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Jan 16
Tiragens Gerais dos Almanaques Japoneses em 2010
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Categorias: tiragens

E finalmente saíram as tiragens médias de cada almanaque ao longo do ano de 2010 de acordo com a JPMA – o equivalente japonês ao IVC brasileiro. A primeira surpresa foi a presença da linha Shogaku da Shogakukan – os almanaques infantis mais antigos da editora, que se confundem com a própria história da empresa. Dois dos seis almanaques originais da linha – a Shogaku Gonensei e a Shogaku Rokunensei – foram cancelados em 2009, sendo substituidos pelo almanaque Gakuman Plus. O fato de que os dois primeiros estão firmes e fortes e os dois últimos – a Sannensei e a Yonnensei – estão meio capengas sinaliza que os leitores partem para os almanaques de mangá mais cedo, mas também é uma mostra do encolhimento do mercado infantil à
medida em que a taxa de natalidade despenca horrorosamente. A Corocoro permanece sendo o título infantil mais importante, mas deixou de fazer parte dos títulos com um mais de milhão de exemplares de tiragem. Fica bem claro: boa parte dos efeitos da queda de vendagens são decorrentes da crise de natalidade japonesa – e a queda de público infantil agora acaba se refletindo no público mais velho alguns anos depois. É como dar o peteleco em uma fileira de dominós: se o último cai é porque o primeiro caiu.
Não vamos falar dos quadrinhos femininos, como de costume. A Shonen Jump continua sendo a campeã e vai continuar por muito tempo, mas ela também não foi imune a erosão e mesmo tendo iniciado o ano passado com três milhões de exemplares por conta de One Piece, acabou sofrendo o desgaste de vendas como todo mundo. Não deixa de ser importante notar que as vendagens de volumes compilados continuaram crescendo e One Piece chegou ao extremo de bater recorde atrás de recorde esse ano. Mas os almanaques vão sofrendo – e isso é, sim, preocupante; porque isso afeta justamente a capacidade de renovação do mercado, e torna novas histórias (ou histórias mais voltadas a um público dirigido) menos visíveis para seu potencial leitor.
O que não quer dizer que não exista quem aguente bem a intempérie, como a linha Champion da Akita Shoten – que tradicionalmente permanecem com as mesmas tiragens de sempre, entra ano e sai ano. Talvez o fato de apostar em uma linha editorial que mesmo não a fazendo disparar, atrai fãs fiéis, permita que eles continuem mantendo esses números, com estabilidade. Podem reparar que são poucos os títulos serializados na Shonen Champion que vendem acima dos 50.000 exemplares, mas como a antologia na verdade é custo de divulgação, é menos dramático para a editora ter vários títulos vendendo abaixo dessa faixa. Para, digamos, uma Shonen Jump, que imprime na faixa dos 2 milhões e 870 mil, um título que vendesse cerca de 30.000 exemplares e não fosse um gag manga (que cumpre função editorial no almanaque) seria no mínimo um desastre comercial. No meio disso tudo, a Sunday até diminuiu a velocidade de sua queda antes do ultimo trimestre, mas caiu um bocado e sua média reflete isso. A perspectiva de que a Sunday seja superada pela Shonen Champion talvez redunde no pior golpe em sua história editorial – e o pior é que a Champion não precisa fazer nenhum esforço para isso. Seus 500.000 exemplares parecem eternos. E para os que sonham um dia que a Shonen Magazine volte a vender mais do que a Jump, esqueçam: ela vem caindo também, mas é uma queda pontual dentro do
contexto de encolhimento, assim como com sua principal concorrente. É o mesmo que acontece com a Shonen Magazine Mensal (Gekkan Shonen Magazine), o terceiro almanaque para garotos mais vendido do Japão, perdendo para a Jump e para a Magazine semanal.
Quem se deu relativamente bem foram publicações menores como a Dragon Age, que continuam menores, mas que conseguiram estancar sua queda (em parte com o sucesso de High School of the Dead. Não adianta nada um trabalho editorial sem hits, por mais modestos que sejam, que adicionem estabilidade de vendagens). Essa revista teve suas oscilações, afinal as quedas foram generalizadas, mas permaneceram estanques – o que mostra que os editores podem fazer algo, se não para voltar a crescer, para ao menos garantir que suas revistas se estabilizem de uma forma ou de outra durante o longo inverno que já se anunciou, ninguém se deu tanta conta, e que agora entrou com tudo, pegando todo mundo com cobertores leves demais. É bom lembrar que a Jump chegou a subir de Abril a Julho de 2010, e só começou a cair a partir do trimestre seguinte.
De modo geral as quedas são pontuais: o mercado encolhe, as revistas encolhem junto – e tivemos até algumas reações. A Young Magazine, o principal almanaque seinen (para leitores adultos, normalmente de faixa universitária) do mercado, teve uma circulação média de 857.013 em 2009 e sofreu uma queda preocupante, perdendo 49.142 leitores ao longo de 2010. É um número
considerável. Mas essa média sinaliza algum estancamento da sangria: do início do ano (ela terminou 2009 com uma tiragem de 838.400) até Setembro, ela chegou a despencar para 778.917 exemplares, em uma velocidade grande.
