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Dez 26
Da Série "Steampunk": Steamboy, de Katsuhiro Otomo
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Categorias: Steampunk
Na distante década de 1830, foi criado na Inglaterra um formato editorial que seria conhecido como Penny Dreadful. O nome é uma referência a seu preço (na casa dos centavos), e eles talvez tenham representado o grito de independência daquilo que chamamos de literatura de massas: embora esta tenha tomado sua forma na França do século XIX, através dos romances publicados em folhetins nos jornais – e que frequentemente eram o seu maior atrativo comercial – os Penny Dreadful representavam uma forma de publicação por si só. A ideia por trás deles era de oferecer
literatura barata a classe operária, e começaram com reimpressões de obras com um apelo mais popular, como os romances góticos de Horace Walpole (O Castelo de Otranto) e George W. M. Reynolds (Os Mistérios de Londres – uma reciclagem descarada do popular folhetim francês "Os Mistérios de Paris", de Eugene Sue). Mas por algum motivo, o formato acabou apelando a leitores mais jovens e na década de 1850, esses materiais passaram a ser dirigidos especificamente a garotos da classe operária, que não tinham dinheiro para comprar revistas semanais e acompanhar uma história capítulo a capítulo – e por isso costumavam comprá-las em grupo, passando a revista de mão em mão entre eles. É bem clara a analogia entre o formato de publicação dos mangás japoneses, os folhetins franceses (que lançavam, em série, capítulos diários nos jornais e compilavam romances em volumes), e os penny dreadful (que anteciparam o conceito de almanaque). Mas estou me antecipando.
O ponto é que os Americanos importaram o conceito, adaptando o termo localmente para Dime Novel – ou "romance de um dime" (dez centavos de dólar), e lá pela virada dos anos 60 para os 70 daquele século, descobriram o conceito de liminaridade: melhor do que ver adultos fazendo o que esses garotos gostariam de fazer quando crescessem, era poder fazer o que esses adultos fazem.
Assim, foi aberta a caixa de pandora que seria batizada naqueles tempos como Boy Heroes: dos dois lados do atlântico, protagonistas pré adolescentes começaram a se tornar caubóis, exploradores, corsários, detetives (estes sendo a opção mais popular, mesmo nos dias de hoje), soldados, atletas, vigilantes contra o crime, espiões – e claro, inventores, em um gênero que se tornaria tão forte e popular em seu tempo que se tornaria uma classificação à parte chamada Edisonade (em uma referência a Thomas Edison, claro). Não é preciso dizer que os garotos capazes de tudo permaneceram mesmo com o fim das Dime Novels e hoje eles também são super-heróis, aprendizes de bruxos, gênios do crime, semideuses, viajantes do tempo, vampiros, pilotos de robôs gigantes e muitas, muitas outras coisas, mas isso é outra história.
É impossível falar de Steam Boy sem levantar esses pontos. O longa-metragem de Katsuhiro Otomo (o mesmo do clássico Akira) é praticamente uma recriação e reinvenção visualmente exuberante de um gênero aparentemente morto. Sim, o garoto inventor permaneceu na cultura popular. Mas é preciso separar o que ele era do que o que ele se tornou após a ressaca com a ciência surgida que veio após a Primeira Grande Guerra.
A Era dos Garotos Inventores
Antes, o garoto inventor era o garoto que qualquer um gostaria de ser – um herói de calças curtas, visto como um visionário e um aventureiro. Era o fruto de uma época de paz em continente europeu (que viveu sem conflitos no continente por 44 anos seguidos, entre a Guerra Franco-Prussiana e a
Primeira Grande Guerra), de crença na razão, de esperança na ideia de que, mesmo que a humanidade fosse o que sempre foi, a ciência pudesse salvar a todos. Após o conflito, salvo exceções como o Tom Swift de Victor Appleton (que serviu de inspiração para escritores como Isaac Asimov e inventores como Steve Wozniak), o papel do cientista deixou de ser o herói e passou a ser... 1) um acabrunhado e emasculado ajudante do herói (este sim o homem de ação, repleto de músculos e com o cérebro como mero elemento opcional); 2) o vilão inteligente e por isso corrupto, a ser vencido por um protagonista de métodos diretos e um par de punhos (percebem esse padrão refletido na dualidade Super-Homem versus Lex Luthor, ou mesmo – transposto a um contexto de fantasia – em Conan, o Bárbaro, e os feiticeiros repletos de tomos místicos ao seu redor?); 3) um personagem de comédia, mesmo quando visto com simpatia, que equilibra seu brilhantismo científico com uma postura quase alienígena em relação ao resto do mundo.
