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Nov 18

Mangás Indicados para o Prêmio de Angoulême 2011

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Lancaster | PERMALINK | 5

Categorias: Premiações

Angoulême

Para os que não sabem, o Festival de Quadrinhos de Angoulême é o maior do mundo (OK, o Comiket japonês é maior, mas ele é uma feira de fanzines, enquanto Angoulême é um real evento multifacetado de quadrinhos!) e o seu prêmio é importante não apenas por isso, mas também por sua própria expressividade. Como o mercado francês é, de longe, o mais aberto do mundo ao material estrangeiro, lá são publicadas praticamente todas as HQs significativas do mundo. E como não existe restrição de categorias (nesse ponto ele é BEM diferente da maioria dos prêmios de quadrinhos, que costumam dar prêmios diferentes para material nacional e estrangeiro), há material do mundo inteiro disputando! Lá comics, mangá, fumetti e a própria BD franco-belga estão todos juntos na mesma disputa!
PlutoEsta é a Seleção Oficial este ano, que pode ser vista AQUI. Todos esses álbuns disputam o prêmio de Melhor Álbum, o Prêmio do Público (teoricamente votado pelo público do festival, na prática o sistema de escolha tem sido menos democrático, mas isso é outra polêmica...) e os diversos prêmios secundários.
Em termos de mangá, há apenas dois nessa seleção: La Chenille (Imomushi) de Suehiro Maruo, adaptando um conto de Edogawa Rampo, e o célebre Pluto de Naoki Urasawa, remake moderno (e adulto) de uma das mais famosas histórias de Astro Boy, clássico de Osamu Tezuka. Pluto é um material de qualidade indiscutível e Urasawa já foi premiado anteriormente em Angoulême (20th Century Boys recebeu o prêmio de Melhor Série em uma edição passada), mas as chances de vitória são baixas em um ano com muitos fortes candidatos, particularmente vindos dos comics americanos.
Como curiosidade, há um álbum de autor brasileiro na disputa. Toute la Poussière du Chemin ("Toda a poeira do caminho") foi escrito pelo brasileiro Wander Antunes e desenhado pelo argentino Jaime Martin. Wander, que mora no Brasil e não sabe uma palavra de francês, batalhou durante muito tempo para se estabelecer no mercado francês e agora começa a colher os frutos desse esforço. Que sirva de exemplo para todos os aspirantes a autores de quadrinhos do Brasil!
A presença do mangá é mais forte na Seleção do Patrimônio, que premia o material antigo reeditado na França no ano (podendo ser visto AQUI). Três Ashita no Joemangás estão presentes. O mais famoso é o célebre Ashita no Joe, de Asao Takamori (N. do E.: um dos pseudônimos usados por Ikki Kajiwara para poder produzir em diferentes revistas) e Tetsuya Chiba, sobre um jovem japonês que torna-se boxeador para superar as dificuldades da vida no ainda empobrecido Japão de finais dos anos 60. Na França a série é publicada na coleção Vintage da editora Glénat, em edições simples porém de boa qualidade.
Outro mangá famoso é Sabu & Ichi, do "rei do mangá" Shotaro Ishinomori. Mangá policial ambientado no período Edo, mostra a dupla Sabu (um jovem detetive) e Ichi (um massagista cego porém habilidoso com a espada) investigando os mais variados casos. Este mangá tem a peculiaridade de ter sido publicado parcialmente na França ainda nos anos 70, quando a pequena editora suíça Kesselring editou a revista Le Cri qui Tue, uma legítima antologia de mangá que publicou esta série junto com outros mangás de sucesso da época como Golgo 13. Foi também o primeiro mangá (e ainda um dos raros) a ter sido editado no formato álbum franco-belga, pela mesma editora, e vendido nas livrarias de língua francesa ainda em plenos anos 70! A experiência falhou e ele estava ausente do mercado francês desde então, retornando agora em volumosas edições de mais de mil páginas, um expediente cada vez mais comum para se publicar mangá clássico (e, portanto, pouco comercial) no mercado francês.
Tobacco-ya no MusumePor fim temos La Fille du Bureau de Tabac ("A moça da tabacaria" – Tobacco-ya no Musume em japonês) de Masahiko Matsumoto, um dos pioneiros do gekigá. Trata-se de uma coleção de histórias curtas ambientada no mesmo Japão dos anos 60 que mostra as dificuldades no relacionamento entre homens e mulheres em um pais em dificuldades econômicas e esmagado por uma tradição ainda muito opressiva.
Apesar da qualidade desses mangás, há um favorito de peso para esse prêmio: A republicação da famosa tira de aventuras norte-americana Terry e os Piratas, de Milton Caniff. Essa tira, ainda que pouco conhecida atualmente fora do meio especializado, influenciou absolutamente TODO o quadrinho ocidental desde então, algo que é visível nos fumetti, desenhados até hoje por autores com um estilo fortemente calcado no de Caniff. A nova edição francesa é calcada na atual edição americana da IDW, a melhor que a série já teve, e conta com muitos extras exclusivos, como homenagens desenhadas por autores franco-belgas de peso. Com sua importância intrínseca e a qualidade desta nova edição francesa, Terry dificilmente deve perder.
As melhores chances do mangá parecem estar na Seleção Juvenil (que pode ser vista AQUI). Esse prêmio é diferente dos outros por ser votado por um júri composto de crianças de 9 a 14 anos, que lerá os álbuns (também selecionados por uma votação entre leitores dessa faixa etária) e escolherá dentre todos o melhor. Os mangás indicados são extremamente populares: Naruto e Detetive Conan, séries que dispensam apresentações.

