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Dez 06

Termina Spin-Off de Star of the Giants

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Lancaster | PERMALINK | 12

Categorias: Beisebol

Star of the Giants

Kyojin no Hoshi – ou, como é mais conhecida por muita gente, Star of the Giants, foi a obra de estreia de Ikki Kajiwara (com arte de Noboru Kawasaki) – e sem sombra de dúvida, a pedra fundamental daquilo que conhecemos como Shonen Mangá nos dias de hoje. É muito difícil explicar seu significado a essa altura do campeonato sem que tenhamos acompanhado sua influência em materiais posteriores, mas posso dizer que o DNA dessa obra está praticamente em todos os quadrinhos para garotos japoneses que vieram depois dele – as rivalidades entre dois jovens oponentes (Naruto versus Sasuke, Ippo versus Miyata, todos eles começaram aqui, só que sem frescura), os treinamentos insanos nas mãos de "mestres" que na vida real seriam recolhidos por um Star of the Giantscamburão de polícia por colocar menores de idade em risco de vida, a rota de ascensão contra oponentes mais fortes… e ao mesmo tempo, ela pegava pesado de uma forma que surpreende se levarmos em conta que ainda era o ano de 1966, transformando traumas de derrota da Segunda Grande Guerra (o pai mutilado do protagonista, um ex-atleta que perdeu um braço em combate, é quase uma alegoria da nação humilhada, visto em retrospecto), alcoolismo e violência doméstica em material de consumo de massa. E isso em uma revista para garotos – a Shonen Magazine da Kodansha, que ao lado da sua rival Shonen Sunday (Shogakukan), iniciou a era dos mangas semanais.
E pensar que essa história poderia não ter sido escrita: o editor-chefe da Magazine precisava superar a Sunday e tinha um plano editorial arriscado – ir contra a maré de autores clássicos ainda na ativa como Tezuka, Yokoyama e Ishinomori, e subir o tom dramático das histórias da revista, já percebendo o avizinhar da mudança de atitude dos jovens daquela geração – mesmo levando em conta que fatalmente iria irritar alguns pais preocupados em excesso. E descobriu Asano Takanori, autor de literatura juvenil, em revistas dirigidas a essa faixa etária. Takanori recusou justamente por não querer arruinar uma reputação literária que um dia ele desejava ter, que ele a princípio recusou, mas depois foi convencido – usando o pseudônimo de Ikki Kajiwara.

Star of the Giants

Os mangás de beisebol já existiam, e o monstruoso sucesso da obra despertou azedume tanto de veteranos do gênero como Shinji Mizushima (Abu-San, Dokaben), revoltado tanto com as licenças "irrealistas" que Kajiwara tomara com o esporte ("desenhe sobre o beisebol que um ser humano conhece"), e Osamu Tezuka, que costumava esnobar grosseiramente os quadrinhos de esportes ("Me diga o que tem de interessante nisso tudo"). Já no meio do esporte, as críticas vinham por conta de uma suposta "desqualificação do profissionalismo". Tanto faz: a série se tornou um sucesso monstruoso, marcou o começo do que conhecemos como shonen nos dias de hoje e até agora é lembrada como um clássico.
Star of the GiantsE a Shonen Magazine, que hoje em dia não é mais a nº1 do Japão como nos tempos de Star of the Giants e Ashita no Joe, ambos de Kajiwara, arriscou-se a tentar reviver a mítica do Star of the Giants original através do ponto de vista do personagem mais popular da série naqueles tempos: Mitsuru Hanagata, o grande rival do protagonista Hyuuma Hoshi. A série Shin Yakyuu Kyojin no Hoshi: Hanagata, de Yoshiyuki Murakami, foi lançada em 2006 e tenta não apenas fazer uma versão sob novo ponto de vista, mas procura também ser um remake que atualiza a história para nosso tempo.
E talvez seja esse o problema de "Hanagata": as obras de Kajiwara são antes de mais nada fruto daquela passagem dolorosa de uma nação arrasada pela guerra para a nação de economia próspera – e consumismo exacerbado – dos anos 70 e 80. As cicatrizes do pós-guerra eram visíveis, e a dureza estava presente. Se Hanagata já não podia ser comparado a Hoshi em termos de drama antes, imaginem hoje em dia, reinventado como um protagonista sorridente e amigável – devidamente amaciado para uma geração despreparada para o lado duro da vida, em uma época que, mesmo com crise econômica, nem se compara ao que foi o pós-guerra. Não dá para se ter uma ideia do impacto original de Star of the Giants com a leitura de "Hanagata", mesmo apesar de algumas boas sacadas (como desenhar Hoshi praticamente com a cara do Naruto, apenas com o cabelo preto. Isso não pode ter sido coincidência!).
É claro, tudo o que nasce em tragédia, acaba sendo revisitado como farsa.

