Submarino.com.br

Artigos

Do Crescimento do Mangá Global


Outros Artigos e Reviews de Interesse



Perguntando aos Leitores


Entrevistas


Comentarios Recentes


Posts Recentes




Busca

Jun 04

A Arte das Capas Criativas

Compartilhe: Delicious Digg technorati Stumble Upon Twitter Creative Commons License

Lancaster | PERMALINK | 12

Categorias: Artigos e Reviews

Mai the Psychic Girl

Essa capa ao lado pertence a versão americana de Mai – a Garota Sensitiva, de Kazuya Kudo e Ryoichi Ikegami, título cuja procedência original foi a revista semanal para garotos Shonen Sunday, da Shogakukan, nos anos 80 – e ela claramente surgiu por uma necessidade editorial prática. Naquela época, os mangás nos Estados Unidos estavam apenas começando a ser publicados, e é natural que se faça experiências com formatos comercialmente bem-sucedidos. Eu mesmo acho que a analogia óbvia com o formato meio-volume original utilizado pelas editoras aqui no Brasil tem a ver com o bom desempenho dos quadrinhos italianos, que são publicados em um formato muito parecido. Tex vende bem mais do que qualquer quadrinho Marvel/DC em nossos dias no Brasil, e, não duvidaria, mais do que a maior parte de nossos mangás. Não a toa, há muitos mangás na Itália que continuam sendo publicados nesse formato; seu público não reclama. Eu sou até a favor do meio-formato quando ele cumpre um papel de barateador e acessibilizador; como aqui no Brasil isso não acontece, ele não vale a pena (comparem os preços do Full Metal Alchemist da JBC e do Naruto Pocket da Panini).
Mas estou desviando do ponto. Um dos grandes motivadores de capas diferentes do original é justamente a necessidade de se operar em um formato editorial que de alguma forma é, igualmente, diferente. No meio-volume original, o usual tem sido trazer ilustrações de divulgação feitas pelo autor e usar como substitutas, e em geral as capas dos volumes para livraria tendem a ser mais ilustrativas do que informativas. Mas informatividade vende.
E aqui topamos com algo interessante:

Kyojin no Hoshi

Essa capa veio da revista semanal para garotos Shonen Magazine, da Kodansha (com destauqe para a clássica série de beisebol Kyojin no Hoshi – ou melhor, Star of the Giants, de Ikki Kajiwara e Noboru Kawasaki – que não apenas redefiniu os quadrinhos de esportes, como provavelmente é o marco zero dos quadrinhos shonen – para garotos – como os conhecemos hoje. Acreditem: mesmo Naruto provavelmente não existiria sem Star of the Giants). O designer não teve o menor pudor de reaproveitar um quadro original da série ao invés de encomendar uma arte original para esse fim. E Ashita no Joeela ficou sensacional na minha humilde opinião: dramática, com um tom de vitória em noticiário esportivo, como quando fotografamos um desses momentos que fazem história em campo. Na verdade, remete a uma imagem em um velho jornal em preto e branco, como os jornais costumavam ser – e claramente um mínimo de imaginatividade foi necessário para forjar essa interpretação.
Essa capa foi cortesia do designer Yoko Tadanori (tenho que agradecer profundamente ao autor de quadrinhos Paul Pope, autor de 100%, por me apresentar através de um artigo em seu blog o trabalho de Takanori), que foi responsável pelo trabalho gráfico na Magazine durante aquela que seria lembrada como a fase de ouro da revista, quando ela produzia clássicos atrás de clássicos e se tornou a primeira revista semanal de quadrinhos a chegar a marca de um milhão de exemplares semanais vendidos.
Acredito que uma coisa esteja diretamente ligada a outra, dentro de um contexto de soma de fatores.
Uma capa vende o peixe de uma publicação para o público. E a Magazine na época tinha um time de primeira – um nível geral raramente atingido em uma antologia de quadrinhos ate então – e provavelmente inigualado até hoje (tudo bem que elas eram Ai no Makoto muito mais finas na época: as minhas edições da Shonen Magazine dos anos 70 estão na faixa das 270 páginas e hoje elas chegam a ter o dobro). Com menos títulos é mais fácil se manter um nível geral mais alto – e diabos, o que dizer de uma antologia que reunia gente como Ikki Kajiwara (em duas séries; ele assinava Asao Takanori em Ashita no Joe e com seu próprio nome em Kyojin no Hoshi), Leiji Matsumoto (Otoko Oidon), Go Nagai (Devilman), Fujio Akatsuka (Tensai Bakabon), e tudo isso praticamente ao mesmo tempo?
Nas palavras de Tadanori, sua intenção era completar os designs com modificações mínimas, porque a revista já oferecia imagens de impacto; a premissa de seu projeto gráfico era reutilizá-las como se fossem cartazes de filmes, a partir da própria força que essas imagens já tinham. E não há como negar: elas funcionavam. Não mostravam imagens de personagens fazendo pose e sorrindo para as câmeras, como se espera no padrão atual. Informavam o que havia na revista e ao mesmo tempo eram impactantes.
Curiosamente, as capas brasileiras dos quadrinhos Marvel e DC, na época em que esses materiais vendiam bem, seguiam bem essa linha. Mas alguns fãs começaram a fazer barulho quanto a "capas mutiladas".

