Por que ler Marvel: The End? Tweet

Não se sabe por que motivo algumas HQs caem nas graças do público e outras não. O argumento de que uma revista é melhor que outra é simplório, já que isso é uma questão de gosto, que varia de nerd pra nerd. A exigência por boas tramas ou boas narrativas não justifica a fama de umas e o quase anonimato de outras, visto que algumas das HQs mais famosas são capengas em algum desses dois aspectos. E é disso que vamos falar aqui. O objetivo dessa coluna será discutir um pouco determinados assuntos nerds, que podem ser quadrinhos ou qualquer outro, tentando enxergar aspectos que tenham sido deixados de lado no papo do barzinho porque você estava muito bêbado pra pensar naquilo. Não estou aqui para mudar a opinião de ninguém, apenas para citar alguns argumentos para que você possa refletir. Parafraseando Morpheus, “liberte sua mente, nerd”!

Pra começar, nada melhor do que jogar uma luz sobre uma história que poucos se preocuparam em ler. Em junho e agosto de 2002, a Panini publicou dentro da revista Marvel Apresenta (números 12 e 13) a mini-série Marvel: The End, chamada aqui de O Fim do Universo. Escrita e desenhada por Jim Starlin, responsável pela maioria das sagas cósmicas da editora, a HQ faz parte do projeto The End, em que grandes personagens da Casa das Idéias têm suas histórias finais contadas pelos autores que os marcaram. A diferença aqui é que a trama não trata do fim de algum personagem, mas do próprio universo Marvel. Nada mais adequado do que chamar o Starlin, provavelmente o autor que mais colocou “todo o Universo à beira da destruição”.
Dizem que alguns livros selecionam seus leitores. Só essa escolha de autor já mostra que essa revista seleciona seu público, afinal Jim Starlin nunca foi um astro das HQs. Ao comprar algo escrito por ele, já sabemos que vamos encontrar alguns elementos comuns a todas as suas tramas: uma grande ameaça dotada de poder extremo; páginas duplas mostrando os principais heróis Marvel reunidos, sempre inúteis quanto à grande ameaça; Thanos como um dos protagonistas, cheio de intenções obscuras; Adam Warlock (ou Capitão Marvel, depende da época) fazendo entradas triunfais e sendo decisivo na trama. Assim, o leitor pode reclamar de qualquer coisa (muitas vezes com razão), mas não que a história não era o que ele esperava. Uma das reclamações, com a qual eu devo concordar, é sobre a qualidade dos desenhos. Os desenhos são ruins mesmo, como no caso do Wolverine cabeçudo. Entretanto, ainda Jim Starlin é o melhor desenhista para a dupla Thanos e Adam Warlock, talvez por eles serem personagens tão diferentes dos outros que habitam este universo editorial.

Justamente esses dois personagens são os maiores responsáveis pelo charme da história, com os maravilhosos diálogos entre amigos/inimigos de longa data. Para quem já leu a Saga de Thanos ou série do Infinito, os diálogos entre os dois são deliciosamente irônicos, com pérolas como o primeiro diálogo entre eles após o tal Fim:
— Thanos, o que você fez?
— Adam Warlock, só você poderia perder o fim do universo.
Mas estou me adiantando. Antes, devo falar da trama. A grande ameaça da vez é o faraó Akhenaton, que sumiu no antigo Egito, apenas para retornar nos tempos atuais dotado de um poder quase ilimitado vindo dos confins do Universo. É óbvio que o tal faraó é como uma criança com uma bomba atômica e a história, na verdade, trata da busca pelo poder por aqueles que realmente entendem a sua natureza, ou seja, é tudo uma desculpa para retirar Thanos de seu exílio auto-imposto. O titã consegue o poder, como era de se esperar, o que dá margem aos devaneios de experimentação do poder típicos do Starlin. Como esses:

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Um dos destaques de Marvel: The End é que a história é toda narrada pelo próprio Thanos, contando os fatos que o levaram a destruir o Universo. Com isso, temos uma narração parecida com a narração em primeira pessoa dos livros, inclusive com a parcialidade nas observações. Tudo é visto pelos olhos do titã. Um bom exercício de reflexão é tentar ler a mesma história pensando em como os heróis viram aquela situação. Essa narração também nos permite acompanhar as divagações poéticas, filosóficas e metafísicas de Thanos. Algumas delas são muito interessantes, como a questão de se existe um Ser Supremo (Deus, talvez) que usava o poder infinito de forma consciente ou se aquele poder era uma energia ilimitada, esperando pelo primeiro que a tomasse para si.
Isso sem falar nas citações feitas por Stalin, explícitas como do Claremont ou implícitas como do Moore, que enriquecem o texto e fazem o leitor mais curioso procurar mais informações sobre aquele assunto. Despertar o interesse do leitor para o conhecimento e a cultura é uma das maiores qualidades dos quadrinhos. Apesar da historia totalmente escapista, não faltam referências ao nosso mundo, pois podemos ver algumas comparações com a política atual, inclusive fazendo diversas brincadeiras com o presidente Bush no início da trama. Quem acompanhou o noticiário em 2003, deve lembrar do ridículo episódio envolvendo o pretzel.

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Entretanto, a grande sacada da história está mesmo no fim. Depois de adquirir o poder absoluto, Thanos percebe que o Universo está morrendo, devido ao um grande desequilíbrio. Ao aprofundar suas investigações, descobre o motivo: para equilibrar a balança entre o bem e o mal, muitos heróis foram ressuscitados ao longo do tempo. Ou seja, o fim do Universo Marvel foi causado justamente pela mania da editora de trazer os personagens de volta dos mortos. No final das contas, o Fim do Universo é a Marvel rindo de si mesma e fazendo uma autocrítica. É um sinal de que ainda há esperança, mesmo que mínima (ainda mais com a aparente volta do Colossus, prova do fim da política de “mortos continuam mortos” de Quesada).
Infelizmente, uma das características típicas das histórias do Starlin também aparece por aqui: o final meia-boca. Por mais grandiosas que sejam, todas as sagas cósmicas do Starlin não podem afetar o status quo dos outros personagens da editora, por isso no final fica tudo como está, exceto por pequenas alterações na balança cósmica de poder, em um nível distante demais para afetar o planetinha azul onde vivem os heróis e vilões. Seria excelente se a conclusão da história levasse a algo novo, em vez de simplesmente apagar a memória de todos para que ninguém se lembre de nada. Para um gran finale, talvez o Fim do Universo devesse realmente encerrar o Universo Marvel como o conhecemos, levando a um novo Big Bang, que resultaria no Ultiverso. Assim, seria feito um tipo de Crise nas Infinitas Terras sem a desvantagem de ter que zerar tudo, simplesmente considerando o Universo Ultimate como a nova cronologia oficial da Casa das Idéias. Tudo muito limpo, rápido e eficaz. Do jeito que o Thanos gostaria de fazer.



