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Dez 17
Tezuka, para Todas as Idades
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Categorias: Osamu Tezuka

Algumas pessoas já tiveram a oportunidade de ler o texto do próximo post (AQUI), dedicado a Kimba, o Leão Branco, do nosso colaborador Felipe Onodera. Originalmente ele foi postado aqui no Maximum Cosmo, mas acabou sendo truncado em uma mudança de servidor – e acabou enterrado em seu canto, esperando uma boa oportunidade para voltar ao ar como se deve. No entanto, uma iniciativa de diferentes blogs – listados nessa página do Facebook – está trazendo uma iniciativa bem interessante na esteira do dia do mangá – 3 de Novembro, data do nascimento tanto de Osamu Tezuka, a pedra fundamental dessa estética nos quadrinhos japoneses, quanto de Takao Saito (autor de Golgo 13 e a cabeça por trás do Movimento Gekiga) e Goseki Kojima (artista de Lobo Solitário, que nasceu no mesmo dia e ano que
Tezuka). Foi um grande dia, sem sombra de dúvida. A iniciativa se chama Tezuka Day, e cada um desses blogs dedicará um post a aquele que foi o primeiro e maior nome da história dos mangás.
Não havia oportunidade melhor para resgatar esse texto. Talvez pelo fato de Tezuka ter chegado no Brasil, como quadrinhista, através de obras de sua fase madura como Buda e Adolf, eu começo a detectar uma certa tendência por aqui de se considerar os materiais mais juvenis do autor como obras menores; por esse viés míope, o relevante seriam suas obras adultas. A mesma miopia que faz com que a crítica especializada por aqui considere o superestimado Vagabond de Takehiko Inoue uma obra-prima enquanto seu trabalho mais importante, o juvenil (e brilhante) Slam Dunk é tratado aqui como uma obra menor.
Na verdade, sem desmerecer seus trabalhos adultos, são as obras juvenis de Tezuka os seus trabalhos mais importantes e suas maiores obras-primas.
Era com elas que o coração do autor realmente estava – é antipático e incômodo constatar isso, mas é fato: ele tentou deter a carreata dos quadrinhos adultos no Japão, simplesmente por ter um ego deste tamanho, reagindo de forma agressiva ao se ver como ultrapassado aos olhos de sua geração: em 1959, ele soltou um ataque feroz ao gekiga chamado Para os Novos Artistas de Mangás para Crianças ("Atarashii kodomo mangaka no minasan e"):
"Vocês estão prestes a escrever quadrinhos para crianças. E esse é um trabalho importante. Já pararam para pensar o quanto importante esse trabalho é? Se vocês tivessem ideia, vocês jamais escreveriam algo que não pudesse ser lido por crianças (...). Você pode dizer 'eu estou escrevendo para adolescentes mais velhos e adultos', mas eu tenho que lembrá-los que a maior parte das pessoas que frequentam as locadoras de mangá (N. do T.: na época, anterior à ascensão dos grandes almanaques semanais, mangás eram produzidos diretamente para locadoras de quadrinhos). Aqueles que lêem séries de detetive como XX e OO, são na sua maior parte alunos da quarta e quinta série. Além disso, seus desenhos não são bons o suficiente para segurar leitores adultos de qualquer forma." (cf. Natsu Onoda-Power, God of Comics: Osamu Tezuka and the Creation of post-World War II manga, 97; )
Por mais que eu considere fundamental a atenção com os quadrinhos infantis, eu não condenaria nenhum ser humano que levantasse o dedo médio a Tezuka nesse momento.
