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Shotaro Ishinomori: Além do Humano

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Onodera | PERMALINK | 23

Categorias: Shotaro Ishinomori

Shotaro Ishinomori

Por incontáveis, vezes evoquei o nome de Shotaro Ishinomori em meus artigos. Para alguns isso pode parecer um sinal de estagnação, mas a verdade é que até então tenho sido o único na blogosfera brasileira a tentar desbravar e difundir com entusiasmo o trabalho desse importantíssimo – e injustamente obscurecido entre nós – autor. Por isso decidi aproveitar o embalo do Tezuka Day (infelizmente não me foi possível produzir nada de novo na ocasião) para celebrar também Ishinomori, já que ambos foram homenageados no evento Mangaruta como as duas maiores forças criativas do mangá no Japão. Se hoje o mangá é tão importante para mim, devo isso ao talento e à inventividade que descobri em Ishinomori.
Shotaro IshinomoriPor muitos ele é lembrado como o criador das franquias Kamen Rider e Super Sentai, o que lhe rendeu a alcunha de “Stan Lee japonês” nos Estados Unidos. A verdade é que Ishinomori era um homem de mil faces, como, aliás, é o título de seu próprio mangá: Minha Professora de Mil Faces (Sennome Sensei).
Até o seu falecimento, ocorrido em 1998, Ishinomori produziu centenas de mangás em diferentes gêneros, incluindo histórias para garotos e garotas, obras de arte vanguardistas e magistrais histórias de ficção científica. Mais tarde, ele também escreveu muitos mangás premiados para educar as pessoas em economia, sendo, portanto, também pioneiro no ramo de mangás didáticos. A verdade é que Ishinomori detestava a palavra “mangá”, formada por dois caracteres chineses que significam em conjunto algo como “desenhos desordenados” ou “desenhos excêntricos”.
O termo o embaraçava porque ele sentia que o mangá não era apenas “desenhos desordenados”, mas também uma forma de arte que poderia expressar maior emoção do que as palavras, assim como uma mídia capaz de transmitir informações melhor do que a escrita.

“O mangá é uma mídia com infinitas possibilidades, onde pode se empregar milhões de expressões artísticas diferentes. O caráter japonês 'Man', dependendo da forma como é escrito, pode também significar 'Mil', 'Milhões' ou 'Um número de altíssimo valor'. Ainda assim, a palavra 'Mangá' permaneceria a mesma quando pronunciada, mas o seu significado seria 'A Arte de Milhões'.”

Tudo isso foi dito por Ishinomori em sua famosa Declaração do Mangá. Por esse motivo, ele passou a utilizar um caractere diferente para o “Man”; aquele que significava “milhões”.
No Japão, o trabalho mais conhecido de Ishinomori é Cyborg 009 (vocês podem saber mais a respeito lendo o artigo Cyborg 009, Através do Tempo e Espaço AQUI), que começou em 1963 e foi animado inúmeras vezes, com a próxima adaptação prevista para 2012, pelas mãos talentosas do competente Kenji Kamiyama. A história é sobre um time de nove super-soldados alterados cirurgicamente, que lutam para promover a paz mundial.

Alguns estudiosos do mangá no Ocidente postulam que Cyborg 009 é apenas mais um dos inúmeros seguidores inspirados pelo Astro Boy de Osamu Tezuka, mas Cyborg 009 foi uma obra revolucionária, que rompeu com diversos paradigmas do mangá em muitos aspectos. Primeiro: era ficção científica de ponta para a época. O protagonista, Joe Shimamura, possuía um “acelerador” instalado em seu corpo. Usando seus músculos artificias, ele podia se mover dez vezes mais rápido do que um ser humano comum. Ele é tão rápido que, em sua perspectiva, tudo parecia congelado e as pessoas não podiam vê-lo – ideia inspirada pelo livro Tigre! Tigre! (The Stars My Destination), de Alfred Bester, traduzido para o japonês no mesmo ano em que Cyborg 009 começou a ser publicado.
Shotaro IshinomoriAlém disso, Cyborg 009 era chocantemente realista. Ele não se passava em um futuro distante, mas em meio à própria Guerra Fria. O vilão da história, Black Ghost, era uma sociedade secreta internacional de empresas fabricantes de armas que manipulavam os governos dos países em conflito para obter lucros com a guerra. Isso refletia o temor dos japoneses de que o Japão viesse a se tornar um campo de batalha, como a Coréia e o Vietnã. Em uma das histórias, Ishinomori chega a despachar seus soldados ciborgues ao Vietnã para impedir que a guerra se prolongasse. Mas, é claro, era impossível, mesmo com superpoderes. Os leitores eram simplesmente obrigados a aceitar a dura realidade.
Ishinomori esteve sempre à frente de seu tempo. Era a primeira metade dos anos 60 e os quadrinhos americanos não tentavam misturar crítica social e super-heróis; isto só aconteceu muito tempo depois.
Mas estes super-heróis também possuíam um lado trágico e melancólico. As pessoas não acreditavam na existência da Black Ghost. Ninguém sabia a seu respeito nem reconhecia os esforços dos ciborgues pela paz, que eram obrigados a aceitar a solidão e a tentar superar sozinhos seus traumas emocionais. Vez por outra, quando alguém avistava os heróis usando as suas habilidades incomuns, Shotaro Ishinomorios chamavam de “aberrações”. Joe, o próprio Cyborg 009 do título, era fisicamente muito forte, mas psicologicamente frágil. Quando enfrentava os ciborgues inimigos da Black Ghost, ele se debulhava em lágrimas, por ser obrigado a matar sua própria espécie. Os seus delicados detalhes faciais ajudaram a esculpir o padrão de herói das artistas que mais tarde fariam parte do famoso Grupo de 24 (composto por algumas das maiores artistas shoujo de todos os tempos, como Moto Hagio, Keiko Takemiya e Ryoko Ikeda – todas fãs incondicionais da obra de Ishinomori). Joe era um protagonista de caráter sensível, e, por isso, foi o primeiro herói japonês a ganhar uma enorme legião de fãs mulheres, dentre as quais estavam incluídas as três artistas citadas. Não só isso, como também Ishinomori foi o primeiro artista renomado a lançar um manual de introdução para aspirantes a quadrinhista. Foi através dele que nomes como Katsuhiro Otomo e Tsukasa Hojo deram seus primeiros passos rumo a uma bem sucedida carreira profissional.

