Busca
Set 27
De Faroestes, Fumettis e Mangás
Compartilhe:
Lancaster |
PERMALINK |
18
Categorias: Artigos e Reviews

Ontem os quadrinhos sofreram uma perda irreparável: morreu o editor italiano Sergio Bonelli, responsável como editor por personagens clássicos como Tex, Dylan Dog, Ken Parker (este, uma obra-prima fundamental dos quadrinhos mundiais; se eu for escolher uma obra à sua altura nos mangás para ladeá-lo, só me restaria mencionar o Lobo Solitário de Koike e Kojima) e outros dignos de nota. Eu sei que é um tema off-topic para este blog, mas não poderia deixar passar batido. E embora os títulos de sua editora transitassem por diferentes gêneros como o terror (Dylan Dog), a ficção científica (Nathan Never) e o policial (Julia, que aqui forçosamente ganhou o infeliz título de Aventuras de uma Criminóloga), é por seus títulos de faroeste, como Tex e Ken Parker, que os da Bonelli se tornaram conhecidos mundo afora.
Eu imagino que poucos dos meus leitores tenham arriscado dar uma olhada nesses títulos, da mesma forma que os leitores de fumetti não devem olhar para os mangás de modo diferente. Foi triste ler um ídolo pessoal meu, Giancarlo Berardi, declarar em entrevista que os mangás lhe parecem frios e pouco emotivos (embora ele reconheça que há grandes desenhistas, como Katsuhiro Otomo, de Akira). Por outro lado, muitos leitores de mangás nem iriam tocar em um Ken Parker caso lhe caísse em mãos (e verbalizariam isso com muito menos polidez do que Berardi). Na verdade, muitos leitores de mangás no ocidente nem reconhecem o que faz de um mangá um... mangá. Como esperar que eles reconheçam aquilo que existe além dos mangás?
É como um leitor e fã dos quadrinhos japoneses – e dos inspirados por eles – que eu faço essa crítica aberta. Quando um consumidor de mangás menciona no twitter que lê, digamos, o Super-Homem, é possível que apareça uma criatura dizendo "pô, véio, tá traindo o movimento?" – e pior, dizendo essa frase a sério. Mas há coisa pior. A maior aberração que já ouvi falar sobre a estética é que a arte-final definiria um mangá – e que por esse viés existiria uma "arte-final americana", de linhas grossas, e uma "arte-final mangá", de linhas finas. Dêem um Gen: Pés Descalços para essas criaturas, pelo amor de Deus, e os amarrem em uma cadeira até que eles tenham lido tudo e digerido o que está ali. Na verdade, mesmo autores de hoje como George Morikawa (Hajime no Ippo) dificilmente poderiam ser considerados detentores de uma linha delicada.

Isso vem de longe. Eu passei o último semestre do ano passado – e o primeiro desse ano – sobrevivendo aos ácaros da revista semanal para garotos Shonen Magazine da segunda metade dos anos setenta, e dá para ver que a arte final de vários autores, de modo geral, está longe de ser fininha – incluindo mestres como Tetsuya Chiba (Ore wa Teppei) e Go Nagai (Suzano-O).
Mas posso ir mais fundo: vocês considerariam a imagem a seguir um mangá se não fosse a onomatopeia em japonês?

É, eu imaginei.
Estou evitando pegar obras mais alternativas para passar meu ponto – se eu citasse, digamos, um Ultra Heaven (obra de Keiichi Koike, com uma pegada mais europeia), acabaria evidenciando trabalhos que se destacam por sua natureza de exceção. A imagem acima é de Rokudenashi Blues, um dos clássicos da Shonen Jump oitentista. Mas mesmo uma obra contemporânea como Worst, carrega características similares em termos dessa visão geral. O mangá não precisa ser bonitinho pra ser mangá.
