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Jun 26

Oban Star-Racers, de Savin Yeatman-Eiffel

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Lancaster | PERMALINK | 6

Categorias: Artigos e Reviews

Ao lado de Avatar (o verdadeiro, o Último Dobrador de Ar, não a milionária peça de propaganda política barata de James Cameron), Oban Star-Racers foi um notável exemplo da emersão gradual de um conceito de anime global, assim como o mundo inteiro, sob a influência japonesa, passou a buscar um mangá global. Porque eu digo isso? Porque ele nasceu simplesmente da influência que os desenhos animados japoneses começaram a exercer naqueles que, fora do Japão, o acompanharam. Porque ele também nasceu dos obstáculos e limitações que podem ser encontrados no ocidente, especialmente no que diz respeito ao marketing de produtos e a forma que eles interferem nas animações. E por fim, porque marcou uma inversão e tanto: uma empresa de Oban Star-Racerscriadores franceses que migraram para o Japão e o torna sua sede para produzir, enfim, algo que nem de longe pode deixar de ser considerado um anime (e por mais que eu ache que anime e mangá são em essência estéticas –respectivamente de animação e de quadrinhos – e que purismo é um cabresto cerebral que cega e até emburrece, não há como negar: mesmo pelo mais purista dos critérios – o de animação feita no Japão – Oban se enquadra como anime, justamente por conta desse movimento geográfico feito pelos criadores).
Por todos esses fatores, Oban deveria ser melhor considerado e lembrado pelos apreciadores de animação e quadrinhos japoneses. Não, não é a primeira produção a unir nipônicos e gauleses: desde Ulysses 31 (Uchuu Dentetsu Yurishizu Saatiiwan, de 1981), de Jean Chalopin, este tem sido um movimento de mão dupla. Em um momento aonde os materiais mais infantis parecem de modo geral operar como mero instrumento de marketing de um produto prévio (o que não tem nada de errado, mas isso já foi feito de forma mais criativa; Zillion foi criado para vender uma pistola de brinquedo e esteve anos-luz à frente dos Beyblades da vida), o criador Savin Eatmann-Eiffel ofereceu uma história legítima por trás, com personagens bem-construídos, drama coerente e uma solidez que anda difícil de ser encontrada até mesmo em boa parte da animação comercial japonesa atual (convenhamos, Oban Star-Racersa última lista de lançamentos para o trimestre é no mínimo apavorante de modo geral), e mais: durante sua exibição, Oban se revelou um produto que tem a sua própria personalidade, distante de um valão comum que muitos jovens criadores ao redor do globo, ao desejar fazer material esteticamente alinhado aos animes e mangás, costumam se meter (acho que todo mundo que frequenta mostras de fanzines conhece algum candidato a desenhista que tenta retratar, digamos, o Japão feudal e acaba apresentando o cenário de uma história do Chico Bento, mas com espadas). E por isso mesmo, me incomodou muito quando, na época em que escrevia para a revista Neo Tokyo, quando uma chamada de capa estampou o rótulo "Cartoon com cara de Anime" em Oban, quanto à matéria que vocês lerão a seguir, com algumas edições em relação ao texto publicado original (que ainda estava muito ligado ao momento e precisou ser atualizado em um ou outro ponto). Oban Star-Racers É um anime, sob qualquer critério que se queira avaliá-lo. E nasceu do esforço criativo de franceses, mais do que de japoneses.
E por isso mesmo, ele merece ser lembrado como uma mostra do que é possível fazer com a estética dos animes e mangás: usá-la como uma forma de encontrar a própria voz, não mimetizar a voz alheia.
Aproveitem o artigo. :)

