Por que não estamos na Freqüência Global? Tweet

Não, esse texto não fala do Brasil estar em um ritmo diferente do resto do planeta no que se refere ao mercado de histórias em quadrinhos. Isso é assunto para outro momento. O que vou mostrar a vocês é que todos nós (no mundo inteiro) perdemos a oportunidade de ver uma ótima série de TV baseada em quadrinhos de qualidade.

Freqüência Global (Global Frequency, no original) foi publicada originalmente pela WildStorm, selo que começou na Image e hoje pertence à DC. Aqui no Brasil, a série foi publicada pela Pandora Books (NR: sinceramente, nem sei se eles chegaram a terminar a série). A premissa básica era simples e original: a Freqüência Global é um grupo de mil agentes independentes espalhados pelo mundo, cada um deles um possuidor de determinado conhecimento ou habilidade, lidando com ameaças em larga escala. Tais ameaças, desconhecidas pela população em geral, podem variar de bombas humanas a invasões alienígenas. A partir daí, o criador Warren Ellis (de Planetary) fez uma série em 12 edições, cada uma com uma história fechada e um artista diferente, dependendo do clima da história, pois cada trama remete a um gênero de cinema, livro ou HQ.
Como cada ameaça exige habilidades diferentes, a equipe é sempre rotativa. Isso faz com que os únicos personagens fixos na revista sejam Miranda Zero, a líder e criadora da agência, e Aleph, a "telefonista" que coordena as operações e liga para os agentes através do estiloso celular que cada um possui. Essa liberdade de personagens rotativos e histórias fechadas, sem falar no enorme potencial de novas tramas, fez com que Global Frequency logo se tornasse candidata a uma série de TV. O surgimento de adaptações de quadrinhos menos conhecidas e menos infantis para os cinemas (como Do Inferno, Hellboy e A Liga Extraordinária) deu o impulso que faltava. Um piloto foi produzido.

Em agosto de 2004, o diretor Nelson McCormick (de Alias) iniciou as filmagens, tendo como personagens principais Miranda Zero (Michelle Forbes, da série 24 Horas), Aleph (Aimee Garcia) e os agentes Sean Flynn (Josh Hopkins) e Katrina Finch (Jenni Baird, apontada por alguns como "a nova Gillian Anderson"). A história, baseada na primeira edição da HQ de Ellis, mostra como o ex-policial Flynn, depois de achar um cadáver pela metade, acaba descobrindo que a Freqüência Global é real e se vê no meio de uma busca por um homem que pode destruir toda a cidade de São Francisco em menos de uma hora.
A história é boa e captura o espectador. Os efeitos são competentes e trabalham a favor da trama. As interpretações são boas, com o casal de protagonistas tendo uma boa química e com uma Miranda Zero bem convincente. Mas não gostei muito da escolha para Aleph. Apesar da boa interpretação, a atriz Aimee Garcia parece uma menina "descolada", não o gênio hiperativo que Aleph deveria ser, de forma que o papel seria mais apropriado para alguém como a cantora Björk. Outra escolha equivocada foi fazer a Miranda Zero agir como a Trinity de Matrix, usando roupas de vinil e encacetando homens fardados. Só pelo jeito dela já dá pra perceber que ela quebra geral. Mostrar isso logo no piloto tirou muito da graça da personagem. O ritmo de Global Frequency também é um pouco falho. Considerando que na contagem regressiva do episódio estavam em jogo três milhões de vidas, houve até calma demais. A tensão necessária estava lá, mas um ritmo um pouco mais corrido, como nos bons episódios de Plantão Médico ou Alias, faria uma boa diferença.

É claro que o piloto está cheio de bons momentos. Toda a premissa básica de Ellis está ali, e o autor aprovou a adaptação, o que já diz muita coisa. A primeira vez em que ouvimos "Eu sou Miranda Zero e você está na Freqüência Global" é muito bacana. E impressiona o fato dos personagens tomarem decisões corajosas, como tomar uma vida para salvar a de milhões, mesmo sabendo que cada vida importa. Acima de tudo, o piloto nos mostra, tanto nas ações quanto nos diálogos, do que a Freqüência Global é realmente feita: pessoas comuns agindo juntas para resolver problemas que não conseguiriam resolver sozinhas. Dinheiro, países, política, nada disso importa. São pessoas ajudando pessoas.
Em novembro, chega a notícia: a Warner (sempre ela!) recusou o piloto, tirando a possibilidade da série entrar em sua grade de programação. Os motivos? Uma mudança na diretoria, os altos custos de produção (26 milhões de dólares por uma temporada de 13 episódios) e a própria natureza da série, como apontou em seu blog o produtor e roteirista do piloto, John Rogers:
"Num retrospecto completamente honesto, no que diabos eu tava pensando? É um programa sobre como as instituições ao nosso redor falharam conosco, e sobre como vivemos em um mundo de caos e morte, protegidos apenas por sociopatas à beira da insanidade. O FINAL FELIZ é o nosso herói atirando na cabeça de um homem inocente. Claro, nos coloquem na grade logo depois de Gilmore Girls!" (NR: eu adoro Gilmore Girls, por mim seria ótimo!)
A Warner, pelo menos, liberou os produtores a oferecer o piloto para outras emissoras. Depois disso, não se ouviu mais falar do assunto. Meses depois, uma cópia do piloto aparece ilegalmente na internet (apesar de nunca ter ido ao ar, o programa ainda é propriedade intelectual da Warner). A partir daí, cada vez mais pessoas têm visto e se emocionado com Global Frequency, a ponto de começarem a se mobilizar numa tentativa de fazer a série ser produzida. Mobilizações de fãs a favor de seus seriados e filmes favoritos são coisas comuns, mas é inédito existir uma base de fãs de um programa que nunca foi ao ar. E toda a falação sobre a série que não foi feita acabou surtindo algum efeito, já que a Warner vai voltar a conversar com os produtores.
Isso pode marcar o início de uma forma completamente diferente de promover novos projetos para cinema e TV. Como observa o produtor John Rogers em seu blog: "A idéia principal de Global Frequency é que são pessoas comuns subvertendo o sistema e decidindo as coisas elas mesmas. A idéia de existir um grupo de fãs do programa subvertendo o sistema e decidindo as coisas eles mesmos... francamente, parece irresistível." Considerando toda a popularidade que o piloto vem ganhando e as chances reais de futuras conversas com a Warner, poderemos ter em breve a oportunidade de ver aquela que já está sendo chamada de "a melhor série que você NÃO verá em 2005". Por isso, fiquem ligados! 2006 pode ser o ano em que finalmente colocaremos nossas TVs na Freqüência Global.