Naruto

Naruto é o mangá mais vendido da França e consistentemente uma das HQs mais vendidas por lá a cada ano, porém é a primeira vez que é indicado a este prêmio. O problema é que, apesar de sua enorme popularidade, esses dois mangás estarão enfrentando concorrentes muito fortes. O quadrinho franco-belga infanto-juvenil é provavelmente o melhor do mundo – e séries como Seuls e Game Over têm uma modernidade e energia que não ficam nada a dever a qualquer mangá. Nas prateleiras das livrarias elas podem ter menos saída que mangás mais baratos e com uma forte presença na televisão, mas quando o leitor tem realmente acesso direto a esse material, a qualidade pesa mais – e isso pode ser fatal para os mangás na disputa.
Em resumo, há uma considerável presença de material japonês nos prêmios de Angoulême este ano, mas eu diria que as chances de vencer alguma coisa (exceto um possível prêmio secundário para Pluto) são bastante reduzidas. (Por Pedro Hunter)


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Comentários:

Nome: AlphaZine 18/11/10 12:36
Queria muito comprar essa versão da Glénat do Joe.

Alexandre: E vale, na boa. A coleção é bem fornida e vai ter doze volumes se não me engano.
Nome: Felipe Onodera 18/11/10 04:08
Putz, mesmo competindo com Ashita no Joe e Pluto, ainda assim estou torcendo por Sabu & Ichi (a premiação de NonNonBa não foi menos surpreendente). Shotaro Ishinomori com certeza merece melhor reconhecimento mundial, e este é um dos seus melhores títulos. Como se não bastasse, teremos o excelente Ryu no Michi pela Glénat no ano que vem. É algo pelo que esperei muito para ver acontecer.

A Kana fez muito bem em trazer seus títulos mais adultos, onde Ishinomori já havia desenvolvido seu estilo próprio e inconfundível. Não os mais antigos dentre 1958 e 1969, onde a estética era mais próxima dos mangás do Tezuka (embora desde já eu o defenda por melhor uso das possibilidades narrativas do mangá. Ishinomori já experimentava enquanto Tezuka estava muito preocupado em ser didático), como foi o caso dos primeiros volumes de Cyborg 009 e a fase de Sabu to Ichi na Shonen Sunday (a edição da Kana traz capítulos tanto da Sunday quanto da Big Comic, onde a série se imortalizou).
Nome: Fábio Hideki Harano 18/11/10 06:01
Olá.

Não tenho o que comentar, e só estou passando aqui para dizer que li o texto e aprecio a contribuição de Pedro "Hunter" Bouça no Maximum Cosmo.

Até mais.
Nome: ana carolina 18/11/10 11:25
Esse é um lugar que pretendo conhecer, mesmo que não seja no evento em si. Muito interessante essa Seleção Juvenil, estou curiosa com o que vai sair daí...
Nome: Pedro Bouça 19/11/10 11:17
Valeu, Fábio!

Agora, eu comi mosca. Na pressa para escrever isso no dia da divulgação, eu não vi um outro mangá na selecção oficial: La Chenille ("A Lagarta") de Suehiro Maruo, adaptando um romance de Edogawa Rampo. Foi mal!

Alexandre: Pois é, e estou pedindo desculpas. Fui avisado mas ontem foi um dia complicado e não pude corrigir. Mas estarei colocando esse detalhe no texto agora mesmo!

Felipe, pelos motivos que já apontei acima, as chances de Sabu & Ichi são remotas. Mas ao menos a série já teve a honra de ser o primeiro mangá vendido nas livrarias francesas.

Por outro lado, Ryu no ano que vem deve ter chances melhores!

Alpha, Ashita no Joe está prevista para treze volumes na França. A edição é simples mas de boa qualidade, como a maioria dos mangás editados na França - e tem mais de 300 páginas por volume!

A quem ficou curioso para ler minha opinião sobre o resto do material (não-mangá;) indicado a Angoulême, estou escrevendo um (longo, longo) texto a respeito que devo mandar para meu Google Buzz e minha página no Facebook. Se houver interesse, eu posto aqui o link.

Alexandre: Você deveria colocar no Euroquadrinhos, na boa. Aquilo merece ser reativado. ;)

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