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Abr 18
A Arte de Contar os Azulejos do Banheiro
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Lancaster |
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Categorias: Big Comic Spirits

Imagine um sujeito que nunca teve problemas com mulheres (ainda mais no Japão): perdeu sua virgindade com uma vizinha quando era meio que moleque e como aparentemente no Japão as meninas tendem a se declarar para os rapazes (e ele tende a seguir o fluxo do rio, sem mostrar muita iniciativa), nunca lhe faltou oferta no mercado – em suma, aos vinte e poucos anos, ele nunca precisou recorrer à justiça pelas próprias mãos. Mas também está de saco cheio e já não encontra mais prazer em sexo, mesmo tendo uma bela, apaixonada e fogosa namorada. Isso faz com que quando ele encontra um livro sobre masturbação, acabe encontrando um norte: cansado de dar prazer sem tanto entusiasmo assim (sob o mantra de "somos escravos dos genitais das mulheres"), quer prazer próprio e encara o sexo solitário como um aprendizado em contínuo aperfeiçoamento, o território da liberdade total, aonde não é preciso agradar ninguém a não ser a si mesmo.
Se você sentiu vontade de enfiar porrada no sujeito, você não está sozinho. Mas essa é a premissa de Self, de Yukizo Saku, que ao contrário do que possa parecer, não é um erocom (o equivalente nipônico à pornochanchada) vagabundo; a história fala sobre sexo, o que é bem diferente de ser mero veículo para cenas de sexo (embora elas existam – e mesmo quando existem, são implícitas, mesmo que eventualmente sejam um pouco fortes) e breves. Há um tom até sério na discussão sobre o assunto, é material bem-escrito (embora eu admita que tenha rido quando a vizinha adulta o seduziu pela primeira vez, com a cantada mais trash de todos os tempos – "você sabia que somos escravos de nossos
genitais?" Okay, mulher bonita pode soltar a pior cantada do mundo que nós homens não ligamos, mas experimente dizer o mesmo para alguma mulher e divirta-se acompanhando os resultados) e, não custa dizer, ele é publicado na prestigiada revista Big Comic Spirits da Shogakukan, a mesma que trouxe ao mundo 20th Century Boys de Naoki Urasawa; Homunculus de Hideo Yamamoto; Preto e Branco (Tekkonkinkreet) de Taiyo Matsumoto; e o premiado Oishimbo de Tetsu Kariya e Akira Hanasaki.
E agora Self está se despedindo: a série se conclui na edição de 26 de Abril da revista, fechando com quatro volumes. Bom, se um Philip Roth – considerado um dos maiores escritores contemporâneos vivos – escreveu com propriedade sobre o assunto em Complexo de Portnoy (um dos livros fundamentais da conturbada virada dos anos 60 para os 70, aonde a masturbação é apresentada como válvula de escape para pressões sociais), não acho que se deva atacar previamente o material só por tratar de um tema "perigoso" – na verdade ele é exemplar sobre como lidar com esses temas em quadrinhos realmente para leitores maduros. Analisando friamente, o fastio do personagem com o sexo me parece mais consequência das mulheres que ele encontrou em sua existência aparentemente terem tomado as decisões de sua vida por ele. Não é uma pornochanchada vagabunda e merece crédito, mesmo que eu continue sentindo vontade de enfiar porrada no protagonista dessa série. Muita porrada.

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