Defendo abertamente o ponto do mangá ser uma estética, não uma procedência. Não engulo a história de que "é preciso ser japonês para fazer
mangá" (e não, o Panty & Stocking da Gainax pode ser muito legal, mas não é um anime e não é sua procedência nipônica que vai fazer dele o que não é). O manhwa coreano nada mais é do que o mangá feito por coreanos – o fato deles serem produzidos da esquerda para a direita reflete apenas seu sentido de leitura local, nada mais nada menos. Mas eles fazem o correto – produzem para si mesmos e procuram solidez no mercado interno antes de procurarem se expandir. E mesmo eles não são cegos às diferentes possibilidades dos mangás no próprio Japão – o que se reflete na própria liberdade de sua produção.
Por outro lado, aqui no Brasil, os fãs de mangás parecem ter uma imagem muito limitada do que é realmente um mangá.
Conta pontos para isso o fato de que eles são os primeiros a deixar de lado obras que mostram possibilidades diferentes quando elas chegam às bancas. Basta lembrar do desempenho de Monster e Sanctuary (sim, isso ficou na garganta!). Ou de Seton, um raro mangá de... faroeste a chegar por aqui – e que de quebra conta com o traço do grande Jiro Taniguchi, um autor relegado a segundo plano em seu próprio país, mas respeitadíssimo na Europa. Seton (em que o elemento western é mais incidental do que definidor) conseguiu a proeza de ser esnobado tanto por leitores de material mais maduro, ou de faroeste, quanto pelos fãs de mangá.
O que poderia ter sido uma interessante porta entre dois mundos acabou se tornando um título isolado, lembrado (bem) apenas pelos poucos que o encararam.
O pior é que das grandes estéticas ocidentais de quadrinhos, talvez o mais próximo do mangá seja o fumetti. Há quem me chame de maluco quando digo isso. E realmente, à primeira vista há pouco a ver um com o outro. O fumetti é caracterizado superficialmente por seus traços anatômicos e narrativa ultra-tradicional, mas conta com um fator que o distingue dos comic books americanos e da BD franco-belga: compressão narrativa.
Explicando melhor: o mangá é o que é porque ele tem espaço para ser assim.
No Japão, as séries são produzidas em capítulos curtos que são publicados em uma frequência regular, de forma que ao ser compilados, possam se valer de uma narrativa pouco compressa, aonde acontece relativamente pouca coisa por página. Ou seja, na prática, ele tem muito espaço – a longo prazo – para contar uma história.
Os fumetti não tem esse longo prazo a seu favor: já nascem grandes. Suas histórias são contadas em cem ou mais páginas por edição, o que permite um ritmo de compressão narrativa bem menor. São máquinas de leitura imediata, cuja narrativa – em seus moldes clássicos – privilegia a clareza ao se contar uma história com imagens. Podem clicar para ampliar a imagem a seguir, mas convenhamos que de longe dá para ver basicamente o que está acontecendo.
Os japoneses são mais ousados, mas mesmo seus critérios para sangramentos de quadros e cortes também são pensados de acordo com essa busca pela clareza.
Outro dia no twitter, eu estava comentando sobre a narrativa visual de... Masami Kurumada. Ele mesmo, o criador de Cavaleiros do Zodíaco. Antes de chamarem o coitado de Rob Liefeld japonês, sejamos diretos: se ele realmente fosse o incompetente que muita gente vocifera, jamais teria pisado na Shonen Jump um dia. Ele definitivamente não é o melhor desenhista ou roteirista do mundo, fato, mas parece ser bem consciente de suas limitações, sabe qual é o seu público e centra fogo justamente em composição e narrativa visual. E nisso, ele é bem competente e até didático (talvez até mesmo para compensar suas deficiências) – cliquem para ampliar a imagem logo a seguir, para vocês pegarem o ponto.
Podem reparar: Kurumada leva o olho do leitor para onde ele quer e sabe quando deve usar imagens de impacto. Ele talvez seja um dos mais efetivos representantes dessa "narrativa clássica" em nossas bancas no momento, goste-se de seu trabalho ou não. E dá margem justamente a esse paralelo que faço com os Fumetti: a busca pela comunicação visual imediata, de baixa compressão – algo complicado nas escolas restantes de quadrinhos, a BD francesa e os comic books americanos, que inserem o máximo de informação possível em uma página – por contarem com uma relação mais estreita e limitada entre espaço de publicação e tempo de serialização para contar uma história; comparativamente, os mangás tem espaço a prestações, graças a seus almanaques e posteriores compilações – enquanto os fumetti os tem à vista.
