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Set 25
Da Série "Steampunk": Steam Detectives, de Kia Asamiya
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Categorias: Steampunk
Quando abri a série de artigos sobre o gênero Steampunk (para os que estão chegando agora: a revisitação da ficção científica dos primórdios, de Jules Verne, H. G. Wells e muita gente boa), houve na seção de comentários muitas perguntas sobre um dos derivados do gênero – o Dieselpunk. Enquanto o Steampunk toma como base a ficção popular das eras Vitoriana e Edwardiana – o Dieselpunk tomaria como base os anos 20 e 30. Se um seria a Dime Novel, o outro seria a Pulp Magazine; o problema é que em termos de Japão essa definição não funciona.
Qual o problema de se falar em Steampunk e Dieselpunk sob esses termos na cultura pop japonesa? É que diferentemente do que acontece no ocidente, separar os dois é algo complicado. Isso acontece porque no hemisfério de cá do planeta, houve um evento que efetuou uma quebra clara e deixou tudo bem distinto: a Primeira Grande Guerra. Ela não foi apenas um conflito em que morreu muita gente – e que para falar a verdade, foi de certa forma mais traumático do que a própria Segunda Grande Guerra; esta mesmo foi um mero efeito colateral da guerra que veio antes. Ela foi um divisor de águas – tanto que muita gente considera que o Século XIX terminou em 1914 (e se olharmos bem o que o mundo foi entre 1870 e 1914 – a "Era dos Impérios", de acordo com Hobsbawn [sim, tenho o livro] – dou toda a razão a quem pensa assim).
Então há uma diferença clara entre a cultura que gerou a matriz do Steampunk e a cultura que gerou a matriz do Dieselpunk. Há um mundo de distância entre a cultura pop que gerou Sherlock Holmes e a que gerou Doc Savage (apesar deste também ter uma mente científica ao seu favor); entre o culto ao racionalismo e a desconfiança que se passou a ter com ele; o cientista que, de herói inventor, passou a ser vilão e ameaça para um troglodita musculoso (se pensarmos bem, Conan é a transposição desse espírito a um universo de fantasia); entre as Dime Novels e as Pulp Magazines… enfim, no ocidente, o dieselpunk e o steampunk remontam a dois conjuntos culturais que são bem diferentes, cada um com seu ethos,
tendo como ponto comum meramente seu aspecto nostálgico e sua costura temática envolvendo o passado e a retrotecnologia.
Quando falamos de Japão, no entanto, essa diferença não existe. E há um bom motivo para isso.
As revistas juvenis nipônicas, na virada do século dezenove para o vinte, passaram a ditar o tom das aventuras que faziam da tecnologia seu cartão de visitas, e isso não mudou muito nas décadas seguintes – não houve uma quebra temática, por assim dizer, porque o maior definidor de tom durante esse período foi justamente a Guerra Russo-japonesa, e esse espírito se manteve durante o período de expansão militar do país – até a derrota na Segunda Guerra. O que mudou foi a abordagem da tecnologia, não o espírito das histórias. Por outro lado, a virada dos anos trinta para os quarenta viu o surgimento de uma indústria crescente de mangás, ainda buscando sua forma mais eficiente de difusão – e ela viria na década de cinquenta, com as grandes revistas semanais para garotos; não custa lembrar que os quadrinhos acabaram tomando o espaço popular dessas revistas juvenis. Para ancorar os dois em termos cronológicos, é preciso considerar o steampunk nos animes e mangás uma extensão tecnológica do próprio apreço dos japoneses pelo século dezenove e pela cultura vitoriana como um todo; já o dieselpunk vem da nostalgia de uma era de formação dos mangás como os conhecemos hoje, com garotos que podem fazer tudo, transitam como iguais entre adultos, pilotam robôs gigantes em seus ombros, ou com relógios de pulso, tem várias traquitanas de bolso, prontas para virar brinquedo – o mangá do tempo do vovô, enfim. No entanto, o Steampunk e o Dieselpunk apesar de tudo ainda são visões sobre o passado e a relação entre o
mundo e a tecnologia; acabam fatalmente se assemelhando, seja de onde vierem.
