Melhores do Mundo

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Jan 30

Nerd Show: Renato Lima
da MOSH!

Há nerds que sonham e nerds que sonham e fazem. Nesse último contexto está Renato Lima, desenhista e editor da revista MOSH!, publicação bimestral que faz sucesso no raro cenário dos quadrinhos brasileiros. E hoje, dia tupiniquim dos quadrinhos, oferecemos a vocês um Nerd Show exclusivo com o próprio Lima. Cliquem aí embaixo e divirtam-se!

[Mais:]

MDM: Como e quando surgiu a idéia de fazer a revista?

Renato Lima: Em agosto/setembro de 2003, dentro do curso de extensão de Quadrinhos e Animação da Universidade Estácio de Sá, o qual eu coordenava. A galera daquela primeira turma era tão boa que resolvemos criar um veículo para eles publicarem (e também não havia nenhuma revista de quadrinhos no cenário carioca). O rock era o que todo mundo tinha em comum, o papo sempre era sobre rock após as aulas! A idéia estava tão amarrada que em um mês estávamos lançando o primeiro número, no FIQ, em Belo Horizonte (outubro de 2003), com 32 páginas e tal! O núcleo da revista estava formado: Fábio Lyra, Fábio Monstro, Vinicius Mitchell, Sandro Lobo e eu.

MDM: A MOSH! apresenta uma regularidade incrível no cenário dos quadrinhos nacionais. Vocês acreditam que essa regularidade é simplesmente pelo conteúdo ou pelo formato da revista, que é oferecida à um preço acessível?

Renato Lima: A regularidade vem do esforço da gente em trabalhar todo o tempo possível e impossível para a revista sair de dois em dois meses (ou quase isso). O formato dá o mesmo trabalho que de uma revista maior: editar entrevistas, selecionar material, diagramar 64 páginas etc - é fogo! O formato de bolso foi pensado para ser mais acessível para o público (preço e transporte) e também por ser economicamente viável para bancarmos os custos gráficos. Você tem hoje poucas revistas independentes com material colorido, em papel couchê ( 32 páginas no caso da gente ). A preocupação maior com formato, qualidade, edição e periodicidade é para que a MOSH! seja tratada como REVISTA e não como zine, que sai só quando dá na telha. O público se torna fiel porque já sabe que vai ter MOSH! de dois em dois meses.

MDM: Quadrinhos no Brasil: é possível lucrar com ele? Quão distante estamos de uma indústria nacional de quadrinhos que sustente a si mesma e aos artistas?

Renato Lima: Ainda há uma distância muito grande por conta do público, dos anunciantes e de como uma revista é planejada para acontecer. A MOSH! foi pensada para atingir o público não-leitor de quadrinhos (que só curte super seres e mangá), sem estar em bancas de jornais e tem dado certo! A maior parte do público é feminina e faz parte do pessoal que frequenta lojas e locais descolados e shows de rock (alternativos ou não), de todas as idades. Temos alguns anunciantes também, que já enxergaram que chegamos no público-alvo deles. Mas ainda é pouco para sustentar a revista. O que garante a sobrevivência da MOSH! são os lançamentos e as vendas pelo Brasilzão afora, que aumentam a cada número. O prejuízo que a MOSH! ainda dá sempre é pensado antes e daí podemos arcar sem prejudicar a revista... Se estivéssemos em banca, já estaríamos falidos... Por outro lado, se você comparar com uma revista de banca, vai ver que temos mais anúncios e mídia do que a maioria delas. A revista é de bolso mas faz um barulhão, como costumo dizer por aí. Mas viver de quadrinho... a gente vive de desenho (storyboard, ilustração, cursos) mas não só de quadrinhos, ainda.

MDM: Por quê vocês optaram por uma revista com formato de bolso? Ela traz alguma vantagem em relação às outras além do preço? E as desvantagens?

Renato Lima: A desvantagem é ser confundido com um zine porque é um formato pouco habitual por aqui (já haviam a coleção Tipos, de Floripa e a Mini Tonto, de Porto Alegre, não somos os primeiros por optar por esse caminho, embora os dois casos tivessem menos páginas e não possuíssem material colorido). As vantagens eu já comecei a falar: fácil de carregar durante os eventos, possibilita uma maior qualidade em papel e cor nas hqs e, o principal, sai a um preço acessível ao leitor. Se uma revista independente custa mais de R$5, o cara já pensa duas vezes na hora de comprar, entre optar por pegar o gibi ou por mais dois chopps...