Por outro lado foi justamente esse ego de Tezuka que o levava a ser combativo e competitivo: talvez para mostrar que ele podia ser tão bom quanto todos os autores de Gekiga que começaram a condenar sua figura, ele iniciou suas experimentações com quadrinhos adultos na história curta Rakuban, daquele mesmo ano. É uma obra experimental, com diferentes estilos e uma trama muito reminiscente da multiplicidade de pontos de vista e versões de um Rashomon (tanto o filme de Akira Kurosawa quanto o conto original de Ryunosuke Akutagawa no qual ele foi baseado), aonde são apresentadas cinco versões de uma mesma história – no caso, um desmoronamento irregular em
uma caverna, do ponto de vista dos mineradores. Assim, quando os quadrinhos para adultos, uma década depois, mostraram que não só apenas vieram para ficar no japão; como também quando o quadrinho juvenil acompanhou o amadurecimento de sua geração através de trabalhos seminais como os de Ikki Kajiwara e mostrou que não podia ser mais ingênuo como antes; ele, movido por esse espírito de competição, começou a produzir obras maduras como MW e Ode to Kirihito. E temos que levar em conta que mesmo nos quadrinhos adultos ele produziu obras-primas como Buda e Adolf. Não são trabalhos que refletem, digamos, má vontade. Tezuka jamais se contentaria, ou se rebaixaria, a associar seu nome a um produto menor.
Mesmo assim, é bem claro que essas obras surgiram mais por um misto de desafio e necessidade de se manter no mercado do que pelo prazer criativo do autor. Um bom termômetro para o estado de espírito de Tezuka no período foi justamente a série Black Jack, que surgiu graças a iniciativa de um editor da Shonen Champion (revista semanal para garotos da Akita Shoten – e tradicionalmente a mais casca-grossa do segmento), fã de Tezuka: esse editor queria que seu ídolo encerrasse a carreira com dignidade, em um momento em que as portas se fechavam para seu trabalho, e lhe deu um espaço livre para fazer a série que bem entendesse, pelo tempo que quisesse, sem influência do público.
Só que com essa série, Tezuka viraria a mesa: voltou a atrair um público jovem, a ser respeitado por uma nova geração, e isso se reflete justamente em Black Jack – que começa com um tom sombrio, refletindo justamente o estado de espírito de seu autor naquele estágio, e gradualmente ganha tintas mais esperançosas a medida em que sua carreira vai sendo reconstruída. Não à toa, é o trabalho mais longo do autor. Feitas as pazes com o público jovem, ele ainda faria mais um trabalho de sucesso dentro desse demográfico: The Three-Eyed One (Mitsume ga Tooru), publicado justamente na revista semanal para garotos Shonen Magazine, da Kodansha, de 1974 a 1978 (gerando tardiamente uma versão animada para a tv em 1990, de 48 episódios). O que não deixa de ser sintomático: foi justamente na Shonen Magazine setentista que se deu a revolução dos mangás modernos, com obras como Star of the Giants e Ashita no Joe, tornando-os aquilo que conhecemos hoje – e por pouco não colocando Tezuka de lado no seu caminho para o progresso.
Tudo isso está sendo exposto justamente para pontuar que os temas mais profundos de Tezuka sempre foram devidamente tratados em suas obras juvenis. Talvez porque existe uma mentalidade no ocidente que associa "infantil" a "raso" – mas demográfico jamais deveria ser considerado juízo de valor. Há obras desnecessárias, irrelevantes, rasas, apelativas e estúpidas escritas para um público adulto, e obras voltadas para um público infantil que mordem de tal forma os nervos certos que só não dirão nada a um adulto se ele for um completo idiota. Como eu costumo dizer, boa parte dos que querem mais
sangue e peitos de fora em uma história frequentemente são tudo, menos adultos, mesmo que já passem dos cinquenta anos de idade.
O ponto é que Tezuka claramente se sentia mais confortável ao escrever para garotos; é na sua obra juvenil que as preocupações humanistas e ecológicas do autor apresentam maior impacto, através de contraste: sem grandes excessos gráficos, muitos deles são extremamente dramáticos e eventualmente cruéis – e talvez por isso mesmo eles sejam tão mandatórios ainda hoje como leitura para uma criança. Isso não está sendo dito à toa: cada vez mais, a produção infanto-juvenil vem sendo asseptizada, ditada pela estética dos canais de assinatura de hoje; os anos noventa mostravam um caminho de amadurecimento para a animação americana para todas as idades – que foi abortado a chutes pelas Miley Cyrus e Jonas Brothers da vida. Já li em algum lugar da internet um comparativo interessante a respeito desse processo de imbecilização: comparem um desenho da Nickelodeon dos anos noventa como Ginger ou até mesmo um Coragem, o Cão Covarde (que eu pessoalmente considero irregular e até chato em vários momentos, mas nos seus pontos mais altos parecia ser uma versão animada dos filmes de David Lynch) com atrocidades como ICarly ou Os Feiticeiros de Waverly Place.
