já de cara, em uma nauseante, criativa e brilhante sequência, que algo muito errado está acontecendo com o país que se orgulha de ser o portador da Boa Nova nesta Terra, guardião do Martelo de Deus que deve levar civilização, democracia, prosperidade e paz aos povos de vida anímica, aos gentios sanguinários e bárbaros, opostos dos povos democratas e livres que habitam a Europa e, principalmente, os Estados Unidos da América.

O ato de sentir pena do outro traz intrínseco em si a crença em uma superioridade moral, intelectual e até mesmo espiritual sobre o receptor desse sentimento (não concorda? Então vá contestar Kant, Freud e Stevenson, pra citar só alguns). Por esse viés, é bem mais fácil tentar compreender o filme.

Em uma interpretação acima da média, Nicholas Cage dá vida ao personagem Yuri Orlov, imigrante russo que notabiliza-se desde o começo por uma existência dupla – ele e sua família se fazem passar por judeus para conseguir emigrar para os EUA – e um individualismo bem ao gosto anglo-saxão. A pergunta que ele se faz logo nos minutos iniciais do filme sai da boca da maioria absoluta dos líderes norte-americanos há pelo menos 3 décadas. Sendo um pouco mais radical, desde o fim da Segunda Guerra, quando os Estados Unidos emergiram como um império que hoje em dia exibe contornos de feições espartanas (um Estado dependente economicamente de conflitos bélicos, com sua indústria de armas pronta a alimentar e incentivar guerras. Após o 11 de Setembro, essa concepção só fez se aprofundar, já que depois dos ataques o estado de guerra é constante e, ao que parece, inescapável. Primeiro, o perigo morava no Afeganistão, agora vive no Irã, na Coréia do Norte, no vizinho não-branco nem protestante de pele, cabelos e olhos escuros).

O chato de tudo isso é que o personagem principal de Cage é um anti-herói muitíssimo carismático, já que exibe uma sinceridade difícil de se encontrar nos dias que correm. Ora, se Yuri Orlov é um escroque, o é simplesmente fazendo parte do jogo, enganando acima de tudo governos, aproveitando-se de oportunidades legítimas abertas pelos furos das legislações de cada país consumidor. Sem esquecer, é claro, que mostra-se peça importante no tabuleiro de interesses norte-americanos e gera, no ato, a desgraça do país, pois arma até mesmo os inimigos do império, fazendo fortuna, no fim das contas, com algo que, querendo ou não, é necessário para que o mundo funcione. Transforma-se, assim, em uma espécie de herói anarquista, a contribuir para a “derrocada do sistema injusto em que vivemos”, certo?

Errado. E muito errado. As instituições e legislações internacionais de (tentativa de) controle são um meio efetivo de interposição da livre circulação de armas mundo afora. Ser ou não a favor do direito de andar armado nada tem a ver com isso, e o fato é que traficantes de armamentos têm um peso no número de mortes violentas ao redor do planeta que não dá pra ser ignorado, pois sistematiza e torna possível genocídios e assassinatos em massa (ver Eritréia, Ruanda, Etiópia, Sudão, Angola, Colômbia e o próprio Brasil). Além disso, tudo que o “sistema injusto” não faz é se ressentir dessa nova espécie de fomentador mercantil da morte. Muito pelo contrário, é muito mais fácil e prático pagar e controlar ambiciosos solitários do que gangues ou nações inteiras.

É na África, inclusive, que se passa a sequência doidona -- que virou moda no cinema norte-americano em meados dos anos 1990 e regra no começo dos anos 2000 – em que o personagem ensaia um princípio de crise moral (que passa rapidinho, assim que termina o efeito das drogas) que acaba em nada, como em nada tem acabado as crises dos líderes norte-americanos.
Se a ocidentalização do mundo nasceu com a justificativa cada dia mais contestada de elevar a humanidade a um patamar há muito almejado, a conclusão do filme deixa bem claro que estamos falhando miseravelmente nesse intento, que em algum momento do jogo nós nos perdemos do caminho e, usando a desculpa de agradar a Deus, nos aproximamos mais e mais do diabo, que, enfim, estamos fracassando amargamente na busca por essa tal melhor existência prometida no berço de nossa civilização.

Quanto à parte técnica, o filme não deixa nada a desejar e merecem destaques a edição em ritmo de esquizofrênico, os enquadramentos – alegrai-vos nerds, vocês definitivamente venceram, pois o cinema atual copia descaradamente os quadrinhos –, o uso virtuoso de steady-cam, os planos gerais, principalmente nas sequências passadas no Oriente, da Ásia à África, e o roteiro, bastante bem escrito, deliciosamente bem amarrado.

Volto em 15 dias. Mais mudanças devem ocorrer. Até lá!


Melhores do Mundo Email • 17:40:27 • Colunas, OutrasPermalink Deixe seu comentário
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