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Mai 27

O Gibinismo - Parte 2

Em nosso primeiro encontro, falei sobre o Gibinismo – o prazer de se fazer HQs – e também sobre os formatos de gibis. Agora, quero ver como você um pouco do processo de edição das revistas em quadrinhos.

Editar.

Podemos considerar duas modalidades ao pensar em se editar um gibi. O primeiro, publicação de material pronto. Predominantemente se trata de quadrinhos estrangeiros acabados já com o custo pago, e, mais raro atualmente, de histórias nacionais também finalizadas, feitas por iniciativa própria.

Quanto aos quadrinhos estrangeiros, é necessário apenas traduzi-los para nossa língua e adapta-los a publicação a qual se destina. As alterações serão executadas mediante ao formato físico da revista, como cortar texto para o material de uma revista em formato americano caber num formatinho, ou suprimir páginas e seqüências afim de várias revistas gringas caberem num só número nacional. Há também cortes por motivos de censura, ai pode-se até substituir desenhos, como no célebre caso de “A Queda de Murdock” , de Frank Miller e David Mazzuchelli, quando trocaram a seringa de uma personagem por uma navalha...

Esse material já é pago, foi publicado em seu país e, se lá pelo menos não ficou no vermelho, o pagamento dos direitos representa lucro para seus donos. Estes direitos são relativamente mais baratos do que o preço justo de um trabalho nacional pronto ou por encomenda.

O autor brasileiro que vende sua HQ completa enfrenta a mesma concorrência de quem cumpre uma encomenda, tendo contra si além do citado preço mais em conta, a popularidade dos personagens estrangeiros, os quais contam com pontos de apoio e divulgação no resto da industria cultural.

O outro processo é de se planejar uma revista com uma linha editorial precisa (ou não, hehe) e acompanhar a produção desde o roteiro até sua arte-finalização. Esse tipo de edição se assemelha com o trabalho dos grandes produtores executivos de Hollywood até anos 50/60 do século passado, quando a industria cinematográfica se tornou personalista demais com os grandes astros e seus agentes ditando as normas. Eles encomendavam o filme, acompanhavam o roteiro, a produção, a filmagem e a pós–produção. O editor de quadrinhos atuaria de maneira equivalente. Roteiro, o desenho, a colorização e a formatação final da revista.

Ao se planejar um gibi, como se planeja um filme, um livro ou um atentado a prédios com aviões, é preciso definir o objetivo dessa ação artística/comercial. Entre todas as metas possíveis pegamos a mais comum: Um gibi seriado que ao longo do tempo desenvolva alguma influência no público e na crítica, além de manter uma boa saúde financeira.

Existem outros fins para as HQs, devemos acrescentar, como a da revista RAW, 1980, altamente influenciada pela revalorização do figurativismo nos EUA, cujo objetivo era experimentar novos parâmetros da linguagem, feito as pesquisas estéticas comuns das artes plásticas, sem a preocupação de ser um sucesso estrondoso de vendas, mas com um nicho certo de leitores. Para a meta “comercial” é bom tentar estabelecer uma comunicação com essa coisa bisonha chamada leitor de quadrinhos.

Se a revista gira em torno de uma série ou um personagem específico, o encontro de uma direção editorial pode ser mais fácil. As próprias características do produto o levaram para o gênero, ou se ele, com características híbridas de várias modalidades e bem sucedido comercialmente, tornar-se-á um gênero novo e próprio, como Hellboy, que é terror, super-herói e, às vezes, cômico. Uma revista mix, no entanto, tem seu o buraco mais embaixo.

Existem poucos leitores ecléticos. Se as pessoas se matam por uma titica de galinha como Deus, porque se disporiam a se abrir à diversidade em relação a uma coisa mais importante e sagrada como apreciar as variações das HQs?

Os leitores parecem ser pautados por gostos de temas específicos e próximos entre si. Há camaradas capazes de cafetinar a mãe para comprar material de determinado personagem, título ou autor. Este tipo certamente ira direcionar seus recursos para adquirir coisas da esfera de sua paixão e, às vezes, quando sobrar um trocadinho e estiver no lugar exato, na hora exata e no humor exato, ele se aventurará em outros terrenos.

Há quem se amarra em gêneros ou estilos: Terror, western, underground,etc. Sabe as regras do gênero e se algo pisar fora, sente-se traído. O fã de sobrenatural em geral está diante de um tremendo leque aberto, pode curtir desde Sandman até Mágico Vento. Um adorador de Tex ficaria meio perdido talvez com as visões xamã. Esse cara quer ver heróicos cowboys WASP salvando o dia e botando o mundo em ordem, o Mágico Vento nos apresenta um mundo de mistérios cósmicos e sem certezas, a não ser que o simpático povo indígena americano vai se lascar com o homem branco da outra série Bonelli e que seu defensor é um mistura de dois mundos antagonistas.

O que um fã de Wolverine, aqueles marmanjos que debatem horas seguidas o uniforme do carcaju feito eternos rapazes de 15 anos, vai encontrar de prazeroso numa primeira leitura de Love and rocketes. Estranhamento não seria sim o esperado? Então, deste modo na precaução de não abalar o leitor, não é inteligente publicar coisas tão dispares juntas.

No caso do Brasil,o desenvolvimento dessa percepção é prejudicado devido à falta de espaço para se publicar. Alguém tá montando uma revista? Há um monte de artistas ociosos? Chama a galera, lógico que os amigos primeiro, afinal somos um povo boçal, quer dizer, cordial... Junta-se tudo sobre o nome de quadrinho nacional. É a mesma síndrome que o cinema brasileiro sofre. Numa locadora, um filme de suspense americano estará na sessão de suspense. Um filme de suspense nacional na mesma locadora estará na sessão de cinema brasileiro, como se cinema brasileiro fosse um gênero meio gosmento, sem forma. Tal qual assim é o gibi.

Esse ai é gibi do que?
Ah! É nacional...
Ah!...

O editor de quadrinhos nacionais precisa ter ciência da arte dos quadrinhos em todos esses níveis e saber se direcionar ou exigir dos colaboradores. Porque o gibi é só mais um negócio e tem que vender. Mesmo sendo algo sem fins lucrativos, elaborado só pelo prazer diletante (Ui!) e patrocinado pelo Estado, algum mecenas ou pelos autores, sua existência perderá o sentido se o publico não botar os olhos no bagulho.

Na próxima coluna, encerraremos o tema Gibinismo falando sobre o mais árduo trabalho do gibinista: colocar o material nas bancas.

[Por Jean Canesqui]

Jean Canesqui é um dos editores da Kaos! e... um cara estranho, muito estranho, que muda de comportamento com facilidade... Se eu fosse você, não confiava nele, e olha que é ele que tá falando...


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