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Ashita no Joe, de Ikki Kajiwara (Asao Takanori) e Tetsuya Chiba

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Categorias: Artigos e Reviews

Ashita no Joe

No dia 1º de Abril de 1970, foi ao ar – na rede nipônica de televisão Fuji TV – o primeiro capítulo de um divisor de águas da animação japonesa: a adaptação de Ashita no Joe (publicado no semanário juvenil Shonen Magazine, da Kodansha), de Ikki Kajiwara – sob o pseudônimo de Asao Takanori – e com arte de Tetsuya Chiba, e também um divisor de águas nos quadrinhos japoneses. Pode não parecer aos olhos acomodados de nossos tempos, mas os efeitos e influência de ambos foram fundamentais para o que conhecemos hoje em dia como animes e mangás. Por isso mesmo, eu não poderia deixar passar essa data em branco: hoje, a série animada completa exatamente quatro décadas de exibição e já que eu não pude comemorar o aniversário de quarenta anos do quadrinho original em 2008 (este blog ainda não existia, lembram?), estou postando aqui esta matéria, publicada originalmente na revista Neo Tokyo, sobre um dos materiais mais influentes e importantes da história da animação e quadrinhos japoneses. Então, vamos entrar no ringue. Divirtam-se.

_____________________________________

Ashita no Joe

Ashita no Joe não foi um mangá, pura e simplesmente. Foi um furacão. Vários grupos operários usavam o seu nome em manifestações, porque ele era associado como uma voz da classe operária, que vivia seu processo de ascensão econômica. Foi eleito pelos estudantes no turbulento ano de 1968 como um símbolo de contestação social. Alguns setores conservadores apontaram a série como um instrumento de perturbação pública – mesmo grupos terroristas de esquerda chegaram a usar o nome do personagem. Foram, aliás, as suas consequências políticas que precipitaram prematuramente o seu fim.
Joe foi o amanhã para o mangá também. Ao lado de Kyoshin no Hoshi, também escrito pelo autor Ikki Kajiwara, foi a série que definiu o shonen (quadrinho para garotos) moderno e em muitos aspectos, o mangá moderno, como o conhecemos hoje.

Lutador de Rua

Ashita no JoeTalvez a melhor apresentação que a série possa ter seja a sequência inicial do seu desenho animado, que adiciona dramaticidade ao que é apresentado nas primeiras páginas. Primeiro vemos uma mochila carregada nas costas de um homem. Aos poucos, vemos esse homem – sem nome, sem apresentação, caminhando sob a ventania de um dia cinzento. Uma música assobiada que remete as trilhas de Ennio Morricone o embalam quando o vemos, com a cabeça abaixada, usando o boné para proteger o rosto do vento forte. Ele deixa para trás a torre de Tóquio e caminha por um ambiente desolado, até que caminha para a ponte e entra num enorme bairro miserável.
Só essa imagem, dirigida de forma magistral, já representa um choque. Estamos tão acostumados com a imagem de um Japão asséptico, bonito, avançado e organizado, que esquecemos do que ele teve que passar para chegar a esse ponto. O Japão do final dos anos sessenta e início dos anos setenta já estava dando o seu pulo do gato econômico que culminaria com um auge brutal nos anos oitenta, mas temos que lembrar que eles tiveram que se reconstruir do zero após uma guerra devastadora; a recuperação foi lenta e dolorosa, com muita instabilidade econômica no processo, e como sabemos, são as pessoas comuns que costumam pagar o pato quando isso acontece. O cenário inicial é uma grande favela, localizada ao lado de uma fábrica, onde o grosso das pessoas vai trabalhar.

Ashita no Joe

O lugar é controlado por criminosos, fato que veremos com clareza nos primeiros capítulos, e nos damos conta mais e mais, à medida em que o personagem caminha por suas ruas de que sim, aquilo realmente é uma favela; visto do ponto de vista de um brasileiro que assiste, é um comparativo de realidade atordoante.
Joe Yabuki é assediado por um ex-boxeador e ex-técnico decadente, Dampei Tange. Velho, caolho e bêbado, ao ver os reflexos de Joe se dá conta de que ele nasceu para o mundo do boxe – e decide largar a bebida, em nome do seu sonho de fazer de Joe um boxeador. Para Dampei, Joe é algo que ele não tinha mais: um amanhã. Obviamente, Joe não o levou a sério em um primeiro momento.
Ashita no JoeMangá é essencialmente folhetim em forma de quadrinhos. Obviamente isso iria se reverter de alguma forma – no caso, após algumas encrencas com os bandidos que tomam conta do pedaço. Joe concorda em ser treinado, desde que tenha teto, refeições e alguns trocados para sair de vez em quando.
O que Danpei não contava é que Joe não era nenhum santo. Malandro, trapaceiro e mentiroso, nosso "herói" decide armar um golpe para arrancar grana de alguns trouxas. Sim, Joe é um digno adepto da Lei de Gérson e decide tomar vantagem da situação, se valendo das crianças locais que o seguem por todos os cantos. Só que o tiro sai pela culatra, e por causa disso ele acaba sendo preso e mandado para um reformatório.
Na prisão, ele acaba sendo atacado pelos demais jovens detentos – para "domesticar o novato". Agora toda essa displicência pode custar sua vida. Aprender boxe pode ser a única chance de sua sobrevivência física e mental.
Isolado de seu pupilo, Dampei só tem uma saída: mandar pequenas lições de boxe para Joe através de cartões postais semanais.
A partir daí, vemos um crescimento não apenas do personagem, mas daqueles que o cercam. A "fase do reformatório" se torna importante e apresenta personagens que se tornariam fundamentais, como o boxer Tohru Rikiishi (ou aprofunda personagens até então vistos de forma superficial, como a benfeitora dos pobres Youko Shiraki).

