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Mai 21
De Novelas e de Adaptações
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Lancaster |
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Categorias: Artigos e Reviews
Deu no ANN (li através do Japan Pop Cuiabá) o anúncio de uma novela de televisão baseada em Detetive Conan, de Gosho Aoyama (esse cuja versão anime está no vídeo logo acima). Porque será que não fico nem um pouco empolgado com essa notícia?
Não é segredo para ninguém que eu tenho uma certa aversão às novelas japonesas – os seus fãs chamam de "doramas", mas novela é novela, não importa o que os fãs tentem martelar. O seu grande problema é justamente a estrutura por trás delas, baseado no Star System das agências de talentos japonesas. Enquanto uma animação atua em conjunto com a indústria de quadrinhos que lhe deu origem – lembram da pontual frase "um anime é um grande comercial de 26 minutos do mangá que o originou"? – as novelas japonesas tem como intenção valorizar o passe do cast de seu elenco – o maior
ativo dessas agências – já que muitas vezes esses atores não são apenas atores, mas também modelos, cantores, o que for. Daí o seu interesse crescente em adaptações de mangás: é uma forma de se aproveitar da popularidade do material em quadrinhos para trazer um fandom próprio para a produção – e assim estabelecer o valor do artista que para fins práticos, é tratado como o verdadeiro chamariz de tudo.
É aí que a porca torce o rabo. O modus operandi estabelecido pelas agências de talentos japonesas remete ao Star System de Hollywood, que implodiu graças às mudanças de atitude no final dos anos sessenta (e que pode ser reencontrado, como um morto vivo ameaçador, em produções como as da Disney Channel e Nickelodeon: você acha que Jonas Brothers usando "anéis de pureza" em público nos Estados Unidos, no auge da onda neocon que tomou a gringolândia, representa o quê?). Os atores da velha Hollywood tinham perfis de público defendidos à unhas e dentes pelos executivos que ganhavam milhões de dólares com seus filmes. Por trás de um ator especializado em papéis de bom moço, poderia estar, digamos, um sadomasoquista com gosto por garotos de programa com treze anos de idade, e os executivos se desdobravam para manter isso escondido do grande público – nem que tivessem que providenciar eles mesmos esses garotos, para manter a discrição e evitar escândalos. Não estou acusando ninguém disso no Japão, mas essa é uma consequência natural do Star System.

Mas há outros efeitos colaterais, e são estes que me interessam pontuar. Voltemos à Hollywood, mas a dos dias de hoje: basta pegar qualquer filme com o Will Smith. Ele é um excelente ator, fato; mas hoje ele é o maior chamariz de público nos Estados Unidos, principalmente dentro de um segmento familiar. Com isso, qualquer projeto que inclua o ator deve ser profundamente desfigurado – ou melhor, willsmithizado – para que se encaixe com essa figura pública. Um bom caso é o relativamente recente Hancock. Originalmente era um filme chamado Tonight, he Comes – que esteve durante anos e anos na assim chamada Blacklist (uma lista dos dez melhores roteiros não-filmados que circulam em Hollywood – e que normalmente, mesmo sendo muito bons, não são filmados por conterem alguma coisa que esbarra com os interesses dos executivos dos grandes estúdios). Digamos que a trama que surge a partir
da segunda metade do filme simplesmente não existia; o ponto do filme era o fato de Hancock ser um verdadeiro canalha com superpoderes (embora ele encontre redenção no final), e não se importava em querer destruir a felicidade da família que o abrigou. Mas isso seria péssimo para a imagem do produto Will Smith, então o roteiro foi dilacerado a machadadas. É por isso que eu digo que todo filme com Will Smith é ruim por definição, mesmo quando é bom.
De certa forma, isso se aplica de um modo geral aos mangás que costumam ser adaptados às novelas japonesas. Em romances mais simples isso não faz diferença. Em outros gêneros, complica. Sempre me lembro de Twin Spica, em que as dimensões físicas da personagem principal são importantes e geram consequências no roteiro (por conta de ser extremamente nanica, os equipamentos da escola de astronáutica tem que ser personalizados para a protagonista; mas isso gera um custo proibitivo, e por isso um dos diretores da escola decide articular uma brutal pressão psicológica sobre a menina, com a ajuda de alguns professores de maus bofes, para fazer com que ela desista); escolheram uma atriz mais alta do que deveria, bagunçando com a linha do argumento. Porque não interessava aos produtores adaptar-se às necessidades do texto; novelas japonesas são veículos de elenco. Se alguma novela japonesa teve, digamos, elenco originalmente adolescente no mangá e todos foram transformados em adultos na versão com atores (já aconteceu em algumas adaptações), você já tem uma idéia do porquê.

Talvez esses interesses expliquem, por exemplo, o ridículo Joe Yabuki metrossexual da nova versão cinematográfica de Ashita no Joe, mas como eu não sei se interesses de agências também se aplicam ao cinema, prefiro ficar quieto. O que importa é que a norma tem sido esta – e os quadrinhos pouco tem a ganhar com isso, já que os espectadores provavelmente não encontrarão a série ou o personagem que procuram caso decidam ir à fonte original (ou, pior, talvez não queiram ao material original por não gostarem do resultado na telinha. Isso é mais comum do que se imagina).
Talvez por isso incomode tanto o fato de que a nova versão televisiva de Detetive Conan… não apresente o Detetive Conan.
Quem conhece a história original de Gosho Aoyama, que é um dos esteios da revista semanal para garotos Shonen Sunday, da Shogakukan, sabe a trama
básica de cor e salteado. O jovem Shinichi Kudo é um talentoso detetive de dezessete anos de idade, transmutado em um fedelinho de seis anos por uma droga experimental pertencente a uma organização criminosa. Com isso, ele adota a identidade falsa de Conan Edogawa, agindo de forma discreta como detetive enquanto não consegue reverter os efeitos da droga. Até aí, tudo bem.
Mas a versão televisiva não será assim. As histórias se passarão antes dos eventos do manga original, focando no Shinichi Kudo de dezessete anos (na série, Jumpei Mizobata) – e por tabela, já se espera uma presença maior da relação entre Shinichi e sua amiga de infância Ran (interpretada por Shiori Kutsuna). Especiais de televisão já haviam testado a fórmula e pelo visto, ela foi aprovada. Obviamente o público do material quer ver os atores, quer ver os galãs teen da vez (com aquela aparência de frango molhado de chuva no terreiro que as fãs desses atores tendem a gostar), e Detetive Conan é apenas um veículo para esse elenco, a serviço de alguma agência. Interessa? A mim não.
Mas admito que parte da culpa da ascensão das novelas japonesas como veículo de adaptação de quadrinhos parte justamente dos próprios descaminhos que a animação japonesa trilhou a partir dos anos noventa. Podem reparar que até os anos noventa, não era tão difícil que um material publicado em um almanaque para leitores adultos ganhasse uma versão animada. As revistas eram produtos populares, a animação também tinha um viés popular.