E no Japão, ambas ocupam uma grande área de intersecção que é difícil de se precisar, sem a quebra representada pela Primeira Grande Guerra. Sem âncoras claras de contexto, eles flutuam em uma espécie de neblina conceitual aonde não se sabe aonde o vapor termina ou começa o diesel – e acontece muita coisa em meio a esse nevoeiro, inclusive o surgimento e crescimento dos cânones que marcaram as primeiras décadas de produção quadrinhística para garotos (sim, falo dos garotos onipotentes e cheios de traquitanas prontas para virar brinquedo). E sem a ajuda da ótica ocidental, a diferença parece menor do que se imagina.
Há um punhado de obras steampunk que em maior ou menor grau não chegam a se tornar exemplares dessa nebulosidade, como Steamboy, Nadia: The Secret of Blue Water e Patapata Hikousen no Bouken; eles oferecem âncoras cronológicas bem claras, relacionadas ao século dezenove (de três, dois são vagamente inspirados em Jules Verne); acontecem em um escaninho temporal anterior a essa "neblina". Mas quanto mais entramos no século vinte, mais essa linha se torna difusa – seja no combo multimidiático Sakura Taisen, nos navios voadores de Last Exile (estes são de certa forma um tributo à ficção científica das eras Meiji [tardia], Taisho e Showa), e de uma forma bem particular na série Steam Detectives (Kaiketsu Jouki Tanteidan), de Kia Asamiya.

Um Pouco de Histórico Editorial
É importante pontuar que antes de mais nada, Steam Detectives é um mangá (e anime) do seu tempo – no caso, os anos noventa. Isso quer dizer que ela reflete justamente os elementos básicos de, digamos, "otakicidade" que estavam ainda incipientes durante aquele período de transição, mas que viriam a se tornar periclitantes no futuro. Ou seja, ele tem doses discretas (mas visíveis) de fanservice, de fetichismo, aquela cara de "material amigável a cosplayers", e não custa dizer que Asamiya foi o criador de Martian Successor Nadesico, que parodia pesadamente esse universo – ele sabe o que está fazendo e do que está falando. Esse material também nasceu com um certo senso de
oportunismo: 1994 foi o centenário de nascimento de Edogawa Rampo, o mestre da literatura policial japonesa, e o tema detetive estava em alta – todo mundo queria ter o seu. Bom lembrar, foi nesse ano que surgiu, na revista Shonen Sunday da editora Shogakukan, a série Detetive Conan de Gosho Aoyama; não custa lembrar que o nome do pequeno detetive mirim é Conan Edogawa. Mas vamos voltar aos detetives a vapor de Asamiya.
Em primeiro lugar, nem o autor nega que a idéia básica por trás de Steam Detectives foi pegar carona na data e gerar sua dose de produtos. Tanto que a série foi lançada nada mais nada menos do que na revista para garotos Shonen Jump, da Shueisha – não a semanal, que é a revista nº1 do Japão, mas a mensal, que anos depois acabou sendo extinta na esteira do encolhimento do mercado, e deu lugar à revista Jump Square. Mas o fato é que ele se voltou bem para trás na hora de encontrar um diferencial para sua série de detetive: sua inspiração assumida foi um dos mais bem acabados exemplos dos quadrinhos para garotos de seu tempo: Homem de Ferro 28 (Gigantor, no ocidente), de Mitsuteru Yokoyama (de quem o nosso colaborador Felipe Onodera já falou de forma extensa AQUI). Na verdade, Steam Detectives deve as calças a Yokoyama, tanto em termos de design de personagens e robozões como pela reapropriação de signos característicos dos mangás do período – e muito trabalhados pelo autor (como o garoto herói que faz trabalho de adulto, por exemplo). E foi lançado um one-shot (história curta e fechada) na edição de maio de 1994 da Jump mensal. O material foi bem-recebido, mas a série regular acabaria
estreando apenas em 1996, perdendo o timing dos materiais de detetive. Talvez por isso a ênfase tenha sido direcionada para aspectos mais clássicos: o garoto heróico contra vilões farsescos, com influência de animações ocidentais como o sensacional Batman: The Animated Series de Bruce Timm e Paul Dini (que durante sua exibição em terras japonesas chegou a constar na lista dos 50 desenhos mais populares em audiência naquele ano – desempenho e tanto para um material ocidental na televisão nipônica). Batman não foi o único material estrangeiro a influenciar Asamiya – é possível até encontrar as sombras e uso de preto de um Hellboy, de Mike Mignola, embutido aqui. Essa série é um combo de influências e cada uma delas acabou se tornando mera parte de um todo próprio, como se Asamiya aproveitasse a vagueza dessa neblina cultural e despejasse mais e mais elementos no cenário para criar seu próprio universo visual.