Mas enfim, o mundo é assim mesmo e isso faz parte da dinâmica dos quadrinhos comerciais.
Em todo caso, Hanagata termina na edição de 22 de Dezembro da Shonen Magazine, e se encerrará no volume 22, que será lançado no dia 17 de fevereiro. Não fará muita falta, mas como comparar essa série com a sombra do Star of the Giants original?


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Comentários:

Nome: Jussara Gonzo 06/12/10 06:48
...espere o mar subir um pouco mais e as duas Coréias REALMENTE começarem a se estranhar e veremos a volta dos mangás fabulosos e dramáticos! :D
Nome: Ren Moraes 06/12/10 08:09
. . .

Esse mangá é sem dúvida um marco. Eu o conheci naquele livro do Frederick Schodt , onde ele descrevia os tortuosos treinamentos pelo qual o protagonista passa . . .

Aliás , vendo esse e outros personagens, creio que a melhor maneira de medir a masculinidade de um personagem de mangá , é ver as sombrancelhas cara , não é musculo e nem barba , sombrancelha grossa = Personagem macho estão aí Golgo13 , Kochikame e Kenshiro pra confirmar isso meu caro XD !!!

Alexandre: Perfeito! Hoje eles parecem depilá-las, tem que cultivar as sombrancelhas! XD
Nome: Thaís 06/12/10 08:43
"espere o mar subir um pouco mais e as duas Coréias REALMENTE começarem a se estranhar e veremos a volta dos mangás fabulosos e dramáticos!"

Sorte para os fãs, azar dos coreanos (civis de ambas Coréias)

Alexandre: E você acha que não vai sobrar para o Japão?
Nome: Fábio Hideki Harano 06/12/10 09:05
Olá, Lancaster.

Gostei e ri bastante deste trecho: "...os treinamentos insanos nas mãos de "mestres" que na vida real seriam recolhidos por um camburão de polícia por colocar menores de idade em risco de vida..."

Muito bom!

E que droga de comercial de Kirin Lemon! Mau gosto do caramba!

Alexandre: de comercial japonês, a gente ri para não chorar.
Nome: Fábio Hideki Harano 06/12/10 09:43
Sobre as sobrancelhas, achei bem interessante. Os personagens super-guerreiros-machões-honrados-virtuosos da dupla Kojima Goseki sensei e Koike Kazuo sensei só reforçam a regra!

Alexandre: vou pra mesa de desenho engrossar as sombrancelhas de meus personagens agora mesmo. Eles tem que dar exemplo! XD
Nome: Fábio Hideki Harano 06/12/10 10:01
Sobre a possível guerra entre Coreias, certeza de que vai sobrar para o Velho Yamato caso ela se deflagre!

Volta e meia você cita a brilhante ideia do artigo de Ben Hamamoto sobre o surgimento de Hello Kitty como consequência do horror atômico e da subjugação completa do Japão perante os EUA. Aliás, aprendi tudo isso neste blog. Muito obrigado.

Então, é bem curioso notar que as obras de cultura japonesa de exportação exploram muito a figura do grande guerreiro militar ou fictício ou de uma época passada, mais comumente o Japão Feudal.

Alguém falou alguma coisa das forças japonesas enviadas ao Iraque, a mando dos EUA? Houve algum manga mostrando a bravura dos soldados nipônicos nessa tosquíssima guerra do século XXI, ou mesmo criticando o envio de tropas? Até onde sei, nada!

Alexandre: É um ponto. As vezes, eu acho que os japoneses não levam sua força de auto-defesa muito a sério – ou então, no caso de um Zipang, sonham que elas deixem de ser uma força de auto-defesa para virar um exército de verdade.

Não apenas Hello Kitty, mas os heróis militares (termo mais específico do que apenas guerreiros) da cultura pop japonesa parecem ser filhos de um desolador cenário contemporâneo do pós-guerra e da pós-modernidade.

Costumo dizer que, depois de perder no campo de batalha, o Japão deu o contra-ataque no campo da informação por meio de um forte imperialismo cultural.

Com uma guerra envolvendo diretamente O Velho Yamato e acontecendo pertinho, a oeste, na Península Coreana, não haverá como ignorar o assunto. As areias do Iraque foram ser postas debaixo do tapete. A poeira que as Coreias podem levantar voará e atingirá em cheio o Japão.

E aí, com o baque da realidade nua e crua, a produção cultural japonesa ficará seriamente abalada e desnorteada a princípio, para depois se reerguer sem tantas baboseiras de um faz-de-conta cor-de-rosa.