_________________________________________________

Oban Star-Racers

Corre o ano 2082 – vinte e cinco anos após o término de uma devastadora guerra entre a Terra e uma raça conhecida como Crogs, interrompida graças à interferência de um ser conhecido como o Avatar. Em troca, a Terra se compromete a participar da competição conhecida como a Grande Corrida de Oban, que acontece a cada dez mil anos. Nesse meio tempo, Eva Wei, uma mera adolescente, foge do colégio interno onde estuda para encontrar seu pai, Don Wei, que jamais voltou a vê-la após anos. Conseguindo um trabalho como mecânica sob o nome falso de Molly, e chegando ao ponto de ser confundida pelo próprio pai com um garoto num primeiro momento, ela desce ao mundo de Alwas com o resto da equipe, encabeçada pelo piloto Rick Thunderbolt. No Oban Star-Racersentanto, a sua nave de corrida explode na linha de chegada – deixando a equipe com um piloto hospitalizado, e sem substitutos para a próxima corrida. Quando tudo parecia perdido, nossa heroína entra na nova nave e vence a corrida, para revolta de Wei. Se estabelece um clima de conflito entre treinador e sua "novata", mas após a constatação de que não há quem desempenhe esse papel, Molly é efetivada em seu papel de corredora. Que não sabe o porquê da corrida e o que é, realmente, o prêmio final.
Esse é o ponto de partida da série franco-japonesa Oban Star-Racers, que iniciou sua carreira no Brasil com certa discrição – e acabou não sendo exibida por completo. Quando estreou no canal por assinatura Jetix, não tinha exatamente com isso uma boa recomendação para os espectadores usuais de anime – a Jetix pertencia ao grupo Disney, e a sua política, desde que a empresa do Grande Rato pôs as garras na finada e saudosa Fox Kids (aquele mesmo canal que chegou a exibir os longas de Patlabor, além de ter sido o responsável inicial pela exibição do tosco mas divertidamente inesperado Crayon Shin-Chan), foi a de dar mais espaço às produções da casa que fogem ao perfil "redondinho" que se espera da casa de Donald e companhia; seriados com atores; e também algumas produções européias interessantes como Galactik Football (que convenhamos, fez o favor de dar mais sentido e coerência ao conceito de Oban Star-Racers"futebol arte-marcial" do que toda a série completa de Super-Campeões). Os animes que continuaram sendo exibidos eram justamente os que já estavam lá quando a Fox Kids foi vendida, como Digimon e Bey Blade, mas a impressão é que eles tendiam a desaparecer à medida em que são descontinuados em sua terra de origem e suas reprises se esgotavam – o que acabou por se consumar com o canal que o substituiu, a Disney XD. Mas o Disney XD é outra história.
Por conta disso tudo, não houveram muitos holofotes sobre Oban – e contou para isso a natureza de co-produção, que levantou suspeitas de alguns fãs de anime nos fóruns. O que foi absolutamente injusto. Oban foi um dos melhores animes a passar no Brasil em 2006, o que não é pouco levando em conta que esse mesmo ano marcou a estréia de séries como Full Metal Alchemist e Hunter X Hunter na televisão aberta, além da verdadeira enxurrada mensal que o canal por assinatura Animax nos trouxe desde que estreou.
Oban também é uma história de persistência, dentro e fora das telas. Dentro das telas, por conta da batalha pessoal da protagonista Molly, cujo verdadeiro objetivo não é o de se tornar a melhor piloto do universo ou de ser a campeã Oban Star-Racersacima de todos, mas o de reunir os cacos de uma família devastada pela tragédia – e sua única esperança para conseguir atingir seu alvo é vencer a competição em que se meteu, acima de tudo; e fora delas, pelo esforço pessoal do criador da série, Savin Yeatman-Eiffel, que levou nove anos entre concepção, produção e exibição para garantir que sua forma de ver a história que tinha em mente não fosse distorcida; e que chegou até a transferir sua empresa para o Japão – para garantir sua presença em todas as etapas do processo que geraria a série que ele tinha em mente, e evitar que ela se tornasse uma mera caricatura do que deveria ser.