Nesse sentido, essa neblina beira o metalinguístico: a história se passa em uma cidade fictícia e atemporal chamada Steam City, localizada em algum ponto entre o final do século XIX e a década de 30 – um "Século XIX como deveria ter sido", segundo os releases americanos do material. Sua fonte de energia é vapor de carvão, o que fez essa tecnologia ser desenvolvida ao máximo – mas gerou uma neblina eterna. Por conta disso, Steam City é um ninho de criminosos que podem estar a um palmo de seu nariz, protegidos pelo nevoeiro de todo santo dia.

Supermáquinas e Supervilões
E quando falamos de criminosos, não falamos de ladrões de rua (embora eles também estejam lá). Falamos em criminosos excêntricos e mascarados, cientistas loucos, robôs movidos a vapor, ladrões cavalheirescos cheios de truques. Steam City é um grande cadinho que reúne tudo o que tem estrada na cultura pop japonesa e mundial e pôde ser filtrada pela antena retrô de Asamiya. O Cavaleiro Fantasma é um Batman do mal que antecipa em muito o Nemesis de Mark Millar – mesmo sua origem remete ao bom e velho morcego, querendo vingar o pai criminoso que morreu nas mãos do pai de Narutaki, também detetive. A ladra mascarada de jóias Escorpião Vermelho
não é a Mulher-Gato: ela (e seus capangas) são herdeiros diretos, óbvios e ululantes da série setentista Time Bokan da Tatsunoko (que não passou no Brasil; era um conjunto de séries infantis que incluiram Yatterman, recentemente ressucitado para a tela grande, mas que também geraram outras séries similares como Zenderman, Otasukeman e outros "man" de menor monta) que estabeleceu um padrão posteriormente convertido em alto-conceito de vilões: uma mulher, adulta e sexy, comandando um par de capangas ineptos – fatalmente um alto e magro e outro baixo e gordo. Dr. Guilty é uma espécie de equivalente steampunk ao Dr. Willy de Megaman, criando oponentes mecânicos que são lançados contra Goriki, em retaliação a seu finado criador. Le Bread, o nêmesis de nossos heróis, é uma espécie de elo perdido entre o ladrão cavalheiresco (o Arsene Lupin de Maurice Leblanc – e similares como o britânico Raffles de Ernest William Hornung) e o vilão totalmente amoral (o Fantômas de Marcel Allain e Pierre Souvestre – de quem o vilão parece ter emprestado muito de sua concepção visual, aliás), mas turbinado com uma série de traquitanas retrotecnológicas que o fazem empatar em capacidade com nosso herói – são os confrontos de Le Bread, o garoto criminoso, contra o nosso garoto detetive, que garantem os pontos altos da série. E a propósito, assim como o protagonista, ele tem uma parceira (a enfermeira do mal Lang Lang) que funciona como um espelho maligno da parceira do mocinho…
… e temos que falar deles, afinal.