Ashita no Joe

O Núcleo dos Pobres e o Núcleo dos Ricos

Ashita no JoeDiferentemente de boa parte das personagens femininas em quadrinhos para garotos, Youko é uma personagem interessante – menos por ela própria (que inclusive é uma das personagens mais difíceis de se gostar da série, mesmo ela não fazendo a rigor nada de errado) e mais pelas questões que sua própria presença levanta: Youko é uma mulher rica, adorada pelos que a cercam como se fosse um anjo, sempre pronta a participar de eventos beneficentes e doar a quem precisa; Joe, com a diplomacia de um tijolo voador, é o primeiro a questionar essa bondade toda e é o primeiro a jogar na cara dela uma pergunta simples: O que ela (e, por tabela, todos os ricos filantropos) chama de caridade não seria uma forma dela (deles) mostrar(em) o quanto são superiores a "aqueles que mais precisam"? Por essas e outras o personagem levou a multidão em geral à loucura. Tanto fãs quanto detratores.
Ashita no Joe estreou em 1º de Janeiro de 1968 nas páginas da revista semanal Shonen Magazine – a revista número um do Japão daqueles tempos, título que hoje pertence à Shonen Jump. 1968, como sabemos, foi um ano explosivo em todo o planeta. Rebeliões estudantis na França, os protestos contra o Vietnã que eram repelidos na base do cassetete na "Terra da Liberdade" (vulgo EstadosAshita no Joe Unidos), a revolta contra a ditadura no Brasil... e no Japão, não foi diferente.
O grande foco de revolta era consequência direta de um sentimento anti-americano que misturava no mesmo balaio o ressentimento pelos anos de ocupação americana no país e o protesto contra a guerra do Vietnã, que envolvia o Japão indiretamente – o país era usado como base militar e recesso para os soldados americanos, além do governo japonês defender abertamente a presença americana naquela região. Isso acabou por gerar, nas universidades, agitadores tanto de direita nacionalista quanto os esquerdistas que se espalharam como uma praga naqueles tempos; e que não raro, acabavam entrando em conflito físico entre si. Em 1969, o Ministério da Educação requeriu mais de 350 intervenções contra universidades "em estado de agitação."
Obviamente, os mangás acabariam por refletir essa época turbulenta. Aquela era uma geração nova, onde os quadrinhos finalmente alcançaram o direito de se tornar maduros. O mangá passou a ser, definitivamente, parte integrante da vida do japonês. E isso se refletiu nos seus aspectos políticos, igualmente: dois mangás em especial acabaram sendo adotados pelos grupos de esquerda. Um deles era A Lenda de Kamui, de Sampei Shirato.
O outro foi justamente Ashita no Joe.

O Herói da Classe Operária

Ashita no JoeJoe parece o típico sujeito mais arrogante do que teria condições para ser. Um vagabundo de rua, com uma língua solta, sem respeito nenhum pelos mais velhos. Mas sua escalada da miséria até a vitória – e que não viria sem preço – representou para toda uma geração a luta de um povo pela dignidade, metaforizada entre os quatro cantos de um ringue.
Lembrem que quadrinho japonês é feito para ser popular – da mesma forma que nossas novelas de televisão. E assim como os personagens de novela que erguem-se da pobreza e viram assunto nas rodas de rua, a saga de Joe Yabuki tocou em cordas fundas de uma classe operária que sim, lia mangás e trabalhava duro durante essa época de crescimento econômico. É uma história de ascensão social, se pensarmos em termos de entrelinhas. O amanhã de Joe era o amanhã do povo japonês, também.
E o japonês estava vivendo a sua própria ascensão, apesar de ter passado por instabilidades econômicas (um bom exemplo de como elas marcaram a vida do Japonês nos anos sessenta pode ser visto no mangá para adultos "Mulheres", publicado pela Zarabatana Books). Não deixa de ser curioso que, ao contrário do que diz o discurso onde, sem condições econômicas, o povo não gasta com quadrinhos, foi justamente nas épocas mais negras da história de seus países de origem, que os formatos que popularizariam as grandes estéticas de quadrinhos Ashita no Joedo mundo encontraram terreno para crescer: Os Estados Unidos, com a grande depressão; a França, durante a 2ª Guerrra (o formato de álbum foi uma forma de contornar o racionamento do papel); O Japão, arrasado após as bombas atômicas. Passados os tempos de dificuldades, os quadrinhos acabariam crescendo com o país.
Em 1968, os Japoneses apresentaram ao mundo sua recuperação. Através de uma olimpíada, o mundo pôde enxergar pela primeira vez o Japão com novos olhos. Um país moderno, sintonizado com o resto do mundo. O japonês se sentia um novo povo, e a sensação geral era a de faxina no armário. Os quadrinhos e séries de tv refletiam essa busca. Se olharmos um seriado como National Kid (1960), reparem: não há elementos visivelmente japoneses – tanto que se um autor que se valia tanto da tradição japonesa como Shigeru Mizuki (Ge Ge Ge no Kitaro) é hoje incensado, é porque ele manteve a vela da tradição cultural acesa em um momento onde ela poderia ter sido posta de lado por completo. Se pensarmos na relação do Brasileiro com o próprio folclore, isso não é descabido como parece.
Isso estava acontecendo nos mangás, também – o que era percebido como velho, não estava rendendo mais como antes. A figura de Osamu Tezuka não era vista com tanta simpatia pelos novos autores e mesmo leitores cansados do feijão-com-arroz tradicional de seu tempo. Eram precisos novos nomes, novas posturas – e foi assim que se chegou a figura de Ikki Kajiwara.