Marvel

Bem, o tempo e o afrouxamento das mãos dos editores deram a eles o que eles queriam – mais a perda de capacidade de renovar seu leitor a longo prazo. O preço de se ceder ao purismo arrogante é cair nas garras do exclusivismo suicida. E não é um suicídio indolor: é lento e doloroso, como engolir pequenos vermes para que eles o comam por dentro.
Mas capa tem que vender o peixe e é preciso mais do que uma arte bonitinha para isso. Sandman, de Neil Gaiman, tem uma coleção de capas realmente lindas; se sua intenção for exibir numa Shonen Jump NEXTgaleria, perfeito. O problema é que aquelas são capas, e acredito que essa série tenha sido um pesadelo comercialpara a Globo: há quem diga que Sandman nunca vendeu bem em banca e teve melhores resultados a partir do momento em que passoua ser vendido em livrarias, já com um hype construído ao seu favor. Pra ser sincero, isso me parece ser tão lógico que é meio incongruente para mim que não seja; afinal, a Globo chegou a cancelar Sandman na época de sua publicação em banca e levou tempo para retornar sua publicação – apenas em gibiterias. A menos que você seja um designer gráfico interessado em artes plásticas e com um perfil cult de gostos, as capas de Dave McKean poderiam passar muito bem batidas aos olhos de um leitor normal, em meio a outras – e mais coloridas, e mais visualmente compreensíveis – capas de revista.
As capas dos almanaques japoneses de quadrinhos são o horror dos designers, mas não duvido que vendam. Eu as vejo como o equivalente em termos editoriais de uma situação descrita por Jan Carlzon, executivo que de 1981 a 1994, foi o presidente da empresa de aviação SAS – e a tirou da falência iminente com uma mudança de cultura corporativa que acabou fazendo diferença (essa história está no livro A Hora da Verdade, que vale a pena mesmo para quem não se interessa no universo dos negócios. Eu pessoalmente gostei muito). Ao invés de meramente re-explicar tudo em detalhes, prefiro passar a palavra ao próprio Sr. Carlzon.

"Quando começamos a reorganizar a SAS, nossos críticos tacharam nossas tentativas de meros 'recursos promocionais'. Eles alegavam que nos tínhamos tornado demasiadamente orientados para o mercado, mas não havíamos de fato aumentado nosso orçamento de publicidade em nem ao menos um centavo. Na verdade, estávamos gastando nosso dinheiro de modo mais eficiente em mensagens que eram facilmente compreendidas.
Antes, os nossos anúncios eram
vagos e genéricos, com expressões tais como 'Dêem o mundo aos suecos'. Poucas pessoas se lembram desse anúncio e pouquíssimas entenderam seu pretenso sentido. Por isso, quando introduzimos a EuroClass, anunciamos: 'Não é preciso brigar por um bom lugar!' e 'O mais próximo possível da primeira classe com uma passagem comum!'. Longe de exagero, eram informações seguras que os viajantes poderiam utilizar ao escolher uma companhia aérea."
(CARLZON, Jan; A Hora da Verdade. Rio de Janeiro: Sextante, 2005. p. 98-99).