O herói, dentro da premissa retrô de Asamiya, é um garoto detetive e inventor chamado Narutaki. Suas invenções fantásticas, no entanto, obedecem a um critério de funcionalidade dentro de seu papel de detetive: armas que ele possa usar, veículos que ele possa pilotar, técnicas de investigação que possam ajudar a decifrar seus casos. Ele veste o manto de maior detetive da cidade quando seus pais são mortos, mas o fato é que ele ainda é um garoto. Isso divide a reação geral entre aqueles que o enxergam como herdeiro de seu pai e os que o enxergam como um mero garoto incômodo querendo bancar o detetive.
Narutaki é herdeiro direto dos garotos protagonistas dos mangás dos anos 50 e 60 – de quem, via revisitação, conhecemos melhor através do Shotaro Kaneda de Gigantor e do Daisaku Kusama de Robô Gigante (ou de paródias mais obscuras como a irregular – tem bons momentos e o nível sobe MUITO do meio para o final, mas o início é imbecil que dói – Ojii-chan wa Shonen Tantei, de Yoshihisa Inoue, que faz um desses protagonistas-padrão, curiosamente chamado de Shonen Dash, ser congelado e despertado nos dias de hoje, com resultados desastrosos). O maior atrativo desses personagens em termos de identificação, em seu tempo, era atender a vontade de um garoto de fazer o trabalho de um adulto e trafegar por seu mundo como um deles. Isso mudou: hoje a graça parece ser ter a capacidade de fazer o trabalho de um adulto sem deixar de ser um garoto nos demais sentidos. Mas para a proposta de Asamiya, a velha ordem funciona. O que nos leva a sua parceira, Ling Ling – que originalmente foi pensada como chinesa mesmo, com um visual correspondente, mas que rapidamente foi repensada visualmente para um visual mais europeizado e mais ajustado ao visual ambiente. Faz sentido: se todo mundo ali é essencialmente japonês, apesar do visual profundamente ocidental do ambiente em relação à época evocada, porque com uma chinesa ou nipo-descendente seria diferente? Ela é um clichê – aquela moça mais velha (que reflete justamente o desejo que todo garoto tem em determinada fase da vida por uma mulher mais
desenvolvida e bem-formada do que as meninas de sua idade). E sim, ela tem seu quinhão de fanservice – Asamiya sabe quando deve usá-lo e por isso ele não aparece em todo santo episódio, mas está lá. Fechando a trinca, há o braço forte do grupo – o robô Goriki, que na verdade carrega o cérebro do finado pai da moça e está sempre disposto a protegê-la. Pronto. Temos nossa trinca de protagonistas.
Detetives a Vapor
Steam Detectives em si é formulaico e menos complicado do que poderia ser. Essencialmente acompanhamos de forma contínua os casos de Narutaki, Ling Ling e Goriki, em arcos curtos. É um material extremamente amigável aos leitores de primeira viagem. Talvez por isso mesmo, nos Estados Unidos, a série tenha tido uma vida até longa nas tentativas que a Viz fez de levar o conceito de almanaques de mangá aos Estados Unidos (e não por acaso, foi assim que eu descobri o material). Ele começou sua carreira estadunidense na revista Manga Vizion (me desculpem os fãs da Pulp – nunca a achei tudo isso, sendo honesto – mas acho que a Vizion foi o melhor almanaque já publicado nos Estados Unidos, reunindo autores
como Osamu Tezuka [com Black Jack], Moto Hagio, Ryoichi Ikegami e Rumiko Takahashi [com seu Rumic Theatre, que possivelmente é o melhor trabalho da autora em minha humilde opinião] – além de séries como Spriggan [Striker no ocidente] fazendo companhia às aventuras de Narutaki, Ling Ling e Goriki) e com o seu fim, migrou para a sua sucessora, a Animerica Extra; Steam Detectives podia ser bacana, mas o nível da nova vizinhança baixou: Fushigi Yuugi, Marionette Generation, Utena, X da Clamp e Video Girl Ai. Podem reclamar a vontade, mas não tem como isso aí ser melhor do que o material da Manga Vizion, nem na base da porrada. No final, a saga de Asamiya acabou não sendo publicada por completo nos Estados Unidos.