O Começo de Tudo

Savin Yeatman-Eiffel – bisneto de Gustave Eiffel, o criador da torre que é a marca registrada de Paris – se formou como animador na FEMIS, a escola nacional de cinema da França, onde entrou movido pela sua paixão de infância por animes como Future Boy Conan (que foi dirigido por Hayao Miyazaki quando ele ainda trabalhava para a Nihon), Capitão Harlock (o responsável pelo boom de anime na França, sob o nome Albator) e Candy Candy (nada é perfeito). Uma vez formado, e tendo dirigido alguns curtas de animação na França e Inglaterra, ele encontrou emprego na Gaumont, onde participou por três anos e meio da criação de séries como DragonFlyz (exibido no Brasil pela finada Manchete sem muita repercussão) e O Mago (também exibido no Brasil, via Bandeirantes – e também semOban Star-Racers nenhuma grande repercussão por aqui). DragonFlyz era uma série sem personalidade, feita para vender brinquedos; já O Mago tinha grandes idéias – mas mal resolvidas. Eiffel, no entanto, tinha outros objetivos: criar uma série "para os garotos de hoje, com algumas das emoções que eu senti com esses clássicos (N. do R.: Conan, Harlock e Candy) quando eu tinha sua idade."
Em 1997, surgiria esse conceito, inicialmente batizado de Oban Racers, enfocando um menino piloto de naves de corrida análogas aos pod racers que seriam vistos dois anos em Star Wars, Episódio I – A Ameaça Fantasma. O personagem Don Wei já existia, mas não era pai do protagonista. Rapidamente, e sob influência das heroínas miyazakianas, a idéia de uma protagonista feminina tomou forma e força (Yeatman-Eiffel cita Nausicaä como influência fundamental para essa decisão). As linhas básicas do projeto eram simples e foram apresentadas de forma a tranquilizar os executivos de televisão: uma grande corrida mítica num mundo futurista. Mas para o autor, à medida em que seu roteiro básico crescia, o importante era escrever a história de uma adolescente abandonada pelo pai que, a muito custo, tenta reconquistar o seu afeto. Mais: seria uma série sequencial (ou seja, não-episódica) em 26 episódios, que não copiaria detalhe a detalhe a estética dos animes, mas a usaria para encontrar sua própria voz e energia. Um projeto ambicioso, inicialmente apresentado para outras empresas, mas recebido com desinteresse já nas sinopses gerais da história. Só restou a Yeatman-Eiffel montar a sua própria produtora para desenvolver sua série.

Oban Star-Racers

Salvando o Mundo

No ano seguinte, o de 1998, Yeatman-Eiffel, pronto para desempenhar seu papel de criador, co-diretor e produtor, reuniu uma equipe que incluía também o character designer Thomas Romain, o mecha designer e responsável pelos cenários Stanislas Brunet e o character designer de apoio, Loic Penon, assim como o editor de roteiro americano Jeffrey Paul Kearney, para formar a empresa Sav! The World Productions (trocadilho com "save the world") – tendo como parte do logo a famosa torre projetada por seu bisavô. Agora rebatizado de Molly, Star Racer, foi produzido um curta com o objetivo de Oban Star-Racersatrair investidores potenciais para o projeto. O resultado, feito em cel shading (forma de computação gráfica que emula as texturas em duas dimensões de traço e cores), tendo como trilha sonora um remix de Y&Co. (um grupo de eurobeat japonês que inclui DJs como Boss e Remo-Con) para músicas de Ayumi Hamasaki, foi um sucesso e ganhou o prêmio LEAF (London Effects and Animation Festival, destinado às melhores animações européias do ano) em 2001. No ano seguinte, ele ganharia o prêmio de melhor edição no Imagina Awards, prêmio voltado à animação em computação gráfica. Isso atraiu os investidores, mas novamente esbarrou no grande problema: manter uma menina como protagonista de uma série de ação. "A maior parte (dos potenciais investidores) nem queria ouvir falar nisso", diz Yeatman-Eiffel. "Após o sucesso de nosso trailer de 2001, eu tive que recusar pelo menos um grande investidor por este mesmo motivo. Foi uma escolha difícil e que nos fez perder preciosos meses, mas eu não poderia transformar Molly em um garoto. Ter uma protagonista feminina era central para o conceito (sem mencionar que eu senti que, se eu cedesse, seria apenas o começo de mais e mais alterações)."