MarvelEntão essas capas antigas da Abril fazem muito sentido: elas recortavam imagens, faziam composições gráficas e usavam textos chamativos ("A Volta do Motoqueiro Fantasma!" "Macabra! Aterradora! A Origem do Homem-Coisa" "Os X-Men encontram o Som e a Luz de CRISTAL!" "132 páginas com o Demolidor!"). Elas chamavam a atenção e ao mesmo tempo informavam o que havia lá dentro. Esse é o espírito das capas japonesas – que tem que vender um calhamaço com vinte séries e garantir espaço para todas elas – e sempre deu certo. E não vejo porque não iria funcionar de qualquer modo por aqui. Já era funcional antes e continua funcional aonde é usado.
Se um purista reclamar… ele que morra, ora.
Publicações de massa não deveriam ser pensadas para uma minoria de colecionadores radicais que parecem se importar mais com elementos secundários do que com as histórias em si. Chamar atenção para os quadrinhos é o mais importante. Quando a minoria de fãs toma controle de uma mídia de massa, essa mídia está fadada à desgraça. E uma capa é isso: o derradeiro artigo publicitário antes da compra, um elemento decisivo para o impulso Shonen Magazinefinal. Se alguma campanha publicitária te levou à banca, a capa tem que dissipar de vez qualquer incerteza. Se esse leitor aportou ao mero acaso, o papel da capa ganha importância redobrada. Concordo inteiramente com a Panini ter usado o subtítulo Cursinho de Sedução para um dos mangás mais recentes da Mayumi Yokoyama lançados no Brasil. Otokojuku é uma palavra que não quer dizer nada para a maior parte dos seres humanos aqui no país. Talvez pudesse até ser limada; promover o subtítulo a título poderia ser extremamente funcional. Não moramos no Japão, afinal de contas.
O que Tadanori fez na Shonen Magazine foi utilizar de forma criativa o conceito editorial para sair do lugar comum. E o fez de forma extraordinária, se olharmos bem. Não duvido que esse material não tivesse apelo visual em meio à concorrência nos pontos de venda, e não é difícil imaginar que deve ser saturante olhar para o mar de revistas no Japão nesses pontos de venda, com todas essas antologias uma ao lado da outra. A carga de apelo visual só poderia ser impactante.
Mas ele não fugiu a regra, se olharmos bem. Limites são desafiadores: nos exigem novas soluções. As vezes, surgem idéias bacanas: estou postando aqui uma capa da Jump simplesmente sensacional, com Naruto.