A velocidade custou alguns títulos. A Comic Bunch semanal encerrou suas atividades na faixa dos 140.000 exemplares. Nada muito dramático para uma antologia mensal em uma editora menor, mas muito problemático em se tratando de uma revista semanal. A chave aqui é lucratividade: uma publicação com uma tiragem menor, periodicidade menor e, portanto, custos menores, acaba dependendo menos do estouro de suas séries em forma de compilação (a verdadeira fonte de retorno) do que uma revista que toda semana invada os pontos de venda em qualquer canto do Japão. Não faço idéia do quanto a Shonen Gangan da Square Enix vende – tradicionalmente ela não libera seus dados. Mas dificilmente ela vende tão bem assim; nesse contexto, um título como Full Metal Alchemist, que vende na casa dos milhões, é como acertar na loteria, lucrar muito com um investimento menor. Se a saga dos irmãos Elric fosse publicada, digamos, na Shonen Jump, e vendendo a mesma coisa, eles estariam muito bem – mas a lucratividade em termos percentuais não seria tão digna de nota.
Algumas revistas reagiram. A Shonen Ace passou o ano subindo pouco a pouco, mesmo despojada daquele que foi seu maior hit, Neon Genesis Evangelion, transladado para a Young Ace. Mas essa subida representa na verdade a mera recuperação da paulada que a Ace recebeu no primeiro trimestre, quando perdeu mais de vinte mil exemplares em tiragens, de uma tacada só. E vai demorar para ela chegar ao nível que tinha antes, se é que vai chegar: ela tinha quase 100.000 exemplares circulantes. É bom lembrar que a Ace mais e mais se mostra como revista de nicho, não de massa – e nem os nichos parecem salvar mais, hoje em dia.
Por outro lado, mesmo com a erosão de tiragens, algumas coisas são patentes. A primeira é que se os quadrinhos para garotos da Shogakukan vão mal e mal, os títulos adultos vão bem. Os títulos da Big Comic Original podem não ter o mesmo grau de exportação de seu companheiro de linha, a Big Comic Spirits, mas no Japão é a Original quem apita (repare que as capas da Big Comic tem mais jeitão de revista de variedades em um primeiro momento, e as suas séries são mais próximas do perfil mais comportado de uma Morning, da Kodansha). E as vendagens de uma Spirits, se não são tão boas, são aceitáveis nesse segmento. Em compensação, um almanaque esperado e alardeado como a Shonen Sunday Mensal revela-se afundado no patamar de 50.000 exemplares. Há almanaques mensais que vendem menos do que isso, mas é uma decepção e chega a ser vergonhoso um título de uma grande editora,
a partir de uma griffe famosa dos quadrinhos japoneses, com títulos e autores famosos como Mitsuru Adachi e Kiyohiko Azuma (ou ao menos de alto nível, como Anh Dong Shik), tenha um desempenho inferior a almanaques de editoras menores como a Manga Action da Futabasha, a Manga Goraku da Nihon Bungeisha ou até mesmo a Manga Sunday da Jitsugyon no Nihonsha (e cujo nome nada tem a ver com a Sunday da Shogakukan). Sendo bem sincero, a marca Sunday, um dos maiores ativos da empresa, perdeu poder. Eu não duvidaria que ainda este ano, sejamos "surpreendidos" (e põe aspas nisso) pelo cancelamento, digamos, de uma Sunday Super (que volta e meia exporta seus autores para a Sunday semanal). E no atual contexto, dificilmente a griffe como um todo vai se recuperar: ela precisaria de uma reformulação editorial generalizada, mas o fato é que eles já tentaram isso – e não apenas fracassaram como fizeram tudo errado, levando vários autores a migrar para a concorrência e ainda por cima, em alguns casos, fazer um sucesso que não faziam em seus trabalhos originais. O que aconteceu com Koji Kumeta (Katte ni Kaizo, Sayonara Zetsubou Sensei) ainda é um espinho na garganta da Shogakukan e para que a coisa funcionasse dessa vez, precisaria no mínimo de uma autocrítica que os editores japoneses parecem não ter coragem de tomar. Precisariam admitir que falharam.
O mercado japonês ainda não encontrou o rumo para sair da crise. Mas ela já chegou a um ponto em que não há opção – não reagiram imediatamente no sentido de reverter enquanto podiam. E se eles se afundarem em materiais "seguros" para o fã hardcore, vão acabar se enterrando de vez – da mesma forma que o mercado americano se enterrou. Bom, vamos esperar a próxima lista.
