O Gibinismo Tweet


Quando tocamos em quadrinho nacional, caímos no triste vazio hoje dominante nas bancas das publicações para leitores maduros. Então, baseado na minha pequena experiência com os gibis Front e a Kaos!, rabisquei algumas reflexões que possam ser de alguma utilidade à reflexão do tema.
Como fazer gibi no Brasil? Uma vez um rapaz ingênuo na lista de discussão do front deu uma resposta:
É só fazer a HQ, editar, publicar e colocar na banca.
Claro que as pessoas riram, jogaram lixo no moço e o ignoraram daí por diante. Entretanto, olhando agora, na perspectiva do legista, percebo sua simples, porém, certeira razão (pobre injustiçado). É só fazer a HQ, editar, publicar e colocar na banca. Vamos desmembrar essa súmula...

Fazer HQ
Porque fazer histórias em quadrinhos? Paixão. Não há termo melhor. Na atual produção de quadrinhos, ao contrário da maioria das atividades econômicas e como todas os ramos artísticos sem um lastro pesado do capital, é pouca possibilidade de lucros e muita de prejuízo. Portanto, não mais estamos nos movendo em águas racionalistas, mas sim arrastados por correntes afetivas de satisfação e de afirmação.
Nos meus mais fortes surtos de lucidez, admirando essa situação, acredito ser mais honesto classificar essa paixão por gerar páginas quadriculadas como uma parafilia, ou, sejamos vulgar, perversão sexual. Vamos chamá-la de gibinismo.
Gibinismo: Ato de fazer gibi sem remuneração garantida. Uma variação do masoquismo, incluindo em certos casos devido à qualidade do HQ, um certo sadismo em atormentar o leitor.
O termo gibi provém da celebre publicação de quadrinhos em formato meio tablóide de 1939, suplemento do Jornal O Globo, editado pelo jornalista Roberto Marinho. Gibi é segundo os dicionários de língua portuguesa um menino negro, negrinho, moleque travesso, que era o logotipo original da publicação (Por favor, não confundir gibinismo com pedofilia). Seu sucesso arrebatador tornou a palavra gibi o sinônimo no Brasil tanto de Revista de Histórias em Quadrinhos como de Histórias em quadrinhos. Eu usarei como revista de histórias em quadrinhos, ou em inglês, comic book.

A questão é que o gozo dessa prática erótica demanda de muito capital. Financeiro e humano, na forma de tempo e trabalho. Destarte, resta ao viciado nessa pouca vergonha encarar esse primo da sodomia como um negócio empresarial. Claro que alguns renegam isso lá dos subterrâneos. Prazer, sim! Prostituição, não! Bom, quem disse que puta não pode gozar?
É obvio concluir que fazer quadrinho carrega os mesmos objetivos de qualquer outra modalidade artística, porém sua natureza de produto de massa exige o tratamento de um empreendimento comercial. Ai é quando o delírio termina e começamos a ver as paredes acolchoadas da realidade.
Ou nem tanto. Existem sociopatas assombrados pelo temor da chamada vulgarização da Arte. São poetas que escrevem e lêem sozinhos seus poemas e depois os queimam, pintores que após da ultima pincelada metem o machado na tela e etc. O quadrinista, aquele que faz quadrinhos, detém uma postura naturalmente contrária à desses cultistas do ego. O objetivo é normalmente ser lido em alguma estância, seja em álbum, em fanzine ou em gibi, sem contar as tiras de jornal, as quais não tratarei agora pois estas merecem um tratamento especial.
Teoricamente, o caminho do artista é o fanzine, coletâneas, gibi e álbum. Alguns se contentam para toda vida com o Fanzine (da fusão em inglês: Magazine + fanatic, revista artesanal produzida por adoradores de certos nichos culturais e ou produtores neófitos destes as quais a utilizam como veiculo de divulgação de seus trabalhos), assumindo a postura de outsider, contrária a profissionalização e teimosamente amadora, no melhor sentido da palavra.
O álbum de HQ no Brasil , tem como lugar de venda gibiterias e livrarias. É um formato considerado aqui mais nobre que o gibi e destinado a obras pretensamente de maior calibre artístico. Uma sombra da Europa, reino desse tipo de publicação, ao lado de revistas mix em formato magazine, cujas séries são compiladas posteriormente também em álbuns. Realmente, nota-se o refinamento tanto dos desenhos e dos textos, feitos em um espaço de tempo não disponível ao autor de comic book ou de tirinhas. Aqui, devido à natureza própria do mercado de livros, quando um livro, ao ser vendido, paga outros cinco, tornou-se o caminho para artistas já de renome, mas desterrados da banca.

E o gibi?
No gibi temos três formas básicas para a revista de banca no Brasil, sem contar as intermediaras a orbitar suas medidas. O formatinho, o magazine e o americano. Essa modalidade de publicação encontrou espaço nas bancas por muitas décadas, em ondas de gênero como terror, erótico e humor, antes da atual desolação cultural. Sua presença foi tão marcante na memória do leitor, reforçada pelo vazio das bancas tomadas de material estrangeiro, que se tornou o grande sonho dos quadrinistas possuir um gibi a venda no estabelecimento do jornaleiro.
Não há tanta satisfação em publicar na internet, em um fanzine ou mesmo em álbum, do que publicar em um reles gibi. Os motivos são gritantes. O brasileiro começa a conhecer os quadrinhos pelo gibi, relativamente é mais barato do que um álbum sendo bem mais acessível a muita gente, portanto, capaz de colocar seu trabalho em maior evidência.
Então, o problema não é exatamente fazer a porra da historinha. Qualquer um pode fazer uma HQ e xeroca-la ou bota-la num site, mas sempre será machada pelo preconceito de “ainda não-profissional” por mais que seja, de fato, um primor da narrativa. O prazer é ter um título ao lado do Gibi Homem-aranha. O álbum, por mais luxuoso que seja, jamais satisfará o gibinismo. Revistinha é o absinto do quadrinista nacional. Ofereça uma revista própria a alguém em troca de uma felação numa estação cheia do metrô e a criatura pensará duas vezes antes de recusar a oferta.
Na próxima coluna vamos falar sobre o processo editorial dos gibis gringos e dos nacionais.
Jean Canesqui é um dos editores da Kaos! e... um cara estranho, muito estranho, que muda de comportamento com facilidade... Se eu fosse você, não confiava nele, e olha que é ele que tá falando...




