Gibinismo – o fim Tweet
Depois de elucidar nossos leitores com alguns detalhes da produção artística de uma HQ, vamos falar um pouco da parte, digamos assim, complicada da vida útil de uma HQ nacional: a publicação.
Publicar e colocar na banca.
Estão vendo como suicídio é a saída mais racional para o ser humano? Começamos falando de prazer artístico, paixão, satisfação e vamos terminar no vil metal...
Quando entramos em editar, presume-se que exista uma estrutura financeira para bancar a brincadeira. No caso de uma revista para distribuição maciça banca de jornal, também há necessidade uma editora para responder juridicamente pela revista. Nas produções independentes e de distribuição pequena em gibiterias ou bancas específicas, quando os autores levam o material por conta, não se faz tanto necessário (Mas é bom ficar esperto...).
Lá vai a pergunta: Porque não se têm gibis nacionais em grande quantidade nas bancas? Porque não existe dinheiro de verdade girando nas áreas produtivas do país, ué.
Não é porque HQ nacional não é boa ou ruim. Lá fora tem um monte de merda que nunca a gente vai ouvir falar porque morre no meio do caminho. Aliás, não dá nem para saber se nos levamos mesmo jeito pra coisa. Para se fazer profissionais descentes de qualquer ramo é preciso demanda de trabalho, nessa demanda quem se mantém num nível bom fica (ou é assassinado por um invejoso), o resto é o resto.

Um quadrinho desconhecido pode se fixar de dois modos. Ou com uma baita tiragem, uma boa distribuição e uma boa divulgação. Ou começa de modo independente, mais modesto, e o gibi vai se propagando pelo boca a boca e pela sua rede de contatos do meio, como a Chiclete com Banana.
O entrave é que o preço da produção modesta também deve ser barato. Para tanto se deve ter também uma grande tiragem. Quanto maior número de unidades oferecido para venda, menor será o preço da unidade. OK! Mas quem paga a fortuna à gráfica para se fazer uma tiragem imensa para se ter um gibi baratinho? Os autores? Pode ser, um vende a geladeira, outro esvazia a poupança, um terceiro disponibiliza um rim para o mercado de órgãos. E quem paga o número 02? Os autores de novo? E o 03? Pelo que eu sei, rim só tem dois...
Mas é o lucro das vendas? Com tristeza que escrevo que normalmente uma revista independente bem sucedida não leva menos de 5 ou 6 números para começar a dar lucro. Além disso, o retorno da venda na banca está em 20% do preço de capa. 50% fica entre o jornaleiro e distribuidor. 30% vão para os custos. E o que sobrou é a recompensa.
Financiamento? Bom, as empresas de ramos considerados “mais sérios” não conseguem financiamento a juros decentes, o que se dirá desses caras que ficam fazendo desenhinho ao invés de arrumar um emprego cristão e descente?