O surgimento de um segmento de fãs hardcore com poder aquisitivo – leia-se, o otaku – fez com que muitas empresas de animação passassem a produzir materiais voltados a esse público, se afastando do setor popular. Era mais vantajoso criar uma série repleta de meninas bonitinhas em trajes coloridos, com subtons ao mesmo tempo infantis e sexuais (moe é isso, se pensarmos bem; a sexualização da atitude infantil), que desse traço na audiência ao ser exibida em horários ermos na madrugada mas que acabasse rendendo bastante tanto nas suas vendas em dvd (diferentemente de muita gente que acha que tudo na internet é baixável, o japonês compra e gosta de mostrar o que comprou para os amigos) quanto em produtos como bonecas de PVC, almofadas em tamanho família com as personagens, essas coisas… e com isso, um vácuo se criou em termos de penetração popular. Trocaram o duvidoso pelo certo, mesmo que o duvidoso renda bem mais quando se acerta o alvo. O material para o fã hardcore simplesmente é menos arriscado, porque seu público irá consumir de qualquer maneira. Isso abriu um espaço para a concorrência – e ela veio dessas novelas, como poderia ter vindo de qualquer outro lugar. A natureza odeia o vazio.
Claro que novelas de televisão já existiam e sempre tiveram seu público, mas hoje elas também ocuparam o nicho de uma animação popular voltada a um público mais velho (aquilo que eu chamo de entretenimento adulto de massa, e que é tão bem coberto nos quadrinhos por almanaques como a Morning da Kodansha e a Big Comic da Shogakukan – entre vários outros, como pode ser visto na imagem logo acima. Cliquem para ver). Acredito inclusive que, sem juízo de valor nenhum, o seu sucesso entre fãs de material nipônico fora do Japão tenha mais a ver com um fator local indissociável dessas produções do que por seus méritos em si.
Para o fã hardcore ocidental, aquele que gosta de estar virtualmente no japão, conceitos como o de mangás ocidentais ou animes ocidentais são assustadores – porque esse fã se define como identidade de grupo, como boa tribo urbana
que é; esse é o mesmo motivo pelo qual o punk odeia mais aquele que incorpora sua moda a seu cotidiano – o "punk de butique" – do que quem não é punk; é o medo de diluição da identidade adotada, definida pelo que consome e pelos signos que ele incorpora; da mesma forma, se um anime cai nas graças populares, ele é tachado de "modinha" por seus fãs mais hardcore – a palavra-símbolo dessa atitude infantil – para desvalorizá-lo e preservar o campo de força com que esses fãs procuram aprisionar os animes e mangás. A ideia de que animes e mangás possam ser não-japoneses, ou mesmo um produto mainstream em seu país (e podemos ver hoje em dia a influência da estética manga no design, na publicidade e em vários outros lugares), agride sua identidade de grupo.
Foi o aconteceu com Naruto no ocidente; se One Piece tivesse emplacado no Brasil e Naruto nem tanto, muitos dos fãs de One Piece que pipocam na internet, hoje, estariam falando mal de Luffy e companhia e vestindo uma bandana de ninja na testa; a popularidade de Naruto entre pessoas comuns agride sua identidade de grupo. Se uma produção não-japonesa com características de anime estourar mundo afora, será brutalmente atacada por essa gente. Termos ridículos como "imitação de mangá" refletem essas neuroses e preconceitos.
Mas não há como acontecer isso com as novelas japonesas, indissociáveis de sua procedência – e desconfio que não são julgadas por seus méritos, mas pelo fato de serem produzidas no Japão. Enquanto um mangá representa uma estética narrativa e de traço com cânones que embora tenham sido criados no Japão podem ser reproduzidos (e o são, em países como a
Coréia por exemplo); enquanto o anime representa um modo de se fazer animação em termos formais (e que também pode ser reproduzido); as novelas japonesas podem ser boas ou ruins, mas são em essência… novelas japonesas; sua identidade é sua origem. Se o brasileiro Malhação ou o mexicano Rebelde tivessem um elenco nipônico e fossem falados em japonês, conheço muitas pessoas que seriam apaixonadas por aquilo, mesmo que joguem pedras a rodo nessas produções (da mesma forma com que muita gente que consome mangás e animes no Brasil chora de emoção ao ouvir uma baladinha nipônica que poderia ser cantada de forma idêntica em português pela Sandy, aquela mesma que não convenceu ninguém no anúncio da Cerveja Devassa; uma canção igualmente brega na voz dela ganha pedradas dessas mesmas pessoas). E nota, não estou defendendo Malhação, nem Rebelde – que a nível de marmanjo, só valia pelo mulherio, não vou negar. É a hipocrisia por trás de certas atitudes que me incomoda.
É verdade que faz sentido a ideia de que alguns materiais mais adultos como Moteki e Jin (ou os mangás de gângster de uma revista como a Manga Sunday da Nihon Bungeisha) acabem preferencialmente tendo seus rostos ganhos por
atores, fato; também não estou dizendo que uma novela japonesa (não, eu NÃO vou chamá-las de "dorama") não possa ser bem-escrita, bem-dirigida ou ter uma boa interpretação em alguns personagens. Se eu dissesse isso, eu estaria sendo meramente movido por preconceito. Mas é impensável que há quinze, vinte anos atrás, um material bem-sucedido como Yankee-Kun to Megane-Chan, publicado em uma revista semanal para garotos de grande vendagem como a Shonen Magazine da Kodansha, não virasse animação, com o seu tom de humor surreal. Poderia competir no mesmo nicho de um Sket Dance, da concorrente Shonen Jump (e que ganhou um desenho animado muito bacana recentemente). No final das contas, tentaram transplantar esse humor para o formato de live-action. Funciona só de um ponto de vista completamente trash. Talvez tenha sido bom para a agência por trás do elenco da produção, para a carreira do elenco, mas sinceramente, este é apenas mais um dos sintomas de um contexto que tem sido ruim para os mangás e para os animes. "As Aventuras de Shinichi Kudo", a série, não é algo que eu veja como positivo para a franquia Detetive Conan. Quem conhece a série sabe que Kudo é um folgado que pode ser um folgado, por ser bom em tudo o que faz – a graça é ver esse personagem, capaz de assobiar e chupar cana, repleto de toda sorte de limitações por todos os lados – pelo fato de ter sido reduzido a um mero garoto de seis anos.

Sem essas restrições, o personagem seria banal – mas o público dessa novela na certa não é composto por gente que queira ver realmente Detetive Conan. E como alguém que gosta do mangá e do anime, eu posso dizer: não, essa novela não me interessa. Se for para ver novela, vou ver Cordel Encantado, que é um produto bem-feitinho – e apesar do nível das novelas brasileiras ter despencado de um quarto de século pra cá (dêem uma olhada no dvd-box de Irmãos Coragem, para que se veja o quanto as novelas brasileiras já foram boas), ainda mandamos bem melhor do que o resto do mundo nesse quesito. Sem brincadeira.