Mas o mais importante é que mangás e fumetti tem em comum uma vocação como quadrinhos de massa, por assim dizer.
Uma olhada boa nos quadrinhos da Bonelli nos revela que eles são quadrinhos de gênero. Policial, aventura, faroeste, ficção científica, terror. Sua classificação os define em primeiro lugar, e o resto é sintonia fina (Tex e Ken Parker são faroestes, mas ambos são tão distantes entre si quanto água e óleo). De certa forma isso não é tão diferente das classificações demográficas japonesas. O que aconteceu foi que o mangá foi envenenado na última década pela mesma maldição que devorou o quadrinho americano: o crescimento de um segmento fanboy (no caso nipônico, otaku), que come pelas beiradas. Mesmo assim, no Japão o quadrinho ainda é povão, e para cada produto voltado para o fã hardcore ainda há muito material de apelo popular. E ele ainda é direcionado por gêneros: esportes, ficção científica, luta, comédia, policial... notem que aqui não falo em fetiches, meninas que fazem nyaa, itens planejados pra virar cosplay em eventos e similares: falo em gêneros, de verdade. Eu não vejo muita diferença entre o leitor potencial de um quadrinho italiano como Diabolik e o leitor de um Golgo 13 de Takao Saito. Ambos tem um perfil muito próximo, se pensarmos bem (embora, justiça seja feita, nem Diabolik nem Golgo foram muito longe por aqui...).
Talvez, nesse momento em que os quadrinhos no Brasil paulatinamente parecem começar a caminhar, seja uma boa hora para aprender as boas lições que possam ser ensinadas. Pelos fumetti, pelos mangás, por quem for. E talvez essa busca pelo quadrinho popular de gênero seja a lição conjunta mais preciosa que poderíamos absorver tanto dos mangás quanto dos fumetti. Não importando qual a estética que se adote.
Ah, sim: não sabia muito bem como ilustrar esse texto, por isso eu apelei para um dos raros momentos em que o western e os mangás se encontraram com sucesso: Koya no Shonen Isamu, de Souji Yamakawa e Noboru Kawasaki – este, responsável pela arte da pedra fundamental dos quadrinhos nipônicos para garotos como os conhecemos hoje: Kyojin no Hoshi, escrito por Ikki Kajiwara. A série de 1971 foi um dos primeiros grandes sucessos da revista semanal para garotos Shonen Jump, da Shueisha (talvez impulsionada pelo boom mundial do faroeste italiano). Então, por algum motivo, isso me pareceu estranhamente muito adequado – mesmo acreditando, por razões generacionais, que o velho Bonelli deveria olhar torto para os quadrinhos da terra do sol nascente...
Então, obrigado, sr. Bonelli. Tudo de bom – e boa viagem.

Posts similares:
Nova Série Policial na Big Comic
Da série "Crescimento do Mangá Global": França [2]
Como o Japão Reinventou
os Quadrinhos
Post anterior: Lançado Segundo Volume de Kyou no Asuka ShowPróximo post: Remake de Wild 7 na Young King




Comentários:
Enfim, é como você disse: Existe vida além das orelhinhas de gato e dos modelitos extravagantes. E eu diria mais: Muitos só ligam para a questão do desenho, sendo que roteiro também é fundamental. Se fosse para gastar neurônios só desenhando, então não se está fazendo mangá, apenas ilustrações.
...
Até!
Alexandre: eu não diria que o Nagai desenhava bonito... XD Mas ele sabia narrar bem e ninguém diria que o que ele faz não era mangá.
Nada ver, eu sei...
Alexandre: pois é, mas não deixa de ser um comparativo interessante.
