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Ago 24

Miami Vice


Ótimas cenas de ação, com tiroteio em terra e velocidade em alto-mar, mas será que é Miami Vice? Além disso... Cadê o Elvis???

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Miami Vice no cinema? Hum... Bom, pelo menos tem o Michael Mann (de Colateral) na direção e roteiro, ele que foi produtor executivo da bem-sucedida série televisiva que foi ao ar na década de 80. Mas mesmo assim, o filme não faz jus à série. Ou melhor, não faz referência. Ele tem outro ritmo. É como se fosse um episódio especial, com pouco mais de duas horas de duração, mas situado nos dias de hoje, onde não se explica nada, apenas acontece a ação.

Já não há Don Johnson de blazer branco e t-shirt azul. Já não há dias de sol e mar na praia entre perseguições e cenas de porrada mal-dada. Já não há fungadas de cocaína barata nem carros brancos a fugir em direção ao pôr-do-sol. Trocou-se o dia pela noite. Foi-se o Miami Vice, ficou a dupla Sonny Crockett e Rico Tubbs. Fora isso, é Michael Mann em velocidade, mas num filme policial (muito paciente) sem suspense nem emoção. Talvez seja bom para os fãs, mas para quem não conhece ou não se lembra da série é apenas mais um filme. E os fãs de Miami Vice não são tantos assim para justificar tamanho orçamento.

Os astros de Hollywood Colin Farrell (de Demolidor) e Jamie Foxx (de Ray) são os protagonistas. Farrell interpreta o descolado detetive Sonny Crockett e Foxx faz seu parceiro, Ricardo Tubbs. O clima que a dupla vive traduz os anseios de uma vida voltada para dentro do crime, dentro do submundo. São anti-heróis no sentido mais puro da coisa. A missão de ambos é se infiltrar num dos principais cartéis do tráfico e desarticulá-lo. Na cabeça deste grupo está Montoya, interpretado pelo ator espanhol Luis Tosar. Os braços de confiança dele são José Yero (John Ortiz) e Isabella, interpretada pela atriz chinesa Gong Li (de Memórias de uma Gueixa). Ela não compromete no inglês e ainda se arrisca no espanhol. Completando o time dos "good guys", temos Barry Shabaka Henley como o Tenente Castillo e Justin Theroux como Zito, além de Naomie Harris como Trudy, que atua na inteligência e é o par romântico de Foxx, e Elizabeth Rodriguez como Gina. Esta última, por sinal, arrasa numa seqüência de ação (previsível, como todo o filme, mas mesmo assim bacana).

O filme tem mais carimbos no passaporte que o FHC quando era presidente. Nas Américas, ele faz miséria. Tudo quanto é local clássico de contrabando aparece. Colômbia, Ciudad del Este (Paraguai) e, lógico, Brasil (retratado na tríplice fronteira Brasil-Paraguai-Argentina), além de uma boate disco mencionada que logo remete a galera que mora no Rio à infame Help, entre outros. Momento de total surpresa para esse ser que vos fala foi quando aparece, justamente ali na fronteira (situado no Paraguai), um cassino que visitei há anos atrás – a lágrima escorreu nessa hora, é sério. A Europa também faz uma ponta, pra não falarem que o filme é bairrista (no sentido continental de ser).

Gostei de como foram filmadas as cenas de ação (com tiroteios, perseguições, etc.), visto terem utilizado uma perspectiva mais realista, estilo de Michael Mann. Grandes carros, lanchas e aviões também contribuem para enriquecer essa Miami. Mas não gostei do argumento, diálogos pouco trabalhados e bastante curtos, principalmente entre os protagonistas. Acho que depois de tanto tempo de estrada com o seriado, o diretor pensou que podia usar e abusar da telepatia. Errou feio. Decepção também na caracterização de Foxx para o personagem Rico Tubbs. Totalmente diferente do que era e significava a interpretação de Philip Michael Thomas. Pelo menos o Farrell se esforçou (principalmente no couro cabeludo). Outra complicação é a quebra do pique quando Cuba está em foco. O filme vem na pressão desde o início e dá uma freada absurda de repente, pra depois retomar a velocidade. Muito estranho.

Trata-se de um passo à frente do bom resultado estético de Colateral, que Mann fez também em parceria com o fotógrafo Dion Beebe. Mostra sua visão pessoal da "realidade", captando as imagens sempre em locações, espaços reais, jamais em estúdios, com cenas meticulosamente construídas. Tudo isso sob um orçamento que saltou dos acertados US$ 125 milhões para mais de US$ 180 milhões! Não é à toa que as cenas de ação e violência são impressionantes. Destaque também para a trilha sonora.

Imagino que você deva estar se perguntando... O que Elvis tem com isso? Primeiramente, não estava falando do "Rei do Rock", e sim do crocodilo, bicho de estimação do Sonny. Esse tipo de homenagem à série talvez tenha sido o que eu (e muitos outros) esperava de Michael Mann, o "guru" do seriado.

Caso queira ver um filme com cenas de ação e violência caprichadas, mas sem esperar qualquer vínculo com a série (podiam ter lançado esse filme com qualquer nome que não faria diferença alguma), vá ao cinema. Caso contrário, espere até chegar na locadora mais próxima. Enfim, um Bad Boys 2 com pedigree.

Nota: 6.

Ronald Johnston é jornalista e fotógrafo

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