Naruto

O que a torna tão sensacional assim? A idéia de se usar os pergaminhos, associados ao aprendizado das técnicas mentirosas de combte em Naruto, para fazer chamadas das demais séries da revista – e são muitas! Pode se discutir longamente quem é o melhor desenhista da Jump, e dificilmente se diria que esse mérito pertence a Kishimoto, em uma revista que tem artistas do nível de Takeshi Obata e Mizuki Kawashita em sua grade; mas eu o considero talvez o Rurouni Kenshinmelhor capista da revista atualmente, por ter uma imensa percepção do espaço gráfico das capas e contribuir com soluções visuais interessantes quando ele é o destaque principal. Suas capas "contam" alguma coisa, e isso faz sempre parte de um pacote atraente na hora de vender o peixe. Tem artistas até melhores do que Kishimoto que não conseguem fazer o mesmo nessas horas. Imagens bonitinhas podem ajudar mas não são tudo.
E nisso me lembrei de uma edição de Samurai X aqui no Brasil. Na edição 44 da versão nacional (que corresponde a segunda metade da edição 22 japonesa), a JBC colorizou um par de quadros aonde temos um close de Kenshin seguido de uma imagem dele, com a roupa parcialmente rasgada pelo combate, em frente a um inimigo vencido, olhando para frente como se desafiasse o próximo oponente.
Isso conta por si só uma historinha na cabeça do leitor.
Não é o único exemplo. Ao usar uma cena colorizada de pose com sangue borrifado na edição 48 (correspondente a segunda metade da edição 24 japonesa), finalizada em um traço mais rude, feito com pincéis, não é exatamente uma capa bonita – mas funciona. E talvez tenha sido mais adequada do que essa placidez. Samurai X é uma série de ação, afinal de contas.
Mesmo assim, ouvi reclamações de leitores – coisas como "até os incautos quadrinhos podem ser transformados em capas". Bom, como eu mostrei até agora, essa é apenas uma das formas que se pode trabalhar – e pode ser bem funcional no fim das contas. Funcionalidade é importante. SandmanAcredito que de certa forma, a pior capa da Contigo seja melhor capa do que a mais bonita capa do Dave McKean. Não disse ser mais bonita, ou mais elegante, ou mais agradável; disse ser melhor capa. Porque uma capa tem que ser funcional, chamar atenção, chamar atenção de um leitor desatento, deixar claro o que tem ali dentro e garantir que se ele comprar o material por causa do que viu, ele não sairá frustrado. As capas da Contigo são um horror, mas convenhamos, a revista é um horror de qualquer jeito – e muito, muito honesta em sua proposta. Quem lê aquilo quer saber de fofoquinha de televisão e dos atores da vez, nada mais, nada menos. Ela faz suas chamadas sensacionalistas, amontoa fotos de atores e dá o que seu leitor deseja. Ele vê, ele sabe o que vai encontrar.
Por outro lado, conheço gente que compra tudo de quadrinhos e deixou de comprar as primeiras edições de Sandman da época da Globo porque, uma vez que ele não havia sido previamente avisado, não tinha idéia de que aquilo fosse uma revista em quadrinhos ao passar os olhos na banca. Sério. No meu entender, isso é uma capa ruim.
Os almanaques japoneses são carregados, são poluídos (tão ou mais quanto as velhas capas da Abril), são o que são na maioria das vezes: mas eu gosto delas. Oferecem uma fartura de opções como se fosse uma loja de doces (e não duvidaria se me dissessem que a inspiração é essa mesmo). Cumprem a Tensai Bakabonfunção de vender sua revista quando são bem executadas. Não é preciso ser tão poluído, e as capas de Kishimoto ou de Tadanori mostram isso muito bem. Saber inovar e seguir as regras por diferentes perspectivas é uma forma de se tornar marcante.
E não duvido que essas capas tenham tido um papel poderoso na hora de chamar leitores. Leitores que ao serem abduzidos pela imagem da capa, deram de cara com Ashita no Joe, Star of the Giants, Otoko Oidon, Devilman, Ryu no Michi e tantos outros. Porque a capa chama a atenção e uma arte pode te fisgar de vez, mas é o roteiro que mantém o leitor fiel – o impacto da arte sempre passa e tudo depende da história.
Essas capas fazem parte do que fez da Shonen Magazine daqueles anos uma das pedras fundamentais dos mangás como conhecemos hoje, com uma geração de criadores como jamais se viu novamente reunidos no mesmo lugar. Um título aonde todos os elementos estavam no lugar certo, prontos para fazer história. Yoko Tadanori é tão parte da história da Shonen Magazine como Ikki Kajiwara, Leiji Matsumoto e Go Nagai.
Isso por ter feito as capas certas para levar os leitores certos para os autores certos. E esse legado não tem preço.

Shonen Magazine


Posts similares:
Fechando o Ano de Naruto na Jump…
Duelo de Gigantes
Nova Publicação da Linha Shonen Jump

Related Posts with Thumbnails

Comentários:

Nome: mrs 04/06/10 10:26
Besteira, mas já que você está falando sobre capas... Quando a Conrad estava publicando Adolf, o tiozinho da banca que eu frequento sempre colocava os volumes entre os livros e revistas sobre história. Como as capas tinham fotos do Hitler, Kamikazes e afins, ele achou que eram livros sobre Segunda Guerra Mundial (peraí,mas são mesmo!) e não mangás.
Adolf não é material de banca, então o tio deve ter vendido alguns volumes a mais por causa desse "engano", hehe.

Alexandre: Mas ai foi uma boa pedida. Assim você atinge um público maior. E Adolf não era material de banca. E você não pode negar que era uma história em quadrinhos: haviam imagens estampadas da história sobre as fotos. Acho que isso ajudou uma hq a chegar a um público que a estimaria.
Nome: Júlio Nunes da Silva Filho 04/06/10 10:56
Lancaster, tenho que dizer-lhe uma coisa:

Este foi "O" texto mais importante que você postou no blog, por um motivo muito simples:

Você mostrou como vender quadrinhos numa banca de jornal; acredite, a esmagadora maioria de garotos e garotas, que pretendem um dia, viver de quadrinhos, não tem a menor noção de como é díficil verder uma revista normal numa banca, quanto mais uma HQ.

Agora, quando vi aquelas capas de Super Aventuras Marvel, e Heróis da TV, bateu-me uma nostalgia enorme (sou marvete, e não tenho nenhuma vergonha de dizer isso, mas atualmente está cada vez mais dificil ler alguma coisa da "Casa da Idéias"), e não nego, as capas eram o principal chamariz das revistas.