É a tendência que vejo caso a guerra ecloda. Gostaria de saber sua opinião.

Alexandre: não é muito diferente. Claro que a China não vai ser mais rosnar a favor da Coreia do Norte como aconteceu com a Guerra da Coreia – ela está tocando um f***-se. Nesse caso tenho que concordar com a percepção geral: a Coreia do Norte é um buraco tocado por um ditador de republiqueta personalista, como os que pipocam na África. Ela é contraproducente, não oferece nada de útil para a China e só serve para manter os Estados Unidos próximos, via Japão, usando a Coreia do Sul como refém. Eu nem duvidaria que a China aproveitasse pra fazer um acordo com os Estados Unidos na encolha, para fazer vista grossa caso este invadisse a Coreia do Norte – e eu não duvidaria que em troca os Estados Unidos fizessem vista grossa para uma incursão chinesa em Taiwan. Seis por meia dúzia.
Mas sinceramente isso tudo o que fazemos é conjectura. Só vamos saber o que vai acontecer... quando acontecer.
Nome: R. Moss 07/12/10 09:48
Até que rendeu muito, mas eu achava muito difícil esse título significar alguma coisa nos dias de hoje.

Star of the Giants marcou época. Ele deu tão certo porque fez sentido na época.

Para o público de hoje, acredito que essa história não seja muito atrativa, até porque se levarmos em consideração que a obra-prima dos mangás de beisebol (e título esportivo mais vendido da atualidade e um dos mangás mais vendidos no Japão) Ookiku Furikabutte eclipsou até mesmo Cross Game de Mitsuru Adachi, não há série de beisebol - nova ou com um pé no passado - capaz de concorrer com esse título.

Alexandre: depende. Acho que o público de Cross Game quer algo mais do que um exame técnico de um jogo de beisebol em si.
Nome: Fábio Hideki Harano 07/12/10 01:11
O bom mesmo é que não aconteça. Mas, na real, é só uma questão de tempo.

Pode parecer bobo o que digo aqui, mas tomara que, nessa hora, o mundo todo esteja com as sobrancelhas bem grossas.
Nome: R. Moss 07/12/10 02:45
Sim, isso pode ser.

Até porque eu classifico os mangás do Adachi como cotidianos com um pano de fundo de beisebol. (H2 >>> Touch)

Mas se os mangás do Adachi falham em trazer outro público então isso será sentido cada vez mais, tendo suas obras vendas na descendente.

Mas eu generalizei e coloquei tudo no pacote. E imagino que o cenário possa ser bem diferente do que imaginei, afinal de contas, sou um brasileiro falando de mangás de beisebol. -_-
Nome: Fulanow 07/12/10 07:00
Tezuka deve se revirar no túmulo com o sucesso estrondoso de certos títulos que têm como tema "pessoas brincando com uma bola". Uma pena que uma gafe dessas tenha sido registrada para a posteridade.

@ R. Moss: embora eu simpatize com suas constantes demonstrações de empolgação ao falar de Oofuri(assim como compartilho seu apreço pelo baseball como esporte), já não é de agora que noto uma certa "simplicidade" na forma como você enxerga o mercado.

Explico: o pensamento de um autor ou uma editora não é - e nem precisa ser - "só vale a pena lançar um mangá de baseball/futebol/etc. se ele puder destronar o atual best seller". Vale lembrar que o público-alvo é mais vasto do que parece, principalmente com as diferenças de faixa etária que definem os "selos" das antologias. Sinceramente, acredito que "superar Oofuri" passou longe das prioridades dos envolvidos na criação de Hanagata(um shonen até os ossos), assim como passa longe das prioridades de um Terajima Yuuji, que vai muito bem com seu Daiya no Ace, obrigado.

Além disso, números de vendas dos volumes não são suficientes para analisar qual franquia é a mais LUCRATIVA. Duvido que Takuya Mitsuda esteja na rua da amargura depois de seu Major render 6 temporadas de anime e um longa para cinema...

O "reinado" da série de Higuchi Asa não indica, de forma alguma, vacas magras para outras publicações do gênero. Simples assim.
Nome: Jussara Gonzo 07/12/10 09:33
Sobrancelhas grossas?

Digitem "Tagame" na parte de imagens do google e confirmem a regra ;p
Nome: Felipe Xavier 12/12/10 01:59
Sobre as sombranceiras grossas, é interessante notar que hoje são motivo de piada, e Naruto é um exemplo: vide Rock Lee e Maito Gai, constantemente ridicularizados pelos outros personagens como "bregas", "esquisitos", etc.

Alexandre: o que é sintomático. O pior é que o Rock Lee tem todo o perfil desses heróis mais clássicos de mangá...

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