Ishinomori e o Nascimento do Mangá para Garotas

Shotaro IshinomoriEsses elementos femininos vieram da experiência de Ishinomori com o Shoujo Mangá. Com a ascensão do gênero na década de 50, ele colaborou com artistas como Hideko Mizuno, na revista Shoujo Club, o primeiro almanaque para garotas do Japão. Lá, eles foram pioneiros na gramática visual do Shoujo, incorporando um design expressivo como flores e estrelas nas pupilas de personagens femininas (Contrariando a crença popular, apenas o remake da década de 60 do mangá A Princesa e o Cavaleiro, de Osamu Tezuka, incluiu elementos como estes). Essas técnicas tornaram-se um padrão para esse tipo de publicação mais tarde, mas esse tipo de expressão simplesmente não existia antes da Shoujo Club.
Em 1961, Ishinomori criou uma das obras mais representativas de sua carreira: Ryujin Numa (O Pântano do Deus Dragão). Este one-shot de apenas 47 páginas foi inspirado em uma das histórias que desenhou na infância (leia-se: Antes mesmo de Osamu Tezuka ter revolucionado o mundo do mangá com o seu Shin Takarajima). Por sua qualidade gráfica e argumentativa, teve grande influência sobre todas as grandes autoras que revolucionariam o shoujo mangá em um futuro não tão distante. O que Ishinomori fez foi tirar o shoujo do gueto de princesas, meninas em busca do amor e outras banalidades que estavam em voga na década de 50. Sua ideia era imaginar uma história focada em um público feminino que pudesse também conter ingredientes de outros gêneros, como terror e mistério.
Shotaro IshinomoriO enredo foi inspirado por uma antiga lenda do vilarejo onde Ishinomori nasceu e segue da seguinte forma: Kenichi é um jovem rapaz que acaba de voltar de Tóquio para a sua antiga vila por ocasião de festejos populares locais. Uma antiga lenda falava de um deus dragão que vivia num pântano das redondezas e, atraído por essa superstição, Kenichi acaba se defrontando com uma intrigante garota vestida de branco, que aparece como se fosse um fantasma. A história prossegue de forma que Kenichi descobre que o prefeito e o sacerdote xintoísta da vila estão conspirando para enriquecer às custas dos demais. No fim, a misteriosa garota de branco revela ser o mítico dragão e ameaça matá-los, mas Kenichi chega a tempo de impedir a tragédia.
Ishinomori também fez experiências com painéis silenciosos. Antes dele, quase todos os painéis de mangá possuíam diálogos. Ele usava esses painéis sem efeitos de som para parar ou estender o tempo – ou expressar intensos sentimentos, tais como a alienação. Para Ishinomori, o mangá não era só o ato de se contar uma história, e, como a música, ele também poderia expressar sentimentos humanos ambíguos. Graças a Ishinomori e suas seguidoras, o Shoujo Manga foi estabelecido como um gênero com maior apelo ao emocional do que a antiga forma de contar histórias.

Shotaro Ishinomori

Nos anos 60, o cinema francês de vanguarda e o movimento psicodélico inspiraram Ishinomori a criar um de seus mais arriscados e monumentais trabalhos, Fantasy World Jun. O protagonista era um jovem aspirante a quadrinhista. Além disso, nada é muito certo. Não há diálogos ou efeitos sonoros em todo o mangá. Não há uma história substancial. Ishinomori chamou Jun de “um poema em mangá”, onde ele descrevia a solidão e a vida de fantasias de um garoto introvertido com todas as técnicas de expressão que ele possuía. Obviamente, o triste e melancólico Jun é um alter ego do próprio Ishinomori.
Shotaro IshinomoriDizia-se que Ishinomori foi fortemente abalado emocionalmente pela morte da irmã mais velha. Seus colegas de quarto e eventuais assistentes, Fujiko F. Fujio e Fujio Akatsuka (que criaram Doraemon e Tensai Bakabon, respectivamente), contaram que ela era tão bonita que eles se aproximaram de Ishinomori só para ficarem mais próximos dela. Infelizmente, a irmã era muito frágil fisicamente e faleceu com apenas vinte anos. Sua morte estendeu uma sombra sobre o trabalho do autor. Não apenas ele baseava todas as suas heroínas na irmã, mas a sua morte o afetou também de outras maneiras, mostrando a ele que mesmo o que é belo e bom pode desaparecer de repente sem nenhuma razão. Tal percepção deu ao seu trabalho um tom pessimista e cético que Tezuka jamais soube explorar com tanta maestria. Ishinomori fazia com que seus leitores questionassem a natureza humana e os conceitos de justiça.

Ishinomori e sua Fábrica de Heróis

Em 1971, Ishinomori tirou a sorte grande ao se juntar com a equipe da Toei para a produção de uma nova série de efeitos especiais para a televisão. Ele foi contratado para criar um super-herói que pudesse competir com O Regresso de Ultraman, a nova temporada de um dos maiores fenômenos da TV japonesa. Ele então desenvolveu um herói motoqueiro similar a um gafanhoto, ao qual chamou de Kamen Rider, com influências de dois de seus trabalhos anteriores, Cyborg 009 e Skullman, assim como um antigo seriado da Toei, Gekko Kamen. Ishinomori ficou responsável pelos personagens e o conceito, mas o restante do programa foi realizado pela equipe da Toei.