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Comentários:
Eu concordo com várias coisas que você escreveu, mas gosto de ver doramas (eu escrevo dorama pois é menor que "novela japonesa" XD) sim! Confesso que é pelos atores/cantores ou por simpatizar como o mangá, como foi o caso de Hanadan. Reconheço que nem todos são bons, assim como nem todo animê, filme ou novela é boa, mas alguns são bem divertidos, como Trick. Esse dorama não tem mangá e nunca veria uma trama louca e hilária como aquela em outro lugar, por isso vale a pena garimpar.
Agora, quando um dorama de shoujo faz sucesso na tv, automaticamente o mangá que originou a série entra nas listas de mais vendidos. Em alguns casos todos os volumes. Isso aconteceu com Mei-chan, Otomen, Hanakimi, Hotaru no Hikari, só pra citar alguns. Será que no caso dos shoujo mangás funciona?
Alexandre: talvez precise menos esforço de adaptação para funcionar, ou – mais provável – não seja difícil encontrar em uma agência uma atriz que caiba na natureza do papel.
Em termos gerais lembro de já ter visto boas novelas japonesas, mas é sempre bom lembrar também que a maioria delas se move coberta de muito drama (leia-se: muita choradeira).
Até gosto desse elemento, mas depende dele ser bem dosado também, o que nem sempre acontece, pois há tantas situações exageradas e forçadas nessas novelas quanto existem nas brasileiras.
Alexandre: verdade. Acho que não há como reclamar de muita coisa que sai no Brasil ou mesmo no México/Venezuela nesses casos.
Uma adaptação bem feita, que faça sentido é extremamente raro.
Muito mais fácil encontrar boas obras originais do que boas adaptações.
Não sou entendida neste assunto, mas pelo pouco que sei antigamente os outros movimentos jovens eram mais de massa - todo mundo queria fazer parte da massa, todo mundo queria ser contra o Vietnam e ouvir os Rolling Stones. Agora todo mundo quer ser parte do pequeno recheio do pastel de vento e creio que isso começou com o punk e seu discurso de "excluídos" o que não deixa de ser irônico porque justamente estes "excluídos" apontaram o norte de TODOS os outros movimentos jovens que viriam a seguir - alias um dos motivos dos punks DETESTAREM emos é justamente porque a molecada roubou deles boa parte da estética visual.
Alexandre: constatar isso deixa os punks com um ar um tanto ridículo... XD
É engraçado para mim pensar que novelas, fora do Brasil, podem atingir um grande público. Sei que as novelas brasileiras são exportadas para tudo que é canto, mas... elas têm mesmo tanta audiência assim? Com tanta novela brazuca sendo exportada e que mostram vários tipos de brasileiros de varias classes sociais (pela lente da fantasia, claro!) porque os gringos INSISTEM em nos ver como um bando de bolivianos que fala um "espanhol esquisito"? Outra coisa: sei de novelas mexicanas que estouram lá fora e que geraram filhotes (ugly betty, rebeldes) mas já teve uma novela tupinikin que estourou e virou moda?
Alexandre: Escrava Isaura fez um sucesso monstruoso e Vale Tudo chegou a ter um remake mexicano se bem me lembro. Além do mais, quando falamos de gringos, pensamos sempre em Estados Unidos – e esses tem horror a legendas e dublagens muito na cara. Se você ver os extras de alguns westerns italianos adaptados para o inglês pelo Mickey Knox, você vai ver que o maior desafio era tornar o texto em inglês convincente para que os americanos não percebessem que era dublagem.
Para finalizar "frango de terreiro molhado de chuva" foi uma ótima comparação!
Alexandre: Mesmo? Me parece algo tão óbvio... XD
Eu por exemplo não tinha conhecimento disso que aconteceu em Hancock ( que aliás vi dia desses e achei que poderia ter sido mais audacioso em sua proposta), e passarei a ver os filmes do Will Smith de um jeito diferente.
Enfim, só pra comentar mesmo, já que não tenho o hábito, mas sei que é algo importante pra quem bloga, e os posts aqui são ótimos. XD
Tchau!
Alexandre: obrigado, Effe, e seja bem-vindo.
Alexandre: o novo City Hunter, ninguém merece. Meu Deus... XD
Infelizmente, a molecada gosta de rotular, cuspir no prato que comeu e etc.
Abomino essas coisas, mas procuro ignorar.
Fechando e falando em novelas, recomendo aqui a excelente "Renascer". Pra quem curte quadrinhos, os primeiros capítulos tiveram uma influência narrativa e tanto.
Abs,
Alexandre: pessoalmente não gosto do Benedito Ruy Barbosa em novelas das oito. Eu o acho muito superior em novelas das seis – o remake de Cabocla, para mim, foi superior à versão original pelo que me lembro dela, e bem superior ao combo Pantanal, Renascer, o Rei do Gado e Terra Nostra. Por outro lado, o remake de Paraíso foi desastroso para mim; exigiu um pouco mais em termos de adaptação porque o interior mudou, e foi nisso que tropeçaram. Mas ainda o acho mais palatável do que seus materiais mais "maduros".
Alexandre: mas já houve muito material animado para público adulto voltado para a massa. Ou você acha que Don Dracula era feito para crianças? A série original se bem me lembro saía na Big Comic, uma revista adulta. Agora estou me lembrando de um anime dos anos oitenta chamado Maicching Machiko Sensei – aquilo não era para crianças, mas era exibido as sete e meia da noite, quando o pessoal deveria estar voltando para o trabalho! É só um exemplo. O que acredito é que simplesmente o segmento da animação mais popular para um público adulto foi sendo gradualmente preterido por um segmento comercialmente mais seguro. E nesse vácuo, as novelas japonesas se instalaram.
Sobre mangás e animes, bem, mangás para mim sempre serão os quadrinhos produzidos no Japão sob aquele sistema etc. Isso não me impede de curtir quadrinhos em estilo mangá. A própria Turma da Mônica Jovem é um exemplo disso, com seus arcos curtos há muita coisa ruim e há muita coisa boa (aliás, sinto saudades do Cassaro produzindo bons roteiros para a TMJ), Hollow Fields que foi lançado pela Newpop é um bom exemplo de OEL. Apesar de não gostar de animações como Wynx sei que há um público para elas, já Três Espiãs Demais eu gostava bastante e acredito que há boa animação em estilo anime fora do Japão sim, só acho feio usar o nome mangá/anime para se promover quando o seu produto não é aquilo que está sendo anunciado.
Alexandre: Hollow Fields é um excelente produto, lamento que nas chamadas no final da revista, estivesse um "essa obra imita o estilo mangá". Isso é uma desvalorização do trabalho, sendo muito sincero. Eu no momento estou acompanhando pouco a pouco a produção do Guardians of Luna, pelos nomes envolvidos isso promete.
Alexandre: na verdade foi isso o que sempre temi. E no final, aconteceu no Japão também.