O Brasil tem uma tradição de capistas de primeira linha; o primeiro caso é o Estúdio Mauricio de Souza (as capas de Mônica e Cebolinha dos anos 70 e 80, em aspectos informativos, são simplesmente geniais), depois o pessoal que trabalhava para a Abril nos anos 80 (a capa para a edição especial de Sonja, feita por André Vazzios, e finalizada por Rod Reis, pode ser considerada um marco dessa época), fora a equipe de desenhistas da Redibra, que fazia capas fantasticas para a Disney no Brasil; agora, perguntando se alguem aqui conseguiria fazer uma capa tão boa quanto aquela do Naruto, só posso responder "eu não sei".

Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva Filho

Alexandre: Eu acho que aquela do Naruto vale porque mostrou algo importante: é possível seguir as regras, ser informativo, ser chamativo, e ainda assim ser criativo.

E valeu pelo elogio. :)
Nome: Jussara Gonzo 05/06/10 01:47
Fã é uma merda! :lol: E no caso do Brasil, é uma merda que ainda faz motim dentro da privada quando descobrem que "macularam" a capa de um mangá qualquer com a chamada "Começo de uma nova Saga!"

Alexandre: Isso acontece dentro e fora do meio do mangá. Fã hardcore é tudo igual: a diferença é influenciada pela procedência do seu objeto de consumo. Havia uma piada aqui no Brasil dos anos 70 que dizia que a diferença entre o filme brasileiro e o filme americano é que no Brasileiro se mostrava os mamilos pra fora enquanto no Americano se cortava mamilos fora. Então o fã hardcore de comics lê que o Arsenal teve um braço arrancado, ganhou um braço mecânico, brochou, se encharcou de heroína e foi brigar com mendigos por causa de um gato que ele pensava ser sua filha morta – e diz "Uau". O fã hardcore japonês não quer saber de roteiro, vê menina bonitinha mostrando calcinha e diz "Uau".
Lamento dizer, mas acho que os dois são iguais.


Uau! Não sabia que Tex vendia tanto (quer dizer, dentro do padrão do nosso mercado), mas imaginava. Afinal de contas a revista é publicada sem interrupções no Brasil por décadas! Mas qual é o seu público? Nunca conheci um fã de Tex, por exemplo.

Alexandre: Isso porque de acordo com minhas fontes – que são confiáveis – ele vende bem (atualmente na faixa entre quarenta e cinquenta mil em sua série principal, mas lembre que temos também outras séries como Tex Coleção, Tex Ouro, Almanaque Tex, Tex o diabo a quatro) não nas grandes capitais, mas no interior. E faz sentido: quando eu era moleque, viajei por muito lugar distante no país e eu encontrava Tex em cadeira de barbeiro até lá em Rondônia.

...e as capas de Sandman para mim sempre me decepcionavam não por serem incompreensíveis, mas porque, ao abrir a revista, eu descobria que a arte interna NÃO era a do que eu tinha visto na capa! E convenhamos: Sandmam provou que, mesmo com capas malucas, conseguiu vender muito bem e ter sucesso à longo prazo - não que o mérito seja, obviamente, da capa...

Alexandre: Mas não em banca.
Nome: Pedro Bouça 05/06/10 09:36
Eu assino embaixo a afirmação sobre as capas do Sandman. Comprava tudo que é quadrinho na banca, mas Sandman passou no vazio por MESES até que um amigo meu me falou que, de fato, aquilo era uma HQ (a primeira edição que comprei foi a 7...).

Incidentalmente Alexandre, finalmente me toquei por que você chama o Ikki Kajiwara de Ikki Kajiwara. Você pensa que esse é o nome verdadeiro dele! Não, ele se chamava Asaki Takamori.

Alexandre: Mas ele não assinava dessa forma. Não vou chamar o Stan Lee de Stanley Martin Lieber. Na verdade nem no papel ele é mais Stanley Martin Lieber!

