Melhores do Mundo

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Jun 23

Nerd Show: Márcio Takara

Márcio Takara já foi mencionado algumas vezes no MdM, devido ao seu trabalho no fanzine Os Territorianos. O que muitos de vocês não sabem é que nosso amigo Márcio acabou de se tornar um dos mais novos brasileiros a desenhar HQs para o exterior. O fera acabou de assumir um número de um dos títulos do Quarteto Fantástico lá fora. Vamos agora, com exclusividade total, saber um pouco mais desse desenhista que, para chegar onde chegou, largou sua carreira de designer para se dedicar aos quadrinhos e gastou até oito horas por dia apenas desenhando HQs para si mesmo, sustentado por sua família, tamanha era sua vontade de ser um desenhista internacional. E agora, com vocês, Márcio Takara!

[Mais:]

1. Fala, Márcio! Grande prazer ter você aqui no nosso Nerd Show. Para começar bem nossa entrevista, nos fale um pouco sobre você mesmo.

Márcio Takara: Fala aê, povo dos Melhores do Mundo. Vamos lá, sempre gostei de desenhar e sempre sonhei em um dia poder trabalhar para as grandes editoras de quadrinhos Marvel e DC. Hoje, estou com 25 anos. Me formei em desenho industrial pela Puc-Rio e trabalhei durantes uns 2 ou 3 anos como designer (web design, design de impresso, design de video, design de personagens para animacão). Morei quase dois anos em Toronto, no Canadá, onde estudei artes gráficas e onde pude estagiar em uma empresa que trabalha com efeitos especiais para cinema e comerciais para televisão. Foi uma experiência muito legal pra mim. Meu trabalho em design deu uma subida de nível considerável nessa época, mas não estava trabalhando muito com desenho e por isso não estava legal. Foi então que eu resolvi voltar ao Brasil e largar tudo. Tirei dois meses de férias pra repensar a minha vida, um verdadeiro retiro espiritual (ahahah), muita Coca-Light e resolvi que não deveria negar a minha vontade de desenhar quadrinhos.

2. Para chegar aonde você chegou, você teve de abrir mão de muita coisa e comer o pão que o diabo amassou. Fale-nos um pouco sobre esse episódio em sua vida.

Márcio Takara: Chegando de volta ao Brasil, resolvi preparar umas 6 páginas para mostrar para a GlassHouse, que agencia desenhistas para o mundo todo, incluindo brasileiros. Fiz as páginas e passei a a trocar e-mails com o David [Campiti], que a princípio achou meu trabalho simpático, mas sentiu necessidade de alguns ajustes. Depois disso eu passei a me dedicar direto ao desenho e enviar sempre minha arte para ele. Para minha surpresa, o cara foi gostando cada vez mais de meu trabalho; até chegar ao ponto dele me oferecer um teste pra uma revista Army of Darkness. Cheguei a fazer dois testes para essa revista. Foi aí que surgiu a Impacto. O David comentou que a GlassHouse tinha uma parceria com a Impacto aqui no Brasil e entrei em contato com eles, mostrando meu trabalho. Passei a freqüentar o curso deles aqui no Rio de Janeiro para tentar aprimorar meu traço e ficar em contato com profissionais como o professor Carlos Rafael, que desenha para caramba, e o povo de São Paulo também, como o Klebs [Júnior]. Alguns meses depois, o Klebs gostou de meus desenhos e perguntou se gostaria de ser agenciado por eles. Fiz alguns testes para editoras grandes e pequenas dos EUA e alguns trabalhos de ilustracão por fora, também através da Impacto, para clientes aqui no Brasil e no exterior. Mas isso tudo eu tenho conseguido principalmente porque minha família me apoiou na minha decisão de investir nessa área e ficar durante uns 6 meses sem ver a cor do dinheiro. Foi um período em que eu larguei todas as propostas profissionais ligadas ao design para poder desenhar igual a um maluco todos os dias úteis (sim, porque eu também sou gente e fim de semana eu entro em contato com o mundo real). Umas 8 horas por dia. Às vezes mais, às vezes menos. Dependia do tempo que eu gastava no Playstation 2 aqui em casa. Um videogame pode acabar com qualquer carreira de desenhista.

3. Você é um desenhista que trabalha, principalmente, com um traço estilizado, traço este que garantiu sua entrada na Marvel. Quais desenhistas influenciaram você na escolha desse traço?

Márcio Takara: Putz! Tem um monte. Deixa eu ver... Jim Lee, Adam Hughes, Greg Capullo, Chris Bachalo, Kevin Maguire, Terry Dodson, Marc Silvestri, Mike Mignola, Joshua Middleton, Allan Davis, Frank Cho, Sean Galloway, Joe Madureira, Bart Sears, Brian Hitch... Nossa, são muitos... Bruce Timm, Ed Benes, Ivan Reis, Ryan Ottley, Scott Campbell, e mais recentemente o Stuart Immonen e o Steve McNiven. Tem um monte de gente que eu gosto também, mas que não tem muita influência no meu traço. Na verdade, ainda estou trabalhando no meu estilo e acho que isso é uma coisa que vai vir com o tempo mesmo. No momento eu tento trabalhar com dois estilos bem distintos; um mais voltado para um traço tipo desenho animado e outro mais tradicional com um pouco de estilização. Mesmo assim, tenho procurado absorver muita coisa de tudo.

4. Você assumiu os desenhos de um gibi do Quarteto Fantástico, aparentemente dirigido mais para o público infanto-juvenil. Poderia nos falar um pouco desse seu primeiro grande trabalho?

Márcio Takara: O Klebs mostrou meu desenho para um dos editores (na verdade, uma mulher) da Marvel e ela gostou do que viu. Me ofereceu esse título do Quarteto Fantástico. Até onde eu sei, é um título pequeno. Vou fazer pelo menos um número dele, mas é o meu primeiro trabalho para uma editora grande dos EUA e acho que vai abrir algumas portas. Eles pediram para eu desenhar com um traço mais tradicional e não tão cartum. Não vejo a hora de começar a desenhar as páginas.

5. Enquanto treinava todos os dias para melhorar seus desenhos, você freqüentou um curso de HQ, a Impacto Quadrinhos, e conviveu com muitos aspirantes a desenhistas profissionais que sonham com aquilo que você almejou: a carreira internacional. O que você recomenda não só aos alunos do seu curso, mas a todo aspirante a desenhista de HQ profissional? O que eles devem e o que eles NÃO devem fazer nesse percurso?

Márcio Takara: Recomendo começar cedo e tomar muita Coca Light. Quanto antes você puder se dedicar a isso, melhor. Não se engane, trabalhar com quadrinhos é pura ralacão. Não tem fórmula mágica. É treino, treino e treino. E depois disso, mais treino. Acho que, para quem está começando mesmo, o importante é tentar tirar diariamente um período para poder se dedicar ao desenho. Imagina você, desenhista preguiçoso, tirando meia hora por dia para desenhar. No fim de um mês, você já vai ter uma quantidade razoável de material para poder ser avaliado. Acho que já é um começo. Mas se você já está em um nível superior de disciplina, eu acho que o importante é partir para as páginas de quadrinhos mesmo. Independente de seu desenho ser ruim ou horroroso. Vai fazendo páginas. Não tem aprendizado melhor. E mostra o resultado para pessoas competentes. Coloca na cabeça que o seu desenho não presta e que você não deve mostrar desenho para familiares, amigos ou namorada. Receber somemte elogios não vai te levar a lugar nenhum. E vai estudar também tudo que envolve quadrinhos. Perspectiva, anatomia, sombra e luz, expressão corporal e facial, diagramação e narrativa etc. É complexo mesmo e por isso que é para poucos. Acho importante, também, estudar desenhistas. Copiar mesmo. Ter uma arquivo de referências é importantíssimo também. Tenho imagens no meu computador de tudo quanto é tipo de objetos e pessoas, cidades, enfim, de tudo. Usar referência é a melhor coisa que existe nesse meio.

Agora sobre o que não se deve fazer, acho que é desrespeitar o trabalho do outro. Ter respeito pelo trabalho do outro é primordial. Não só em quadrinhos, mas na vida. Nunca se sabe o dia de amanhã.

6. Aproveitando que o assunto é curso de HQ, o que a Impacto te acrescentou no seu percurso? Qual é a importância, para você, de fazer um curso de HQ?

Márcio Takara: O contato com o professor, desenhista e meu chapa Carlos Rafael e com os profissionais de São Paulo como o Klebs. Foi bom para poder ficar por dentro de como funciona o mercado, saber das novidades e o que têm rolado. E sobre o curso em si, pude desenvolver e corrigir uma série de detalhes no meu desenho através dos exercícios. Foi uma oportunidade muito legal e recomendo a todos que estiverem interessados nessa área. Recomendo também encontrar pessoas para conversar sobre quadrinhos (haahah) a grande maioria dos meus amigos e minha namorada não gostam de quadrinhos e eu ficava meio que sem ninguém para conversar sobre isso (hahaah).

7. Cada desenhista possui um jeito de criar suas páginas. A Adriana Melo, por exemplo, faz várias miniaturas detalhadas em formato 10x15cm e depois amplia para tracejar por cima da mesa de luz e detalhar. Outros vão fazendo dezenas de layouts diretamente no A3 até chegarem onde querem. E com você, como tem sido para fazer suas páginas? Muitos folhas de papel jogadas no cesto de lixo? Ou tem ido tudo direto, numa boa?

Márcio Takara: Faço os esboços de duas páginas numa folha A4 e depois disso passo para um A3. Primeiro com lápis azul e depois direto com lapiseira mesmo. Uso 0.5, 0.7 e 0.9. Para desenhar meus personagens cartuns, esboço com lápis e faço a arte final com aquelas canetinhas descartáveis de nankin. Depois escaneio e coloro no Photoshop.

8. Recentemente, descobrimos que o desenhista Brian Denham faz a arte final de seus desenhos no Illustrator. Outros, fazem a lápis e os mais tradicionalistas, a nanquim. Como é contigo?

Márcio Takara: Acho que já respondi, né? Para as páginas, eu estou finalizando no grafite mesmo e depois corrigindo imperfeições no Photoshop. E quando são pin-ups de personagens, principalmente com um estilo mais desenho animado eu finalizo com nankin mesmo e levo para o Photoshop. Mas nunca arrisquei a fazer arte final no Illustrator não. Nossa! Deve ser muito estranho e demorado.

9. Qual HQ você sonha em assumir os desenhos?

Márcio Takara: Cresci lendo a Liga da Justiça da época do Keith Giffen, a engraçada. E gostaria muito de poder desenhar a Liga algum dia. X-Men é muito maneiro também. Seria legal.

10. Você acompanha algum título de HQ regularmente? Qual (ou quais)?

Márcio Takara: Tenho acompanhado o Iron Man Extremis do Adi Granov. Muuuito bom o desenho do cara. E estava lendo o Adam Strange também. Outro dia comprei aquela coletânea da Mulher-Hulk. Está bem desenhado e a história é legalzinha também. Tenho acompanhado também essa sagas monstros da DC e da Marvel, como Infinite Crisis e agora essas revistas 52, que são semanais, e Civil War, que tá muito bem desenhada. E Superman & Batman. Muito legal. Essa vale a pena. E X-Men do Joss Whedon. E Invincible. E essas revistinhas que tão saindo aqui da Panini da Marvel e da DC com histórias voltadas para o público mais jovem. Teen Titans e Marvel Age. Alguns desenhos ali são muito legais. E estou sempre relendo algumas coisas que tenho aqui em casa. Na verdade, olhando os desenhos, né?

11. Ultrablog, nosso membro DCnauta de carteirinha, mandou perguntar se o fato de desenhar para a Marvel é apenas uma preparação para começar a desenhar na DC. :P

Márcio Takara: Hahahah! Cara, uma vez nesse meio, o negócio é quem te pagar mais tu vai atrás, né? Rimou. Eu me amarro muito na Marvel e na DC, mas acho que ainda prefiro um pouco a DC, mais por causa da Liga engraçada. Quem sabe? Por enquanto ainda é cedo, estou há menos de um ano somente nesse meio. Vamos ver o que acontece.

12. Para finalizar, aquela mensagem bacana para todos os leitores dos Melhores do Mundo.

Márcio Takara: Pô, esse site é muito maneiro (hahahah), sempre dou uma olhada nas matérias para ficar informado e mais para ficar rindo dos comentários. Obrigadão pela oportunidade de divulgar o meu trabalho e sempre que precisar eu estou a disposição. Quem quiser conhecer o meu trabalho, entra lá no meu site:
http://www.marciotakara.com e http://marciotakara.deviantart.com .

É isso aí. E Boa sorte para todo mundo.

gama • 22:37:20 • Nerd ShowPermalink Deixe seu comentário
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