Mas é aquilo: infeliz (ou felizmente) a gente tá falando de arte comercial, de arte de massa, e a indústria tem de dar um jeito de lucrar de algum modo. Se os doramas (por economia de caracteres xD) dão lucro para as editoras e todos os seus periféricos, então é um negócio do esquema ganho-ganho. Se o esquema ganha-ganha deixou de existir nos animes, então o problema não é propriamente dos doramas, mas daquilo que deixou os animes não serem tão atrativos.
(e fico pensando: será que hoje rolaria um anime de Nana, por exemplo? Que é um mangá extremamente realista? Ou mesmo um KareKano? E são ambos animes muito bons, recomendados para além da otakulândia).
Alexandre: de modo geral os quadrinhos femininos tendem a se dar melhor nesse arranjo – mas por outro lado acho que isso vai reduzir as chances de surgir um "dbz do mangá para meninas" (no sentido de penetração comercial). Na verdade acho que isso tem muito a ver com os motivos do afundamento da Shojo Beat nos Estados Unidos: os materiais da Jump são materiais que tem presença animada e eventualmente produtos de merchandising nos Estados Unidos. Quase todos eles se beneficiavam de produtos para a televisão, divulgando sua existência. Mas você não vê na televisão americana algo dos dias de hoje que tenha as possibilidades comerciais de um Sailor Moon ou de um Hana Yori Dango para as meninas. E não é culpa dos americanos; fazem cada vez menos animes para meninas no Japão se você olhar bem, ainda mais com ênfase em merchansiding. Para o mercado interno nipônico, transformar um material desses em novela pode funcionar, porque não deve ser difícil encontrar uma atriz no elenco dessas agências que se encaixe no papel de uma mocinha mais padronizada. Mas para exportação, essa tendência é desastrosa.
E só pra não estender demais, sobre modinhas e falta de prestígio, fico pensando em vários amigos meus que acompanham seriados que são verdadeiros novelões mas tem nojinho de acompanhar as novelas nacionais. Complicado. E ainda somos os melhores do mundo nisso, apesar do modelo tradicional de novela precisar duma renovação...
Alexandre: E precisa mesmo. Cordel Encantado me ganhou no primeiro capítulo, foi me perdendo ao longo da segunda semana – e me perdeu na terceira semana; virou uma novela normal, com os elementos tão bem introduzidos no começo reduzidos a mera forma de dar colorido ao de sempre.
Lancaster, o que mais posso falar? Fui quase completamente contemplado!
Só digo que concordo com Tabby-chan: "eu escrevo dorama pois é menor que "novela japonesa"". E é melhor para algo mais característico, como você mesmo apontou.
Eu gosto bastante de tokusatsu, apesar de estar acompanhando bem pouco os mais recentes. Um dos motivos para isso é justamente esse Star System.
Já falei sobre isso aqui: http://www.interney.net/blogs/maximumcosmo/2010/02/16/anunciado_filme_de_ashita_no_joe/#c541936 .
Uma parte que neste contexto cai bem, com a carapuça servindo perfeitamente em você e tantos outros, é esta: "O problema é que esse suposto mutualismo constitui, para fãs mais criteriosos, um parasitismo, com as celebridades se promovendo às custas do renome de obras aclamadas."
E "fãs mais criteriosos" não é nem de longe sinônimo de chatos e intransigentes. Não mesmo.
Até mais!
De resto, concordo com o post. Ou melhor, com o que de objetivo foi dito no post.
Foi nessa época em que a série Bishoujo Senshi Sailor Moon (Sailormoon, para os ocidentais) surgiu.
Segundo um dos seus artigos postados neste site há tempos atrás (você se lembra, não é? Era sobre o movimento superflat) , Usagi Tsukino (Sailor Moon) foi uma espécie de precursora ou protótipo do moe, pelo que entendi, já que ela reunia características tão contrastantes, como um corpo bem desenvolvido e uma mentalidade infantil (o que a fazia parecer frágil e necessitando da proteção de um Tuxedo Kamen qualquer), isso sem falar das pernas à mostra e poses sexualmente sugestivas, assim como as demais sailors que aparecem na série.
É por isso que uma obra originalmente feita para o público adolescente feminino caiu nas graças dos otakus do sexo masculino do Japão e do mundo.
Eu havia comentado antes sobre o que levou Naoko Takeuchi, a autora da série, a não permitir a redublagem da versão animada desta no Brasil e no mundo, assim como vetar a publicação da sua obra fora do Japão (ouvi falar em alguns sites de fãs de mangás e animes que Sailor Moon será publicado no Brasil e em outros países, mas me parecem ser apenas boatos, já que a autora parece que não voltou atrás em sua decisão).
Se analisarmos bem as repercussões da versão animada da série fora do Japão, em especial esse sucesso que ela teve entre os fãs do sexo masculino, é muito provável que Naoko tenha se dado conta de que criou um "monstro" (algo que ela não esperava e que acabou saindo do seu controle). Algo como uma "Síndrome de Frankenstein" (referência ao famoso cientista, da obra de Mary Shelley, que criou o monstro que acabou escapando ao seu controle) teria tomado conta da mente da autora, que provavelmente foi tomada por um arrependimento tardio pelo que havia feito.
Quando contei para as moonies (as fãs de Sailor Moon) de um site brasileiro de fãs da série, a relação entre Sailormoon e o moe (entre outras coisas) elas não quiseram aceitar, se agarrando a imagem de inocência e pureza que têm da série, recusando-se a ver o que havia por trás daquela aparência romântica e doce que o anime transmitia.
Bom, retomando o assunto sobre os descaminhos do anime a partir dos anos 90 do século passado, eu não duvido de que isso (a decadência dos animes) começou com Sailormoon. Para mim, pelo menos, foi essa série a principal culpada pelo cenário atual dos animes no Japão, além de outros fatores, como a notória queda da taxa de natalidade no arquipélago (motivada tanto pela prolongada recessão japonesa que persiste desde os anos 1990, como pelas mudanças do comportamento feminino em relação à maternidade e até mesmo ao matrimônio; atualmente elas preferem abrir mão de ter filhos à deixar a vida profissional) entre outros.
Quanto à questão dos fãs/otakus ocidentais, essa aversão deles à popularização de determinado anime entre os não-fãs que você abordou aqui me fez lembrar de uma matéria publicada na revista Veja há tempos atrás.
Naquela matéria da Veja (que eu havia lido), o tema era a aversão de fãs de determinado gênero musical (em especial do heavy metal) à popularização das músicas que eles gostavam.
Havia até uma expressão que os fãs criaram para se referir à esta ou aquela música pertencente ao gênero do qual eram fãs e que, por causa da mídia, se popularizãou entre os não-fãs:
"carne de vaca".
Quando eles viam que o vizinho brega curtia determinada música da banda preferida deles, eles logo diziam que aquela música virou "carne de vaca", e passavam a odiá-la.