Alexandre: o blog não vai mudar tanto assim, mas reduzindo a carga – e mantendo um minimo de posts regulares, vai dar pra manter um filtro de qualidade sobre o que vai ser dito.
Vindo de Giancarlo Berardi achei a declaraçao extraordinariamente superficial, mas não o culpo: ele provavelmente está acostumado com a imagem mainstream do mangá (da mesma forma que muita gente acha que "punk" é apenas um genero musical onde a galera espeta o cabelo e toca guitarras rasgando) sem falar que, em se tratando de um italiano vendo a cultura japonesa, é de se esperar que na visão dele os mangás sejam pouco emotivos.
Alexandre: Se bem que o quanto dessa imagem de emotividade dos italianos também não chega a ser um clichê?
Seja como for eu creio que o Japão, neste exato momento, esteja passando por uma situação semelhante a época em que os quadrinhos foram para comics shops. Uma situação extremamente perigosa, principalmente por causa da crise e da visão protecionista e tacanha dos seus editores. Espero que eles não cometam os mesmos erros dos americanos... e enquanto isso o MELHOR lugar para ser fã de quadrinhos em geral ainda parece ser a França, e espero que daqui a alguns anos seja o Brasil.
Alexandre: Ainda acho que eles podem se salvar. Mas a situação é periclitante...
E um adendo sobre o Kurumada: postei certa vez a imagem dos dois posteres de Furia de titãs: o desenhado e o fotografado. É óbvio que todo mundo rio o "Aioria" de pulso quebrado que estava segurando a cabeça achatada da medusa,mas... convenhamos! Dava muito mais vontade de olhar o desenho do que a insípida foto.
Alexandre: É justamente esse o ponto: ele pode ter um traço feio, mal executado, o que for – mas sabe criar seu impacto e levar os olhos do leitor aonde ele quer.
Ele é tranquilamente o mangá com mais chances de pegar o público (adulto) que lê Tex e lia Conan nos velhos tempos.
Alexandre: é um ponto...
Alexandre: Farra n'Oeste, não é? Ainda lembro dela, eu sinto falta das ilustrações que você fazia dos personagens.
Mudando totalmente de assunto, é observando seu estudo sobre a diagramação e construção das páginas que vejo que eu não sei fazer absolutamente nada! (apenas desenhos puramente aleatórios....tsc)
Alexandre: Deixe de bobagem, você manda muito bem.
Outro ponto que esqueci de comentar: eu acredito que, atualmente, as divisões entre mangás/comics/BDs/fummetis andam caindo por terra lentamente. Pegue o extremamente episódico Walking Dead... as páginas cheias de quadros de Nausicaä... ou mesmo as várias sequencias cinematográficas de Arthur - Uma Epopéia Celta (ESTA ficou na garganta por não ter sido terminada aqui!) só pra ficar nos famosões. Pô, peguem o antigaço Moonshadow, que está no meio caminho entre quadrinho e Light Novel.
Alexandre: Nausicaä não chega a ser um exemplo "atual"... mas entendo. Aquilo, apesar de preservar a compressividade narrativa de um mangá, a faz em uma densidade visual tipicamente europeia. É, em muitos aspectos, híbrido.
Imagino que isso seja uma tendencia natural. E particularmente eu prefiro me ligar mais em autores do que em gêneros. Paul Pope faz o quê? Comics ou mangá? E os Beatles são uma banda hardcore (Helter Skelter), uma banda progressiva (A Day in the life), uma banda punk (I'm so Tired) ou seja lá o que for (Ob-la-di Ob-la-da)?
Eu convivo em meios onde há muitos fãs de mangá (muitos bem hardcore). E me incomoda demais quando percebo que eles se fecham, que ficam procurando por material legal só entre mangás e animes e torcem o nariz pra qualquer coisa que tiver outra origem. Ninguém é obrigado a gostar de tudo, óbvio, mas eu me dou o prazer de experimentar. Já comprei Tex por 2 reais em gôndola de supermercado e achei muita coisa legal (narrativa, uso do nanquim, técnica, etc).