Talvez seja essa proposta que tornou Steamboy um trabalho incompreendido, com críticas mornas de todos os lados. A imagem ao lado é o primeiro sinal claro de que Otomo não desenvolveu seu conceito sem conhecimento de causa: ela remete justamente ao padrão visual das Dime Novels do começo do século XX. A história também é ancorada em um dos pilares do gênero: o fator geracional.

Os Genes da Invenção
A série mais emblemática do gênero Edisonade, Frank Reade (personagem criado por Harold Cohen sob o pseudônimo de Harry Enton), foi um dos primeiros casos de reboot de uma franquia na história da cultura pop. A série original de Frank Reade foi serializada na revista Boys of New York de 28 de Fevereiro de 1876 até 24 de Abril do mesmo ano, gerando apenas quatro aventuras. Mas com a disparada do gênero Boy Heroes e disputas legais da editora com Cohen, que o fizeram se bandear para outras publicações, desencavaram o antigo personagem em 1879 sob a batuta de outro escritor – o
cubano Luis Senarens, que tinha 16 anos na época. Se o Reade original era rascunho, o Reade de Senarens – reformulado como um novo personagem, Frank Reade Jr., filho do Reade original – se mostrou absurdamente bem-sucedido, tornando-se o personagem mais lido pelos jovens americanos daquele tempo. Frank Reade Jr. gerou 179 histórias até dezembro de 1899, quando ele passou o bastão para seu próprio filho e homônimo, fazendo a série ser rebatizada mais uma vez, agora como Young Frank Reade.
Isso se tornou um recurso usado por praticamente todas as séries edisonade de sucesso quando o personagem se esgotava com os leitores, a medida em que estes deixavam de ser jovens. Os garotos inventores não eram mais mentes brilhantes que nasciam de uma soma de sua capacidade inata com seu esforço: eram parte de verdadeiros clãs de inventores, com o personagem original convertido mais e mais em um velho patriarca. Eram continuidade, não construção – a ordem era que as coisas mudassem para que permanecessem as mesmas.
Otomo pescou esse detalhe de forma mais inteligente do que muita gente percebe.
Conflito de Gerações
A premissa da história é uma dissensão entre dois membros pivotais do clã de inventores Steam (o que novamente remete à onomástica desse tipo de personagem: "Electric Bob", "Motor Matt", etc.). Temos pai, filho e neto. John Ray Steam, o protagonista, é filho de Edward Steam e neto de Lloyd Steam – o patriarca do clã de inventores da vez. Só que o ponto de partida é um conflito que parte justamente a estrutura de continuidade que permeia o gênero: o protagonista é pego no fogo cruzado do conflito entre pai e filho, passando a ser cutucado por ambos os lados para escolher a qual caminho deve dar continuidade; o pivô da disputa é justamente um projeto comum entre Lloyd e Edward: a Steam Ball, uma fonte de energia que pode mudar o mundo – e que de certa forma concede grande poderes a quem o carrega. Com isso, Otomo reintroduz um dos princípios fundamentais do Edisonade a partir da ameaça a esse princípio em si.
Isso tem consequências: torna John Ray um personagem extremamente reativo ao longo de todo o longa – o que pode incomodar muita gente; basicamente ele passa a maior parte da história correndo de perseguidores que jogam máquinas fantásticas no seu rastro, e procurando ajuda enquanto é pressionado a uma escolha definitiva: continuidade ou ruptura. Embora ele tenda a tomar o partido do avô, e efetivamente o defenda, ele não parece tão disposto a fazê-lo de forma cega.