MDM: Alguns os acusam de não fomentarem o mercado pois escrevem para um nicho e não para as pessoas em geral. Por que vocês escolheram o caminho temático (rock n´roll)? Vocês se arriscariam em outros temas?

Renato Lima: Pelo contrário. Ao escrevermos sobre roquenrou, acabamos por levar mais gente a ler quadrinhos, ampliando o mercado (que diminui por não conseguir se renovar). Lógico que algumas pessoas que lêem heróis e mangá também vão ler a MOSH! porque a linguagem é a mesma. Mas o público de quadrinhos é meio fanático, meio radical em sua maioria: ou você lê tal coisa ou não lê nada, o que é um problema. A MOSH! foi criada para ser quadrinhos alternativo jovem e o rock é o link que permite isso. Como todos nós temos alguma vivência de rock, ela não soa como uma trapaça, o público se reconhece/identifica nas situações e temas das hqs da revista. Esse é o grande trunfo da MOSH!.

Qualquer tema pode virar quadrinhos. A gente têm outras idéias pro futuro, sim. Quem sabe uma revista sobre o funk carioca? hehehe

MDM: Resuma o caminho das pedras para se publicar uma HQ com a qualidade gráfica da Mosh?

Renato Lima: Raça. Acho que a MOSH! só consegue manter esse pique porque ela age como uma revista em quadrinhos não costuma agir. A gente vai onde está o nosso público e acho que o caminho é esse: não se limitar às soluções habituais, que estão por aí, por estarmos em locais e festas diferentes. E deu certo!

MDM: O que um maluco precisa para produzir uma HQ para a MOSH!? E quais são os critérios de seleção na escolha dos colaboradores?

Renato Lima: Tem que ser uma boa história antes de tudo. A gente tem uma linha editorial bem definida: quadrinhos que retratem o cotidiano rock, da noite, do mundo alternativo. O que se encaixar nesse perfil, serve pra gente! Abrimos espaço para alguma experimentação também. O critério de escolha é o cara mandar bem, ter personalidade (o que não significa desenhar como o Jim Lee ou escrever uma saga cósmica). Hoje a MOSH! tem colaboradores fixos de vários Estados (Minas, São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia etc.), estamos longe de ser uma panelinha ou sermos bairristas. É só mandar!

MDM: Sobre as figurinhas do underground... há algum plano pra lançamento delas em separado no futuro?

Renato Lima: Sim, claro. Mas tem muita figurinha ainda para ser desenhada até completar o álbum!

MDM: A MOSH! está com um destaque bem grande entre os quadrinhos nacionais, inclusive ganhando 2 dos 3 prêmios em que foram indicados no HQMix, até onde vocês acham que a revista pode chegar? E o que podemos esperar dela daqui pra frente?

Renato Lima: Tem muita coisa ainda a ser feita. 2006 já começa com mais shows e lançamentos, parcerias em eventos importantes, como o Festival de Verão e as Lonas Culturais. Inauguramos uma linha de produtos da MOSH! com bottons e camisas além de lançar um cd em parceria com a RastroPop e a festa LOUD!, com encarte em quadrinhos e músicas de bandas que apareceram na revista. E devemos dar início aos álbuns dos principais autores da MOSH!. Apesar dos prêmios ( que foram uma surpresa incrível ), a revista está longe ainda do seu ápice porque precisamos distribuir ainda mais, conseguir mais anunciantes, se bancar realmente... O que pode ser esperado é um número sempre melhor que o anterior, é o que nos esforçamos para fazer, sinceramente. A história só começou.

MDM: Por que vocês decidiram que em todo lançamento de um número novo da revista ter uma grande festa?

Renato Lima: Uma revista que tenha quadrinhos roquenrou só pode ser lançada em shows de roquenrou, né? Foi a decisão lógica para chegar no público, para fazer um barulho. O mais engraçado é que as festas ganharam tanta força que tem gente que acha que somos produtores musicais... mas somos só uma revista em quadrinhos!

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