Shotaro Ishinomori

Ao mesmo tempo, ele iniciou a publicação do mangá de Kamen Rider na Revista semanal para garotos Shonen Magazine, da Kodansha, que se diferenciava significantemente da versão para TV. Apesar de dirigido às crianças, o mangá continha vários elementos maduros, tais como violência gráfica, nudez e comentários político-sociais. No arco final do mangá é revelado que a organização criminosa Shocker é parte de um núcleo de nazistas contratados pela aliança dos governos americano e japonês para criar um estado totalitário. O grande líder de Shocker diz ao herói: “Você não pode me culpar! Nós estávamos apenas auxiliando o seu próprio governo! Um governo que vocês escolheram!”.
Eisako SatoEm uma das últimas páginas, um televisor do hospital onde se encontrava Taki, agente ferido do FBI que foi aliado do Rider em sua última missão, mostra o então primeiro ministro do Japão, Eisako Sato (N. do E.: aquele ao lado de Richard Nixon na foto), enquanto o policial atira um travesseiro sobre a TV. Essa página representava que, apesar de Kamen Rider finalmente ter vencido Shocker, isso não fez diferença, porque o verdadeiro inimigo ainda está no poder e está controlando você. Esse final mexeu com a cabeça de muitos dos jovens leitores que acompanharam o mangá na época de seu lançamento.
A versão para TV de Kamen Rider foi um sucesso de proporções gigantescas e a Toei imediatamente contratou Ishinomori para criar mais franquias de super-heróis, dentre as quais se destacaram Himitsu Sentai Goranger (Esquadrão Secreto Goranger), Henshin Ninja Arashi, Inazuman e Robot Keiji (Robô Detetive) para citar somente alguns. Todos esses programas foram acompanhados de um mangá, onde Ishinomori ousava e explorava suas histórias de maneira provocante e ambígua (o mangá de Henshin Ninja Arashi continha alguns elementos que induziam o próprio leitor a se questionar se o herói não podia ser considerado um vilão).

Shotaro Ishinomori

O mais notável desses trabalhos foi Jinzou Ningen Kikaider (ou Andróide Kikaider, sobre o qual já falamos neste blog, AQUI). Nesta série, Ishinomori expandiu as ideias sobre homens e máquinas antes exploradas por Osamu Tezuka em seu Tetsuwan Atom (Astro Boy). Em Astro Boy, os robôs foram construídos como escravos para o gênero humano e eram discriminados por conta de sua baixa classe dentro da sociedade. O herói, Astro, é um robô criado como um ser humano. Ele sofre por vivenciar um conflito em entre humanos e robôs. Muitas vezes, os humanos não tem a menor compaixão pelas máquinas. Outras vezes, os robôs eram mais humanos do que os próprios humanos. Kikaider explorava os mesmos temas na forma de uma tragédia.
Shotaro IshinomoriComo Kamen Rider e Cyborg 009, Jiro tem a missão de combater os seus irmãos robôs manipulados pela organização criminosa Dark. Mas ele se recusa e passa a vagar sozinho, sendo forçado pelas circunstâncias a enfrentá-los. Jiro é outro garoto com um olhar feminino como aquele de 009 e Jun. Muitas leitoras se apaixonavam por ele por conta de sua natureza gentil e sensível. Mas por não ser humano, era obrigado a rejeitar a afeição de todos que se aproximavam dele. Como Pinóquio, Jiro precisava aprender a se tornar humano, inclusive a expressão “Kikai da” significava “Uma máquina”. O nome Kikaider nasceu da má interpretação de um de seus primeiros inimigos. Jiro mais tarde ainda descobre possuir uma família robótica, incluindo Ichiro (Kikaider 01) e Mieko (Bijinder), mas ele é diferente, porque possui um circuito de consciência que possibilita experimentar emoções que só os humanos podem, como a compaixão. Seu irmão androide, Ichiro, não possui um circuito assim, por isso pode destruir seus inimigos sem piedade. Ichiro/01 é a antítese de Kikaider, porque ele é um robô perfeito. Ironicamente, a consciência torna Jiro mais próximo dos humanos, mas incompleto e imperfeito como um robô. A história de Kikaider é um reflexo filosófico sobre o que nos torna humanos, narrado sobre a visão de um androide meio-humano. Quem quiser saber mais a respeito, são convidados a ler o artigo anteriormente citado.

Shotaro Ishinomori

Shotaro Ishinomori X Osamu Tezuka: Quem é o verdadeiro gênio do mangá?

Mais ou menos entre 1952 e 1953 havia a revista Manga Shonen – uma bíblia para os garotos que sonhavam em desenhar mangá algum dia. Esses jovens sonhadores enviavam seus trabalhos ansiosos pela aprovação dos artistas e editores que compunham a publicação. Um tal de Akira Matsumoto ganhou o primeiro concurso de novos talentos organizado pela Mangá Shonen; mais tarde assumiu o pseudônimo Leiji Matsumoto e se tornou famoso com obras como Patrulha Estelar e Galaxy Express 999. Dentre outros que enviaram seus trabalhos se encontravam: Tadanori Yokoo, Kishin Shinoyama, Ryotaro Mizuno, Keichi Tanami e Taku Mayumura: todos se tornaram depois famosos artistas, fotógrafos ou escritores.
Shotaro IshinomoriMas certa vez, um menino popularmente conhecido como “O garoto gênio da Província de Miyagi”, enviou os seus trabalhos e chamou a atenção dos editores. Um desses editores trabalhava lado a lado com Osamu Tezuka e decidiu lhe mostrar uma cópia desse material assinado por Shotaro Onodera. Tezuka ficou pasmo com o que viu, não conseguia acreditar que um garoto daquela idade pudesse possuir tanto talento. Não apenas isso, mas também coordenava um grupo de estudos de mangá em sua escola.
No mesmo dia, Tezuka lhe enviou um telegrama.
A pedido do mestre, Onodera lhe fez uma visita e ouviu de Tezuka a exclamação: “Seus desenhos são fantásticos! Você não gostaria de vir me ajudar na próxima história do Astro Boy?” Como teste, Tezuka lhe entregou algumas páginas apenas com diálogos escritos; Onodera deveria levá-los para casa e retornar com os backgrounds prontos. Shotaro retornou no dia seguinte, não apenas com o background pronto, mas também com os personagens da história. Este foi o único trabalho como assistente que Ishinomori realizou para Tezuka, sendo assim, ele não foi um “aluno” como muitos foram induzidos a pensar. Pouco tempo depois, Nikyu Tenshi (O Anjo Secundário), foi publicado por Onodera, já com o pseudônimo de Shotaro Ishimori, e ele se mudou para o apartamento Tokiwa-So, onde dividiu o quarto com outros grandes artistas. Mas nessa época, Tezuka já não morava mais no local.