O Mestre dos Quadrinhos de Esportes

Ikki KajiwaraSeu nome verdadeiro era Asaki Takamori, e inicialmente ele não trabalhava nos quadrinhos – trabalhava como autor de contos juvenis, de um lado, e paralelamente escrevia artigos esportivos em revistas adolescentes não muito diferentes de uma eventual matéria sobre skate em uma revista jovem.
Essas duas vertentes do seu trabalho pré-quadrinhos o tornavam uma opção interessante num momento de busca por renovação nos quadrinhos. Takamori, apaixonado por artes marciais, definiu todo um subgênero sobre esportes numa estrutura que, nas mãos de outros autores, viria a se tornar um verdadeiro "alto conceito" (ou seja, que poderia ser re-empregada em diversas histórias sem que isso seja considerado necessariamente uma imitação. Resumindo: uma fórmula funcional que poderia ser usada à exaustão sem que o leitor se desse conta).
Em miúdos, se tornar mais forte, como atleta E como pessoa, não importa o custo. Essa foi a idéia por trás de seu primeiro grande clássico de esportes, a saga beisebolística Star of the Giants (Kyoshin no Hoshi; 1966-1971) – mas sejamos honestos, o conceito não é exatamente dele: Takamori, autor de livros juvenis sobre esportes e artigos jornalísticos sobre o mesmo tema, foi convidado pelo editor-chefe da Shonen Magazine para criar...

"(...) uma nova forma de mangá que vá além das histórias infantis de Tezuka, falando diretamente sobre a vida. Kajiwara se esquivou da proposta inicialmente, mas acabaria embarcando no que se tornaria uma leva de histórias intensas e bem-montadas.
Mas o editor da Shonen Magazine tinha mais do que ambições literárias com essa idéia. A antologia precisava aumentar sua circulação providenciando alternativas atraentes aos mangás de Tezuka. Sua estratégia de atrair leitores mais velhos foi bem-sucedida em grande parte por poder contar com os talentos de populares autores anti-Tezuka como Kajiwara. Em 1970, ela se tornou a primeira antologia de mangá a atingir a circulação de Um Milhão e Meio de exemplares.
A Shonen Magazine procurou histórias sobre o sangue, suor e dor das artes marciais e dos esportes, coisas que Tezuka tinha dificuldade em desenvolver." (cf. Natsume Fusanosuke, Manga Retrospective #6, RAIJIN COMICS, Gutsoon!).

Tezuka amargaria algum tempo de ostracismo durante aquela época, mas isso é outra história. Renovação é algo fundamental, e basta dizer que toda mudança radical precisa construir seu discurso em oposição ao que veio antes, tendo valor ou não. Não tendo valor, ótimo – tchau e um abraço. Tendo valor, o que veio antes sobrevive, e no fim das contas, Tezuka sobreviveu – mas aquilo que o sucedeu, também. Essa geração do final dos anos sessenta e começo dos anos setenta, até hoje, talvez represente o movimento conjunto mais criativo e intenso na história dos mangás. E Kajiwara representou um papel precioso nele.

Sinal Fechado

Ashita no JoeKajiwara era um jornalista esportivo, e por isso entendia do riscado – e se tornou tão bem-sucedido no ramo que teve que criar pseudônimos para poder escrever simultaneamente em diferentes editoras, com o intuito de evitar problemas de direitos autorais (embora todos hoje saibam que o material foi escrito por Ikki Kajiwara, ele assinou a série com o pseudônimo de Asao Takanori).
Nos anos setenta, ele montou uma produtora de documentários esportivos – alcançando grande sucesso com um filme em especial sobre o Full Contact do mestre Masutatsu Oyama. O casamento profissional entre os dois acabou gerando vários frutos, inclusive o bem-sucedido mangá de esportes Karate Baka Ichidai, baseado na vida de Oyama – cujo dojo acabou enchendo de jovens estudantes e hoje é uma das maiores redes de dojos existentes, com presença inclusive em outros países.
Talvez por isso a violência em Joe seja tão real. Pela primeira vez, em uma revista para garotos, acompanhávamos de forma bruta os murros e golpes e sangue que podem acontecer dentro de um ringue. Para quem se acostumou com os duzentos litros de sangue em cada episódio de Cavaleiros do Zodíaco isso pode parecer absurdo, mas na época era algo novo e, para alguns, ameaçador.

Ashita no Joe

Na verdade, essa "violência" foi parte de um processo de amadurecimento dos mangás que já havia sido desencadeado em materiais voltados a leitores mais velhos, mas estava chegando aos quadrinhos para os leitores mais jovens no seu esforço de competir com os mesmos. Isso tudo levou a polêmicas e discussões que culminaram com a formação da "Unidade Governamental de Política para a Juventude" em 1967, que passaria a cercear os mangás que não passassem em seu crivo, colocando-os em uma lista de livros "prejudiciais". O desenhista de Joe, Tetsuya Chiba, teve seu escritório invadido pelos agentes da Unidade, e a série foi colocada na lista – levando a dor de cabeça para a mesa dos editores. De acordo com Paul Gravett, em seu "Mangá – Como o Japão reinventou os quadrinhos",

"(...) Nessa história de um pugilista japonês disposto a usar seus punhos e lutar contra todos, o ringue parecia concentrar todos os conflitos morais que permaneciam sem solução no Japão desde a guerra. Além da alegação de que a história transformava a violência em uma virtude, as pressões para interromper Ashita no Joe podem também estar relacionadas à adoção do personagem por grupos políticos e terroristas (...). Tanto isso é verdade que, em 1968, ano em que ele apareceu pela primeira vez, sequestradores do Exército Vermelho Japonês sabiam que todos compreenderiam sua motivação quando declararam: "Nós somos os Joes do Amanhã". Logo em seguida, o personagem foi adotado pelo movimento de contestação dos estudantes japoneses, a ponto de alguns terem rotulado a série como "A Bíblia dos Estudantes Extremistas" e a culpado por incitar a violência durante as demonstrações de rua contra a Guerra do Vietnã e o apoio do governo aos EUA" (Cf. Gravett, 58; Ed. Conrad).