Enquanto isso o mangá também teve suas atribulações. Acabou sendo transferido para a revista mensal para leitores adultos Ultra Jump em 1998, no mesmo ano do lançamento do desenho animado, produzido pelo estúdio Xebec – e que como de costume, é inferior ao material original; adaptações minimizaram o drama original da história, fazendo com que momentos dramáticos fossem suavizados e conceitos de personagens se tornassem desnecessariamente infantis (o caso mais evidente foi em um dos confrontos entre Narutaki e Le Bread, aonde várias bombas foram plantadas – sendo que uma estava ligada ao corpo de uma pessoa; no desenho, esse último detalhe foi removido). Para piorar, para que o desenho saísse, o contrato exigiu uma série de encomenda para o Estúdio (e foi assim que nasceu Corrector Yui – talvez o pior trabalho do autor). Em todo caso, Steam Detectives permaneceu na Ultra Jump até sua conclusão em 2000, quando ganharia um romance pela linha de light novels (romances ilustrados) Super Dash Bunko da mesma Shueisha. Um segundo romance sairia por essa linha...

... mas o fato é que 2001 seria um ano de mudança de casa. Kia Asamiya na verdade não concluiu a série – ele a interrompeu, e a prosseguiu, com novo nome e nova numeração. Foi a vez de Shin Kaiketsu Jouki Tanteidan – que poderia ser traduzido simplesmente como New Steam Detectives – gerando 13 volumes na hoje extinta revista mensal Dengeki Comic Gao! da ASCII Media Works (mais uma das editoras nanicas que compõem o grupo editorial Kadokawa), fazendo com que a obra completa tenha, na verdade, 21 volumes – concluídos em 2003.
A Era Atemporal
Steam Detectives é material de entretenimento puro, e ninguém deveria esperar mais do que isso da obra. Mas ele é curioso porque não apenas é lembrado como um dos exemplares mais bem acabados do gênero Steampunk nos mangás; não fosse o fato da onipresença do vapor em si, ele seria considerado facilmente Dieselpunk.
Ou talvez não. As moças usam mangas presunto como costumavam usar nas duas primeiras décadas do século vinte, a arquitetura da cidade remete a cidades como Praga, na República Tcheca (que é praticamente um monumento vivo a todas aquelas estéticas arquitetônicas e decorativas do século dezenove – e a silhueta de suas construções é inconfundível). É a década de 1910 de autores de mistério como Sax Rohmer (o criador do infame Dr. Fu Manchu, que foi criado em 1913), da literatura, só que com uma influência estética das décadas seguintes, com os sobretudos celebrizados pelos detetives dos anos quarenta (o que não chega a ser totalmente anacrônico, porque sobretudos como os conhecemos são algo que existe desde antes do século vinte), e também trazendo para esse 1910 algo das pulp magazines que marcaram as duas décadas posteriores, e, como dito ao longo desse texto, juntando ao bolo parte do ethos dos mangás dos anos 40 e 50, encaixados nesse cenário, como se Asamiya estivesse consciente dessa área difusa que faz do dieselpunk mera parte do steampunk japonês, e a corporificasse em uma cidade nominalmente steampunk sob uma neblina que esconde três décadas de mundo.

Le Bread é Lupin e Fantômas, mas o Cavaleiro Fantasma é Batman, Ling Ling e Lang Lang prestam tributo a otakicidade incipiente dos anos 80, Escorpião Vermelho é uma reapropriação de formas tradicionais da animação japonesa (e se pensarmos bem, Ling Ling também o é), e tanto os grandes robôs (okay, não tão grandes aqui) como Goriki e similares, quanto o próprio protagonista Narutaki são muito reminiscentes da obra de Yokoyama (não custa dizer que a brilhante adaptação animada do clássico Robô Gigante assinada por Yasuhiro Imagawa é, sem sombra de dúvida, dieselpunk puro e a enésima potência). Se pensarmos por esse viés, a
interpretação de Asamiya para o steampunk é extremamente pós-moderna.