O que não deixa de ser irônico (e duvido que essa ironia não tenha sido deliberada): de modo geral, não havia nada mais belicista do que o edisonade como gênero. Pacifismo contra Belicismo nunca seria algo a se discutir nesses livros – jovens inventores que se prezassem estavam sempre a postos para exterminar qualquer um que não fosse anglo-saxão. Isso explica porque um personagem como Frank Reade, talvez o personagem de ficção mais lido nos Estados Unidos da segunda metade do século XIX, tenha desaparecido da cultura popular americana por completo – há pouca diferença entre o ideário do destino manifesto (somado alegre e abertamente às teses raciais da época) e o nazismo se pensarmos bem, e ele expunha isso com a sutileza de um elefante.
Ficção Alternativa
Um detalhe curioso em Steamboy é que sua filiação à corrente moderna do gênero Steampunk (que poderia ser bem definida como "ficção científica de época") aparentemente é levantada por aspectos pós-modernos que fazem parte do que se espera do material com esse rótulo hoje em dia – a revisão de personagens históricas e ficcionais nesse novo contexto de ficção científica. O personagem histórico no caso é Robert Stephenson – um dos mais importantes nomes na história da tecnologia ferroviária. Curiosamente a própria vida de Stephenson o aproxima e muito da figura dos edisonades literários, uma vez que aos nove anos ele já interpretava desenhos técnicos e trabalhava na manutenção de maquinário – vale a pena forçar um pouquinho o inglês e dar uma olhada AQUI. Teoricamente, ele está do lado de John Ray. Já a personagem fictícia da vez é ninguém menos do que Scarlet O'Hara, a orgulhosa, arrogante e mimada herdeira do clã O'Hara, pinçada de O Vento Levou (agradeço a Otomo não ter caído no clichê óbvio de retratar a personagem com a aparência de Vivien Leigh. Mesmo. De verdade). Nessa realidade, os O'Hara lucraram vendendo armas para ambos os lados na Guerra Civil americana e Estão envolvidos no projeto de Edward Steam. Teoricamente, ela está do lado dos inimigos do personagem. E como iremos descobrir, as coisas não são tão óbvias quanto parecem – nada é realmente preto no branco e no final, todo mundo é guiado pelas suas próprias razões.
Mas será que são eles mesmo? Provavelmente essa é uma pegadinha de Otomo. Embora, de modo virtual, o Robert Stephenson do longa pareça muito com o Stephenson original, e O'Hara mantenha todo o nariz empinado e atitude irritante da personagem de Margaret Mitchell, a história de Steamboy se passa em 1866 (um ano após o fim da Guerra Civil). Se fosse realmente a personagem de E o Vento Levou, Scarlett deveria estar com 21 anos; quanto a Stephenson, mesmo que partamos do princípio de que ele viveu mais na linha de tempo do longa (ele morreu em 1859), ele estaria com 64 anos de idade – enquanto o personagem provavelmente está na faixa dos quarenta anos e com fôlego para sua parte na ação lá pela reta final do filme. Ficção alternativa tem suas pequenas regras e nesse contexto, é mais prático encarar estes personagens como homenagens do que qualquer outra coisa (por outro lado, Alexandre Dumas dizia que é lícito violentar a história se dela fizermos um filho. Se isso se aplica à história com H maiúsculo, por que não à ficção, afinal de contas?).