Na verdade, essa estética tween de nossos dias é a pior coisa ao qual se pode submeter uma criança. E não digo isso por nostalgia mal colocada.

A própria programação infantil e juvenil americana de modo geral, com uma ou outra exceção que acaba apenas confirmando a regra, não é feita realmente para entreter crianças e jovens; é feita para os pais se sentirem tranquilos com o que os filhos assistem na televisão, podendo deixá-la como babá ao invés de agir como pais de verdade. Não custa lembrar que o pai ao qual essas emissoras se dirigem nos Estados Unidos são o Homer Simpson e o Peter Griffin, e desgraçadamente essa postura tem sido importada por aqui. Comparem os filmes da Sessão da Tarde de hoje com os de quinze, vinte, trinta anos atrás. É algo assustador.
Um dos sinais mais claros dessa tendência aconteceu com o próprio longa-metragem em CG de Astro Boy – edulcorada e cheia de concessões – para não dizer com a mais recente série animada do personagem, que já veio do Japão
suavizada, não apenas para poder ser exibido nos Estados Unidos sem problemas como também não sofrer cortes nas mãos dos americanos. Não adiantou: os cortes vieram assim mesmo, tanto cortes que alteraram percepções de ritmo (portas abrindo, etc), como de conteúdo propriamente dito – e sim, foi essa a versão que aportou por aqui. Não vou falar dos cortes da série original quando o material foi exibido na televisão americana pela primeira vez em 1963, porque afinal de contas era de se esperar levando a mentalidade geral na época em que isso aconteceu; os anos 60 ainda não haviam começado em espírito, as mulheres ainda usavam cabelos bolo-de-noiva e os maiores hits daquele momento eram... Barbra Streisand, Pat Boone, Jo Stafford e Doris Day. Eram tempos sombrios.
Não deixa de ser curioso que embora o nome de Disney tenha sido associado a "entretenimento familiar", o velho Walt (representante de uma época de "filmes de produtor", como David O. Selznick e a dupla Samuel Goldwyn e Louis B. Mayer, cujos nomes eram mais lembrados nos cartazes do que os diretores sob seu serviço) tinha uma noção bem mais clara de bem, mal, dubiedade e mesquinharia do que muito cineasta que se pensa "adulto" nos dias de hoje. Nem é preciso apelar para suas vilãs mais tradicionais; basta ver Dumbo. Podem reparar: o verdadeiro vilão é a mediocridade e baixeza da sociedade, e os nervos expostos ali mordem até hoje. Algo que seus sucessores jamais tiveram a capacidade, ou vontade, de entender. Não é a toa que um O Rei
Leão nem chega perto de um Kimba o Leão Branco (e embora eu saiba que 99% das acusações feitas por fãs ocidentais contra produções americanas seja mera paranóia de quem toma procedência como juízo de valor, esse caso não dá para ser negado; basta ir ao próximo post e tirar a prova); a Disney de hoje é uma mera fábrica de princesas para merchandising e não tem mais cacife criativo para oferecer camadas extras de leitura.
De certa forma, Kimba está ao lado de um Dumbo ao transferir dramas humanos a um contexto animal. Não por acaso ele próprio foi inspirado por Bambi – que está longe de ser a mera história de um veadinho (embora eu compreenda o porquê dele ter gerado tantas piadas por aqui. Em um país latino e de sangue quente como o Brasil, a atitude "meiga" dos personagens em sua infância iria fatalmente soar vergonhosamente constrangedora, mesmo). E de modo geral, essa percepção de que o mundo não é bonzinho e que pode dar pauladas devastadoras em quem caminhar desavisadamente por ele é uma tônica constantemente presente na obra infantil e juvenil de Tezuka. As lágrimas derramadas por uma criança na frente da tela podem trazer uma mensagem preciosa que ela carregará para a vida.
Só que hoje em dia os pais tem medo de deixar sua criança chorar.