Alexandre: Tex para mim é um veículo genérico de faroeste – porque o personagem é muito simples e muito arquetípico. É sua bênção e sua maldição: quando o roteirista é bom, Tex é bom; quando o roteirista é ruim, Tex é ruim. Mas eu fiquei pisado porque ano passado, saiu uma das melhores coisas do ano no Tex Gigante – a história "Patagônia", que tem um roteiro maravilhoso – e ninguém parece lembrar dela. Não é "nerd" de um lado, nem "cabeça" de outro, pra ganhar atenção.
Abraço ^____^
Alexandre: na verdade é uma perda maior ainda para os quadrinhos como um todo se pensarmos bem.
Abração.
Acho todas as comparações e analogias muito oportunas, e bem serviria como demonstrativo ao leitor radical que seu autor/mangá favorito não seja tão "puro" quanto pensava...
Masami Kurumada? Engraçado, sempre achei a mesma coisa mas nunca ousei comentar isso por aí, mérito seu.
Alexandre: pior que eu cheguei a comentar no twitter que o Yoshihiro Togashi também seguia mais ou menos esse espírito de narrativa acima de acabamento em Hunter X Hunter e só faltaram me linchar... XD
Alexandre: eu diria que mais do que traço, é a narrativa e a relação desta com seu modo de publicação.
No mais, seus artigos são ótimos, adorei a série steampunk, creio que um run pelo cyberpunk seria muito bom.
E porque não, um run sobre autores que são a pedra base.
Sobre mercado, um dia no ônibus começei a pensar se pra fazer o quadrinho nacional, talvez devessemos tentar investir no formato fumetti, ou no formato "Shonen Jump", ou até mesmo no formato da britanica 2000A.D.
Alexandre: bom, em tese é essa a intenção da Ação Magazine...
QUE material nas nossas bancas, além de revista voltadas para o público feminino, usam um nome de mulher como título?
E com isso um título como "Júlia" pode induzir um leitor de quadrinhos, ou mesmo jornaleiro, desavisado a associar a série, um fumetti policial episódico, com revistas de moda, fofoca ou folhetins Arlequim.
Já "Aventuras de uma Criminóloga" serve ao objetivo de informar jornaleiros e o visitante ocasional de bancas, de que ali está um quadrinho policial pronto para entreter quem gosta desse gênero.
É, digamos, a diferença entre "Telma" e "Vale-Tudo" se entende meu argumento hermético e obscuro.
Alexandre: eu explico – é que nos primeiros números foi Júlia mesmo. O problema foi que a Abril processou a Mythos pelo nome e eles tiveram que alterá-lo, por causa dos livrinhos de bolso para mulheres. Mas seu ponto tem sentido, embora não seja esse o motivo pela mudança de nome.
E só um adendo. Sobre Kurumada, sou fã do cara, por causa do CDZ, mas também não acho ele o melhor desenhista do mundo. Acho o traço dele repetitivo e seus desenhos também não são um primor. Mas nunca tinha me ligado nesse detalhe de composição de narrativa dele. Realmente ele consegue fazer o leitor acompanhar o que ele quer.
Alexandre: bom, é esse o mérito do cara. Ele tinha um mínimo de técnica e encontrou uma ideia comercialmente viável. Ele pode não ser o gênio da raça, mas achou seu nicho.
E seja bem-vindo.
Nunca li Hunter X Hunter, mas li Yu Yu Hakushô e achei o material bem didádico em questão de narrativa. É tudo limpo, e entender o que aconteceu é fácil. As lutas eram bem diagramadas - especialmente em comparação com Rurouni Kenshin ou Evangelion, pra citar duas referências minhas da época.
Fiquei muito feliz pelo seu comentário em relação ao Kurumada. Pessoalmente não acho o traço dele ruim. Pelo contrário, quando ele põe um pouco mais de capricho, ele faz um traço bonito sim.
O que eu diria é que o "calcanhar de áquiles" do traço dele é o jeito como ele desenha uma... er... "boca aberta". Não sei se reparou mas o traço fica esquisito quando os personagens aparecem "movimentando os lábios". Parece que não tem nada lá: dentes, lingua etc hehe. Pelo menos essa é a impressão que eu tenho. Se ele tivesse melhorado isso, não teria reclamações dele.