Tokiwa-so

Não demorou muito e eis que Ishinomori se tornou um dos moradores mais requisitados do Tokiwa-So. Ryujin-Numa havia lhe dado grande prestígio, sendo que hoje em dia cada uma de suas reedições vem acompanhada por um interessante artigo publicado há muito tempo por alguns estudiosos do mangá, que conta a origem da expressão “Deus do Mangá”, referido a Osamu Tezuka: acontece que, em determinado momento, um periódico popular do Japão decidiu escrever uma matéria sobre Shotaro Ishinomori (então Ishimori) e a intitularam “Shotaro Ishimori, o rei do mangá”. Pouco depois, Tezuka e Ishinomori se encontraram em uma festa e o primeiro, que apesar de genial, era extremamente vaidoso e competitivo, se aproximou e disse “Onodera, se você é o rei do mangá, então me diga, o que eu sou?”, conta-se que Ishinomori se calou por alguns instantes e então disse: “Bem... Então, você deve ser o Deus do Mangá!”.
Tezuka saiu visivelmente satisfeito com a resposta, e ela passou a ser usada desde então para qualificar o mestre.
Shotaro IshinomoriAnos depois, com o advento da Garo, Tezuka decidiu investir em uma revista destinada ao experimentalismo, e assim se iniciou a antologia COM. Isso foi mais ou menos na época em que a irmã de Ishinomori falecera, e quando ele foi convidado a participar, decidiu criar um título com o qual pudesse expressar sua dor em forma de imagens. Esse mangá foi o citado Fantasy World Jun e chamou muita atenção na época. Tezuka era reconhecido por sua generosidade e assim inspirava a lealdade de todos seus amigos mais próximos. No entanto, ocasionalmente também perdia a calma. Foi numa ocasião dessas que ele respondeu publicamente a um fã que lhe perguntou sobre o Jun de Ishinomori: “Este não é legítimo representante da arte do mangá”. Ishinomori ficou muito magoado por conta dessa declaração, mas nem por isso deixou de cultivar a amizade de Tezuka. Algum tempo depois, Tezuka voltou atrás e disse arrependido: “Eu não sei o que deu em mim... A verdade é que disse aquilo porque estava com inveja...”
Tezuka passou por um período de crise nessa fase de sua carreira, algo que ele só foi capaz de superar com o grande sucesso de Black Jack nas páginas da revista semanal para garotos Shonen Champion, da Akita Shoten. Curiosamente, um dos maiores rivais e opositores de Tezuka, Takao Saito (de Golgo 13), disse certa vez que Shotaro Ishinomori foi o melhor amigo que ele já teve.
Shotaro IshinomoriNos anos 80, Ishinomori realizou a desconstrução da série Kamen Rider em seu mangá Black Kamen Rider, o primeiro que ele próprio produziu para a franquia desde o original de 1971. Esse mangá continha temas ainda mais sombrios do que o seu antecessor e teve uma receptividade morna, porque o protagonista não era o herói que as crianças estavam acostumadas a ver, e sim um monstro horrendo. Ishinomori só voltaria a emplacar com Hotel, nas páginas da Big Comic, que trouxe a Ishinomori algumas de suas últimas premiações. Em 1989, foi anunciada a morte de Osamu Tezuka e os periódicos da época citaram Ishinomori como seu único e verdadeiro sucessor. O próprio Ishinomori escreveu um artigo chamado “O Dia em que Osamu Tezuka Morreu”, que, infelizmente, nunca tive a oportunidade de ler. A Introdução a Economia Japonesa de Ishinomori se tornou um best-seller e Hotel foi adaptado em uma das mais bem sucedidas telenovelas do Japão, mas com apenas 60 anos, a mesma idade com que Tezuka falecera, Ishinomori nos deixou. Ambos pareciam estar possuídos por afã obsessivo e muitas ideias, e nunca deixaram de produzir. As suas fontes de criatividade jamais se extinguiram.
Eles ainda possuíam publicações pendentes nas principais antologias da época, no dia em que faleceram.

Shotaro Ishinomori


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Comentários:

Nome: angelofdeathmd 25/01/12 12:53
Excelente artigo! Não conhecia a extenssão das obras de ishinomori, pra mim era cyborg e kamen rider só. Hora de me redimir de meu pecado e ir atras das outras obras!
Nome: Pedro Bouça 25/01/12 01:20
Ishinomori até conseguiu o feito inimitável de desenhar MAIS páginas de mangá que o Tezuka! Ele está no Guiness como desenhista de quadrinhos mais produtivo de todos os tempos.

Um bom número de trabalhos dele anda dando as caras na França, o que me permite conhecer um pouco melhor o autor.

Agora Onodera, você omitiu uma famosa criação de Ishinomori para a TV: Patrine!

Felipe: Pelos céus, é verdade! É um pecado escrever sobre Ishinomori e não citar Patrine ou Machine-Man, pelo menos! XD
Nome: Rafael Kaen 25/01/12 11:12
Kamen Rider ZX parece que também foi inspirado no mangá!
Adoraria ver os trabalhos mais famosos dele aqui no Brasil, se lançarem Kamen Rider Black por aqui, serei o primeiro a comprar! XD

Felipe: Kamen Rider ZX apareceu pela primeira vez no mangá de Yamada Goro, assistente de Ishinomori. A maior parte dos demais Riders da franquia também foram adaptados para mangá por outros de seus assistentes, dentre eles se destacou Mitsuru Sugaya. Mas a maior parte desses títulos era de qualidade duvidosa, até Kenichi Muraeda começar seu Kamen Rider Spirits, que por acaso reconta origem e história do ZX.
Nome: Rodrigo Candido 25/01/12 08:10
Vou ser sincero: sempre achei as histórias do mestre Ishimori mais empolgantes que do mestre Tezuka. Muitos de seus protagonistas refletem uma certa angústia em relação a humanidade que raramente vi em outras produções japonesas.

PS: Kamen Rider Spirits é bom demais, merece um post não acha Felipe ?
Nome: Rodrigo 25/01/12 08:43
Impossível ler e não dar-lhe os parabéns.
Parabéns!
Nome: Alexandre Nagado 25/01/12 09:43
A criatividade de Ishinomori não parecia ter limites. Ele chegou a escrever até mesmo a letra de pelo menos uma canção do Kamen Rider Black, a sentimental "Ore no seishun", que foi (mal) cantada pelo ator Tetsuo Kurata. A música tocou num especial de cinema, que por acaso teve uma participação de Ishinomori como ator, interpretando um velho pescador. Nessas horas, o mestre apenas se divertia.