Meninas Também Pilotam Naves sem Frescura

Oban Star-RacersFoi justamente sua insistência em ter uma protagonista feminina em uma série de corridas e naves gigantes que atrasou em muito o andamento do projeto. Nas palavras de Yeatman-Eiffel para a Newtype americana em Outubro de 2006, protagonistas femininos em séries de ação são tabu no ocidente por causa do "medo dos fabricantes de brinquedos e executivos de televisão em alienar as audiências masculinas. No Japão, protagonistas femininas (de séries de ação) são mais comuns, mas tendem a ser moças sensuais e com grandes seios, tendo como alvo audiências mais velhas." E o que ele diz é verdade. Mesmo quando elas não tem grandes seios, podem atender a um apelo mais pedófilo, como em muitos animes voltados menos ao grande público do que ao fã hardcore que grava tudo o que é exibido de madrugada e gasta os tubos em produtos – vide a Lumière de Kiddy Grade, por exemplo (Antes que alguém reclame, há shoujos de ação, com protagonistas femininas sem apelo necessariamente sexual, sim – nem é preciso revirar muito na memória, basta lembrar das magical girls em geral com suas maquiagens mágicas e interesses não muito mais importantes do que o garoto bonitinho da sala de aula; mas se, hipoteticamente, essa fosse considerada como uma orientação para a série, tanto a ênfase em corridas e carros e maquinário se perderiam, diluindo parte do equilíbrio que dá força à Oban Star-Racers – assim como o traço provavelmente teria que ser muito suavizado).

Oban Star-Racers

Com o tempo, ele conseguiria investimento do canal France 3 e da Jetix Europa... e da japonesa Bandai, firmemente instalada na Europa. Inicialmente, o produto seria exclusivamente francês, sendo terceirizado no exterior. E começaram os problemas de produção. Para que se tenha uma idéia, a metodologia é simples: se enviam os desenhos ao outro lado do mundo para equipes com uma visão pra lá de parcial dos projetos em que trabalham. É dito para elas, à toque de caixa, o que fazer. Elas fazem e mandam de volta. E acabou.
Foi nesse contexto que se avizinharam os ruídos de comunicação, gerados em parte pelo fato de que Yeatman-Eiffel tinha uma visão muito clara do projeto. Oban Star-RacersPor isso, só havia uma coisa a fazer para que Oban, assim como muitos desenhos ocidentais animados em várias partes do mundo, não se tornasse um produto irregular, sujeito às imperfeições causadas pela linha de produção: ele precisava interferir diretamente no processo. E para que isso acontecesse, só havia uma solução.
No ano de 2003, a Sav! the World transferiu sua sede e equipe para o Japão. E isso mudaria em definitivo a face que Oban Star-Racers viria a assumir, para o bem e para o mal.