Ele só assinou com uma variante de seu nome verdadeiro no Ashita no Joe porque já produzia, com o pseudônimo de Kajiwara, a reta final de Star of the Giants nessa época e emendou rapidinho com Karate Baka Ichidai. Na verdade por conta disso nem vejo sentido de usar Asao Takamori nas versões ocidentais de Ashita no Joe; é Kajiwara, ponto. Até o Walcyr Carrasco teve seu nome usual restituído quando reprisaram Xica da Silva (ele assinou como Adamo Angel, e sinceramente, acho que ele jamais deveria ter largado esse pseudônimo. É um puta pseudônimo para um autor de novela!)
Nome: Jussara Gonzo 05/06/10 11:19
Sim, os dois tipos de fãs são iguais! Alias por que só dois? Existe fã hardcore para adaptações de livros, documentários de figuras histórias, sistemas de computadores, etc que querem preservar o objeto de adoração "imaculado". Por isso que eu usei a palavra "fã" e não "otaku" ou "nerd".

... e sobre Sandman, é por isso que eu sou TOTALMENTE favor de que quadrinhos, mangás e revistas JAMAIS venham lacrados! :D
Nome: Pedro Bouça 05/06/10 11:57
Prefiro chamar o cara de Asao Takamori. Primeiro porque usou na série que eu mais curto, depois porque com o outro nome ele ficou famoso fazendo séries baseadas em um remédio para insônia disfarçado de esporte. :-p
Nome: Pato_Supersonico 05/06/10 03:23
Texto maravilhoso, parabéns. E você é um cara exemplar, caro Lancaster, está sempre se superando.

Só não digo que essa foi sua melhor matéria porque você já publicou tanta coisa boa aqui neste seu blog que eu nem sei mais dizer o que é melhor que o quê.

Continue sempre assim!
Nome: Warty 05/06/10 08:34
Quando eu era moleque, as capas da Vertigo sempre me deixavam irritado: os artistas sempre eram inferiores aos capistas! Poxa vida, eu acostumado a ver uam capa desenhada pelo Toriyama e ler uma história desenhada pelo Toriyama sempre me incorfomava com uma capa pelo Glenn Fabry e uma arte pelo Steve Dillon (que hoje em dia eu acho ubeem divertido!).

Se bem que isso também é uma estratégia. Caramba, você vê a capa do Justiceiro pelo Tim Banderstreet (é esse o nome? E leva! Ao menos pra mim, aquilo chama MUITO a atenção. E creio que é por isso que na maioria das vezes se usam capistas muito bons nas séries adultas dos EUA).

Mas Sandman é um caso complicado: a tenativa de colocar a série no patamar de "arte" é sempre tão grande que a capa vem com esse "teor artístico" (incrível, o Dave McKeen é incrível!) sabe? Mas Sandman não é material de banca. Não aqui. Nem lá nos EUA, creio. É algo mais especializado, pra livraria. E numa livraria, eu creio que o trabalho do McKeen se sai bem! E como sai! Eu vejo que pra um livro você não precisa mostrar o que o leitor vai encontrar ali dentro: você precisa seduzir. O comprador (que normalmente estará com maior poder aquisitivo, e presumivelmente, tem maior tendência a produtos mais "cults" - eu disse presumivelmente) vai ver a arte da capa e ser tentado a levar o produto pra casa e descobrir o que tem dentro de um modo totalmente diferente do produto de banca, cujo consumidor pode dar uma rápida olhada no interior e se decidir. As capas com belas fotografias da Alfaguara e da Conrad, ou com as obras de arte como as da Companhia das Letras, seduzem. O que elas devem fazer, ora pois! Acho que as capas de Sandman travalham nesse sentido, seduzem, sutilmente, não gritam, como devem ser os materiais de banca.

PS: é por isso que eu choro por boas capas nos livros de ficção científica: eles precisam seduzir um público, não envergonhar, como as capas da Devir...
Acho que é isso.
Nome: Sérgio Bruno 06/06/10 04:00
Sou obrigado a discordar de muitas coisas que falaste, existe sempre uma questão de público alvo muito presente em todas as áreas publicitárias, por isso o Sandman tinha aquela capa, eles não queriam chamar a atenção do garoto marvete (se o garoto chegasse a comprar a revista é improvável que gostasse e ainda ia gerar publicidade negativa para os amiguinhos), queriam chamar a atenção de um público mais velho, e pra esse público a capa chama sim muita atenção, o fato da editora globo (que não é sinônimo de competência editorial) não ter vendido bem o seu peixe não é por culpa da capa e sim por um mal direcionamento mercadológico, Sandman vendeu muito bem na Conrad que é considerada hoje uma péssima editora mas soube distribuir e vender seu peixe e anda vendendo bem pela panini mesmo uma edição custando quase R$150,00.