Isso tem lá sua cota de revezes para aqueles que assistem o material fora do Japão. Só aqui no Brasil por exemplo, deixamos de ver muita coisa que fez história em plagas nipônicas – e por isso não acompanhamos a transformação dos vilões de Time Bokan em alto-conceito (presente também em outro anime steampunk: Nadia, the Secret of Blue Water). Não lemos os mangás de Yokoyama, dificilmente leremos e se algo do autor chegar ao Brasil, dificilmente serão seus sucessos populares, e sim seus materiais mais maduros (diabos, se pensarmos bem, tem sido esse o perfil geral da publicação de Tezuka no Brasil. Acham realmente que será diferente com outros autores clássicos como Yokoyama e Ishinomori – SE eles chegarem?).
Por outro lado, séries que dependem excessivamente de referencial para serem apreciadas são séries muito pobres em execução, que usam piscadas para leitores velhos de guerra como muleta. E não é o caso aqui. A série não é um clássico, e já caminha para certa datação, mas apesar de tudo ainda é o que é: um produto juvenil muito bem executado e que dá exatamente o que oferece – um garoto detetive, um robô grandalhão, uma moça com traje de enfermeira e aventuras redondinhas. E foi nesse esforço de cumprir o básico que ele acaba se tornando um dos melhores exemplares do steampunk em terras japonesas.
Ele não quis nem precisou ser mais do que isso. Foi o suficiente.

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Comentários:
No entanto, os dois podem ser considerados descendentes literários do Rocambole de Ponson du Terrail...
Alexandre: Corrigido. E realmente o Rocambole é pouco conhecido – menos do que deveria, aliás.
Antes de qualquer coisa, estou muito feliz de vê-lo com saúde (assim espero...).
Alexandre: Eu estou bem, obrigado. Mas tenho alguns motivos para voltar devagar.
Agora, sobre o texto:
- Como sempre, uma belíssima demonstração de bom gosto de vossa parte, além de ter o tamanho extra-largo que o assunto merece (Lancaster, não ligue para os que pedem textos pequenos; quanto maiores eles são, melhores eles ficam).
Alexandre: Obrigado. Eu sinceramente tenho pensado seriamente em como oferecer mais textos. O que pretendo para este blog tem a ver com isso.
- A sobreposição japonesa entre steampunk e dieselpunk, como você coloca, tem uma explicação histórica:
O Japão nunca passou pelo trauma psicológico que a Europa (e, em parte, os Estados Unidos, por terem que romper o seu auto-isolamento em assuntos europeus) teve com a 1ª Guerra Mundial; na verdade, ele foi um dos ganhadores dessa guerra, como aliado menor da Tríplice Entente (a aliança militar entre a Inglaterra, a França e o Império Russo) no Extremo Oriente, guardando as rotas navais contra as operações militares alemãs que saíam dos territórios germânicos conquistados na China; essas possessões foram-lhe repassadas ao final do conflito.
Não sofrendo baixas, nem danos significativos nesse embate, junto aos ganhos territoriais vindos desde a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1895), que só teriam termino na rendição aos Aliados ao final da 2ª Guerra Mundial (1945), criou-se uma continuidade psicológica e cultural que permitiu a linearidade entre steampunk e dieselpunk que nós percebemos nos mangás e na literatura popular local, ao contrario dos Estados Unidos e da Europa.
Alexandre: Bem lembrado, ótimos pontos.
- Sobre o Kia Asamiya, eu tenho uma curiosidade (e acho que alguns leitores da Velha Guarda deste site):
Como um autor consegue fazer duas séries steampunk tão boas e de sucesso como Steam Detectives e Sakura Taisen? Sorte? Competência? Uma combinação das duas {fora o excelente bom-gosto; só a utilização de Batman: The Animated Series, de Bruce Timm e Paul Dini, e de Hellboy, de Mike Mignola (em minha opinião, um dos melhores personagens de HQs criados nos anos noventa) (por favor, Lancaster, não repare, é que sou fã do diabão, e do Kia Asamiya) (podem reclamar a vontade, mas considero Corrector Yui uma série muito melhor do que as pessoas acham, mas sei que não é nenhuma obra-prima)}?