Anime Internacional

Transferir uma equipe para o Japão foi uma decisão financeiramente cara – sem falar no choque cultural e no fato de que, à época, ninguém da Sav! the World falava japonês. A presença da Bandai deu credibilidade ao projeto entre os japoneses, o que abriu as portas da empresa para uma parceria com a Hal FilmMaker. Não terceirização: parceria, mesmo. E se abriu as portas, o fez... em termos. A relação começou com o pé esquerdo. Segundo Yeatman-Eiffel, os japoneses da Hal FilmMaker sempre foram pessoalmente muito simpáticos ao recebê-los, mas a bem da verdade, não os encaravam seriamente – postura que Oban Star-Racersé fruto de uma cultura de independência e de orgulho que eles têm de seus próprios estúdios. No quarto mês, veio uma surpresa desagradável: "digamos que ao fim de 4 meses, percebemos que uma 'equipe B' japonesa reescreveu todos os roteiros pelas minhas costas. Com uma Molly dotada de poderes mágicos. Isso foi um choque." Ao contrário do que dizem certas ilusões que os fãs gostam de cultivar, japoneses podem ser tão propensos a mexer no original alheio quanto os americanos – e a equipe de Oban descobriu isso em primeira mão...
Essas coisas foram sendo corrigidas e resolvidas com o tempo, uma vez que ambos os lados foram absorvendo mutuamente a metodologia de trabalho um do outro. A série não teria saído a quatro mãos de outra forma. Ao contrário dos modos clássicos de 'terceirização' de animação na Ásia, Yeatman-Eiffel pôde discutir com calma, com as equipes sediadas em Tóquio, sobre os conjuntos de Storyboard. As sequências em 3D foram terceirizadas na França pela empresa Pumpkin 3D, com um nível de integração impressionante, gerando comentários espantados de membros da Gonzo que consideraram o resultado superior às próprias produções. E não poderíamos deixar de mencionar a trilha sonora de Yoko Kanno e Taku Iwasaki: No início da produção, Yeatman-Eiffel perguntou ao responsável por esse setor se seria possível ter sua participação. A resposta dele foi direta: impossível – ela era Oban Star-Racersocupada demais, e o responsável em questão estava velho e cansado para trabalhar de novo com ela. Em compensação, apresentou a ele Taku Iwasaki, que trabalhou como arranjador nas trilhas dos OAV de Rurouni Kenshin e de Witch Hunter Robin, onde compôs também temas originais. Foi quando o responsável trouxe dois temas gravados, compostos por um "jovem artista". Foram aprovados imediatamente.
Os temas eram de Kanno – o que também adicionou status ao projeto. Ela foi responsável pelos temas de abertura e encerramento, enquanto Iwasaki cuidou do resto da trilha sonora. Mas e quanto ao anime em si?

Francês ou Japonês?

O que impressiona em Oban não é só a excelência técnica do resultado. A história transpira personalidade, sem virar a caricatura da caricatura (como em tralhas como Kappa Mikey, que parece mais uma versão anime e censura livre das animações malfeitas da Adult Swim), e pode ser classificado como uma soma do melhor de dois mundos. Os personagens funcionam – e temos que enfatizar o papel da personagem principal no conjunto: Enquanto na maior parte das vezes queremos estrangular o personagem principal (falem a verdade, você nunca sentiu vontade de dar uns tabefes no Gon de Hunter X Hunter para ver se ele aprende a ser homem, na Serena de Sailor Moon para ela deixar de ser chorona, ou no Seiya de Cavaleiros do Zodíaco só porque ele existe?), e os Oban Star-Racersanimes onde eles estão são carregados nas costas pelos coadjuvantes, Molly é uma criaturinha difícil de não se gostar – mesmo que ela volta e meia tenha seus ataques de aborrescência, do tipo "Eu não tô pra ninguém hoje e vou me enfurnar no quarto". Cá entre nós, é bom de se ver em um anime uma garota de quinze anos que age, realmente, como uma garota de quinze anos; talvez seja esse o maior trunfo da série, o que é raríssimo de se ver em animes quando falamos de protagonistas.
Ao contrário do que anos atormentados por um cinema chatíssimo e verborrágico vindo da França podem nos fazer crer, além de estereótipos criados pela publicação totalmente mal-pensada de material erótico "de luxo" em nossas livrarias, há material empático e popular vindo de terras gaulesas. Não é vergonhoso ou culturalmente indigente achar um porre a Nouvelle Vague francesa – muitos franceses provavelmente concordam, apesar do que diz o lobby do rebotalho cultural dos anos 60 e 70 por aqui. De modo geral, só nos lembramos de Luc Besson porque ele produziu e dirigiu material para Hollywood, mas ele abriu a porteira para uma geração inteira de cineastas locais que corriam para o cinema para ver os filmes de Spielberg e Lucas assim que saía um Godard novo no cinema.