Parabéns pelo texto, Felipe. Indiquei com gosto.
Abraços!
Nome: JAGUARHX 26/01/12 03:52
Ishinomori era espetacular.

Alguém sabe se chegou a existir um crossover,em manga,de todas as grandes criações de ishinomori ?

Felipe: Na revitalização de Skullman realizada por Kazuhiko Shimamoto aparecem, além do personagem título, Joe de Cyborg 009, Kamen Rider e Hayate de Henshin Ninja Arashi. Mas na última página estão presentes Goranger, Kyodain, Inazuman e Robot Keiji também. Não chega a ser um grande crossover, mas é o mais próximo que existe disso, além da aparição de Kikaider no mangá de Inazuman.

Também não esqueçamos do quanto ele influenciou outras obras,como guyver;muitos lutadores da série street fighter e até de king of fighters(como blanka que tem muitos elmentos de kamen rider amazon;Q o androide de street3 que se assmelha a Robot keiji;Skullumania nem precisa dizer de onde se baseou,né? ;Ralf jones usa movimentos de Kamenr riders e,juntamente com Clark,faz poses de batalha de super sentais;etc...)

Felipe: Coincidência ou não, os ciborgues 009, 006, 004 e 005 apareceram como personagens jogáveis no Street Fighter Online. Eles foram únicos personagens de outra franquia a dar as caras, talvez porque o jogo foi lançado em 2009, ano em que Cyborg 009 foi celebrado de diversas maneiras.

Por sinal:Sempre achei que kamenr ider é para os japoneses,o que o homem aranha é pros estadunidenses:alguém em algum momento já admitou ou comentou a semelhança entre ambos os personagens em nível conceitual?Digo,o lance de herói mal compreendido que luta contra outras ''aberrações'' que tiveram origiem semelhante ao dele;que se vestem/se tornam semelhantes a insetos ou aracnideos;e que lutam por uma humanidade que os odeia enquanto existem em uma verdadeira tragédia grega? É notavel como quase todos os primeiros monstros que os vários kamenriders enfrentam são baseados em aranhas.(jaguares e rinocerontes também estão estre os monstros padronizados que sempre tem de aparecer na galeria de vilões de cada versão dos riders)

Felipe: Olha, a julgar pelo Kamen Rider original, eu vejo mais semelhanças com o Batman. No mangá ele não só possui um mordomo fiel (Tachibana Tobei) que trabalha em sua família há gerações, como também é herdeiro de uma enorme fortuna, que mais tarde ele dedica à criação de um super-laboratório. Mas ainda assim, as semelhanças terminam por aí. Diferente do Homem-Aranha, dificilmente alguém se identificaria com a situação de Hongo Takeshi. Ele não só se tornou algo diferente contra a vontade, ele não pode voltar a viver como era antes. Além de não ser capaz de controlar sua força, ele não pode se envolver em relações humanas normais, porque ao menor sinal de estresse, raiva ou angústia, as cicatrizes da cirurgia que o criou voltam à tona. Diferente do Homem-Aranha, onde a morte do tio o inspirou a se tornar herói, o Rider vive um dilema diferente, ele faz o que faz porque é o único que pode.

Não só isso, como Kamen Rider, na verdade, são duas pessoas distintas, mas isso é história pra uma outra hora. Geralmente o primeiro monstro que todo Rider enfrenta é baseado em uma aranha e o segundo em morcego, mas isso é feito somente como forma de homenagear o original. Maior parte dos personagens de quadrinhos americanos só se tornaram conhecidos no Japão através de filmes, desenhos e seriados. Nos anos 70 a Marvel tentou lançá-los no mercado utilizando de artistas locais, mas a iniciativa não foi tão bem sucedida quanto eles esperavam. Batman, por exemplo, só caiu nas mãos do Jiro Kuwata (8Man) porque a editora queria uma série em mangá para promover a estreia no Japão do seriado de 1966, aquele com o Adam West. As semelhanças, geralmente, são resultado de fontes de inspiração em comum, como a literatura pulp de ficção científica.
Nome: Elrik 26/01/12 06:25
Lancaster, solta a dica: Onde você acha o material desses caras para ler? E do Ishinomori, o que você já leu, quando e, principalmente, como? Sim, em materias jornalisticas é entendido que o escritor não pode se colocar na matéria, mas aqui nos comentarios você pode se soltar, ok? :P

Alexandre: o artigo é do Onodera. Pergunte a ele, ué. :D

Felipe: Bom, pra começar, você precisa aprender a ler em outra língua. Em inglês, os títulos disponíveis não são tão diferentes dos nossos, mas já dá pra começar. Italiano e francês são essenciais, já que muita coisa de autores clássicos anda sendo publicada por aquelas bandas. Eu nunca estudei formalmente nenhuma dessas línguas, mas até consigo pegar bem, principalmente o italiano. É preciso um pouco de teimosia no início, mas com o tempo vai perceber que não é assim tão diferente do nosso português e que dá pra entender pelo menos 85% da história, um pouco mais do que isso dependendo do título que você escolher.

Ainda assim, a maior parte do que eu li estava em japonês. Não é algo que eu recomendaria pra ninguém, mas eu comecei a dar os primeiros passos para entender essa língua ainda na infância. Não sou descendente de japonês, como o "Onodera" pode sugerir, mas um amigo de um amigo meu era japonês e ocasionalmente me emprestava VHSs e jogos de videogame que eu simplesmente tinha que apanhar para entender. Eu comecei usando aquelas cartilhas bem simples que explicavam o alfabeto do katakana e do hiragana. Com algum tempo, eu podia ler, mas não compreender o que estava escrito. Mas assistindo animes no idioma original e tentando ler mangás, pouco-a-pouco eu fui assimilando os significados daquelas palavras por associação. Na adolescência, eu comprei meu primeiro mangá em japonês quando fui pela primeira vez para São Paulo. Por ironia, esse mangá era justamente Kamen Rider Black. Eu fiquei fascinado pelos desenhos e coloquei na cabeça que precisava entender aquilo, foi então que eu reuni tudo que já sabia sobre o idioma, me armei com dicionários e os tradutores eletrônicos da época, e, com muito esforço, consegui terminá-lo. Fiquei tão impressionado que repeti a experiência com diversos outros mangás, até que hoje eu, de alguma forma, adquiri conhecimentos suficientes para ler por conta própria. Se quiser tentar a mesma experiência, recomendo mangás que não tenham toneladas de diálogos e, principalmente, contenham furigana.