Alexandre: Asamiya não tem nada a ver com Sakura Taisen, Júlio. Ela foi criada com Ouji Hiroi com designs de Kosuke Fujishima.
-Para terminar:
“não custa dizer que a brilhante adaptação animada do clássico Robô Gigante assinada por Yasuhiro Imagawa é, sem sombra de dúvida, dieselpunk puro e a enésima potência”
Aproveitando o mote, assino embaixo.
Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva Filho
Tem uma chamada em meu blog
http://cidadephantastica.blogspot.com/2010/09/retrofuturismo-oriental-2.html
Alexandre: Opa, obrigado mesmo, Romeu!
Não seria Dr. willy?
O robotinik é do sonic
Alexandre: Esse foi um furo imenso, mesmo! Acabei de corrigir o texto. Obrigado por me apontar isso.
(;
Alexandre: O Robotnik já foi consertado, mas quanto ao Hobsbawn eu estou correto. Tá na capa do livro.
Interessante! Nunca tive muito interesse no material do Asamiya, talvez pela má impressão que peguei no período mais recente dele, quando ele começou a desenhar todos os seus personagens parecidos com o Ringo Starr...
Imagino que agora a sua idéia seja escrever vários artigos descrevendo uma a uma as séries nipônicas mais famosas do genero Steampunk. Qual será a próxima?
Alexandre: Eu ia dar uma pista, mas ela é meio óbvia quando se fala em Steampunk e Japão. Então eu vou dizer apenas para você esperar.
P.S: existe alguma série deste gênero mas que remeta ao final do século XIX no Japão ao invés da Europa? Tipo um Samurai X com mais fumaça?
Alexandre: O mais próximo disso é Sakura Wars, apesar dela se passar em uma década de 20 alternativa aonde a primeira guerra nunca aconteceu.
Alexandre: Isso se deu por conta da minha própria história no gênero. Eu pesquisei tudo o que podia e que me caísse em mãos sobre a época. Tenho praticamente uma videoteca, uma gibiteca, uma biblioteca e uma desesperadora falta de estantes sobre o assunto em casa. E sempre que aparece algo interessante, acabo levando pra casa, desde catálogos de compras de 1897 até compilações de Penny Dreadfuls. Algo me diz que um belo dia vou sofrer algum tipo de problema respiratório... XD
O artigo e muito legal, o Kia Asamiya teve pouca visibilidade aqui, seja anime ou em mangá (Só Dark Angels, numa edição bem estranha e Batman Mangá, não é?).
Alexandre: Dark Angel foi meio que um trabalho de início de carreira, com uma série de problemas (minha impressão é que é uma obra de um Asamiya ainda inexperiente) e teve complicações de bastidores – tanto que Asamiya o deixou inacabado e tentou fazer no mercado americano um reboot chamado Phoenix Ressurrection, muito superior em todos os aspectos, mas que teve vida mais curta ainda e, novamente, ficou inacabado. O Batman dele, por outro lado, é bem legal e poderia ser republicado – seria fatalmente pela Panini, na certa.
Mas essa confusão entre diesel e steam é muito comum. E olha só, pra mim chamava tudo isso de retrofuturismo e ficaríamos felizes. Olha só: o steampunk tem pouco do PUNK do nome e tal...
Alexandre: Isso é verdade. O nome foi plantado por conta da analogia com o Cyberpunk (e olhando a pedra fundamental do gênero, o Difference Engine de Gibson e Sterling, não está errado). Mas ele cresceu para além das origens do rótulo. Na verdade acho que aqueles que cobram o Punk do Steampunk muitas vezes estão interpretando o nome de forma muito literal. Ele se tornou mais plural do que isso, o que foi bom.
