Quadrinhos da Espanha
democrática: 1975 - 2005/6 Tweet

E aí, nerdalhada? Em vez de ficar só nas bancas e livrarias, que tal conferir alguns quadrinhos no museu? E de graça? Como já dissemos aqui, está rolando no Rio de Janeiro uma exposição bacanuda sobre quadrinhos espanhóis.
Ao entrar na sala do Museu Nacional de Belas Artes dedicada à exposição, logo se destaca uma pequena mesa onde estão algumas preciosidades da história dos quadrinhos espanhóis. Ali, encontram-se, entre outros objetos, um exemplar da revista TBO, a mais popular antes da Guerra Civil e que acabou por nomear informalmente as HQs na Espanha como "tebeos" (da mesma forma que a revista Gibi fez por aqui); e a capa da primeira edição da revista Star, a primeira tentativa de uma revista adulta que "surgiu quando Franco se internava no hospital pela primeira vez", como a exposição faz questão de ressaltar. Só por essa "pré-exposição", fica a certeza de que o conteúdo histórico é o centro das atenções aqui.
Com curadoria do escritor espanhol José Maria Conget, a exposição foi organizada pelo Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, como comemoração aos 15 anos da instituição. As 98 obras de 84 autores formam uma antologia que procura dar um panorama do que foi a produção de quadrinhos na Espanha desde a volta da democracia.

Mundial de Argentina, de Gin
Além de apreciar o traço de cada autor, é legal notar a mudança temática das obras com o passar dos anos. Nas obras mais antigas, apresenta-se com força a crítica política e social através do humor e do exagero, mesmo que oculta sobre uma ambientação fantasiosa. Já no período pós-transição democrática, os autores voltam os olhos para os hábitos da nova sociedade que surge, e as obras retratam o cotidiano e mostram muita crítica de costumes, lembrando as HQs brasileiras pós-abertura. A produção mais recente ainda tem traços do humor crítico, mas procura falar de conflitos do autor ou de sua geração, de forma similar a publicações como a falecida Mosh!.
O passeio pelos anos de publicação também é uma viagem pela história recente da Espanha. Do período entre 1975 e 1982, conhecido como transição democrática, destaca-se o personagem Mokoki, de Gallardo, considerado um exemplar da contracultura espanhola. Mokoki é o fugitivo de um hospício retratado ainda com a camisa-de-força e um aparelho de eletrochoque na cabeça. As loucuras do personagem aparecem como veículo das transformações culturais da época. Outro nome de destaque é Nazario, considerado o mais transgressor dos desenhistas espanhóis dos anos 70, e suas obras que desafiavam os tabus sociais e sexuais.
Alguns dos trabalhos já são conhecidos no Brasil. Manfred Sommer e sua obra Frank Cappa, que tem originais na exposição, já foram publicados com sucesso por aqui, onde seu traço realista influenciado por Milton Caniff é muito apreciado. Outro já publicado aqui é Miguelanxo Prado, conhecido por sua participação em Sandman - Noites Sem Fim e por ter retratado a cidade de Belo Horizonte para a coleção Cidades Ilustradas. Na mostra, o visitante pode conferir dois originais com o belo traço e o ótimo uso das cores na sua obra mais conhecida mundialmente, Traço de Giz.

Martinez el facha, de Kim
A mostra permite que tanto o conhecedor quanto o leigo apreciem as diferenças entre as obras, já que os desenhos originais são maiores que a impressão vista nas revistas e neles podem ser conferidos de perto os detalhes da arte. As variações vão do ritmo narrativo ao tipo de traço e cor, com estilos que vão de um realismo que beira a fotonovela a uma narrativa densa e de forte influência expressionista. Já as temáticas são tão diversas que vão da tradicional fantasia européia ao terror e underground norte-americano, passando pelo faroeste italiano e o humor tipicamente latino.
Apesar da exposição retratar a sociedade espanhola recente através de sua cultura cotidiana, não é difícil traçar um paralelo com o período pós-abertura democrática do Brasil. De tempos em tempos, surgem por aqui mostras reunindo charges recentes, mas nelas obviamente predomina o caráter político. "Quadrinhos da Espanha democrática" mostra como utilizar os quadrinhos como exemplo de arte cotidiana e periódica, na qual é possível a apreciação da forma, do contexto ou da combinação de ambos. Uma exposição similar com artistas brasileiros como Laerte, Angeli e Luiz Gê poderia ser muito significativa no momento político, social e cultural que atravessamos, além de ser diversão garantida.
Relembrando, a exposição "Quadrinhos da Espanha democrática: 1975 - 2005/6" fica no MNBA (Avenida Rio Branco, 199 - Centro) até o fim de agosto, de terça a sexta-feira das 10h às 18h, com entrada franca.