É por isso que mais do que nunca, eu repito, e eu sei que estou sendo repetitivo nesse texto: a obra juvenil de Tezuka é necessária. Mesmo uma obra "madura" como Buda foi concebida como um projeto para todas as idades (ela passou por revistas para leitores maduros como a Comic Tom, mas também esteve presente em revistas para garotos como a Shonen World da Ushio Shuppansha) – e eu sempre vou recomendar a tristíssima História de Roro (que assim como Kimba, é protagonizado por animais), presente no terceiro volume da coletânea Osamu Tezuka: The Best Short Stories Collection – como uma das melhores coisas que se poderia passar para uma criança ler.
(embora nem eu tenha certeza se essa história foi feita para um público juvenil originalmente, mas cá entre nós: alguém realmente cresceu traumatizado pela história do panda e do filhote de tigre em Don Drácula quando foi exibida pela saudosa Rede Manchete?)
Tezuka sempre fez questão de falar sobre preconceito e intolerância, mas também sobre coexistência possível; de boas intenções, mas também da mediocridade humana; dos males da guerra; do equilíbrio entre homem e natureza; de ciclos de vida, com a morte como parte natural da vida; e de propósitos e limitações da ciência.
Será bom ter filhos, para que um dia eles possam ler isso.
Agora fiquem com o próximo post, sobre Kimba, o Leão Branco. Boa leitura.

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Comentários:
O importante é que as obras seguintes vieram carregadas de tudo que havia de mais importante nessas três citadas, e levaram os temas abordados para um novo grau de amadurecimento. Eu dou muito mais valor ao material infanto-juvenil de Tezuka do que a fase niilista da sua carreira. Inclusive li muitas dessas histórias para minha sobrinha mais velha, enquanto ela ainda era criança. Tetsuwan Atom, Jungle Taitei, Vampires e tantos outros continuam clássicos obrigatórios e esse é um mérito que ninguém pode tirar deles.
Aproveitando o gancho, numa recomendação rápida e rasteira, quais títulos recomendados para ter um panorama legal da obra dele (indo de todos os gêneros)? Pode ser em espanhol, francês ou inglês.
Alexandre: se você tem acesso a francês, sinta-se feliz: todas as obras importantes do autor estão saindo por lá. Os franceses valorizam muito os clássicos e não se fazem de rogados quanto a tezuka. Mas há boas coisas em inglês. Para a fase inicial de sua obra, recomendo a trilogia de ficção científica composta por Metropolis, Lost World e Next World; para os clássicos juvenis, recomendo a trinca Kimba, Astroboy e A Princesa e o Cavaleiro (este último ganhou uma edição respeitável em inglês pela Vertical); para os materiais mais transicionais – com um olho em leitores mais velhos mas ainda pertencentes a revistas juvenis, indico Dororo e Black Jack; e para a fase mais adulta do autor, recomendo Adolf, Buda e Apollo's Song.
De fato o mais importante numa obra é o valor dela própria, não a idade a qual se refere. Não lembro quem disse isso, mas falaram que a diferença entre escrever para uma criança e para um adulto é que, para o primeiro, você tem de escrever MELHOR ainda.
E realmente precisamos de alguma coisa mais "adulta" nas obras infanto-juvenis até para ajudar a estas crianças e jovens a serem adultas um dia. Ah, que saudade da antiga Série Vagalume de livros! Que saudade quando o Cebolinha pixava muros e o Bolinha usava estilingue! Suas versões "Jonas Brothes" me dão engulhos!
... notou a responsabilidade, senhor Ação Magazine? ;p
Alexandre: ué, não foi você quem notou o "recorte de ideias" em Expresso?
Mas o importante é também manter o ritmo e não acabe que nem Turma da Monica hoje em dia, você sabe...
Quando a revista começar a ganhar mais popularidade e receber os primeiros e-mails dos pais histéricos, me avise!
Eu tenho a versão em DVD e fiquei curioso sobre os cortes, já que não conheço a versão original do Tezuka, nem vi a nova versão japonesa.
Alexandre: a versão em dvd que saiu por aqui é o remake que sofreu cortes nos Estados Unidos.
E também fiquei curioso sobre esses cortes de Astroboy. Poderia falar de alguns deles o indicar algum site que fale disso?
Alexandre: AQUI tem um texto interessante (em inglês) falando da censura dos animes no ocidente. Mas no caso específico do novo astroboy, o que assusta é que o desenho já veio pronto do Japão sem precisar de cortes; no caso específico desse anime tem essa pequena comparação AQUI.