Nome: JAGUARHX 27/01/12 01:58
Felipe: obrigado pela tirada de dúvidas,mano.

Sobre o kamen rider original se parecer mais com o Batman do que o homem aranha:talvez você tenha razão.É que,quando falei as comparações entre ambos,deixei passar certos detalhes...

por exemplo:
-eu estava me concentrando muito na figura e conceitual do kamen rider black que é o rider que mais se parece com o Aranha(mais do que os outros) e vou dizer o porquê:
1-Black foi transformado contra a vontade e não pensava nunca ser um herói.Quando o criaram,o fizeram com o interesse de torná-lo um monstro ou uma arma viva do mal.Ele se torna um ''herói'',como você disse,ao aceitar sua responsabilidade vinda com sua nova natureza e passou pro lado da jsutiça/bem.
Dicotomicamente,o Aranha não queria ser um herói(a não ser na infancia),foi transformado contra a vontade,mas aceitou isto e queria usar seus poderes de forma mesquinha e egoísta até que uma ocasião do destino o fez ir pro lado do bem.

2-O Aranha ganhou seus poderes da mesma forma que muitos de seus inimigos:acidentes com experiencias cientificas que lhe deram poderes e caracterisicas proprocionais aos animais que eles usam como totens.

Os Rider,principalment e o Black se tornaram seres semelhantes em origem e poderes aos seus inimigos

Felipe: Bom, a questão é que durante um bom tempo, Ishinomori tratou Kamen Rider como um ganha pão (Inclusive, é por isso que não existiram mangás baseados nas inúmeras continuações, esses ele deixou nas mãos de assistentes). O produtor Tohru Hirayama era a verdadeira força criativa por trás dessas séries, enquanto Ishinomori ficava a cargo de aparecer com a premissa e os principais designs. Em Black, ele teve um pouco mais de peso criativo, a série foi concebida como um remake do original e por isso ele exigiu que a equipe tivesse pouca ou nenhuma experiência com Kamen Rider. Ele escolheu pessoalmente o elenco e serviu também como consultor criativo. Mas fora esse envolvimento, a série continuava nas mãos da equipe da Toei, enquanto Ishinomori explorava livremente suas ideias na versão mangá que foi publicada na Shonen Sunday. A diferença entre as duas produções é tão grande que resta pouco em comum para elemento de comparação. Um ponto crucial é que, no mangá, Kotaro não tem memórias sobre o seu passado, ele as retoma com o decorrer da história. Além disso, ele é muito menos heroico do que sua contraparte televisiva e esse é um elemento explorado na conclusão da série que, bem, eu não poderia estregar a surpresa.

Ambos são vistos como traidores ou idiotas pelos seres que enfrentam(pois não usam seus poderes como eles:para praticar crimes) e são mal vistos pela sociedade que eles protegem.Por sinal,Skullman,inazuman e os mutantes psiquicos das organizações psi/espers do Ishinomori tem muita coisa em comum com os X-men e a patrulha do Destino dos quadrinhos Marvel e DC.Será que os escritores do ocidente e oriente não tiveram contato com a obra do outro bem antes dos leitores de seus paises? Por exemplo:Frank Miller era fã de lobo solitário muito antes dele ser publicado oficialment enos EUA e isto lhe serviu de criação para sua versão de Demolidor,além da Elektra e Ronin.

Felipe: Olha, eu admito que existam semelhanças, mas a verdade é que uma premissa como a dos X-Men já não era novidade para quem lia ficção científica naquela época. Pegue por exemplo Odd John, de Olaf Stapledon, publicado 1935, e verá claramente o embrião de todas essas histórias. Dentre outras influências de Ishinomori estavam Slan, de A. E. Van Vogt, More Than Human, de Theodore Sturgeon, The Chrysalids, de John Wyndham, entre muitos outros. Todos esses livros abordavam os mesmos temas e foram publicados entre as décadas de 30 e 50.

3-Tanto os Kamen riders quanto o aranha não foram criados conceitualmente para usarem armas: seu próprio corpo,sua couraça/roupa é que são suas principais armas! Quando Black se torna RX e,depois,RX bio rider e Robo rider Rx,podemos ver um paralelo com o Aranha ganhando o uniforme simbionte ainda nos anos 80.

Felipe: Esse não é um fato amplamente difundido, mas a verdade é que Black RX foi o primeiro e único Rider dessa era a ser produzido sem o envolvimento direto de Ishinomori. Nem mesmo os designs em RX foram feitos por ele, e é possível observar claramente um estilo mais próximo a outras produções da Toei na época, como as séries Metal Hero e Super Sentai. Existe até um boato de que Ishinomori se sentiu ultrajado pela adaptação americana feita com Black RX pela Saban, mas esse provavelmente é mais um dos muitos mitos propagadas pela internet.

4-Tanto os riders quanto o aranha são considerados heróis mascarados genuínos,pois,ao contrário de muitos heróis da época,andavam com suas identidades totalmente encobertas por mascaras inteiriças,sem espaço para boca descoberta ou olhos a mostra.Tanto stan lee e ishinomori chegaram a dizer que pensaram em heróis mascarados por que isso tornava os memsos misteriosos,com um ar de ''vilões'',como os antigos pulps de ''mystery men'' ou os filmes preto-e-branco de ''kaijins'' (que,por sinal,se tornou o termo pra se rferir aos soldados e mosntros da shocker depois).''Usando uma máscara,o nosso personagem mexe com o imaginário das crianças:ele pode ser branco,negro,asiático,velho ou jovem!Com a máscara,qualquer um poderia ser o homem arnaha'' dizia lee.