Mas essa obra parece uma coisa deveras divertida. E com a quantidade de coisa steamer saindo aqui no Brasil, se eu fosse de alguma editora já ficava de olho.
Alexandre: Antigamente eu não acharia que ele fosse funcionar por aqui, mais por conta de seu referencial estético mais clássico em muitos aspectos. Hoje a situação mudou e muito – talvez valesse publicar a série completa, reunindo suas duas fases, de uma tacada só.
E sim, Steam Detectives é divertido para cacete.
Mas a parte bacana do artigo é a parte que você diz que Steam Boy Detective pode ser um artigo pós-moderno.
Alexandre: Sem sombra de dúvida!
"Asamiya não tem nada a ver com Sakura Taisen, Júlio. Ela foi criada com Ouji Hiroi com designs de Kosuke Fujishima".
Agradeço a correção.
(eu devia ter lubrificado a engrenagem da Atenção semana passada...)
Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva Filho
Talvez o problema tenha sido justamente eu ter colocado minhas mãos nesse material depois de já ter experimentado vários dos títulos de que ela derivou, e contra os quais a competição se torna bastante desleal. No fundo, eu não conseguia encarar como nada além de uma cópia medíocre do que eu já havia visto antes. Kia Asamiya definitivamente continua sendo um autor com o qual eu sempre terei uma relação conturbada, não importa se sejam obras distintas como Nadesico ou Silent Mobius, nada que saiu da mente dele desce direito comigo.
Curioso é que foi justamente o Rocambole de Ponson du Terrail que me fez me interessar pela literatura quando criança. Herdei vários livros que pertenceram ao meu pai quando jovem, que incluíam de Rocambole a Arsene Lupin (em edições que hoje são raridade mesmo nos melhores sebos). Sempre achei estranho o fato de a personagem ter praticamente sido varrida da cultura popular, mesmo com “rocambolesco” até hoje figurar como palavra no dicionário.
Alexandre: Bom, Steam Detectives era um título que eu lia via Manga Vizion e Animerica Extra. Então dá para ter idéia de quando eu comecei a ler esse material. E admito que eu nunca consegui me interessar tanto assim por Silent Mobius. Mas para mim, SD é eficiente e funciona até hoje.
Rocambole é difícil de encontrar, mas vale a pena. tenho pouquíssima coisa, cavada com dificuldades em sebos. O fato é que Terrail era divertidíssimo, mas não era nenhum Alexandre Dumas. Na verdade ele equivalia aos grandes sucessos da Shonen Jump, desses que magnetizam multidões por anos, mas uma vez terminados, vão desaparecendo da memória. Na verdade a própria estrutura dos mangás para mim deve muito aos romances de folhetim.
Alexandre: Obrigado, Gabi. Só aviso que estou voltando num ritmo devagar, por conta de problemas de tempo. Por outro lado teremos menos news, mas mais artigos.
Gostei bastante do artigo, e confesso que eu olhava o Steam Detectives com o nariz meio torcido. Acho que foi depois que eu descobri que o Cavaleiro Fantasma era o Batman cuspido e escarrado, aí me deu uma preguiça enorme... se eu achar qualquer coisa desse material (do mangá de preferência, confesso ter preguiça com vídeos) eu pego na hora.
Alexandre: Vale a pena.
Pergunta meio direta, mas você vai falar de Sakura Taisen?
Alexandre: Pretender, pretendo. Mas esse material não está na frente da fila, por um motivo: os animes são a parte mais fraca do material, e o coração da franquia está nos jogos. E eu não jogo videogame. Talvez eu prefira por conta disso me limitar aos mangás e talvez aos animes, e deixar comentários sobre os jogos nas mãos de quem possa falar melhor sobre eles do que eu.
Alexandre: Acredite, foi ele quem reduziu o ritmo desse blog nos últimos tempos. E como ele está atrelado a um projeto maior, depende de algumas coisas para sair da toca.
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