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Ago 17
Kamui-Den de Sampei Shirato lançado na França
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Lancaster |
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8
Categorias: Kamui-Den

Um dos meus maiores sonhos pessoais de consumo como leitor de mangás será lançado na França. Foi anunciado pela editora Kana o clássico obrigatório Kamui-Den, de Sampei Shirato, que ao contrário do que muita gente pensa não é o Kamui que foi lançado no Brasil pela Abril nos anos 80 (esse era o Kamui Gaiden, uma pequena continuação de Kamui Den publicada na revista Big Comic da Shogakukan. O Kamui original foi veículo de exposição para a revista Garo, voltada a quadrinhos autorais, mas que acabou sendo tomado pelos autores underground nos anos 70 e deixou de vender bem, uma vez que o conceito de quadrinho adulto começou a ser digerido pelos grandes
almanaques comerciais. Nessa época, Kamui dividia a revista com autores como Yoshiharu Tsuge em Red Flower e Shigeru Mizuki em seu Hakaba no Kitaro). É material até hoje obrigatório entre aqueles que levam os mangás a sério: Kamui foi uma das obras fundamentais do período de turbulência que explodiu em 1968 no Japão – uma obra política e explosiva, usando o cenário do período Edo como desculpa para uma história de tese, embutida em uma trama dramática – e muito, mas muito violenta – de aventura. Nem há o que negar aqui: Shirato era leitor da trinca básica da sociologia (Marx, Weber e Durkheim) e teve a idéia de construir uma série já inserida no contexto do movimento gegika, de quadrinhos adultos que se opunham ao esquemão mais infantil de autores como Tezuka e seus seguidores, aonde seus personagens eram montados de acordo com seu papel em uma estrutura social, e avançavam seus passos – e a trama – dentro do conceito marxista de dialética, onde toda mudança ocorria dentro de um cenário de luta de classes. Em suma: era quadrinho de esquerda mesmo mas também acabou, via diluição por padrões médios de autores posteriores, sendo um dos responsáveis pela construção da famosa escadinha de evolução que até hoje enxergamos nos quadrinhos para garotos (shonen), aonde a evolução se dá medida a cada confronto – e para quem aprecia ironia, não deixa de ser uma fonte de diversão extra.

Em todo caso, isso acabou gerando confusão. 1968 foi um ano explosivo, e se Ashita no Joe (de Kajiwara e Chiba – já falei dessa série AQUI) catalisou o orgulho social e auto-afirmação de uma classe trabalhadora que alcançava pouco a pouco seu poder aquisiitvo e que queria ser vista de forma mais respeitável por uma sociedade que ainda os olhava de baixo e com nariz torcido (e olhando bem, é o que tem acontecido nos últimos anos no Brasil), Kamui atingiu em cheio a juventude mais intelectualizada e mais alinhada à esquerda. Os dois acabaram sendo apropriados por grupos radicais e naquele momento de confrontos estudantis (que beiravam o quebra-pau entre gangues, porque
também tínhamos uma facção muito grande de direita nacionalista, querendo a volta da militarização japonesa entre os estudantes universitários), isso representou uma bela dor de cabeça, que só foi resolvida após interdição armada em mais de trezentas faculdades no país.
A história acompanha três personagens que, de alguma forma ou de outra, são expelidos pelas contradições de sua classe social e acabam participando de uma revolta contra o sistema feudal – com foco em Kamui, um que pertence à mais baixa classe, a hinin, considerada abaixo dos humanos normais, e que se alistou às hostes de um clã ninja. Mas não aguentando a sua condição de vida, deserta e se torna um Nukenin – um desertor caçado e jurado de morte por seu clã. Ele se junta a Shousuke, um filho de burocratas que deseja se tornar agricultor, e a Ryunoshin, um guerreiro que teve sua família assassinada pelo seu próprio senhor feudal, tornando-se um ronin (samurai sem mestre) disposto a tudo por vingança. Shousuke acaba provocando uma revolta e todos tentam vencer seu maior obstáculo: uma estrutura social que os imobiliza e oprime. Tanto que em Kamui, como dito lá em cima, todos os personagens são definidos pelo seu papel na sociedade. Por sorte, essa não é uma história tediosa – é material de aventura, e Shirato nunca perdeu de mente esse fator em seu roteiro. Pode ser lido por quem nem se interessa por todo esse discurso.
Embora jamais vá ser uma leitura para fracos de coração, considerem-se avisados.