Nesse panorama, sob cerco cerrado tanto dos grupos de Pais e Mestres quanto dos setores governamentais, só restou aos editores da Kodansha encerrar a série de uma vez por todas, não importando o sucesso que ela fizesse. Ordens dadas, ordens cumpridas: corria o ano de 1973 quando esse final veio – e a abertura de significados que ele representa, as diferentes leituras possíveis e todo o simbolismo que ele representou para sua geração, acabaram gerando um dos fechos mais lendários de toda a história dos mangás.

Ashita no Joe

Um Descanso, Não um Adeus

Não é preciso se preocupar com o spoiler: qualquer matéria sobre Ashita no Joe que se preze acaba fatalmente entregando a cena final, após uma luta devastadora contra o campeão mundial José Mendoza – que destruiu a carreira de vários pugilistas, inclusive do seu último oponente, Carlos Rivera (digno oponente de Joe; foi a luta contra ele que alçou nosso protagonista ao estrelato no mundo do boxe).
Mendoza vence por pontos, mas não sem pagar seu preço – a luta foi demais para ele, e teve consequências sérias. Joe, entretanto, conseguiu a superação que tanto queria; vencer não era o mais importante. Ele entrega suas luvas para Youko e, sentado no seu banco, se mostra caído com um sorriso nos lábios. E vem o texto final:

"Há os Adultos, que vêem Joe caído em seu canto e assumem que ele está morto e acabado. Mas o público mais jovem acha que sim, Joe colocou tudo o que tinha naquela luta, mas não está acabado. Ele amadureceu com a experiência. E vai prosseguir. Porque ele é Joe do Amanhã."

Ikki Kajiwara, com essas palavras, sintetizou todo o conflito de gerações que permeava aquela época. Dividiu claramente os dois lados do ringue entre "jovens" e "velhos". E deu um nocaute na Unidade Governamental de Política para a Juventude. Eles poderiam estar fechando a série. Que os "velhos" se danassem: Kajiwara a estava tornando imortal no coração de todo um povo.
O impacto foi grande. Para que se tenha um exemplo do peso de Ashita no Joe na população japonesa, o poeta Shuji Terayama convocou um funeral simbólico para um dos personagens que caem durante a saga. Mais de 700 pessoas compareceram, com presença do próprio desenhista Chiba. Mas Joe não recebeu nenhum funeral – afinal, ele vai prosseguir. Ele é Joe do Amanhã. E não iria ser um departamento governamental que o deixaria morto e acabado.

Ashita no Joe

Spaghetti Boxe

Nessa altura do campeonato, já havia a presença comercial da dobradinha mangá-anime. No dia 1º de Abril de 1970, estrearia na Fuji TV o primeiro anime de Ashita no Joe, pelo estúdio Mushi. O time era de primeira: dirigido por Osamu Desaki (com presença de Yoshiyuki Tomino no time de diretores de episódios), a série até impressiona mais a primeira vista do que o mangá. Até hoje.
Desaki estava pesadamente influenciado pela estética do western spaghetti de Sergio Leone (que não por acaso, assumia abertamente ser influenciado pelo cinema japonês de Ozu e Kurosawa). Leone tinha uma visão gráfica e intuitiva do espaço visual da cena, e cada um de seus longas é uma Ashita no Joeobra de arte em termos de enquadramento, ritmo de cena e uso do silêncio. Muitas cenas são paradas, focadas nas forças das imagens. Algo que se encaixa MUITO na estética do anime. Em sua obra-prima, "Era uma vez no Oeste", chegamos ao requinte de termos apenas 15 páginas de diálogos em um longa de 185 minutos. O grosso do filme em si seria conduzido por sequências de imagens que falam por si só, enquadramentos acertados e um aproveitamento total da dinâmica da tela. Leone não quer que você ouça, ele quer que você VEJA.
Osamu Desaki se mostrou um discípulo aplicado dessa estética em Ashita no Joe. A sequência de abertura é até hoje brilhante. As crianças inicialmente funcionam mais como um conjunto cuja barulheira soa mais como um efeito sonoro ("barulho genérico de crianças brincando") do que como personagens em si. O silêncio é um elemento de tensão e caracterização. A trilha sonora, que evoca os westerns de Leone, com seus temas assobiados, dá uma cara a Joe – antes que vejamos seu rosto, sabemos quem é ele por conta da música.
Desaki é um mestre da animação televisiva que desenvolveu várias técnicas que se tornariam padrões visuais distintivos da animação japonesa. E ao mesmo tempo, sabia quando prescindir dessas mesmas técnicas quando o assunto era emprestar dramaticidade a uma sequência.