Ação e Discurso
Uma das críticas dos detratores do longa é que a partir de certo momento, as discussões sobre a responsabilidade da ciência dão lugar a ação blockbuster, com correrias e explosões, como em qualquer longa-metragem americano, possivelmente com um olho na exibição internacional. É uma postura discutível quando observamos os detalhes por trás do mundo e a reconstrução do gênero Edisonade que povoa o longa. Mas é compreensível. Ele segue uma espécie de estrutura oposta (melhor seria dizer inversa) ao longa que lhe deu reconhecimento internacional, Akira: este começa
com ação atrás de ação e à medida em que a trama se adensa, começam discussões filosóficas sobre a natureza do ser humano, sobre a pequenez do homem em relação ao universo, sobre aquilo que não podemos compreender, etc.; já em Steamboy, as discussões sobre responsabilidade e ciência ficam para a primeira parte da história – a ação na segunda parte do filme é consequência, emaranhando tudo o que foi exposto anteriormente.
E por incrível que pareça faz sentido. O Edisonade jamais foi um gênero adulto. Uma das maiores críticas posteriores feitas a ele é que em média ele não passava de material mal-escrito onde um garoto gênio tirava empresários ou as belas filhas deles das garras das ameaças em que elas eram colocadas. Isso não está muito longe do que acontece (embora Scarlett evolua para uma mocinha menos inútil do que parece). Faz parte do jogo, afinal.
E olhando bem, os elementos de discurso não desaparecem do longa quando a ação toma conta: eles se agregam a ela, sendo pulverizados em seu entorno, como se esta na verdade fosse um elemento catalisador gigantesco que força a todos a tomarem de vez seus partidos. O discurso
nacionalista de Stephenson, que mostra de vez a qual lado ele pertence, é um exemplo claro. A do pai Edward (e provavelmente bem ligada aos discursos da esquerda nascitura daqueles tempos), para quem a ciência existe para fazer a todos iguais, e libertar o homem do trabalho duro, também leva a resultados desastrosos. O velho Lloyd não está isento disso, se olharmos friamente; ele preconiza um controle sobre a ciência que a torna inofensiva. O que interessa é o bem da humanidade ou manter a ciência sobre absoluto controle?
Se pensarmos bem, não é que não hajam heróis ou vilões na história: todo mundo tem algum grau de ideologia e está disposto a chutar o balde em seu nome. Ao longo do filme, personagens cuja afiliação parece clara para o espectador acabam revelando suas verdadeiras intenções, jogando John Ray em um mundo aonde ele tem poucas pessoas a quem confiar. Nesse processo em que todos carregam uma carga de ambiguidade, quase todos podem se tornar vilões e só John Ray (e Scarlett) escapam dessa, em parte por conta de sua juventude; por serem jovens, e não terem sido corrompidos por nenhum tipo de discurso ideológico, seja de direita ou de esquerda, podem estabelecer um novo caminho.
Não deixa de ser curioso que o final torna Steamboy uma história de origem de super-herói, em certos aspectos. O "Go, Steam Boy!" também se reveste como uma forma de emancipação ao final.

Um Garoto e Uma Máquina Fantástica
Steamboy não é isento de falhas. A obra levou dez anos para ser produzida e foi uma das obras mais caras já produzidas no Japão, com direito a períodos de interrupção para reunir recursos financeiros e prosseguir com a obra. Isso se reflete no resultado final, que parece ter seus problemas de unidade narrativa e é conduzida com uma mão muitas vezes pesada. De quebra, a
trilha de Steve Jablonski definitivamente não impressiona – é uma trilha-padrão sem muita personalidade. Mas ele não é uma história interessante que se perde pela metade, como aparenta a muitos de seus críticos; na verdade, ele é um longa que cresce a cada revisão mais atenta a seus detalhes (ajuda não esperar do longa um novo Akira; este nunca se pretendeu juvenil e por isso mesmo o tom do discurso se dá de forma diferente), mas as camadas de leitura tem que ser bem descascadas em meio às correrias e explosões. Há um subtom político por baixo da sua camada de aventura – o próprio Otomo admitiu que o 11 de Setembro acabou influindo nos rumos de seu roteiro; e olhando bem, o Edisonade sempre foi político em sua natureza, nos tempos em que ele servia ao destino manifesto – o gênero é praticamente a face mais pop desse discurso. Isolar esse elemento é cortar fora uma das pernas da cadeira, mesmo que agora a ordem seja questionar para onde essa mentalidade leva.