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Comentários:
Eu tenho a primeira edição e achei a revista muito bonita, com artistas muito competentes. Espero que ela se firme e venda mais.
o que eu acho mais estranho é a Ciao vender muito mais que as outras, mesmo com umas histórias com desenhos tão toscos! Acho que só eu levo em conta um desenho bonito...XD
Alexandre: Não sou muito especializado em quadrinhos femininos, mas por tudo que eu sei, a Ciao vende melhor como almanaque em si do que vende suas séries. Talvez ela funcione melhor como entretenimento imediato do que pela durabilidade do seu conteúdo, e isso a sustente.
Caramba! Têm mais de 100 milhões de pessoas no Japão! Ok, muitos deles hoje são adultos, mas por que será que nem um décimo deste contigente compra uma Bussiness Jump, se é "revista para adulto"?
Crianças não lêem mais quadrinhos porque existe o computador e o videogame. E mesmo uma série de quadrinhos baseada nos seus personagens favoritos AINDA é algo muito "monótono" de se ler.
Adolescentes não lêem mais quadrinhos porque preferem gastar seu dinheiro em outras coisas. Claro, o poder aquisitivo dos japoneses é maior, mas imagino que eles prefiram comprar seus iPads, iPhones e gastar com a namorada - ou com alguma vagabunda paga.
Adultos não lêem quadrinhos porque estão preocupados com o emprego, e se querem relaxar eles preferem a televisão ou o computador ou ficar com os amigos.
POR QUE mangás já não são mais tão interessantes a ponto de seis milhões de pessoas acompanharem uma saga? Será que não está AÍ o grande problema?!
Alexandre: isso é uma possibilidade, mas lembre-se que um One Piece ainda tem tiragens monstruosas. O que acho é que nesse sentido podemos estar vendo um panorama similar ao da Hollywood do final dos anos sessenta, aonde as velhas fórmulas não funcionavam mais tão bem. O resultado foi uma espécie de pausa aonde os filmes foram entregues a qualquer maluco com uma ideia que não fosse muito cara. E foi assim até que as ideias começaram a ficar, sim, muito caras – e que apareceu uma nova rota de rumo quando apareceu o bom e velho Guerra nas Estrelas do George Lucas...
Gessan SÓ com 50 mil? Eu chutava no mínimo uns 175.000.
Espero que a Afternoon fique acima de 100 mil. Ela é uma das poucas que tem um hit que vende 6x mais a tiragem do almanaque.
Me parece que a justificativa para manter alguns títulos e/ou antologias na mesma de sempre seria o sucesso em licenciamentos para o exterior.
Acho (e espero) que 2011 seja o último ano dessas quedas. Já está na hora do mercado se ajeitar para a nova realidade, e isso ainda não aconteceu. Se esse acomodamento não chegar, bem... talvez seja o início do fim.
E em qual sentido você acha que a Young Magazine seja a "mais importante"?
Alexandre: ela e a Young Jump fazem uma ponte entre os quadrinhos para garotos e os quadrinhos adultos. Por seu patamar de vendas, elas são as mais importantes – são um elo importante de continuidade no mercado.
Mas realmente – o estado é crítico. Ou a indústria se repensa, ou ela está ferrada.
O mangá está mesmo numa crise criativa de lascar. Falando por mim, eu às vezes vou numa comic shop, fico CAÇANDO coisa para comprar, nem que seja só para distração, e não vejo NADA que valha a pena gastar meu dinheiro - só compro Evangelion (que vai entrar em hiato agora) e o coreano Dangu.
E para provar que não é a simples falta de dinheiro, em meio digital, também está difícil achar algo que me agrade. Acho que eu só acompanho atualmente Vinland Saga, Historie, Sidooh e a dobradinha do Inoue REAL/Vagabond (este último mais por obrigação mesmo). Se for comparar com a quantidade IMENSA de mangás espalhados por aí, seria mesmo muito pouco o que eu leio - embora existam dois títulos que eu quero muito ler e não consigo achar digital, Embalming e Ooku.
Abandonei várias séries pelo caminho porque perdi a paciência (D-Gray Man, Gantz, Bakuman, Air Gear, Ranma...) ou porque simplesmente não me seguraram o suficiente, embora não tenham feito nada de errado (Wolf Guy, Teppu, Claymore, Tough...) Sim, eu sou uma leitora chata pra cacete de se agradar! Mas aposto como não sou a única... e nem faço parte da minoria!
E o que vai decretar a morte do mangá é que, ao contrário de Hollywood, os japoneses NÃO vão colocar seu mercado nas mãos de "malucos". Claro, vai demorar até o mangá se transformar nesta coisa de gueto que é o quadrinho americano, mas, digamos, que historicamente estamos vivendo o ano de 1971 no momento... você sabe o que eu quero dizer.
Que o pai de Negima tenha mesmo idéias mais mirabolantes para distribuição e divulgação de mangá... embora ele esteja atirando um pouco alto demais do cerne do problema.
Alexandre: não consegui localizar fontes que me esclarecessem isso.
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