Foi ele quem introduziu em animação o Split Screen – a famosa "tela dividida", criada em 1927 por Abel Gance no seu "Napoleão" e presente em alguns filmes, mas um tanto rara posteriormente por exigir um custo de produção alto. Em desenhos animados, os custos não interferiam nessa técnica em si, e ele teve a perspicácia de perceber isso; mas hoje, com as atuais tecnologias, ela é completamente banal, como podemos ver em qualquer episódio de 24 horas. Mas ele foi mais longe. Como animador, ele criou as "Postcard Memories", onde se congela um dos frames e a tela se dissolve numa versão pintada e detalhada da imagem originalmente animada; assim como foi ele o Ashita no Joeresponsável pelo uso inicial dos efeitos de iluminação plenos, fortes e completos, adicionados como efeito dramático. Sem ele, a animação japonesa não seria a mesma coisa.
Seu currículo inclui outros animes que se tornariam clássicos, baseados em mangás que igualmente se tornaram clássicos, como Ace o Nerae!, Rosa de Versalhes e Golgo 13; e seu reconhecimento é tamanho que acabou gerando no Japão uma "Sociedade de apreciação dos trabalhos de Osamu Dezaki", que estuda seu trabalho.
Por conta dessa influência estética, a força das imagens sobrepõem e muito o envelhecimento e embrutecimento de uma animação que afinal de contas, foi feita em 1971, com todas as limitações técnicas da época. Ashita no Joe se tornou um marco do seu tempo, mas não foi exatamente concluído; A série se encerra com a luta final entre Joe e Tohru Rikiishi, no episódio exibido em 29 de Setembro de 1971 – quando o mangá ainda estava em curso.
A série só seria retomada quase dez anos depois, com Ashita no Joe 2 – dessa vez pilotado pelo estúdio TMS Entertainment, concluindo a história, com a presença de Dezaki apenas na produção e sem o mesmo impacto gráfico. No entanto, a Mushi compareceu nos cinemas, naquele mesmo ano, com o Longa-resumo Ashita no Joe, The Movie, recauchutando episódios da primeira versão. Na prática, numa época sem video-cassete ou dvd, o longa acabou cumprindo uma função de divulgação para a nova produção televisiva. O conjunto da obra, reunindo as duas diferentes séries, totalizou 126 episódios adaptando o mangá por completo. Com isso, a lenda de Joe foi renovada para uma nova geração.

Depois do Amanhã

Ashita no JoeDepois de Joe, Ikki Kajiwara criaria (além de Karate Baka Ichidai) o mangá de luta livre Tiger Mask, e lançou o personagem nos ringues (um lutador com uma máscara de tigre) para vender ainda mais seu mangá. Definitivamente, o autor tinha um olho comercial e tanto – mas ele sempre foi um homem intenso em vida, e sua carreira foi seriamente abalada por um escândalo, quando perdeu a paciência com um editor em 1983 e esmurrou sua cara.
A verdade é que Kajiwara era um homem ambicioso e a medida em que seus planos se tornavam maiores e maiores, as pessoas ao seu redor passaram a ter medo dele, e com razão. Cada vez mais instável psicologicamente e sob o efeito de tragédias pessoais (como o sequestro e morte de sua filha nas mãos de criminosos), esse murro não passou da gota d'água de uma sucessão de eventos que culminaram na prisão do autor e da exploração de sua condição pela imprensa sensacionalista. Com isso, sua carreira entrou em declínio nos cinco anos seguintes, antes de sua morte por uma pancreatite aguda em 1987. E ele deixou, como legado, quadrinhos que – mais do que registros do seu tempo – perduram até hoje como grandes clássicos da história do mangá.

A Língua do Povo

Ashita no JoeAshita no Joe é um produto do seu tempo. Mostra uma era de dificuldades no Japão que, espera-se, não voltarão mais; mas as benesses também cobraram seu preço. O Japão estava lutando desesperadamente por um lugar no mundo, tentava resolver seus problemas sociais, havia muita pobreza e instabilidade econômica... Mas os maiores autores do quadrinho japonês emergiram desse caldeirão. Por isso eles conseguiam fazer coisas tão dramáticas e convincentes. Tinham a vida real a lhes ensinar isso na pele.
Hoje em dia tudo vem de mão beijada para os japoneses. O país se estabilizou socialmente com uma economia de alta rotatividade, onde todos tem que gastar muito pra que bens de consumo continuem saindo. Portanto, nunca vão ter vivido as inseguranças que seus pais e avós passaram. E talvez nunca mais possam ou queiram, de modo geral, tratar dessa temática com o devido peso.
O personagem principal eventualmente merece ser esganado, e muito, mas diferente dos Seiyas da vida, isso faz parte de um ponto muito bem colocado: ele também tem que aprender a ser gente. Joe faz algumas coisas realmente questionáveis e não é um sujeito bonzinho. Eventualmente abusa da confiança alheia. Acaba parando na cadeia porque merece. Mas Kajiwara não passa a mão na cabeça de Joe. Ele comete erros, ele paga por eles. Seria MUITO fácil ser demagógico no cenário de periferia do roteiro, com um discurso, "ele é fruto do meio, etc." – um discurso paternalista e que só alimenta serpentes. Mas em Ashita no Joe, nenhum momento se cai nessa armadilha.
Por outro lado, o aspecto folhetinesco do material gruda totalmente na gente e é um dos maiores trunfos que o autor tem nas mãos. Convenhamos, estar acuado na prisão e ser salvo gradualmente pelas "pílulas de Ashita no Joeconhecimento" semanais escritas em cartões postais, dos quais ele depende... Isso é digno de um folhetim de Alexandre Dumas se pensarmos bem. Ashita no Joe, nesse sentido, é MUITO novelão – podemos até reconhecer superficialmente a dicotomia "ricos e pobres" que aparece em nossas telenovelas até hoje.
E isto é ótimo.
Ashita no Joe tocou um povo porque falava a sua língua, a língua das pessoas comuns que andam pela rua e não as notamos, as que podem ir para a cadeia e não ligamos, as que vivem contando os trocados nos bolsos e que vão trabalhar em algum serviço duro e cansativo. Não são os que compram bonequinhos de vinil em Akihabara. Não são os que emperiquitam em bairros da moda como Harajuku. Não são os seres andróginos que parecem ter saído de um clip de J-Rock. São gente como a gente, que mesmo no Japão, nos parecem tão reais e familiares quanto as pessoas que conhecemos.
É por isso que Ashita no Joe é um clássico. E enquanto houver mangá no mundo, ele será sempre lembrado – não importa que o leitor de mangá médio do Brasil fale mal e sempre fique reclamando de tudo, em nome do mangá que é a moda da vez.
Não importa o amanhã; Joe sempre estará lá.