O mesmo acontece com os animes no Brasil. Quando alguém que não é fã gosta de determinada série de anime, eles (os fãs/otakus brasileiros)logo passam a falar mal dela, chamando-a de "modinha"(o que é o mesmo que chamá-la de "carne de vaca").
Para eles, a popularização de um anime é o mesmo que banalização deste. Ou seja, é a decadência da série. Ou seja, anime bom é anime de nicho (uma espécie de elitismo, em que os fãs/otakus se vêem como a "elite", tratando com desprezo os demais).
Só falta agora os tais fãs/otakus começarem a fundar clubes restritos para poucos, ou ate mesmo algo como sociedades secretas (com senhas, rituais de iniciação, etc., tudo cercado pelo sigilo característico de tais sociedades), onde para entrar é preciso provar que é 100% fã/otaku, além de jurar manter o máximo de sigilo sobre as atividades do grupo e até mesmo sobre a existência deste.
Eu não me surpreenderia se algum dia isso vier a acontecer, conhecendo os fãs brasileiros como eu conheço...
Alexandre: opa, você mandou duas vezes a mensagem, mas como eu procuro deixar claro nesse selinho verde no topo à esquerda, "esse é um blog moderado". Sua mensagem não vai aparecer imediatamente, mas vai aparecer quando eu ler.
O que eu dou muita importância é justamente o conceito de quadrinho de massa. Sailor Moon era um produto de massa, voltado ao público feminino. Posso não gostar daquilo, mas não vou negar esse fato: era uma história de super-heroína para meninas novinhas, em uma revista de massa para o segmento. Há detalhes que para o ocidental são meio "arriscados" mas de modo geral para o contexto de origem era material de massa; é justo.
Mas embora ele seja parte de um contexto e tenha sua cota de culpa no cartório, não tem mais culpa do que muitos rumos que vinham sendo tomados para essa situação. Se pensarmos bem, o que implodiu com o cenário pregresso de animes de uma vez foi o "pós-evangelion" – e uma série de 1998 como Saber Marionette representa muito bem esses descaminhos (e até mereceu um estudo interessante do Hideki Azuma, PhD da Universidade de Tóquio, a respeito de como ele representa alegoricamente a condição otaku dos anos noventa). Eu diria que o fundo do poço chegou com K-On!, e me lembro de um comentário muito válido a respeito dessa série: as pessoas acusam essa série de ser vazia (e na verdade ela realmente É vazia – ou como uma amiga bem definiu, "slice of nada"), mas esse vazio na verdade é o verdadeiro ponto a ser alcançado; "uma verdadeira destilação total da narrativa para que se torne um veículo puro para os personagens, que são, em si, construções de elementos moezeiros testados e aprovados (golems-moe, se você preferir). A autora do artigo linkado do Japanator sugere que talvez o "vazio" seja um convite para trazer uma experiência pessoal para o que está sendo visto" (esse comentário grifado foi pinçado desse link, em inglês. Vale a pena ler o artigo).
Eu não discordo dessa observação: acho o sucesso de K-On entre o meio hardcore aterrorizante. É o oco total, a não-necessidade do roteiro, o domínio fatal do "nyaaaaaaa!!!!". Efetivamente é o equivalente da era image dos quadrinhos americanos dentro da animação japonesa, e o efeito da presença do fã hardcore. Não há diferença entre o otaku de akihabara no japão e o fanboy de gibiteria nos Estados Unidos, com a diferença de que aquele gosta de ver meninas que na vida real seriam sua passagem merecida para a cadeia, enquanto os fanboys gostam de homens musculosos com malha colante se atracando um contra o outro. O destino da editora Crossgen sinalizou isso: o público fanboy de gibiteria não está interessado em histórias a ser contadas, em gêneros de aventura. Ele quer é ser um cabedal de tabulação de dados cronológicos. Podem notar que as histórias de super-herói se revolvem em si mesmas nos dias de hoje, como uma cobra devorando o próprio rabo. Mas na era image, o tom de "as histórias já eram" (acho que a frase foi de rob liefeld) definiu tudo. Conquanto houvessem poses, dentes rangendo e enquadramentos gráficos arrojados, tivemos o mesmo efeito de uma história deixar de contar histórias para se tornar veículo de personagens em si. A porradaria se tornou gratuita nos heróis dessa fase, enquanto no caso do moe, tudo que elas precisam fazer é mostrar o quanto são adoráveis e merecem ser colocadas no colinho – mas o princípio é o mesmo.
Por isso eu acho que uma indústria tem que mandar o fã hardcore às favas – ele sempre surgirá e sempre estará lá, mas jamais deve ser tratado como prioridade. Quando ele se apossa de uma indústria, ele a torna refém e aliena as pessoas comuns que poderiam ser atraídas por ela. Na verdade, quando ele percebe que chega a esse ponto, ele QUER isso, QUER manter o poder. Ele se torna uma figura daninha. E o mangá, tanto como o anime, se tornaram o que se tornaram porque encontraram espaço para crescer como mídia de massa. É a sua natureza e sua vocação.
E para isso, a indústria tem que se centrar para a população, se voltar contra os que a mantiveram como refém por tantos anos e dizer não. Recusar o seguro para buscar o que tem como render mais dividendos. Para isso você tem que parar para pensar pequeno. E o mundinho do otaku, assim como o mundinho do fanboy, é justamente isso: pequeno.
Alexandre: no caso de restrição de público, não é bem assim. Basta lembrar do que foi uma indústria que fez com que uma Shonen Jump vendesse quase sete milhões de exemplares semanalmente. Infelizmente, essa indústria encolheu.
A perda da importância do papel do animê como uma mídia populesca está relacionada também, alem dos fatos escritos no seu texto, com o seu próprio desgaste de fórmulas. Se perdeu no seu meio, por isso o surgimento de fandoms que alimentam o desejo por essas fórmulas.
Alexandre: como eu disse, se as novelas japonesas ocuparam o espaço que ocuparam, a culpa foi da própria indústria de anime.
A maior parte desse material hoje em dia parece ter direitos MUITO baratos e é fácil de encontrar (quase toda programação da "US Manga Corps do Brasil" vinha daí, lembram disso?). Eu tenho uma pilha de DVDs lançados baratos aqui em Portugal desse material.
Ele é execrável. A verdadeira Image Comics do anime! Roteiros progressivamente mais imbecis e recheados de sexo e violência gratuita.
Não admira que, enquanto um pioneiro do gênero como o primeiro Megazone (que era bem fraco, mas era novidade) vendeu milhares de cópias (na entrevista de um produtor em uma das primeiras edições da revista Animerica ele fala em algo como 100 mil vídeos!), os seguintes venderam cada vez menos, até o ponto em que os lançamentos de OAVs passaram a ser apenas de franquias conhecidas.
Mas eles mostraram a direção que o anime seguiria a partir daí.
Alexandre: tem razão, Don Dracula saiu na Champion. Obrigado pela correção.