Oban Star-Racers

Da mesma forma, há toda uma produção popular de quadrinhos na França – em boa parte, voltada para a ficção científica, gênero que os franceses adoram. Boa parte deles é tão pop quanto os bons momentos de um Guerra nas Estrelas, e foi justamente a paixão por esse tipo de história que abriu a porta para os animes por lá. Quando Cavaleiros do Zodíaco chegou no país, já havia um mercado para animações japonesas e mangás. Quem fez esse serviço foi Capitão Harlock, a space opera de Leiji Matsumoto, o mesmo criador de Patrulha Estelar. Foi a nave Arcádia quem alimentou uma geração inteira de fãs e pavimentou o caminho para seus sucessores, influenciando também quadrinhistas de peso como Morvan (de séries populares como Sillage e Oban Star-RacersMeka), que reinterpretam com sucesso a escola francesa de se fazer quadrinhos de ficção científica para uma geração que não perde um episódio de Naruto.
E foram esses fãs que, igualmente, pavimentaram o caminho para que houvesse um Oban. Fãs que assim como nós, também passaram por um hiato nos anos oitenta, onde o senso de drama dos animes clássicos foi substituído por uma leva de desenhos americanos feitos meramente pra vender brinquedos (o que não é errado, uma vez que os desenhos japoneses também foram feitos para vender brinquedos e outros produtos – mas é justamente por isso que não há desculpa: se uma coisa não exclui a outra, trabalhar o roteiro é uma obrigação). O próprio criador da série admite que, se não tivesse acompanhado a animação japonesa à distância graças à VHS importados, durante esses tempos bicudos, provavelmente jamais teria pensado em trabalhar na área – e contar suas histórias. E talvez esse seja o maior diferencial das aventuras de Molly, Don, Jordan e Rick. Ao invés de Yeatman-Eiffel agir como fã e criar uma história derivativa para ter uma versão de um anime conhecido com propriedade de autor (como o americano Pat Lee e seu Lodoss, digo, Warlands), ele preferiu seguir as luzes que o inspiraram para Oban Star-Racerscontar a SUA própria história. E por isso, foi em frente, com suas próprias idéias. E construiu sua própria ponte com o Japão que um dia o inspirou – mas nos seus próprios termos.
E quanto ao futuro? Bom, a ponte existe. E Yeatman-Eiffel já declarou que ela só tende a se ampliar, com novos projetos para longa-metragens e outras séries – que ainda estamos esperando. E até que sua penetração internacional foi boa: enquanto várias outras séries, mais conhecidas e bem-quistas pelos fãs, permanecem restritas ao meio dos mesmos fãs de sempre, Oban já foi exibido, além da França e do próprio Japão, nos Estados Unidos, Espanha, Alemanha, Inglaterra, China, Canadá... e no Brasil, através da finada Jetix (só é de se lamentar que ela não tenha exibido toda a série, e que só se tenha lançado os primeiros capítulos em DVD). Independentemente dos frutos não parecerem ter sido tão grandes assim – para um projeto criado com um olho no merchandising, ele parece ter gerado muito poucos produtos – qualitativamente ele marcou um tento.
Nada mau para um projeto sobre uma menina que não grita palavras mágicas, e que está disposta a se sujar de graxa como qualquer rapaz.


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Comentários:

Nome: Kaesar 26/06/10 04:34
O primeiro momento que eu vi Oban Star Racer eu falei: Pod Racer! E desatei a assistir, eu achava que seria uma historia clichê sobre alguem que quer vencer e ser o melhor mas que me divertiria pelo fator velocidade (eu sou apaixonado por corridas e afins)

Entretanto Oban foi aquele material que me provou totalmente o contrario, e com esse artigo, essa série entrou definitivamente no meu top pessoal de animes que devem ser assistidos.