Ashita no Joe


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Comentários:

Nome: Felipe Onodera 01/04/10 10:34
Ashita no Joe foi um mangá que me deu muito trabalho para acompanhar até o fim. Lembro que estava acostumado a títulos onde as coisas simplesmente aconteciam, mangá pra mim era uma leitura rápida e eficiente, sem as complicações típicas dos "novelões". Joe era diferente, minha expectativa era de que eu veria o personagem em sua primeira disputa já ao fim do primeiro volume, mas só depois de uns cinco foi que ele subiu ao ringue de fato...

Depois eu fui deixando minha impaciência de lado e vendo que o tema central da obra não era o boxe. Nesse ponto eu já havia sido fisgado pelo imenso carisma de Joe, ele tinha tudo pra ser um personagem detestável, mas eu não conseguia evitar torcer por ele. Confesso que realmente senti um certo culto a violência no inicio do mangá, mas depois deixei esses pensamentos de lado e me convenci de que os exageros eram simplesmente um artifício que o mangá usava para se comunicar melhor com o seu público. Era difícil conter a ansiedade na preparação para o combate derradeiro entre Joe e Rikishi. Com José Mendoza já não aconteceu o mesmo, ainda assim a luta foi envolvente, um momento que particularmente me marcou foi quando José se perdeu entre seus pensamentos: “Tenho medo, estou aterrorizado, não importa o quanto eu o leve a nocaute, Joe sempre se levanta. Tenho esposa e filhos, de quem eu não quero me separar. Mas Joe... Não há nada esperando por ele após o fim desta luta”.

Outra coisa que sempre me intrigou é que apesar do mangá ser um título longo, poucos são os personagens que realmente recebem destaque durante seu desenvolvimento. Posso resumir todos os rivais de Joe a Rikishi, Carlos Rivera e José Mendoza. Seus únicos amigos são Danpei e Nishi, e como coadjuvantes as crianças e Youko. Essa última é facilmente uma das personagens de mangá mais insuportáveis de todos os tempos, os piores momentos da história eram justamente quando começava a se focar demais na personagem dela. Mas é claro, isso não é nada que prejudique o resultado final, Ashita no Joe terá sempre seu espaço como um dos melhores títulos da história do mangá.

Alexandre: E definitivamente é um material obrigatório. Eu pessoalmente acho essa época de virada temática dos mangás um dos momentos mais importantes e criativos da história dos quadrinhos, em qualquer lugar do mundo. Leitura obrigatória. :)
Nome: Jussara Gonzo 01/04/10 11:23
Belíssima matéria, com direito à norma tradicional de quotes estabelecida e exigida por tantos trabalhos de monografia!

Interessante, parece que realmente 1968 foi, de fato, o ano em que TUDO era possível, e o início dos anos setenta foi realmente o ano em que TUDO foi destruído... e só seria retomado pelos apáticos anos oitenta onde, convenhamos, foi MUITO mais fácil se livrar das "coisas velhas" que permeavam o mundo todo - como a ditadura no Brasil, que acabou mais como um acordo entre cavalheiros do que qualquer outra coisa, enfim...

Alexandre: Realmente, acho que uma série como Ashita no Joe só seria possível naquela época mesmo.

Realmente Ashita no Joe é um mangá que merece ser lembrado. E realmente hoje ele se encontra terrívelmente anacrônico nesta época de vida fácil, mesmo para a classe mais pobre que hoje tem (no mundo todo) respaldos do tipo "bolsa-família" ou da nova política médica de Obama nos isteites, e coisas do tipo. Embora internamente a luta se torne cada vez mais e mais difícil, pela horrível acomodação que as pessoas vivem hoje em dia, soterrada também pela sua montanha de justificativas.

Neste ponto acho que o 11 de setembro foi uma bênção, até para revelar que, no fundo no fundo, o mundo não mudou taaaaaaaanto assim desde 1967 na cabeça de muita gente, assim como o novo dono da ordem econômica mundial, China, encontra-se moralmente estacionado em 1950... ah, mas estou divagando!

Uma coisa que eu sempre fiquei pensando, já que estamos falando em mangás de esporte e vitórias: essa obsessão patológica dos japoneses em sempre ser "o melhor do mundo" isso, o "melhor do mundo" aquilo veio desta época pós-guerra ou é algo mais antigo?

Alexandre: Bom, isso veio após a Segunda Guerra e a ocupação americana. Havia esforço em conter o nacionalismo japonês na mídia, mas acabaram liberando os materiais relativos a esportes para canalizar esse aspecto. Kajiwara ditou a forma definitiva dos quadrinhos de esportes com Joe e Kyojin no Hoshi, mas eles já existiam antes dele.

E mesmo assim parece que não existe mais nenhum personagem de mangá que comece tão do "zero" como Joe - sempre há algum tipo de respaldo e esperança maior por trás. E se não tiver, sempre o "acaso vai me proteger, ou a Deusa Athena".

Até mesmo os mangás andam muito moles hoje em dia em comparação com Joe - e parece que a tendência é piorar. Uma pena...

Alexandre: Os tempos são outros, e isso se reflete nos personagens. Pro melhor e pro pior. Hoje, eu diria que pro pior.
Nome: F.K 02/04/10 12:15
Osu!

Sensacional a matéria Lancaster. Apenas complementando algumas informações sobre o Ikki Kajiwara. A parceria com o Mestre Oyama e a Kyokushinkaikan foi muito maior do que apenas a produção de Karate Baka Ichidai. Ele ajudou muito na parte de marketing da organização, se tornando eventualmente Diretor do Comite de Conselho. E seu irmão Hisao Maki era shihandai no Hombu Dojo. É facilmente encontrado videos de treinamento dele no You Tube.

Alexandre: Encontrei alguns ao procurar uma imagem de Kajiwara para este post.

No mais, Joe Yabuki é um daqueles personagem mundiais que expressam tão bem o sentimento de rebeldia dos anos final 60/ inicio 70 como James Dean e Bruce Lee.