5-Tanto os riders(principalment eo black) quanto oa ranha se 'transformavam'' ou parentavam ser duas personalidades distintas em vários momentos:peter parker até age e pensa como se o aranha fosse sua segunda persona,um papel que ele interpreta pra combater o crime e que é o oposto de peter.No caso do kamen rider black,como próprio ishinomri explicou em uma entrevista,os antigos riders eram serea alterados que atingiam seu potencial de combate ao revelar seus trajes biônicos.No caso do Black o buraco era mais embaixo: kotaro minami trocava de moléculas/corpo e existencia com seu outro ''eu/corpo'' que permanecia em outra dimensão sobrenatural até que sua vontade acionasse o king stone ciberneticamente instalado em seu ventre.

http://www.youtube.com/watch?v=ueANFRP3S0Y

http://www.youtube.com/watch?v=8TwjqiQJ3fc

http://www.youtube.com/watch?v=qCIJJWtWHDc

Mas,com ou sem couraça ou simbionte,trocando apenas de roupa ou vestindo uma armadura,riders e homem aranha,ambos,tem um complexo de personalidades entre sí,mas são definitivamente uma persona cada um.O alterego dos personagens não chega a ser tão separado deles mesmos ao ponto de ser visível que sejão existencias divididas igualmente.


Felipe: Na época da pré-produção de Kamen Rider, Ishinomori era um homem muito ocupado. Quando Tohru Hirayama marcou uma entrevista para convidá-lo a participar do projeto, o editor de Ishinomori só lhe concedeu 30 minutos. Hirayama achou que era melhor remarcar o encontro para algum outro dia, mas Ishinomori o disse para se sentar. Naquele momento, Ishinomori só havia lido o conceito original do programa, a história de um lutador de luta-livre que tinha uma vida dupla como super-herói. Mas em questão de minutos, já apareceu com uma proposta de design que Hirayama adorou. Ele levou os desenhos de Ishinomori para seus superiores, e eles também ficaram igualmente impressionados. O problema é que o próprio Ishinomori não ficou satisfeito e decidiu que queria alterar o design, ele sentia que estava "comportado" demais e queria substituí-lo por algo mais "grotesco e fantástico". Foi então que ele apareceu com uma outra versão, desta vez inspirada por seu Skullman. Mas para mudança tão drástica, o programa inteiro teria de ser reformulado. No final das contas, os produtores decidiram que o personagem era macabro demais para um programa infantil. Ishinomori reformulou o design e fez o teste mostrando-o a diferentes crianças, incluindo seu próprio filho. No final, o favorito por unanimidade foi o Kamen Rider ao qual nos habituamos.

Agora, no caso do Black, há um choque tremendo entre a versão mangá e a versão para TV. No mangá, ele era exatamente igual aos monstros que enfrentava e não existia um King Stone. Ele nem sequer pilotava uma moto quando transformado, além do fato de que suas roupas se rasgavam quando assumia sua forma grotesca. Não havia também indícios de uma mudança de personalidade. A verdade é que Black foi um "herói" muito pouco convencional, mas acho que foram elementos como estes que me fizeram gostar dele. Além disso, no Japão nunca foi coisa incomum um herói andar com a cara totalmente coberta, vejo o exemplo do Gekko Kamen, do Nanairo Kamen ou do Condorman.


ANTES que eu me esqueça: grande Felipe...você sabe me falar se realmente o manga de ishinomori ''mensage from space'' que originou o tokusatsu de mesmo nome em 78,veio antes do sucesso de star wars de 77? Muitos fãs falam que o manga veio antes e que lucas,enquanto estava no japão a procura de um possível estúdio/local para filmagens, teve o mesmo em mãos poucos antes de definir a produção dos seus filmes e que teria copiado MUITA coisa de ishinomori(afinal,contam que darth vader teve muito de seu jeitão copiado de hakaider).

Felipe: Não, o mangá foi publicado ao mesmo tempo em que o filme estreou nos cinemas. É verdade que anteriormente Hakaider havia inspirado o Darth Vader, mas Ishinomori também ficou muito impressionado com Star Wars. Além do "Messenger From Space" que ele realizou em conjunto com a Toei, ele também voltou a beber da mesma fonte em seu mangá The Star Bow.

Obrigado novamente pelo papo e pela atenção,Felipe. Sucesso em seus projetos,cara.
Nome: JAGUARHX 27/01/12 04:24
Puxa,Felipe...muito obrigado por estes esclarecimentos.Não sabia que a versão mangá de black era tão diversa da versão da TV:apesar de já me trem dito que o black do manga era mais parecido com o kamen rider shin do que o próprio black.

Felipe: Shin foi um projeto dos sonhos para Ishinomori. Aquela teria sido a versão definitiva de Kamen Rider na visão dele, se não fosse o amadorismo da produção que resultou em um produto de terceira categoria. A Toei simplesmente não estava preparada para contar uma história madura e que exigisse um elenco à altura. Bom, o mangá de Kamen Rider Black é um belo exemplo do que poderia ter sido.

Mas,se você puder me dizer como termina ou onde eu poderia ''ler/baixar'' os scans da versão manga via email ( jaguarhx@yahoo.com.br ) eu agradeceria muito,pois não sei ler em japonês e dificilmente conseguiria encontrar a versão papel de black em qualquer lingua,logo,não evite o spoiler de algo que nunca poderei ler sem ajuda.Hehehehe

Felipe: Bom, quando eu comecei a escrever para o Maximum Cosmo, eu escrevi uma matéria sobre "Kimba, O Leão Branco". Na época, eu acreditava ser impossível que uma obra dessas fosse algum dia ser publicada por aqui e acabei entregando o final sem aviso prévio. O tempo me provou errado. E bem, o Kamen Rider original está sendo traduzido para o inglês, então... Tudo é possível. Black ainda é uma série muito popular entre os fãs brasileiros e não há título melhor para lançar Shotaro Ishinomori por aqui.

Sobre o personagem de luta-livre que ''quase'' foi o kamen rider -1:ele chegou a publicar este conceito ou algo assim depois? Pois a descrição que você disse me lembrou muito astekaizer(que é do go-nagai se não me falha a memória) .