Patrocínio? As empresas demonstram certos fetiches ao escolherem aonde anunciar, tendo a TV e semanários boçais em primeiro lugar. Os quadrinhos parecem não exercer muito fascínio aos anunciantes, visto que após anos finalmente vejo, na Panini, um anúncio em gibis de super-heróis que não fosse de produtos da própria empresa credenciada.
Apoio cultural público? O apoio cultural no país está nas mãos das grandes empresas através das renúncias fiscais. Elas preferem associar seu nome a mídias mais glorificadas e artistas consolidados. Os fundos culturais demonstram dois empecilhos para os quadrinhos.
Primeiro, o quadrinho é como aquele tio bicha ou a prima que casou com um negro ou japonês da família das artes. É parente, mas seria muito bom se não fossem convidados para a festa de natal. Tente registrar quadrinhos em alguma modalidade de apoio estatal de cultura. Como classificá-los? Em que inscreve-los? Artes plásticas? Literatura? Os doutores que julgam essas categorias normalmente os classificariam como excremento e o descartariam assim que vissem “história em quadrinhos” escrita na descrição.
Segundo, o outro empecilho é o mesmo mal que acontece nas outras artes. Masturbação em louvor aos imortais. Talvez Ziraldo, Angeli, Laerte, Maurício de Souza conseguissem (sei lá, também, esses caras fazem HQ...), mas Zé ou Mané desconhecidos, um abraço. A menos que sejam filhos de algum imortal... ou de alguém muito mortal, he he.
Louvável exceção a essa exclusão do apoio público é a prefeitura de Belo horizonte e o governo de Minas. Pena que não é regra.
O gastos não param na gráfica. Você precisa distribuir. Gibi precisa chegar ao leitor, caso contrário não tem graça. A maioria das distribuidoras (como se houvessem muitas) só aceita distribuir uma revista a partir de uma quantidade não muito simpática, uns 10, 15, 20 mil pra cima. Se o editor conseguir fazer 4 ou 5 mil sem se obrigar a reduzir as três refeições diárias por para uma, está bom demais. Cabe então a procurar intermediadores que aglutinam vários títulos de pequenas tiragens e conseguem acordos para distribuição.
OK, ok, foda-se os rins, baço, também baço serve prá que? A paixão dos quadrinhos é forte demais e depois você pode virar faquir ou aprender a fazer fotossíntese e ainda ficar verdinho como o incrível Hulk.
Ah! E tem a divulgação. Você gastou os tubos para fazer um gibi baratinho, bem distribuído e não vai contar para ninguém? TSC! Além de ser mal para o ego, há o risco desse treco não vender o bastante porque não foi divulgado. Para uma quantidade dessas não faz sentido deixar de divulgar além da tradicional network do mundinho HQ.
Então, está pronto para deixar esse mundo profano com as limitações de seu corpo e atingir outro estado da existência, ser iluminado e conhecer o nirvana ou talvez o Pearl Jam?
Tudo isso para dizer que quando uma revista surge com preço um pouco fora da classificação “baratinho, baratinho”, com certeza não é porque eles são elitistas e querem fazer gibi só para a galera descolada da vila madalena (um bairro de classe média alta em sampa).
Pegando a Kaos! como exemplo, foram alguns desses comentários que li por ai sobre o preço da revista. Logicamente, gostaríamos de fazer mais barato. Afinal, somos uns bostas. Um punhado de artistas desconhecidos dando seus primeiros passos profissionais e tanto o grupo Kaos!, como a editora Manticora, detém inteligência o bastante para perceber que nossas chances de sucesso seriam maiores se a revista custasse 5 ou 4 reais.
Entretanto, as características atuais do mercado, financiamento, apoio, gráfica, papel, distribuição e etc, levaram ao valor menos salgado possível sem comprometer a saúde financeira da editora, a qual atuou bastante nesse quesito. Quem leu o número 01 pode perceber, a revista possui muitos anúncios, mas todos são permutas por divulgação ou serviços. Ou seja, foi uma empreitada nos quadrinhos em que todo investimento de capital financeiro e humano partiu dos responsáveis.

Se pareceu choramingo de editor xarope, desculpem-me. A intenção é atentar que atuar nos quadrinhos é como atuar em qualquer área cultural no país. Uma merda quase inviável. É prazeroso! A gente fica emocionado e de pau duro, mas é uma merda quase inviável porque não se conta com muitas condições para se executar o mínimo.
E por fim...
Eu gosto de fazer um paralelo sempre entre HQ e Cinema. Eu os vejo como irmãos gêmeos. Nasceram na mesma época para aqui na América, (yes, nos também somos americanos, os caras dos EUA, os estadunidenses são em sua maioria um experimento dos aliens que deu errado e foi deixado para trás com medo das conseqüências), cresceram atendendo os gostos do populacho, eram dois bastardos sifilíticos freqüentadores de puteiro. A diferença é que o cinema encontrou Jesus, parou com essa vida e virou um fresco respeitável. O quadrinho ainda tem problemas para deixar a cachaça.

Cinema nacional. Existe, hoje temos filmes de médios para bons direcionados para o grande público com refinamento técnico e linguagem clássica, portanto acessível a qualquer idiotinha da classe média. Se antes era desprezado, agora é alvo de orgulho o cinema nacional. Essa mudança teria ocorrido porque nasceu uma geração de maravilhosos produtores de cinema de uma hora para outra? A quem acredita nisso, saiba que estou vendendo o pão de açúcar por metade do preço, com escritura e tudo... Na verdade, foi uma corporação Globo Filmes a qual aprofundou sua investida no setor cinematográfico e enfiou dinheiro adoidado.
Essa seria a famosa salvação dos quadrinhos nacionais, o casamento no final de nossa novela. Um grande grupo de capitalistas malvados comedores de criancinha investindo grosso na área. No entanto, existem coisas que até corporações sinistras tem medo de mexer...
É só fazer a HQ, editar, publicar e colocar na banca.
Certo. O problema é que alguém precisa pagar a conta. Enquanto isso os independentes, que não dispõe de crédito, apoio, patrocínio e respeito, vão lavando os pratos e fazendo michê. Tentando encontrar um lugarzinho no mercado, entre as bolachas e os produtos de limpeza e, com sorte, arrumar a casa. Talvez não para nós, mas para o pobre cretino que vem depois...
E, se fazer gibi é tão pedreira assim, porque todas as pessoas envolvidas no meio não desistem simplesmente .
Meu! A gente não desiste nunca. Não porque a gente é otário, isto é, brasileiro, mas porque a gente é doente... tarado... pervertido... tem problema... gibinismo...
Jean Canesqui é um dos editores da Kaos! e... um cara estranho, muito estranho, que muda de comportamento com facilidade... Se eu fosse você, não confiava nele, e olha que é ele que tá falando...