Alexandre: É bem esse o espírito mesmo.

E aquela matéria sobre manga de lutas que vc prometeu hehehe?

Alexandre: Fatalmente a gente teria que falar de novo sobre o Kajiwara aqui. ;)
Nome: Guilherme Schneider 02/04/10 12:42
"Não importa o amanhã; Joe sempre estará lá."

Bela matéria. Ashita no Joe estará sempre entre os grandes nomes da história do mangá. Talvez seja o que represente melhor a questão das fronteiras fragilizadas na modernidade entre o "real" e "imaginário" coletivo.

Segue o sonho de vê-lo publicado um dia por aqui.

Alexandre: Eu também gostaria, mas isso não apenas não tem chances em bancas como seria meio extenso em livrarias, mesmo a partir de edições bunko.
Nome: Antonio Pereira 02/04/10 01:16
Fantástica matéria. Estava desde sempre querendo ler ela, mas não tenho essa NT. Agradeço por postar aqui. O que mais me chocou nela foram as colocações sobre Tezuka, não sabia que ele teve esse momento de queda no Japão. Sabia de uma perseguição dos pais, mas não sobre essas coisas.

Alexandre: Na verdade Tezuka, na virada dos anos sessenta para os setenta, virou sinônimo do velho que tinha que ser deixado para trás para que o novo pudesse abrir seu espaço. Tezuka chamava essa época de "o inverno de sua vida". Ironicamente, ele conseguiu virar a mesa porque um editor da Shonen Champion – logo dela – era fã do autor e quis dar espaço e liberdade irrestritas para que ele pudesse fazer uma última obra, por quanto tempo quisesse, não importando o sucesso, para ele concluir sua carreira com dignidade em um momento em que ele parecia condenado ao ostracismo. Tezuka fez Black Jack e com isso, revitalizou sua carreira, voltou a ter um público composto de jovens, teve um de seus maiores sucessos e continuou trabalhando, sendo reverenciado até o fim da vida. Esse editor deve sentir orgulho de si mesmo. ;)
Nome: Pedro Bouça 02/04/10 10:50
O primeiro volume acabou de sair na França (aqui na Zoropa o mangá também foi publicado na Itália) e eu já encomendei.

Já contei ao Lancaster, mas não custa repetir aqui, que a célebre revista francesa Courier International incluiu um preview das primeiras vinte e poucas páginas do mangá em seu número especial sobre o Japão pop que está nas bancas da França (e de todo o mundo...) atualmente. Se tiverem acesso, vale a pena comprar!

Alexandre: Eu tenho que pôr as mãos nessa edição! :D
Nome: Pedro Bouça 02/04/10 02:22
Antonio, houve um momento no final dos anos 60/início dos 70 em que Tezuka era praticamente ignorado pelos leitores jovens, atacado pelos autores novos (que o viam como um símbolo da Velha Guarda dos mangás), perseguido por dificuldades financeiras (que levaram ao fechamento dos Estúdios Mushi - não é a toa que foi outra produtora que fez a segunda série de Ashita no Joe!) e, em geral, parecia estar nas últimas.

Foi a série Black Jack que "ressuscitou" sua carreira e o permitiu voltar ao primeiro time de autores. Não é à toa que é a obra mais longa do Tezuka! Embora não seja publicada na ordem (ou mesmo na íntegra!) em nenhuma edição, japonesa ou estrangeira, é interessante acompanhar o desenrolar desse trabalho (que foi publicado na revista Shonen Champion durante uma década, de 1973 a 1983!), que começa com uma visão muito pessimista e negativa do mundo e vai se "iluminando" com esperança aos poucos, conforme Tezuka reconstruía sua carreira.

Embora não esteja disponível em português, vale o esforço de procurar essa série em outro idioma (além de japonês, ela foi publicada, até onde eu sei, em inglês, francês, espanhol e italiano).
Nome: Felipe Onodera 02/04/10 04:51
Eu já acho que existe muito exagero nessa história de declínio do Tezuka nos anos 70. Ele ainda era admirado por vários autores prestes a entrar em ascensão como o Go Nagai, o Kazuo Umezu, o Katsuhiro Otomo, etc... Ele nunca deixou de publicar seus trabalhos, se não na Shonen Magazine, na antologia COM, onde ele podia continuar o seu Hi no Tori. Tezuka podia não ter mais o mesmo brilho de seus primeiros 20 anos de carreira, mas posição de destaque ele nunca perdeu. Black Jack pode ter sido o seu título mais popular nos anos 70, mas não era o único bem sucedido. Houve também Buddha, Mistume Ga Tooru, I.L, Unico, entre outros...

Em minha opinião, o que estava fazendo diferença é que a maioria dos títulos que ganharam destaque sobre a massa daquela época eram aqueles que rendiam uma versão para televisão. Veja o exemplo do sucesso de Mazinger Z, o mangá sozinho jamais resultaria em tamanho fanatismo. Pouquíssimos trabalhos Tezuka receberam destaque na programação de TV dos anos 70. Shotaro Ishinomori também era um autor extremamente popular na era Tezuka, mas foi nos anos 70 que ele alcançou o ápice em termos tanto comerciais quanto experimentais. E veja bem, os seus melhores títulos não tiveram tanto destaque assim, como foi o caso do excelente Ryu no Michi, que iniciou publicação em 1969. Mas Skullman foi fenômeno no ano de 1970 e hoje raramente é lembrado, já o Kamen Rider de 1971 se tornou um ícone imortal da TV, eclipsando até mesmo Ultraman. O mesmo voltou a acontecer em 1977, com “Ganbare!! Robocon”, outros dos seus títulos menores que se tornaram enorme sucesso na televisão. Mitsuteru Yokoyama e Fujiko Fujio também são nomes reconhecidos nos anos 60 e que continuaram populares em boa parte dos anos 70, coincidentemente seus trabalhos ainda eram populares na televisão.
Nome: Josemi 02/04/10 08:38
Manga fantástico, matéria fantástica!
Preciso terminar de ler o Zé do Amanhã...
Nome: Pedro Bouça 02/04/10 10:44
Pô Felipe, a COM foi até cancelada nessa altura (1972)...