E negar o aspecto mais juvenil por trás de suas explosões e correrias também seria absolutamente contraproducente e incoerente com o conceito. Não há lugar aqui para um final cerebral como o de um Akira – são obras diferentes com conceitos e discursos diferentes.
Steamboy, independentemente de todo e qualquer subtexto, sempre vai ser uma história aventuresca sobre um garoto de quatorze anos com uma bola de energia voadora. Em um certo nível, é tolice tentar esperar algo cem por cento maduro de uma premissa dessas (Hideaki Anno inclusive falou algo parecido sobre outra obra com um garoto inventor sob os holofotes, Nadia: The Secret of Blue Water) e Otomo, sabiamente, sabe disso.
O ponto é que embora essa não seja a única animação japonesa com foco nos velhos garotos inventores que definiam conceitualmente o Edisonade, Katsuhiro Otomo parece fazê-lo com conhecimento de causa, disposto a trazê-lo para uma nova geração. Comercialmente ele pode ter falhado – o desempenho comercial do longa não foi lá essas coisas no Japão – mas ele deixou sem dúvida um marco definitivo para o Steampunk e um item obrigatório na estante de quem aprecia a boa animação, mesmo que seja apenas pelos aspectos técnicos. Independentemente de suas falhas, Steamboy será lembrado como referência de uma forma ou de outra. Não foi tempo perdido, afinal de contas.
E só para encerrarmos com um pouquinho de maldade...
Sim, eu ri. ;)
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Comentários:
Acho que o problema, em relação às críticas, realmente foi a expectativa de um novo Akira. NÃO tem jeito, SEMPRE haverá comparações com a Magnum Opus de cada autor. ("Cavaleiro das Trevas 2 era para ser mais engraçadinho, quem não gostou não entendeu" o meu rabo, Frank!).
Alexandre: Frank Miller foi simplesmente escroto em DK2, não há outra palavra. E por causa disso, não temos uma edição definitiva decente do cavaleiro das trevas; somos obrigados a levar para casa o DK2 no pacote. Isso compromete a qualidade do material.
Fico feliz que os textos sobre Steampunk tenham retornado. E fico pensando se o modelo dos Penny Dreadfuls não estaria, de certo modo, retornando com esta onda de Ligth Novels por aí à fora.
... e agora que vc falou em Thomas Edison... puxa! Coitado do Nikola Tesla! Precisam urgentemente fazer um filme (bom!) sobre a vida dele para redimi-lo na história!
Alexandre: A verdade é que o Thomas Edison tem a ver com um senso de oficialidade para o americano. Tesla era uma personalidade fascinante, mas ele não era americano realmente e de quebra contar sua biografia ainda exporia os atos sujos de Edison contra a concorrência. Os americanos preferem engolir serpentes a desmontar Edison. :\
Dando o braço a torcer com muito gosto, toda essa informação foi retirada para a pesquisa-base para a série Expresso; alias, como ela está?
Alexandre: Eu REALMENTE não posso falar, e isso realmente me incomoda um tanto, mas faz parte. Tudo o que posso dizer é que ela está em compasso de espera forçada, mas quando vierem notícias, será aqui no Cosmo que vou fazer o anúncio público. Prometo.
Confesso, eu nunca ouvi falar dessa série, Frank Reade, nem desses autores, Harold Cohen e Luis Senarens (esse é o primeiro autor não-saxão a fazer sucesso nos EUA, Lancaster?);
Essa série chegou a ser publicada em português aqui ou em Portugal?
Ela ainda pode ser encontrada em algum lugar (sebos e/ou internet)?
Alexandre: Na verdade Senarens assinava como Noname. Era complicado para ele assumir sua identidade. Quanto a sua publicação em língua portuguesa, tudo indica que ele nem chegou perto – o Brasil consumia de modo geral folhetins franceses e italianos, que eram quem imperavam por aqui. É difícil achar material de Reade, mas você pode ter uma amostra da natureza do personagem AQUI e AQUI. Aviso: o personagem para os padrões de hoje é abominável e mereceria um tiro na cara (porque ele não merece ir de cara limpa para o velório)!