Existe sim a valorização das obras adultas (e também das obras 'cult', acima de tudo), mas no caso do Tezuka enxergo que há outros fatores influenciando. Tezuka não é contemporâneo, ritmo, traço, estilo, tudo data de outra época, de um paradigma estético que, apesar de fundamental, foi superado. Continua existindo apenas para olhos treinados. Crescemos com os títulos oitentistas da Jump. Confesso que há obras antigas que não me trazem prazer como entretenimento, é mais como conhecimento.
Alexandre: É um ponto.
Com cinema isso fica mais claro. Há filmes brilhantes dos anos 20, mas a linguagem é ultrapassada, é muito difícil alguém ter tesão em expressionismo alemão ou cinema soviético sem um olhar treinado e experiente, e sem interesse e perspectiva histórica. Não vou convencer ninguém a se assustar com Bela Lugosi hoje, o cara vai achar que estou de brincadeira. Daí, as obras adultas do Tezuka, se antigas em linguagem, funcionam de modo mais atual como temática.
Hoje o legal é pegação na high school americana (Hannah Montana), musicais assépticos (HIgh School Musical) e mundo digital (iCarly). Os americanos eram fodas pra desenhos, cresci assistindo os excelentes Doug, o Fantástico mundo de Bob etc.
Alexandre: na verdade eu acho que os Live-Actions americanos e politicamente limpinhos de hoje são daninhos em essência e miraram justamente na rótula da animação americana por estar em um processo de amadurecimento. Antes, foi a censura quem truncou uma das escolas de animação mais poderosas do mundo. Hoje, são as hanna montanas na vida. E foi usado como arma justamente isso, a sensação de "ser maduro".
Explicando: existe uma mentalidade de desenho animado ser coisa para criança. E uma coisa que criança adora é parecer menos criança. Daí o surgimento do "tween": ele cobre justamente aquela fase que a gente costumava chamar de pré-adolescência antes que macaqueássemos a gringolândia. "Eu não sou criança, sou tween."
Eu reparo que muito dessa cultura dos live-actions americanos para adolescentes como a conhecemos hoje surgiu na revoada conservadora que faz parte da era bush. Adolescentes que fossem também modelos de comportamento – daí os jonas brothers usando anéis de pureza, etc. Ao mesmo tempo, eles são personalidades, e a Disney conseguiu estabelecer em miniatura um similar ao antigo Star System de Hollywood, aonde os atores também vivem a imagem que se faz deles. Eles aparecem em cadernos, em jornais, são notícia – e isso tem maior penetração do que um personagem de desenho animado. Ao mesmo tempo, tem uma imagem controlada – e a Disney é especialista em "entretenimento família". Uma coisa leva a outra: conservadorismo WASP (White Anglo-Saxon Protestant, ou melhor, "Branco, Anglo-Saxão e Protestante") sendo enfiado goela abaixo mundo afora.
Nesse sentido os desenhos americanos sofreram um murro na pleura. Tirante um novo thundercats aqui ou um avatar: the last airbender ali, houve um recuo qualitativo monstruoso em relação aos anos noventa. Eles estavam começando a trabalhar uma maturidade de discurso em sua animação infantil. Mesmo em live-actions, eu duvido que uma série fabulosa como o Cidade Misteriosa (Eerie, Indiana) do Joe Dante surgisse nos dias de hoje – e olha que naquela época ela já era exceção!
Ser oco é até necessário porque esses live-actions não veiculam nem história nem personagens, veiculam personalidades! Roteiros consistentes são até indesejáveis porque até desviam atenção dos atores que devem ser o centro das atenções. Ou seja, Miley Cyrus é o verdadeiro produto de Hanna Montana – e acredite, ele vende. Vende moda, vende cadernos, vende imprensa da vida alheia – vende enfim.
O irônico é que com isso uma criança se sente mais madura por gostar de um seriado ao invés de um desenho animado – mesmo que um Ginger ou um Hey Arnold tenham mais maturidade e inteligência ao falar sobre a faixa etária de seus espectadores do que toda a programação de live-actions da Nick e da Disney Channel reunidas. E tragicamente, a nata da Nick – quando ela era Nickelodeon – povoa as madrugadas.
