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Ago 24
Morre Satoshi Kon
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Lancaster |
PERMALINK |
9
Categorias: cinema
Imaginem isso. Eu terminei um trabalho que me tomou vários dias e quis fazer algo que há muito tempo eu não faço: simplesmente sentar e assistir um filme. Fui para o shopping, querendo o Blu-Ray de Neon Genesis Evangelion. Como ele não estivesse lá, eu comprei o de Paprika, de Satoshi Kon – autor de um dos melhores animes para televisão das décadas mais recentes, o brilhante Paranoia Agent.
Kon é brilhante e um dos nomes mais associados ao movimento Superflat no campo da animação. Ele despontou para o cenário da animação japonesa com Perfect Blue, que nunca foi meramente uma "história de suspense que poderia ser feita com atores e cujo mérito é mostrar que isso poderia ser feito em
animação" – porque o mérito da história não é esse. A cena da despedida de Mima de seu grupo pop, o Cham!, é no mínimo emblemática: primeiro, um grupo ao estilo super sentai (leia-se, a la Power Rangers) encenando uma cena típica desse tipo de seriado. Depois, a reação do público reagenindo negativamente a saída dela do grupo. Depois acompanhamos em paralelo a vida normal da moça, alternada a cenas do seu show final – e vemos o que na verdade isso é: um monte de zé-manés, desses que nenhuma garota que se preze daria trela, acompanhando um bando de meninas vestidas de boneca que cantam músicas dignas das paquitas da Xuxa. Poucas imagens sobre o assunto são mais diretas do que isso.
Kon sempre foi um crítico duro da sua sociedade. Tokyo Godfathers era uma olhada na miséria que se aglomera em torno de uma sociedade riquíssima mas que, claro, não interessa que seja mostrada pelas câmeras. Millenium Actress – que é seu trabalho visualmente mais bonito na minha opinião – ao contar a história de vida de uma atriz intercalada com cenas de seus filmes e ilustrar essa história com cenas de seus filmes, que refletem os fatos de sua vida real, acaba tocando a raiz do discurso superflat – a incapacidade do japonês moderno em discernir ficção da realidade. Tema que está presente também em Perfect Blue, aliás. E em Paranoia Agent. É uma constante em sua obra.
Paranoia Agent é uma obra notável. Uma série incomum, ancorada em tensão social, causada por um criminoso que ataca pessoas atormentada por horríveis culpas – e que se sentem aliviadas após o ataque. Há um paralelo óbvio com a bomba atômica e seus efeitos de infantilização sociedade japonesa – e que joga no ar uma tese assustadora: não haveria Hello Kitty sem Hiroshima e Nagasaki. O Japão, como povo e como cultura nos dias de hoje, simplesmente tem
medo de se tornar adulto, porque adultos são responsabilizados pelo que fazem. A ideia é fugir da responsabilidade – e se manter numa posição eternamente infantil. Não poderia deixar de ser polêmico.
Kon sempre pareceu se interessar por uma abordagem psicanalítica do assunto – e de suas consequências sociais. Paprika é um exemplo bem claro disso, e realmente não é filme para ser visto em uma telinha de tv por assinatura, com margens cortadas. Ele se aproxima de um filme como A Origem (Inception) com seu onirismo surrealista, ao contar a história de um tratamento psicoterápico que consiste na entrada do terapeuta nos sonhos dos pacientes – e do que acontece quando a máquina que permite isso é raptada por um "terrorista dos sonhos". Não me parece melhor do que Paranoia Agent em termos de roteiro, mas é obra obrigatória de se ter com a melhor imagem possível.
E de repente eu chego em casa e dou de cara com a notícia da morte de Kon.
Não há muitos detalhes ainda – ele morreu ontem de câncer no pâncreas aos quarenta e seis anos de idade, mas a informação foi tornada pública hoje, via declaração de Masao Maruyama, fundador do estúdio Madhouse. Kon estava trabalhando em um novo longa-metragem, Yume Miru Kikai (A Máquina dos Sonhos), que apesar do nome nada tem a ver com Paprika. Seria seu primeiro material com um tom maior de aventura, voltado a um público mais infanto-juvenil, aonde não haveriam peronagens humanos; apenas robôs. Kon também dizia que o filme estruturalmente seria um Road Movie. Não se sabe o que será da produção ainda.
Em todo caso, Kon fará falta. Ele fará uma enorme falta na animação japonesa: Oshii não é essa cocada toda (na verdade o maior mérito de Ghost in the Shell para mim, assim que virou franquia, foi o de revelar o talento de Kenji Kamiyama em Stand Alone Complex), Otomo filma de quando em nunca, Miyazaki não é mais o mesmo e Anno parece mais interessado em refazer sua principal obra, Neon Genesis Evangelion – pela última vez, espero.
E quanto a mim? Bom, assim que eu pôr esse post no ar, eu vou desligar o computador, sentar e assistir Paprika. Em alta definição, porque Kon merece. Se Millenium Actress pintar por aqui, também faço questão de comprar. Porque o que fica de um autor na Terra é sua obra.
Não foi uma passagem ruim, pelo visto.
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Comentários:
Onde é possível ler mais sobre isso?
Alexandre: Cheguei a falar sobre isso em um artigo a respeito do movimento Superflat, que pode ser lido AQUI. Há uma citação a um texto de Ben Hamamoto sobre o assunto no jornal americano Nichi Bei Times, com direito a link. Infelizmente, o link parece não funcionar mais.
Eu pessoalmente estava gostando muito do visual de produção do Yume Miru Kikai, espero que ele ainda seja lançado, mesmo que talvez não com a qualidade que se espera de uma autêntica produção de Kon.
O casal já sabia que estava há seis meses que ele estava morrendo. A Japanpop Cuiabá tem mais detalhes a respeito.
Descanse em Paz, Kon.
http://www.animenewsnetwork.com/interest/2010-07-20/bloody-monday-manga-creators-draw-inception-poster
http://www.animenewsnetwork.com/interest/2010-07-30/dicaprio-jolie-and-pitt-family-are-anime-fans
Realmente ele é uma fonte de inspiração e merece o devido agradecimento.
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