Felipe: Ele não tem relação direta com o Astekaiser, Go Nagai simplesmente era um grande fã de luta-livre. Nos anos 90, ele criou o Juushin Ryger em conjunto com a Sunrise e os direitos do personagem foram vendidos para promover um lutador profissional de verdade, aos moldes do Tiger Mask, baseado no mangá do Ikki Kajiwara. A ironia é que o lutador acabou se tornando muito mais popular do que o próprio personagem.

Sobre ''human more than human'':é um livro que conta sobre um grupo de orfãos com poderes psiquicos/mutantes que agem feito uma quase ''unidade'' ? Ou estou confundindo? Sei que muitas obras de ficção dos anos 30 pra 60 fizeram muito sucesso com mutantes e espers,mas a maioria deste material só lí poucos trechos ou li boatos por não ter chance de conseguir tal material.Infelizmente.

Felipe: Bom, em linhas curtas, é isso mesmo. Seis indivíduos extraordinários que juntos formam um único organismo, chamado no livro de Homo Gestalt. Eles só não são necessariamente orfãos. Recomendo a leitura.

E,me desculpe se estou te alugando muito: ishinomori tem uma obra que sempre quero saber mais e acabo sempre mostrando aos meus alunos que nunca tiveram a oportunidade.

Felipe: Não hesite em perguntar. Divulgar o trabalho desses autores foi um dos motivos de eu ter me juntado ao Maximum Cosmo. Se estiver sendo útil, só quer dizer que estou fazendo um bom trabalho.
Nome: JAGUARHX 27/01/12 03:27
Eu não conhecia o jushin ryger/lyger:Obrigado pela informação Felipe.

Só fico alegre e triste ao mesmo tempo:O meu personagem,o Jaguar,faz mais de dez anos que mexo nele e toda vez descubro que posso dar o poder e o estilo que eu quiser pra ele que sempre descubro um personagem japonês ou de pulp fiction que tem caracterísiticas em comum com ele.Heheheheh.Juro por Deus que não conhecia o juushin ryger e acabei de assistir um trecho dele no youtube e vejo que ele e o jaguar tem alguns poderes ''update'' em comum...putz...lá vou eu modificá-lo de novo.hehehehe

Mas,olhando o visual do juushin ryger,ele se parece um pouco com o astekaizer mesmo: paleta de cores,poses e até o lance do elmo com crista/juba lhe dando a impressão de selvagem com um leve ar de nobre(como um leão).

Sobre o kamen rider black: mano...Deus te ouça pra que publiquem obras em manga do ishinomori aqui.Mas,duvido muito.E,se sair algo por aqui,digo que é mais fácil pra eles publicarem o rider spirits (o que não seria ruim).

De qualquer forma,não tenho medo de spoiler: pode me contar o final que eu,gostando,compro do mesmo jeito se sair no Brasil.hehehehehe

Abraços,mano Felipe.
Nome: Jussara Gonzo 29/01/12 01:22
What a wonderful world!

Mais do que as obras do rei Ishinomori, fiquei bastante interessada na biografia dele. Ah, incrível como por detrás de um grande artista sempre tem uma grande tragédia.

Achei muito interessante este mangá Jun. Gosto de quadrinhos sem fala, psicodélicos e oníricos. Fiquei estranhamente feliz ao ver o descarrego de ego e inveja do deus Tezuka, embora isso, de maneira alguma, o desmereça aos meus olhos: ora, ora.. ele também era humano!

Também interessante ver, pela primeira vez, quantidade e qualidade se unirem, quando muitos dizem que elas são incompatíveis. Quantas obras ele criou ao todo? 770?! Certamente um ativista do mote "uma ideia ruim não aplicada é melhor que uma boa ideia na gaveta"!

Sobre o texto, senti que o final pareceu cair no vácuo. Parecia que haveria mais. Na espera por mais artigos do rei do mangá!
Nome: Takeshi 29/01/12 08:19
A razão pela qual você ser o único na blogosfera brasileira a divulgar Shotaro Ishinomori e outros autores pouco reconhecidos aqui no Brasil é simples: ninguém entende de mangá como você por aqui. É frequente ver gafes cometidas por profissionais da imprensa que ainda reduzem o mangá e outras mídias a um estereótipo ou um estilo.
Nome: Dino Meirinhos 02/02/12 08:31
oi,

concordo com o Takeshi, não tem ninguém no Brasil a entender tanto como você! Essa é mesmo a mais pura das verdades!!!
Nome: Amandio 03/02/12 06:03
Mais um post seu é que vale a pena ler, parabéns por seu trabalho e conhecimento.
Nome: Osvaldo 04/02/12 12:17
oi,
Também sou daqueles que preferem as histórias do mestre Ishimori às do mestre Tezuka, acho mais interessantes. Mas esse é a minha humilde opinião.
Nome: Clara de Sousa 04/02/12 02:13
Muito interessante esse seu post sobre magá e todo o seu blog, ainda nem consegui ler metade, mas já percebi o trabalho fenomenal que você tem aqui.
Nome: Mirela 04/02/12 03:05
Eu sou muito fã de tezuka!
Nome: Carmen 04/02/12 07:06
oi,

não conhecia seu blog e me interesso muito por tezuca, você faz um excelente trabalho nesse blog, parabéns!
Nome: Pitágoras Sobrinho 05/02/12 11:08
Alguém sabe onde eu posso encontrar a "Declaração do Mangá" de Shotaro Ishinomori? Seria uma ótima referencia (pode ser em inglês mesmo, mas se possível, em português).

Felipe: Você pode encontrar trechos dela em inglês aqui: http://en.ishimoripro.com/prof/manga.html
Nome: João Ferreira 05/02/12 08:19
Ótimo texto, já tinha ouvido falar que Shotaro Ishinomori era um dos grandes criadores japoneses mas não tinha ideia de sua importância.
Nome: Maga 12/03/12 04:50
oi,

valeu a diga sobre a "declaração do mangá", estava procurando isso mesmo para um trabalho sobre o assunto!
Nome: Bruno Santos 19/04/12 12:17
Valeu pelo Artigo ! Realmente esse site é ótimo, sempre com textos muito bem escritos e bem elaborados e ainda por cima fazer um post sobre Shotaro, não se esquecendo desse grande gênio! Fazia tempo que eu não vinha aqui nesse site, mas quando passo sempre tenho surpresas !

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