Mas nem sempre a Big Comic foi seinen. Ela começou como Shonen Big Comic, um dos títulos derivados da Sunday, e com sua adultização, eles mudaram de nome.
Piadinhas sem graça a parte, acho que o problema dessa adaptação não é nem focar no personagem ANTES dos eventos do manga, mas sim o perigo de uma eventual distorção que seria feita em prol do que o japonês quer ver atualmente (em outras palavras: fetiches). E nisso, eu concordo plenamente com você.
Outra coisa com a qual concordo é seu comentário de que, a despeito da nomenclatura criada pelos fãs, novela é novela. Para mim está certo e vai além: mangá é gibi e anime é desenho. A nomenclatura, a meu ver, só serve para definir que esse desenho ou gibi em especial é algo do Japão ou feito com um estilo de técnica que é característico das produções deles. Mas ainda assim é um desenho ou gibi. A única diferença é o estilo de fazer.
Sobre as novelas japonesas, tentei assistir uma vez e não me interessou muito (gosto de um drama de vez em quando, mas normalmente prefiro mais ação e aventura), portanto não posso avaliar. Mas, concordo que esse negócio de prezar muito a característica visual acaba deixando a obra rasa e desinteresante. Tem que haver um equilibrio, que não ocorre porque por vezes, vejo esses ditos "roteiristas" com preguiça de criar uma história consistente. Para que quebrar a cabeça quando é mais fácil usar mais do mesmo?
As vezes eu confesso que prefiro personagens interessantes acima das histórias, mas a meu ver se a história for tão boa ou melhor que o personagem só tem a acrescentar.
Quanto a indústria, bem, hoje em dia, meio que falta pensamento empreendedor nelas. Por isso que sempre apostam no certo e fogem do duvidoso.
Em relação as novelas brasileiras, eu costumava ser noveleiro na juventude (!), mas acabei parando porque se tornou excessivamente repetitiva e cheia da mesma fórmula de sempre (você também não ficou farto do velho golpe da barriga?). Das novelas mais recentes, uma que eu gostei foi "Da cor do pecado". Achei o final da novela bem emocionante, o que as novelas nunca provocaram em mim.
Aliás, esse lance de novelas me fez lembrar de Kubanacan, que era até interessante no começo (inclusive com referências a HQs) mas acabou decaindo num poço de absurdos tão fundo que terminamos a novela descobrindo que o protagonista comeu a própria a mãe! o_O
Isso foi um dos motivos que me fez largar esse tipo de produção.
Sobre as "Modinhas", concordo em partes. Enquanto é verdade que há aqueles que não gostam de ver seu produto sair do nicho e virar algo com um público mais amplo, acredito que também haja algumas "modinhas" que cairam no gosto do público através da corrupção de o que aquela determinada produção era em prol de apelar para elementos que visem satisfazer fetiches e em alguns casos gera descontrução e descaracterização. E nesse caso, eu até posso concordar com quem não gosta de modinha. Um exemplo disso que estou falando é o próprio Conan caso vire "modinha" ou no caso de animes que geram franquias.
Enfim, infelizmente, acho que a era de criação e inovação acabou. Parece que hoje em dia não é mais como se conta a história e sim como se reconta uma velha história....
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Comentando os comentários (que redundante):
Animaster - Nekomimi, é você? Lembro que foi você que me recomendou o Maximum Cosmo lá no J-box (aliás, muito obrigado
Sua teoria é bem interessante, mas não acho que SM tenha sido a causa. Pode ter sido um sintoma, mas causa? Não vejo isso muito não...
No mais, para mim desde que a premissa seja boa, a história seja algo que faça sentido dentro do universo ficcional e os personagens sejam interessantes, eu consigo assistir. A única coisa da qual sinto falta são batalhas com os heróis "desmorfados"....
Agora, quanto ao que você disse acima...pelo que entendi, o problema em questão não é a aparência física das personagens do gênero moe, mas sim a falta de conteúdo nas histórias.
É como se fosse um livro com uma bela capa, mas com um conteúdo pobre ou até mesmo sem conteúdo. O que está matando os mangás e animes é essa falta de conteúdo, esse vazio que tomou conta dessas mídias, esse vácuo que se formou no meio.
Estariam os japoneses perdendo sua habilidade de criar e contar histórias (habilidade essa que remonta do passado remoto daquela nação)?
Se compararmos os mangás e animes atuais com os criados até o final da década de 1980 e até mesmo com a literatura e as histórias (tanto as escritas como as contadas oralmente) criadas pelo povo japonês desde a era feudal (inclusive a era Edo), passando pela Era Meiji, até a Era Showa do pós-Segunda Guerra Mundial, parece que houve uma mudança considerável na qualidade das histórias atuais, ou ( como você prefere dizer), um declínio destas.
Se os otakus moezeiros só se interessam pela aparência, pelo invólucro, pela embalagem, etc. e não pelo conteúdo em si, até mesmo fanarts e material meramente ilustrativo (pôsteres, livros de ilustrações, etc.) poderiam satisfazê-los, deixando os animes e mangás livres para conquistarem o público mainstream.
Quem sabe? Se algum dia surgir um software que possibilite a qualquer um criar mangás e animes no computador (algo do tipo faça-você-mesmo), voltado para os fãs moezeiros, esse software será tão fácil de usar, já que não será preciso que o usuário saiba criar uma boa história (ou até mesmo uma história sequer) para a criação de um anime ou um mangá no computador (se é que você me entende).
Dessa forma, eles deixarão de consumir os produtos que a indústria do mangá e do anime vinham produzindo para satisfazer esse tipo de fãs.
Uma vez sem sua fonte de renda segura, as editoras e os estúdios de animação japonesas terão que voltar a arriscar com produções voltadas para o público em geral, se não quiserem fechar as portas, é claro.
Com o desenvolvimento dos softwares de computador voltados para a criação de mangás e até de animes, esse cenário poderá vir a se concretizar em até menos tempo do que imagina.
Outra coisa que você esqueceu de comentar é sobre aquela questão dos fãs de mangás e animes brasileiros não gostarem de ver seus animes fazerem sucesso entre os não-fãs, algo que entre os fãs de rock no Brasil é chamado de "síndrome da carne de vaca". Veja matéria abaixo:
http://veja.abril.com.br/241104/p_154.html
E, por fim, sobre até onde pode chegar essa auto-exclusão dos fãs brasileiros, que podem se fechar ao resto do público, em grupinhos, "panelinhas" ou até mesmo em sociedades secretas (por mais absurdo que isso possa parecer).
"Animes, mangás e games: presentes do Takarabune (Navio do Tesouro, referência à embarcação associada aos Sete Deuses da Sorte / Shichi Fukujin)ou Caixas de Pandora(que uma vez abertas, liberaram todos os males que nelas haviam)?"
http://blogandocomoze76.blogspot.com/2010/09/o-mito-da-caverna.html
Vou comentar no meu ponto de vista de quem produz.