E aproveito o gancho pra pedir um artigo sobre Harlock, aquele fan trailer frances é otimo!
Nome: Sérgio Bruno 26/06/10 09:35
Ótimo texto, não conhecia o anime, mas é uma grande descoberta, acho incrível como tu colocas imagens tão diferentes nos teus posts. Ótimo, tirando uma ou outra ressalva sobre o cinema francês, lembrando que critico baseado na mentalidade sessentista ;)

Esperando o próximo super-texto, é sempre muito proveitoso

abraço.
Nome: m-san 26/06/10 10:11
Eu já vi esse Oban passando algumas vezes nas manhãs de sábado da Globo há mais ou menos 1 ano, eu lembro porque realmente gostei dele e queria saber qual era o nome do anime. Agora sei porque eu tinha achado a animação caprichada demais pros padrões americanos de desenho infantil.
Realmente, os artigos de meio quilômetro daqui são os melhores pra se ler.
Nome: Matheus 27/06/10 07:13
Que materia interessante Lancaster, de fato é muito bom saber da difusão que o mangá e o anime tem recebido ao redor do mundo como estetica, acredito que tenha sido esse o objetivo de Tezuka quando ele começou a criar mangás de temas globais pela primeira vez (e a bem da verdade, nunca tenha deixado de faze-lo, ele ficava atento as mudanças que ocorriam na industria do anime e mangá dentro do Japão, mas nunca se limitava a isso e sempre buscava e se internacionalizar mundo afora, criar o verdadeiro mangá global, para isso ele não somente observava como a industria se direcionava como tambem ia de encontro com grandes mestres dos quadrinhos e animação mundial como Walt Disney, Charles Schulz, Hergé e até nosso Mauricio de Souza... Em outras palavras, o cara não diferenciava o publico pela localidade, ele queria que tanto o garoto no Japão quanto a garota no Brasil pudessem desfrutar de seu mangá. E eu acho isso uma atitude otima)...

E imagino tambem como ele iria ficar chateado ao ver essa recente reclusão que a industria adotou nos ultimos anos, cada vez mais e mais se fechando no seu proprio mercado e fazendo os animes e mangás se estagnarem em produtos que servem para alavancar a venda de seus derivados (mangás, games e etc). e animes para o publico de nicho.

Pois bem, falando agora da internacionalização dos animes e mangás, me parece que o Japão finalmente começou a ceder mais e mais nesse partido de uns anos para cá (como exemplo os desenhos da Marvel feitos lá e o recente anuncio de séries como Supernatural e Thundercats made in Japan, não que ja não existissem antes mas de uns anos para cá vejo que essa tendencia tem ficado mais forte).

Vejo isso com bons olhos, pois alem de futuramente ser um elo para que as produções japoneses não caiam no buraco de vez (quebrando antigas barreiras culturais entre os povos e permitindo que o mangá e o anime uma visão diferente) ainda ajuda os produtores de outros paises a entender melhor essa cultura do mangá e a evitarem tambem a cairem no marasmo (como se pode ver em MUITOS exemplos de desenhos que pegam a estetica do anime e a banalizam se limitando a mostrarem muitas caretas e clichés atras de clichés, exemplo por exemplo Totally Spies ou a adaptação animada de Teen Titans, que são sucessos acima de tudo).

Enfim, boa matéria Lancaster, deu até vontade de comprar Oban agora. E espero mais matérias falando da animação de estetica anime global tambem (quem sabe Avatar, SkyLand ou Samurai Jack XP)... Falou...
Nome: Thiago dos Santos 26/11/10 01:33
Lembro de ter assistido alguns capítulos na globo de manhã, infelizmente perdia a maioria.
A animação diferente, tipo desenhos inflados me estranhou a princípio. Mas depois achei bem estiloso.
Eu gostava bastante pelo clima intenso das corridas eram muito bom. E os personagens, Molly especialmente, eram bem construídos.
Nome: Jet Fidelis 07/02/11 08:02
Legal, não sabia dessa do Sr. Eiffel! Eu sempre acompanhei a produção de Molly/Oban Staracers desde o primeiro trailer de internet (com musica remixada da Ayumi Hamasaki). Deixo registrado foi a SACANAGEM que o Jetix fez com a série, não exibindo o final. Espero que lancem a série completa em DVD pois vou comprar! :)

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