Alexandre: Mas hoje Sandman tem uma mítica construída naqueles anos, e acredito que essa seja a mítica que a vende até hoje e tornou a série um produto de longa duração. As capas de banca Sandman não são ruins por serem dirigidas a um público alvo diferenciado; são ruins por serem invisíveis.

Sobre a capa do samurai x, os comentários que rolavam na época que foi lançada é que essa era a pior capa que já tinha saído até o momento, a narração como tu colocaste não funciona pra uma capa, por isso as ilustrações que apenas apresentam personagens fazem sempre mais sucesso, era comum ver as pessoas dizerem "como é que esse desenhista desenha umas capas legais e desenhou essa tão feia?" no geral as capas pintadas pela JBC tiradas dos quadros de dentro do mangá eram extremamente rejeitadas mesmo por quem não sabia que passavam por esse processo.

Alexandre: Sinceramente, esses comentários negativos vieram do meio otaku que tem um discurso de modo geral restritivo e purista. E vivemos em um país que tem demanda para quadrinhos – Mônica Jovem não vende 400 mil por ausência de leitores potenciais, vende? – e nossos mangás muitas vezes tem vendas que patinam nos 20.000 exemplares, a julgar pelo pouco que vazou. Para um mercado de nosso tamanho é vergonhoso. Atendeu-se a minoria restritiva, não a maioria potencial. E capa tem que vender para a maior parte dos que pisarem em uma banca, na minha humilde opinião.

Sobre o mingau que são essas capas de antologias japonesas, tu deves saber melhor que eu que isso é um fator cultural muito forte no japão, esse excesso de informação é encontrado em todo lugar, desde o conglomerado de prédios comerciais até na embalagem de um macarrão instantâneo qualquer.

Alexandre: Verdade, mas ele segue um princípio encontrado em revistas bem-sucedidas em várias partes do mundo. As próprias capas da editora abril obedeciam a esse padrão e nessa época Heróis da TV vendia mais de 100.000 exemplares. Hoje um Super-Homem da vida é mais próximo ao produto americano e vende 6.500. E se olharmos bem, revistas populares como a citada contigo ainda hoje operam dentro dessa postura de imediatabilidade e informatividade.

Quero que entendas que não quero tirar o mérito do teu texto que é excelente, só estou estendendo a discussão.

Alexandre: Tranquilo. Ao contrário do que muita gente acredita, eu não encaro a discordância como negativa, exceto quando vem com intuito destrutivo. :)

Abraços.
Nome: Quiof 07/06/10 08:09
o que você fala do meio-tankohon ter inspiração em Tex faz sentido, o Sidney Gusman que foi editor de CDZ e DB foi editor de Tex na Globo.

acho Tex bem feito, bons desenhos, narrativa, só que muito clichê, como todo faroeste, cansa esse tipo de história.
Nome: Juliana Mendes 08/06/10 04:42
Olá, tudo bem? O caso de Naruto Pocket é uma exceção ao que escreveu. Não é muito mais barato porque tem o mesmo conteúdo e número de páginas que o mangá regular, e foi lançado em especial para os fãs que não conseguiram completar a coleção em tamanho regular - é um relançamento.

Alexandre: Olá, Juliana. Não acho que tenha me feito muito claro dessa vez. Minha crítica não era ao Naruto Pocket – era ao Full Metal Alchemist, que tem metade do número de páginas por meros dois reais a menos do que uma edição integral em dimensões não tão distantes. Era do meio-volume que eu falava. E como eu disse, sou a favor do meio-volume caso ele barateie e acessibilize. O surgimento de uma edição integral como o Naruto Pocket a esse preço apenas aponta para o que tem de errado em nossos meio-volumes.
Nome: Pitágoras de Azevedo 04/12/11 12:45
Quando você fez a comparação das capas da Jump com uma loja de doces, eu lembrei de uma coisa. Tem um capa, recente, em que o Masashi Kishimoto faz EXATAMENTE essa mesma analogia: http://img39.imageshack.us/img39/9460/capa1l.png

Vale ressaltar que essa é a capa da jump que saiu logo após o Tsunami do inicio de 2011.

Alexandre: e realmente ele mandou novamente bem. :)

Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)
(Allow users to contact you through a message form (your email will NOT be displayed.))

Post anterior: Ranking do Oricon (JP) – 03/06/2010Próximo post: Os Bastidores de um Projeto Cancelado