Talvez leve dez anos ou mais para que surja algo brilhante como Invasor Zim na animação comercial americana, sem brincadeira.
E embora eu ainda não tenha filhos, não é o que temos hoje o que quero para eles. Nem por um decreto. Assepsia WASP é a maior fábrica de cabeças-de-vento da face da terra. E desgraçadamente estamos importando isso.
Apesar disso, é essencial pontuar qual é a do Tezuka, seus grandes títulos são, muitas vezes, os mais subestimados.
Alexandre: verdade. Um dos motivos que me moveram a escrever esse post foi quando alguém chamou Kimba de obra menor no Twitter. Longe disso. É um de seus trabalhos mais fundamentais e relevantes.
Você tocou num ponto que sempre repito: nada mais adolescente que Berserk.
Alexandre: ou Bastard. Ou até mesmo Battle Royale. Olha, muita gente se assusta que um título escabroso como Apocalypse Zero tenha saído em uma revista para garotos (a Shonen Champion) no Japão. Esquecem que o segmento juvenil ao qual a Champion se destina é justamente aquele adolescente que vestindo camiseta preta e fazendo cara de mau, continua sendo adolescente. Talvez seja mais adolescente propriamente dito do que um material pós-infantil como os da atual Shonen Sunday.
Trágica é essa diferenciação entre obra infantil, adulta e cult. Quase todo grande diretor dizia que assistiam filmes diversos, eles existiam além dos rótulos, por isso nem eles mesmos se consideram autores cults. Simplesmente absorviam o que cada história podia lhes oferecer. E é uma hipocrisia fudida dos rotuladores que ao mesmo tempo acham lindo o Pequeno Príncipe, já que o livro é socialmente permitido para adultos no Brasil. Demonstra que não entenderam nada do Saint-Exupéry.
Alexandre: o pior é que tentaram me empurrar O Pequeno Príncipe na infância e eu passei a ter ojeriza do livro. Sinceramente, aquilo é para adultos se acharem sensíveis, mas como literatura infantil é desastroso. O Maurice Druon, cuja obra adulta é igualmente relevante na França, se deu melhor em sua incursão infantil com O Menino do Dedo Verde na minha opinião.
Alexandre: sinceramente, O Pequeno Príncipe é um livro que sempre me causou uma péssima impressão.
Quando eu Cresci e Três Sombras são duas obras (também francesas) que visam uma parcela da população infantil e tratam de uma temática as vezes vista como tabu (morte) de forma séria e sem concessões amigáveis. Muita gente esquece que criança pode ser tão cruel ou profunda como um adulto.
Alexandre: Eu não os li – esse ano foi bem ocupado pra mim e selecionei muito minhas leituras – mas eu acredito plenamente no que você diz. Talvez eu aproveite esse natal para me presentear com eles.
http://www.botecosujo.com/2011/09/o-pato-morte-e-tulipa.html
Não pretendo ter filhos, mas se tivesse esse seria um material que eu daria a eles. Tenho muito medo desse material asséptico que chega para as crianças e adolescentes, dos seriados a la Disney Channel tenho verdadeiro pavor.
Alexandre: eu também. Mas é difícil encontrar opções para eles nesse contexto.
Pequeno Príncipe eu nunca li, e pelo que percebo não perdi nada. E olha, apesar de não simpatizar com a Fernanda Young, gosto de um texto dela onde a famosa "raposa cativada" do Pequeno Príncipe é xingada de dependente emocional pra baixo. Porque eu não aguento o tanto q esse texto é repassado e repetido por aí feito corrente de email e aceito feito um "excelente ensinamento".
Alexandre: sinceramente acho que a Fernanda Young está certa.
Mas fiquei muito curioso mesmo com esses cortes de Astroboy. queria ver eles!
Alexandre: o único local que os listou já não mais está no ar, mas essencialmente, são cortes meio sem sentido.
Alexandre: verdade, isso me incomoda porque mina parte da credibilidade do meu embasamento ao expôr isso no texto. :\
Alexandre: acredito, você não se candidatou a Miss Brasil que eu imagine. XD
Alexandre: obrigado e um feliz 2012 para você também.
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