No geral, eu acho que ele faz um bom trabalho. Acontece que infelizmente virou modinha falar dele ou ter birrinha porque foi justo sua criação que mais se fixou no imaginário do público brasileiro ao invés do que o otaku tem como favorito e rotula como "santo graal da absoluta perfeição".
E chamar o cara de "Rob Liefeld" é até covardia. Afinal, o Masami pode não ser o melhor o desenhista do mundo, mas pelo menos os personagens parecem ser do tamanho do cenário rsrsrsrs.
Ah, e por falar em se reconhecer como um autor de "nicho", lembro de algo que o próprio Kurumada falou a revista Henshin quando, na sua entrevista com ele, perguntou algo relacionado ao Toriyama: ele diz que considera o pai do Goku como um ovo de ouro, enquanto ele é "um ovo de ferro" mas que mesmo assim, quando se esforça e se "pole" ele consegue brilhar tanto quanto ele. Parece um tanto sem relação, mas acho que demonstra que ele estava bem com a forma como ele trabalhava.
Eu diria que é isso: mais do querer ser como outro autor, tem é que aperfeiçoar a SUA maneira de escrever uma história e achar o seu lugar no mercado.
- "é preciso ser japonês para fazer mangá"
Sabe, esse tipo de linha de pensamento muito me entristece porque não só é uma frase de incrível preconceito e completa ignorância (já que no final, pode-se rotular tudo como "gibizinhos") como também é um baita balde de água fria em qualquer pessoa que tente se inspirar na narrativa do mangá para criar seu próprio estilo de fazer quadrinhos....
Sinceridade, não entendo esse fascinio que certos "fãs" criam pelo Japão só por causa de algumas das suas produções/valores para criação de histórias. Parece que só porque é diferente do que os que eles se acostumaram e acabou chamando a atenção deles de algum jeito, automaticamente qualquer coisa deles se torna absolutamente superior e mais bem produzida que a de outros países. Triste.
E o pior, o último prego no caixão, é hostilizar a cultura de outro país para exaltar o que vem do Japão só porque este é o país dos animes/mangás (exemplo: criticar duramente a dublagem do Brasil e bajular a do Japão até não poder mais).
@Gabi Martins - Não é a única minha, cara. Eu já até perdi vontade de conferir séries que eu estava gostando por causa dessa "miopia de fã" (by TV Tropes) que simplesmente se recusa a aceitar que nem tudo que é "não japonês" é ruim e que tudo que é japonês é automaticamente bom. Bem como a incapacidade de aceitar que todos tem suas forças e fraquezas.
Pessoalmente, prefiro me considerar como leitor de quadrinhos, acima de qualquer tipo de rótulo: decenauta, marvete, otaku e similares.
E voltando ao tema da nota, não conhecia o trabalho do autor, mas ficam registrados os meus pêsames a família dele.
Alexandre: eu agradeço suas palavras. Mas quanto ao Bonelli, sua importância foi como editor – apesar dele assinar como autor sob o pseudônimo de Guido Nollita. E realmente ele deixa o mundo com um currículo invejável; não foi a toa que ele para muitos era considerado o melhor editor do mundo.
Sim, olhe essas retículas e essa expressividade no rosto, o ângulo cinematográfico. Eu não reconheço isso fora dos mangás, mesmo os quadrinhos "adultos" ocidentais não costumam passar essa sensação. IMO o mangá transmite muito mais emoção através dos desenhos do que os quadrinhos ocidentais, eu diria que nos mangás o importante é a arte enquanto nos quadrinhos ocidentais o roteiro tem um peso bem maior.
Lógico que sempre há exceções, mas eu prefiro chamar de comics quadrinhos americanos, mangás quadrinhos japoneses, manhwas os (péssimos) quadrinhos coreanos e de gibis os quadrinhos brasileiros. IMO esses nomes servem só para identificar a nacionalidade do quadrinho.