Tezuka estava com problemas sim. Particularmente financeiros (o que explicaria o seu trabalho na Sanrio...), com o fechamento de seus estúdios e as consequências disso. E, embora eu obviamente não tenha conhecimento de primeira mão do assunto, muitas fontes que eu vi dizem que seu trabalho nesse período era visto como "antiquado" pelos jovens leitores da época.

Tezuka estava com dificuldades sim. Certamente mais do que em qualquer outro momento de sua carreira. É certo que ele nunca deixou de ser publicado e seu trabalho sempre foi consistentemente de qualidade, mas sua popularidade estava claramente em baixa.

Alexandre: Aliás, Tezuka costumava se referir a essa época como "o grande inverno de sua vida".
Nome: AlphaZine 03/04/10 08:52
Uau! Ótima matéria. Parabéns Alex. Só vi até o episódio nove do animê legendado pelo pessoal do HNK Fansubs. Vou ver se pego o mangá na versão francesa. Ah! Que tal uma matéria sobre Rosa de Versalhes e outros animês do Osamu Desaki?

Alexandre: A idéia é boa, mas os shoujos do Dezaki como o Rosa e o Ace wo Nerae eu deixo para jurisdição da Valéria do Shoujo Café. ;) Por outro lado eu preciso ainda assistir direito o Space Adventure Cobra... ;)
Nome: Antonio Pereira 03/04/10 02:51
Obrigado pelo post, Pedro e Alexandre, procurarei por Black Jack.
Nome: Felipe Onodera 03/04/10 09:44
É verdade, não foi o melhor período da carreira do Tezuka, mas eu duvido muito que os editores simplesmente virariam as costas para ele dessa forma. Se não na Shonen Champion, ele teria outras oportunidades. Tezuka sempre foi um obstinado que nunca se deixou ser passado pra trás, ou ao menos foi essa a visão que eu construí dele a partir dos depoimentos do Fred Schodt. O que eu acho é que ele não era tão bom empreendedor quanto o seu ídolo Walt Disney. Ele quis ser experimental demais na maioria de suas produções animadas e com isso perdeu uma valiosa fonte de lucro que poderia facilmente financiar o resto de sua carreira. Veja o caso de Ishinomori, ele desenvolveu idéias para tantos seriados de tokusatsu para a Toei que nunca realmente teve passar por nenhuma crise financeira. Ao mesmo tempo, nunca deixou de publicar seus mangás e podia ser cada vez mais ousado sem correr o risco de perder um público fiel. Hotel foi um dos títulos mais populares na Big Comic durante um bom tempo e a novela inspirada no mesmo é a segunda de maior duração do Japão até hoje. Ele desfrutou muito bem os seus últimos anos de carreira, mesmo sem a mesma produção irrefreável de antes. E isso abriu espaço para que pudesse se empenhar em projetos ambiciosos, mas sem fundo comercial, como a história do Japão em mangá, que hoje é muito utilizado para fins didáticos.
Nome: Caio 04/04/10 10:37
ótima matéria, só me deu mais vontade de ler Ashita no Joe, o mangá parece ser incrível, quantos volumes ele tem?

Alexandre: 25, mas existem várias versões diferentes em outros formatos de publicação; há edições com doze volumes bem fornidos, inclusive.

seria legal se fizessem uma matéria grande dessas com Black Jack do Tezuka.

Alexandre: É uma possibilidade...
Nome: Warty 06/04/10 03:18
Cara, sou fã do Joe. Ainda não li, vou treinar meu italiano e importar isso. Sério. É realmente algo OBRIGATÓRIO!

Lendo isso eu me lembrei de uma cena do 20th Century Boys, e agora deu para compreendê-la melhor. "Eu sou Joe Yabuki". Incrível.

Alexandre: Joe é um discurso de atitude ambulante. :)
Nome: Anderson 05/02/11 10:29
Essa é uma das matérias mais legais! Gostei muito dessa historia. Queria muito que no Brasil tivesse uma obra como o Ashita no Joe. Valeu, Lancaster!
Nome: Kauê 09/05/11 02:12
Engraçado que li esse texto imediatamente após a releitura do texto que chama Evangelion de Cavaleiro do Apocalipse. A discrepância entre Shinji e Joe é algo notável e assustador, se tomarmos a ficção como reflexos de suas realidades. Duas obras que captam o zeitgeist de suas épocas.

Já é a segunda análise mais séria da obra e nas duas o autor não teve o menor pudor em adiantar o final. Não faria diferença. Não há indicativo maior da qualidade de uma obra que isso...quando Shakespeare nos antecipa o final ainda no prologo, isso não diminui em nada o rico percurso.

Uma ideia que me assombra faz um tempo é que nosso Brasil tem a capacidade de reunir, no mesmo espaço físico e temporal, legiões de Joes com uma crescente quantidade de Shinjis.

Enquanto o Japão elevou, comparado com outras nações, a qualidade de vida de forma bem equitativa e viveu dores e prazeres de modo geral, por aqui já temos jovens desgostosos com o rumo social num período onde ele está alavancando milhões da miséria, que apenas agora possuem poder de compra, logo, inserção social. Um cenário curioso.

Alexandre: sinceramente eu vejo o Brasil de hoje com muitos paralelos com o Japão dos anos 60. Mas ainda temos muitos obstáculos – e um deles está justamente em gente que não quer que nada mude...

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