Agora, Edisonade, nome pequeno, facil de falar e decorar, isso que é um nome-sintese de um genero literário!
Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva filho
A palavra chave bem que poderia ser "incompreensão", mas será que foi apenas isso que impediu o desenho de ter uma maior repercussão? Ou será que o hype matou a obra.
Eu não assisti, então não posso opinar, mas lembro que no finado fórum Henshin, o hype para esse anime era enorme.
Talvez os críticos esperavam algo para romper os padrões novamente, principalmente naquela época de otimismo em relação aos animes. Junte-se a isso o nome do autor e bem, temos um hype prejudicial.
Mas bom texto mesmo, acho o Lancaster a cara da revista piauí. =D
Alexandre: Obrigado, Moss.
Lembro quando começaram a pipocar notícias desse filme e críticas negativas quando ele finalmente saiu. Não corri atrás porque na época era inacessível mesmo, mas depois de um dos artigos sobre o steampunk aqui do blog que citavam o filme, eu corri atrás. Assisti de peito aberto, sem esperar um "novo Akira" nem nada disso (até porque morro de preguiça dessa galera q acha Akira genial por osmose), e gostei bastante. Só concordo com os críticos em relação à overdose de ação no trecho final: chega uma hora que aquilo cansa e vc até desiste de tentar entender, e fica só aguardando a conclusão.
Alexandre: Akira ainda impressiona, inclusive visualmente, e isso não é pouco. Mas o mangá é melhor.
E curioso, a Mikie-chan se lembrou do Tintin, e eu aqui me lembrei dos Duck Tales. Apesar do protagonista ser o tio Patinhas, as crianças vivendo aventuras inadequadas pra idade estavam presentes - assim como o colonialismo/destino manifesto, o suporte de um cientista desastrado...
Alexandre: Verdade. Essa mentalidade estava em muitos cantos, e não acho que vale a pena bancar o Ariel Dorfmann da vida e desqualificar aquilo que ele não tinha como desqualificar. Apesar de tudo, Tintin, o Tio Patinhas de Barks, heróis como Fantasma e Jim das Selvas – todos eles foram feitos por autores talentosos que essencialmente queriam contar histórias de aventura, apenas isso, sem culpa. O contexto de época tem que ser levado em conta nesses casos. Frank Reade é um desses casos especiais, onde o autor ia além da conta – eu diria que enquanto Hergé, Barks e companhia apenas ecoavam o que era senso comum, Senarens parecia ser um desses mega-racistas cheios de rancores de classe à flor da pele. Me lembra um pouco outra cubana em território estrangeiro – Glória Magadan, que dizia para quem quisesse ouvir que o Brasil não era um país romântico e fazia histórias sobre sheiks árabes e nobres européias. E que assim que perdeu espaço no Brasil, foi fazer novelas em Miami pelo resto da vida.
Por outro lado é inegável o apelo desses personagens exploradores em uma época aonde o mundo parecia maior e mais misterioso.
BTW, se a idéia for ter menos atualizações em nome de artigos maiores, dou todo o apoio.
Alexandre: por ora, estamos no "vamos ver".
Alexandre: existe um mangá, desenhado por Yu Kinutani. Saiu na finada Magazine Z (que publicava o mangá de Sakura Taisen, a propósito). Se ele é bom ou não, eu não sei. Parece que saiu na Itália.
E quanto às comparações com Akira, ora, Akira é bom. Mas é oooooooooootro filme. Eu aindo acho Akira um pouquinho péba por aquela final tão besta.
Alexandre: o mangá ainda é melhor. Mas pombas, só quem viveu a época sabe mesurar o tamanho da paulada que Akira foi no mundo todo. E foi grande, acredite.
Mas eu queria saber: Alexandre, você acha que a estética steampunk ainda encontra certa dificuldade em cair no gosto das massas? Veja Atlantis, da Disney (nem se compara com Steamboy, eu sei), dizem que foi um fracasso de bilheteria também. Será que a galera ainda torce o nariz pra estética steampunk?