Segmentação de mercado é algo mais fácil de se atingir, é difícil ter produtos que atendam a várias "perfis" ao mesmo tempo.
Um fã hardcore é o que consome pontualmente. Fazendo um produto segmentado as chaces de atingir um público mesmo que minimo são maiores.
O público no geral passageiro não é bom consumidor, apenas vai consumir o que for produzido no auge e com o tempo vai minguar enquanto o hardcore vai continuar.
Não conheço o mercado japonês de mangas em especifico, mas se a coisa "babonizou" hoje talvez possa ser por essa razão. Ninguém quer mais arriscar tentando fazer produtos de melhor qualidade e como o mercado está em crise apostam nos Otakus usando as "temáticas rasas" e os atalhos.
Como empresário a necessidade faz com que o sujeito tenha que dar o tiro certeiro.
Sendo fã de mangá espero que o mercado mude, parece que existe uma crise criativa. Mas levando em conta o ponto de vista "mercadológico" acho que a tendência é de o conteúdo Otaku crescer cada vez mais infelizmente.
Afinal de conta se uma formula está dando certo, para que mudar?
abraço,
Admito que volta e meia eu chamo os doramas voltados ao publico feminino de "novelinha", mas eh mais por zoacao do que definição tecnica.
Nem o formato nem a estrutura dramatica dos doramas sao semelhantes a telenovelas, sejam brasileiras ou hispano-americanas.
A regra nos seriados japoneses (tai um termo bem melhor se voce nao quiser usar dorama) sao temporadas curtas, com media de 12-13 capitulos.
Se a temporada faz sucesso, temos temporadas subsequentes e especiais.
Ou seja, formato NADA A VER, com novelas e suas centenas de capitulos. Alias, eh um formato bastante semelhante as series britanicas, com suas temporadas curtas entre 6 e 12 capitulos (tipo Dr. Who, Spooks/MI5, Coupling, The IT Crowd, etc...)
A estrutura dramatica dos doramas tambem tem pouquissimo a ver com uma novela brasileira, onde se seguem varios nucleos de personagens. Os doramas em geral possuem personagens e arcos centrais claros e em pouca quantidade. Mesmo uma aproximacao com as novelas mexicanas (que possuem personagens e arcos centrais mais fortes que as brasileiras) ainda fica forcado, pq as mexicanas ainda assim mantem os varios nucleos paralelos.
Se ja faz um bom tempo que se parou de chamar de "soap opera" de telenovela (pois a estrutura sem fim nao tem equivalente nas telenovelas) chamar dorama de novela eh mais nada a ver ainda.
Fico com seriado japones em primeiro lugar. Dorama em segundo (nao vejo mal em usar o termo em japones pois o formato foi criado no Japao e depois se propagou p/ o resto da Asia).
Alexandre: seriado japonês pra mim é mais aceitável do que Dorama.
Ah, sim, para todo mundo: estou lendo mas estou em dias bem corridos esta semana, então ando mais liberando do que respondendo aos comentários. Mas estou atento.
Você não é a primeira pessoa que eu vejo fazer esse comentário a respeito do Will Smith. Na época que Hancock estreou, não corri atrás porque ele era mais um no meio de uma enxurrada de filmes do Smith, e na hora q vi o argumento saquei que seria aquela água de salsicha de "filme engraçadão, que fica piegas pra terminar com lição de moral" (ou seja, cara com super poderes q caga e anda pro resto do mundo, até que alguma coisa faz ele se arrepender de ter sido tão negligente, ele resolve usar os poderes "para o bem" e todos comemora).
Como pidona que eu sou, queria fazer dois pedidos: primeiro, um link sobre essa Blacklist de roteiros de cinema (dei uma busca via google e não fui bem sucedida). Segundo, queria muito ler o artigo mencionado nos comentários, a respeito de Saber Marionette ser um "resumo" dos animes pós-Evangelion. Esse tipo de material muito me interessa, como bem sabe...
Alexandre: essa blacklist eu conheço desde sempre, ela é muito mencionada em artigos sobre cinema, mas eu nunca encontrei o estado atual dessa listagem (que circula entre os estúdios de hollywood). O Vingador do Futuro já foi uma delas, mas era um filme mais hitchcockiano do que schwarzneggeriano. Mas como a versão de Verhoeven ficou realmente legal, ninguém reclamou muito...
Quanto ao artigo do Azuma, ele estava no seu antigo website em inglês. Só que ele próprio removeu esse site do ar. Por bastante tempo, foi possível ler esse texto via Wayback Machine. Agora é complicado, mas eu pessoalmente tinha a vontade de traduzi-lo e publicá-lo na íntegra nesse blog. Mas eu estou sem tempo.
Além do moe (e de Sailor Moon, entre outras séries), também contribuíram para a situação atual: o yaoi (muito malhado pela maioria dos fãs com quem troquei opiniões a respeito), o yuri, o shounen-ai e, em escala menor, o shoujo-ai. Para muitos deles (os fãs de quem eu mencionei acima), esses gêneros são também merecedores de levar pedradas sem fim por conta do estrago que eles causaram aos animes e mangás.
Pode até parecer preconceito por parte desses fãs, mas tenho que dar algum crédito às acusações deles contra tais gêneros/subgêneros.
Bom, eu espero que eles fiquem satisfeitos agora, depois de mencionar isso. Vou ter algumm sossego (pelo menos espero)por parte deles. Ufa !
Às vezes penso: "o que Osamu Tezuka diria se visse a animação e os quadrinhos japoneses atuais?"
Certamente, conhecendo as opiniões que ele tinha, a resposta seria de total desaprovação, principalmente no que diz respeito à violência (algo que ele condenava explicitamente na época).
Concordo com o que o Shonen Bat comentou. O empresário quer lucro, que só parece provir da satisfação do fã hardcore. Aí fica dificil para qualquer criador com pensamento empreendedor conseguir um espaço dentro da mídia.
A meu ver, meio que explica porque alguns autores apelam para a introdução de elementos que aticem algum tipo de fetiche da cultura da qual se originou...
O mangá surgiu como uma espécie de fusão entre as pinturas ukyo-ê (entre outras formas de representação iconográfica) e a literatura japonesa (desde eras remotas até o século 20), somadas à arte da fotografia, do cinema, TV e vídeo.
Já os animes e mangás atuais que só valorizam o visual em detrimento da história / do enredo, estão mais para as pinturas ukyo-ê, por exemplo, do que para a literatura japonesa.
É como se os elementos formadores do mangá tivessem sofrido um processo de "fissão"(aqui o termo é derivado da palavra "fissão nuclear"), no qual os elementos pictográficos / iconográficos (pintura, gravura, cinema, TV, vídeo, fotografia) e escritos (literatura)foram separados. Em outras palavras, é como se os laços / elos que os uniam tivessem sido rompidos.
Me lembrei dos otakus LOUVANDO aquela banda japonesa de pagode [Y-NO, acho que se chama]. Sério, o pagode nacional é horrível, tosco. Mas aparece japoneses fazendo isso, de forma ruim e com tradução do Google, num instante torna-se genial.
