Submarino.com.br

Artigos

Do Crescimento do Mangá Global


Outros Artigos e Reviews de Interesse



Perguntando aos Leitores


Entrevistas


Comentarios Recentes


Posts Recentes




Busca

Jan 14

Norakuro chega ao Ocidente

Compartilhe: Delicious Digg technorati Stumble Upon Twitter Creative Commons License

Lancaster | PERMALINK | 3

Categorias: clássico

Norakuro

Há muito tempo, no passado já distante, não havia aquilo que conhecemos como estética mangá. Os japoneses faziam quadrinhos, mas eram quadrinhos bem diferentes daqueles que conheceríamos após Osamu Tezuka chutar o balde e criar toda uma nova linguagem narrativa: eles eram pesadamente influenciados pelo material americano – no caso as tiras de jornais, essas sim grandes exemplos de quadrinhos de massa em seu tempo. Nesse contexto, o embrião das atuais grandes antologias de mangá foram as revistas infantis da década de 1910/1920 (algumas existem até hoje, como parte da linha Shôgaku da Shogakukan) e se consideramos que a forma de publicação define a forma de conteúdo, foi em 1931 que surgiu o personagem que se tornaria o paradigma Norakuropara a futura indústria dos mangás como ela viria a ser: Norakuro, de Suiho Tagawa.
A história acompanhava um simpático cãozinho (ei, era a época de tiras e desenhos animados com animais falantes, como o Gato Félix) cujo sonho era se tornar um militar de patente no exército imperial (não por acaso, é uma dos produtos culturais mais associados ao período de expansão militarista japonês do entreguerras). Pouco a pouco, ele foi galgando vários postos até atingir seu objetivo e comandar suas tropas. Qualquer semelhança não é mera coincidência: o ciclo breve de Norakuro antecipou justamente aquilo que se tornaria o padrão da indústria dos mangás no futuro – séries finitas, com uma evolução concreta; personagens que seguem uma linha de crescimento ao longo da trama; ênfase em busca de objetivos a serem seguidos. E claro, foi talvez o primeiro grande momento da indústria dos licenciamentos baseados em quadrinhos japoneses. É bom lembrar que a conclusão da série não foi desejada nem planejada, naquela época em que os mangás não eram tão diferentes assim dos quadrinhos americanos. Simplesmente os leitores entenderam que o personagem alcançara o que desejava e a história, em si, já havia acabado. Minado pelo desinteresse dos leitores, Tagawa fechou sua saga no ano de 1941.
Mas não se pode negar a importância de Norakuro. Sua popularidade fez com que ele retornasse após a guerra, em versões diferentes e menos militarizadas (como lutador de sumô, por exemplo), chegando a ganhar versões animadas nos anos 70 e 80. Muitos autores que se destacariam ao longo da história dos Norakuromangás declararam que Norakuro serviu de inspiração e influência, como Machiko Hasegawa, autora de Sazae-San, popular tira de jornais do pós-guerra japonês e cuja versão animada até hoje é a série mais assistida da televisão nipônica, mesmo após a morte da autora. O que o fenômeno Norakuro anteviu foi a natureza de ciclo de vida de um produto sendo aplicado a histórias em quadrinhos. Algo que passaria a ser usado de forma consciente na indústria japonesa.
E finalmente o material é publicado no ocidente – obviamente na França, aonde o termo "clássico" representa algo a ser respeitado, e não motivo de mimimi como aqui no Brasil ("ah, ficam trazendo esses mangas velhos… traz o _____________" – preencha a lacuna com aquele manga que só essa panelinha vá comprar – se é que vai comprar, porque já baixou tudo na internet). A editora responsável é a Actes Sud, e a edição tem 220 páginas. Pode não revolucionar mais nada a essa altura, e nem é algo que vá agradar todo mundo hoje em dia, mas é um capítulo importante na história dos mangás.

Norakuro

Posts similares:
Yoshihiro Tatsumi vence o Tezuka Awards
Licenciar é bom e faz bem para o mercado
Termina Cross Treasures no Japão

Related Posts with Thumbnails

Comentários:

Nome: Jussara Gonzo 14/01/11 06:44
Realmente a semelhança estética com os "bichinhos fofos" do entre-guerras na américa é espantosa - e a História certamente deixa tudo ainda mais morbidamente irônico.

... e alguém sabe quanto que fica um frete lá da França até o Brasil? (ouvi dizer que a FNAC é francesa...)

Alexandre: por incrível que pareça é mais jogo pegar material francês da amazon italiana do que da própria frança. Sério.
Nome: Guilherme 14/01/11 07:21
Então antigamente os leitores sabiam reconhecer quando uma história acabava, interessante.

Alexandre: acho que depois de Norakuro, o esforço passou a ser o de fazer com que isso não se repetisse – e a arte passou a ser a de não fazer o leitor dar a história por acabada.
Nome: Andresama 15/01/11 02:03
Lembro de o Chris Ware ter dito: "Esse é o caminho que os quadrinhos deviam ter seguido" com relação ao material japonês da época...

Alexandre: e faz sentido. É um quadrinho plácido, de linguagem clara, facilmente digerível e de compreensão imediata. É praticamente perfeito em sua simplicidade de narrativa e composição. Eu pessoalmente também acho visualmente atraente o material japonês dessa época.
Mas também acho que os mangás não teriam dominado o mundo se seguissem esse caminho para sempre.

Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)
(Allow users to contact you through a message form (your email will NOT be displayed.))

Post anterior: Manpuku Jump: Quadrinhos de… Culinária?Próximo post: Celebrando a Gainax