Alexandre: olha, eu vi Atlantis no cinema, no dia em que estreou aqui no Brasil, e posso dizer que foi um filminho tão mais ou menos... a verdade é que são poucos os exemplares de bom steampunk disponíveis e muito disso nem é culpa do gênero em si (como no caso do James West, que foi um descalavro do começo ao fim – produto feito pelo Jon Peters, o mesmo que queria cortar as cenas de vôo do Super-Homem e encampou a versão do superestimado Tim Burton para o personagem, que graças a Deus não saiu do papel) – ou do "desventuras em série", cuja série de livros tinha um pé no steampunk e na hora de ir para o cinema, não apenas foi atemporalizada como também destroçaram o material para se tornar veículo do Jim Carrey. Hoje no entanto ele já tem tido um bom crescimento e ganhou status de tribo urbana. Aos poucos ele está virando mainstream e isso é bom.
Alexandre: eu acho que sim, pelo menos o primeiro. Vamos ver se a continuação mantém o tom.
Alexandre: o curioso é que a crítica mais perspicaz americano que li foi em um blog... de direita evangélica americana, desses que vêem conspiração em tudo. Claro que ele atendeu aos vieses assustadores deles, mas o que me saltou os olhos é que a análise, em si, estava correta: o roteiro na verdade fala justamente da falência das ideologias, não importando se são de esquerda ou de direita. Assim o final ganha outra conotação: deixá-las pra trás, todas elas, e seguir em frente. Óbvio que eles não gostaram disso...
A animação em si é de encher os olhos, o que se destaca no formato bluray.
Alexandre: Saiu o blu-ray aqui? Eu quero comprar!
E seu artigo elevou o filme no meu conceito. Mas pessoalmente, ainda acho Akira muito mais marcante (principalmente no quesito trilha sonora, como mencionado).
Alexandre: não tem muito jeito... Akira foi um marco de seu tempo e tem importância histórica para a animação japonesa. Não é fácil bater isso.
Obs: na época que assisti ao filme, estava lendo o livro "Cachorros de Palha", do britânico John Gray. Para quem se interessou pelas discussões entre o pai e o avô do herói sobre ciência e seu papel na história da humanidade, esse livro faz considerações muito interessantes sobre o tema.
Alexandre: interessante.
Agora, com relação a comparação entre Steamboy e Akira, penso o seguinte: Steamboy mostra por meio da interação de seus personagens o confronto entre várias ideologias, e como o protagonista e a O'Hara meio que transitam fora desse cenário. Mas mesmo essa idéia é apresentada de maneira muito sutil no filme, afinal ele seria uma recriação das história do citado genêro Edisonade, e portanto, limitada dentro de um determinado formato (mesmo com a quebra do paradigma por parte de Otomo ao mostrar a indecisão do protagonista em quem seguir, o pai ou o avô
Akira, por outro lado, possui maior campo de atuação, já que mesmo trazendo traços editoriais da publicação onde o manga original era veiculado, Otomo se afastou de várias dessas características nos trazendo um filme muito mais visual, propenso não tanto a plantar uma idéia quanto ao tema proposto, mas muito mais uma sensação quanto a tudo que estava sendo mostrado na película. Além disso, as questões filosóficas do filme são jogadas meio que na cara do espectador, mesmo que ele não compreenda muito bem o que ali está sendo mostrado. Akira me parece um filme onde o espectador não consegue ficar indiferente, ele tem alguma sensação. Steamboy, por outro lado, acaba causando em alguns momentos uma certa indiferença no espectador com relação a trama. Falo isso porque mais para o final do filme eu estava mais impressionado com a qualidade da animação do que com a história em si, e em Akira isto nunca me ocorreu.
No mais, já formatei sua matéria para imprimir e deixar guardada. Parabéns novamente.
Alexandre: valeu, cara.
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01882008000200017&script=sci_arttext
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