Alexandre: o pior é que samba, bem-feito, é uma coisa bacana, e muita gente aprende a odiá-lo por causa de pagode...
(e sim, samba pode ser genial).
A Shogakukan anunciou que não mais permitirá tais criações desses fãs na rede (de qualquer tipo, com ou sem conotação sexual), mesmo que não tenham fins lucrativos, alegando questões de direitos autorais. Ao que parece, a crise que afeta aquela editora chegou a tal ponto que agora querem cobrar dos fãs para que eles possam ter permissão de colocar na rede tail material. Veja mais sobre o assunto abaixo:
http://www.sankakucomplex.com/2011/03/29/shogakukan-bans-fan-art/
Essa notícia pode ser um perigoso precedente, pois se as demais editoras fizerem o mesmo, os fãs não mais poderão expressar na rede a paixão pelos mangás e animes e seus personagens através de imagens (fanarts, fanzines, etc.) e de textos (fanfics), sob pena de serem tachados de criminosos da noite para o dia.
Seria interessante que a Maximum Cosmo abordasse esse assunto no próximo tópico, para que os fãs possam opinar a respeito.
Alexandre: o Sankaku não é mentiroso, mas é exagerado e isso pode dar margem a interpretações erradas. Aparentemente isso bane fan-art, mas quero ver a opinião de outras fontes antes de falar direito sobre o assunto.
http://neojaponisme.com/2010/04/05/the-jimusho-system-part-one/
http://neojaponisme.com/2010/06/29/the-jimusho-system-part-two/
http://neojaponisme.com/2011/05/23/the-jimusho-system-part-three/
Alexandre: Obrigado!
Ao que parece, segundo um usuário do DeviantArt, essa notícia é FALSA ou EXAGERADA. Provavelmente a segunda hipótese, já que as proibições só se aplicam às artes oficiais criadas pelos artistas da Shogakukan (tais como wallpapers, fotos, ilustrações, etc.).
A medida parece só atingir, por exemplo, modificações feitas por fãs nas artes oficiais para serem usadas em banners, wallpapers, avatares, etc. em sites, blogs e fóruns, por exemplo. Abaixo, a notícia que desfaz o mal-entendido:
http://news.deviantart.com/article/148289/
Os fãs que gostam de criar fanarts e fanfics e outros tipos de fandom (desde que não usem material oficial da Shogakukan, é claro) podem ficar tranquilos, pois a medida tomada pela editora não os atinge.
Desculpa aí, gente, se eu assustei sem necessidade. Mas até mesmo eu fui enganado pela falsa(ou exagerada) notícia.
Alexandre: pois é. Admito que já agi apressadamente antes em alguns posts, mas por isso mesmo eu evito fazer as coisas na correria.
Nem tenho o que acrescentar! o.0
Só queria dizer que concordo!
Alexandre: no caso dos produtos americanos, eu tenho outra teoria para a tomada dos canais infantis pelos live-actions – mas é off-topic e sinceramente, acho que é pior do que o que acontece no Japão. Mas ela é muito, muito mais azeda – e é off-topic.
Eu acho que as novelas brasileiras têm até uma certa audiência fora do país, mas as novelas de Língua hispânica têm mais audiência, por causa dos imigrantes nos EUA. Tanto que a TV americana têm feito párodias com as novelas de Língua hispânica e ''Betty, a feia'' ganhou seriado. Engraçado que no cado de ''Betty, a feia'' muita gente que torce o nariz pra novelas brasileiras e mexicanas, amava esse seriado. Pra mim é velha ideia de colônia de que tudo importado do primeiro mundo é bom.
Alexandre: Sinceramente, eu sinto a mesma coisa. Aquilo era uma bobagem...
Gostei da comparação entre os otakus e os punks, que não querem ninguém de fora conhecendo o movimento. Mais engraçado ainda são os punks não gostarem ''dos de fora'' usando seu visual, porque aquele visual legal se bem me lembro foi criado por uma estilista.
Alexandre: mas isso é da natureza de toda tribo urbana, porque o importante aqui é o fator de definição de identidade. "Se outros vestem/usam/vêem/lêem o que me faz especial, eu deixo de ser especial". Nesse caso, o mais importante é que quem pensa assim vá ter uma vida.
Exemplos disso podem ser vistos tanto nos EUA (pátria das séries Beavis&Butt-Head, South Park, Os Simpsons, só para citar alguns) como no Brasil (sim, até aqui o problema existe, como pode ser comprovado nas animações brasileiras feitas para a MTV, com menção especial para a série "Fudêncio e seus Amigos", entre outras).
A decadência da animação é um fenômeno global que atinge tanto nações do Primeiro Mundo como nações emergentes.
Até onde isso vai chegar, ninguém sabe. Vai depender do público que assiste a essas produções os rumos da animação no mundo (levando-se em consideração fatores como público e produções locais, é claro, pois é o público local que decide o destino da produção local. O público americano não pode decidir o futuro das séries brasileiras que passam na TV daqui, por exemplo, da mesma forma que o público brasileiro não pode decidir o futuro das animações japonesas ou americanas. Temos que ter em mente que produções culturais, sejam quadrinhos, animações, etc., são voltados primeiramente para serem consumidos pelo público do país em que as obras foram produzidas, e só depois disso é que são exportadas para outros países e para outros públicos. Se houver demanda para eles, é claro).
Existem coisas que deveriam ter, ao invés de "Made in Brazil", "Made in USA" ou "Made in Japan", as seguintes palavras: "For Brazil only", "For USA only" ou "For Japan only". A diferença entre um produto "Made in..." e um "For...only", é que enquanto um pode ser exportado para outros países e públicos/consumidores, o outro é de uso/consumo restrito ao país de origem e destinado ao público/consumidor local, não sendo aconselhável ou recomendável a sua exportação. Isso vale para produtos eletro-eletrônicos e de informática, por exemplo, e poderia valer para produções culturais também, para evitar problemas no exterior (como nos casos de mangás e animes considerados violentos ou eróticos demais para o público de outros países, com culturas, religiões, etnias, usos e costumes, etc. diferentes do japonês). Sem falar daqueles países, com um passado conflituoso e hostil em relação ao Japão (China, Coréias do Norte e do Sul, Filipinas, etc.) onde qualquer cena ou detalhe insignificante num mangá ou anime torna-se motivo de protestos tanto por parte dos que ainda se lembram das histórias contadas de geração a geração (sobre os tempos de sofrimento impostos pelo ocupante/invasor japonês) como por parte dos nacionalistas locais (que não escondem o seu rancor, ressentimento ou até mesmo ódio contra aqueles que os humilharam ao ocuparem/invadirem seus países).
Nem todas as produções da indústria cultural de um país podem ser exportados (ou até mesmo serem considerados exportáveis), por vários motivos (dentre os quais, aqueles que citei acima), como podem concluir.
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