Sobre a edição da Kana (braço mangático de uma das mais poderosas editoras de quadrinhos francesas, a Dargaud), o que mais chama a atenção é que a editora lançará Kamui em quatro volumes. Ora, falamos de uma série com mais de vinte volumes originais: o Kamui da Kana terá 1500 páginas por edição – o que gera uma edição mais cara, sim, mas mais lucrativa. Com esses volumes mais gordos, que geram séries mais curtas – e mesmo na França os clássicos jamais serão blockbusters de vendas – facilita-se a compra para os interessados, que com certeza não serão os adolescentes que gastam cerca de seis euros por uma edição normal de mangá. Enfim, material obrigatório – e que só mostra que talvez a melhor coisa para quem gosta de mangás é aprender a ler francês. Tudo que importa no Japão de alguma forma ou de outra é traduzido em terras gaulesas, e francês é bem mais fácil de aprender do que japonês…
Só pra fechar: as capas da revista Garo (que são espetaculares – a Garo, na época, tinha um dos melhores padrões de design de capa que já vi em publicações periódicas de quadrinhos) – e demais imagens de Kamui – foram pinçadas do blog Three Steps Over Japan, que acompanha a série através de edições em sebos locais. Vale a pena dar uma olhada e deixo aqui meu agradecimento.

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Comentários:
Desde que llegué a España, he buscado Kamui, que según he leído, fue d elos primeros manga editados aquí por Planeta D'Agostini. Y mi búsqueda no ha dado resultado.
Me alegra saber que Kamui está llegando a un país vecino, pero lamentablemente para mi, no se nada de francés. Seguro va a ser una edición impresionante, con 4 volúmenes de casi 1.500 páginas cada uno.
leí en AnimeLand que costará unos 29 € cada volumen.
Alexandre: Aqui no Brasil temos um ditado que diz: a inveja é uma m****. É verdade. E esses 29 euros devem valer cada centavo. Se mantiverem as páginas bicolores de sua publicação original da Garo (o que eu duvido), vai ser uma festa para os relativamente poucos leitores franceses do material. Mas vai valer.
Recentemente eu comprei a edição de Hokusai deles e está impecável. Se lançarem Ninja Bugeicho, será compra na certa.
Somado com o enorme respeito que se tem pelos quadrinhos no país (incomparável a qualquer outro - mesmo o Japão!), significa que há sempre uma demanda por material de qualidade, seja nacional ou estrangeiro. Então séries famosas de outros países acabam inevitavelmente por ser publicadas lá porque existe um público, ainda que pequeno, que QUER comprar clássicos dos quadrinhos mundiais em sua língua! Diabos, o argentino El Eternauta foi publicado na França antes de anunciarem sua publicação no Brasil - que fica ao lado!
Isso, infelizmente, não parece existir em mais lugar nenhum do mundo - e é por isso que eu sempre recomendo o francês como segunda ou terceira língua de um leitor de quadrinhos!
Indo para a série em si, ela é, como para o Alexandre, um velho sonho de consumo meu. Shirato é criador dos mangás de ninja (sim, fãs de Naruto! Agradeçam a ele!) e Kamui é uma de suas obras mais famosas no gênero, ao lado do pioneiro Ninja Bugeisho. Não tinha muitas esperanças de um dia ver isso em uma língua que eu conhecesse, mas pelo visto o ditado malhado de quem espera sempre alcança ainda se aplica...
Fica só a dúvida: De que o Ryunoshin está disfarçado na última imagem afinal? De Jubei Yagyu?
Caraca, mas quantos posts em um só dia, heim! Muitos comentários, também!
Muito bom para os franceses, muito bom mesmo! Sorte a deles! De Kamui só li a obra a qual você se referiu, "A Ilha de Sugaru", e que tem bastante qualidade.
Interessante saber que a história (não só da humanidade como de Kamui Den) é movida pela luta de classes. E bem curiosa a ironia que você apontou.
Lobo Solitário, em muitas histórias, trabalha bastante com a temática de luta de classes e a exploração e a importância do campesinato.
Para além de notícias, já passou por sua cabeça fazer um artigo mais aprofundado de Kozure Kami?
Firmeza aê!
Pena que essas obras mais antigas não se acham nem em inglês, seja online ou offline mesmo. Também fiquei com vontade de ler Ashita no Joe, mas nada de achar também...
Agora revela o segredo pra nós, como que você conheçe tantos títulos das antiga, ein?! Isso é coisa pra uam vida toda xD
Alexandre: Acho que chega a um ponto em que quando você quer ler bons mangás, precisa olhar para trás.
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