Acho uma babaquice querer fazer "mangá" no Brasil, qual o problema em se fazer gibis? Gibi em estilo mangá? Acho ótimo se for bom, mas usar o nome mangá ultimamente virou sinônimo de atrair atenção da mídia sem apresentar um produto de qualidade só por colocar olhos puxados, não acho que é por aí.
IMO Seton é um mangá de ecologia com estética western e é isso, não vejo nada de Tex ou de filmes de velho oeste nele.
E Hunter x Hunter sempre estará no meu coração, gosto demais da arte, apesar do Togashi-sama ser um preguiçoso, um verdadeiro Hiramaru.
Alexandre: discordo completamente e jamais vou considerar babaquice. Acredito que mangá, comic book, fumetti, bande dessinée, cada um traz consigo o peso de sua escola estética. É possível se seguir uma escola estética fora de um país. Não faria uma Ação Magazine se não acreditasse nisso. E a propósito, a Vecchi chegou a criar, com o sucesso de Tex, dois fumettis nacionais: Chet e Cyprus Hook. E são fumettis em todos os sentidos. Há vários exemplos de bande dessinées nacionais. Da mesma forma, não é por ser japonês que eu considero Panty e Stocking um anime – é um cartoon, nos moldes da adult swim americana; e é um excelente cartoon.
Os coreanos fazem mangá pra mim, manhwa é apenas um nome bonitinho. Isso basta.
Hollow Fields é um belo exemplo de quadrinho em estilo mangá, não deve nada aos mangás, é muito bacana e não fosse pequenas diferenças ninguém diria que não é um mangá. É um OEL em estilo mangá e isso não desmerece em nada a obra que é ótima.
Mas para fins comerciais, não é isso que acontece. Os manhwas não são vendidos no Ocidente como "mangas coreanos" porque apresentam uma estética semelhante aos mangás; eles são assim vendidos porque o estilo de traço é semelhante aos mangas tal como genericamente o público ocidental os conhece. Ainda há uma tendência muito forte em atrelar a expressão "manga" em qualquer gibi que tenha olhos grandes, e é justamente essa parte da crítica feita pelo Kuroi que eu compartilho: a grande maioria dos quadrinhistas ocidentais está mais preocupado com o rótulo de manga em seus trabalhos do que de fato absorver a estética dos mangas, e a partir dai fazer algo totalmente original.
E me parece esse ser o seu objetivo com a Ação Magazine: fazer não um manga brasileiro, mas um gibi em estilo manga: o primeiro implica que você apenas se vale de um estilo de traço e aspectos estéticos superficiais dos quadrinhos japoneses, enquanto coloca sua história se passando no Brasil e com referências culturais brasileiras como forma de tentar "diferenciar" sua obra; já o segundo caso implica que você já absorveu a essência estética dos quadrinhos japoneses, e se valendo disto você conta histórias realmente originais e identificáveis com o seu público alvo. E pela minha rápida olhada na Ação Magazine, vocês ainda estão no primeiro grupo. O que, longe de ser uma crítica fria da minha parte, serve também como uma incentivo a inspiração artística de vocês: conseguir, pela primeira vez no Brasil, fazer quadrinhos de longa duração que realmente não sejam apenas um arremedo de manga. Realmente, a vida de quadrinhista no Brasil é dura.
Parabéns pelo texto.
Parabéns pelo excelente artigo. É uma felicidade para mim, e creio para muitos, o fato de tu continuar a escrever nessa intensidade no blog, mesmo estando ocupado com um tão grande trabalho na Ação Magazine.
E um adendo:
"Quando um consumidor de mangás menciona no twitter que lê, digamos, o Super-Homem, é possível que apareça uma criatura dizendo "pô, véio, tá traindo o movimento?" – e pior, dizendo essa frase a sério."
Engraçado que eu li num lugar que o próprio Osamu Tezuka, o deus do mangá, chegou a ser presidente honorário do fã-clube japonês do Super-Homem...
Deixe seu comentário: