V de Vingança Tweet
Completando 24 anos de sua publicação original V de Vingança, escrita por Alan Moore e desenhada de forma brilhante e magistral por David Lloyd (co-responsável pelo tom melancólico e frio da história) foi adaptada aos cinemas pelos controversos irmãos Wachoswki e Joel Silver como produtores e James McTiegue (assistente de direção de Matrix e Star Wars – A Vingança dos Sith) como diretor. Apesar de todo medo que ronda os fãs de que a película manche a HQ, ao menos ela traz algo de positivo: a desculpa para lembrarmos de um dos melhores trabalhos do melhor autor de comics vivo.
“V esta é Justiça, Justiça esta é V” o teatral diálogo entre Codinome V e uma estátua é apenas uma das belas passagens que V de Vingança traz. Interpretando um amante traído, V revela-se a vítima do sistema que tornou-se descrente de qualquer regime que humilhe seus cidadãos. Sua aparição ocorre quando salva a jovem e inocente Evey de policiais. A própria situação revela a ambigüidade entre a inocência e a cegueira do mundo que lemos: Evey quase é morta por abordar um policial ao oferecer-se como prostituta. Em outras palavras: ela comete um engano inocente, na situação menos inocente do mundo.
Daí por diante V e Evey (em inglês, os dois nomes soam de forma parecida e "Evey" remete à Eva, mulher que por convencer Adão a cometer o pecado original, é expulsa do paraíso junto com ele) passam a caminhar juntos em jornadas diferentes. Enquanto V caminha, de forma solitária, para destruir o regime opressor, Evey caminha para compreender seu papel na trama. A jovem também deve amadurecer para descobrir a medida de seu próprio tempo e da luta que ela e V possuem. O emblemático fim não deixa dúvidas: símbolos não morrem.

V de Vingança, em termos de roteiro, inova não apenas pelo debate político, mas especialmente pela forma como conta a história. Moore recorre aos flashbacks quando quer descrever melhor seus personagens, mas não faz isso com V diretamente (sua origem é explicada pelas memórias de outro personagem). Na verdade, o passado e a identidade de V vão revelando-se desimportantes para a história (embora haja lendas a respeito de nerds fundamentalistas que enlouqueceram tentando descobrir quem ele era. Ok, não tem lenda alguma, mas este é um site safado e eu não poderia publicar um texto 100% sério. Então aí está o meu, o seu, o nosso momento MdM). O seu verdadeiro passado é o passado da sociedade, que submeteu-se aos caprichos políticos da minoria que governa. Moore também recorre aos personagens coadjuvantes da trama para contá-la.
O clímax da história é compreendido pelo leitor pouco antes de ocorrer, o que só aumenta sua dramaticidade. O mais fraco, pode destruir o mais forte. Uma arma e sorte: terroristas contam com os mesmos fatores, mas como lutar contra um regime opressor senão subvertendo suas regras?
Alguns críticos, ao falar do filme, comentam que a história fala mal do sistema e de uma suposta apologia ao terrorismo (é bom lembrar que a luta de V não atinge inocentes da mesma forma que culpados). V de Vingança fala mal do leitor, da sociedade e de todos. É uma história que, em tempos de eleição, nos lembra que o poder não está com os governantes, mas com o povo. Ninguém decide absolutamente nada contra a sua vontade, ensina-nos V e por ser o único consciente disso ele não paga um preço alto. Afinal nenhum preço é alto demais. Cada povo tem o governo que merece. O que você faz para não merecer seu governo? Entre a liberdade de expressão e o endurecimento político, Alan Moore trouxe ao mundo a idéia de que todos fazemos nossas próprias escolhas. E convivemos com elas.
Nota: 10 é Alan Moore em grande forma.
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Blogman crê em Moore, mais do que qualquer outra coisa...



