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Mar 09
Kaiji Kawaguchi e… Beatles!!
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Lancaster |
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Categorias: Morning

Há muito tempo, li um artigo em jornal (se não me engano, foi no O Globo) tentando desvendar o motivo pelo qual apesar de ter uma grande presença na Ásia, o pop japonês não deslanchava no ocidente com a mesma força, por mais que seus fãs digam o contrário. A teoria do artigo era simples: falta de diferencial claro. É difícil imaginar que algum dia, digamos, uma cantora pop como Ayumi
Hamasaki venha a estourar nas rádios do ocidente por si. Talvez se a vida der voltas e ela recomeçar a carreira com um marketing pesado das grandes gravadoras nos Estados Unidos, como aconteceu com Shakira (que, convenhamos, era muito mais autêntica, tinha músicas bem mais bacanas – e até era bem mais natural e mais bonita em sua identidade mais latina), isso possa mudar; mas aí, ela seria mais uma no mesmo terreno em que várias outras competem. Seria uma cantora americana que por acaso nasceu no Japão, não uma cantora japonesa em trajetória internacional. E o motivo era simples: ela, Koda Kumi, Utada, Crystal Kay e outras não fazem nada que não seja feito aos montes por dezenas de cantoras americanas, com igual competência (e claro, eu estou armando meu guarda-chuva, porque sei que os canivetes irão chover).
Em compensação, é mais fácil encontrar artigos na imprensa internacional sobre materiais de perfil mais cult como o finado (e bacana) Pizzicato Five, o chatinho Shonen Knife, o experimental Cornelius ou o punk doidão do Guitar Wolf. Todos lançados no Brasil, aliás – comprei os discos deles em edições nacionais, via lojas e megastores por aqui. Mesmo coisas que não chegam por aqui acabam chegando aos ouvidos de certas alas da mídia especializada internacional, como o alucinado Melt Banana. E o motivo é correlato: eles são diferentes do que se faz no ocidente. Trafegam por
linguagens pop assumidamente internacionais, que já ultrapassaram suas origens anglo-americanas, e por isso são reconhecidas e aceitas; mas têm personalidade própria além da mera digestão estética. Pensando bem, são diferentes até de boa parte do que se faz no Japão. E por se alojarem em rótulos mais alternativos, dificilmente irão além de meios igualmente alternativos.
O fato é que parece haver alguma frustração clara por parte dos japoneses por essa relativa irrelevância da produção de seu país nos rumos da música pop mundial (digo "relativa" porque mal ou bem a produção japonesa parece se refletir em outros países do sudeste asiático), e isso se reflete e bem na sua mais visível válvula de escape: os mangás. Basta lembrar da abertura da versão animada do anime baseado no sensacional mangá Beck, de Harold Sakuishi, aonde se cantava a palavra de ordem: "I Was Made to Hit in America" (da música Hit in the USA). E isso não saiu da minha cabeça quando li sobre a nova obra de Kaiji Kawaguchi (sob roteiro de Tetsuo Fujii, campeão do concurso Manga Open da Kodansha): Boku wa Beatles, estreando na edição de 11 de Março da revista para leitores adultos Morning, da Kodansha. A história gira em torno de quatro estudantes japoneses dos dias de hoje que montam uma banda cover dos
Beatles chamada… Fab 4. Ao andar de metrô, o grupo testemunha uma briga e quando um dos seus participantes cai acidentalmente por uma das portas do vagão, ele se agarra a dois membros do grupo – que caem com ele fora do trem. E quando se dão conta, os personagens permanecem no Japão, mas a data nos jornais é 11 de Março de 1961.
(Não é sintomático que nossos protagonistas sejam justamente uma banda cover – leia-se, se limitam a reproduzir?)
Levando em conta que Kawaguchi escreveu Zipang, e que o final (sem spoilers, gente), parece ser feito para tapar feridas do nacionalismo nipônico ferido após o final da Segunda Grande Guerra, fico pensando se a idéia aqui não é a de uma banda japonesa usurpando o local que os Beatles tiveram na música pop mundial – e alterando o rumo de tudo. E explicaria porque Kawaguchi se encantou tanto com o roteiro do novato Fujii, a ponto de querer desenhar ele mesmo o material. É cedo para falar qualquer coisa do material só com uma sinopse de primeiro capítulo em mãos, mas fica no ar se a idéia não é justamente imaginar a idéia de que uma banda pop japonesa possa virar a história cultural do mundo – mesmo às custas da obra alheia…
E convenhamos: ninguém no mundo foi imune aos Beatles. Nem o Japão.

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Comentários:
Alexandre: Sinceramente se fosse para colocar o Oh Great fazendo biografia de alguma banda, seria melhor os Stones – a quantidade de groupies que passou por eles não está no mapa. XD
Talvez bandas pop japonesas não estourem por aqui por um motivo muito mais simples: o bizarro idioma japones. É claro, existem japas que cantam em inglês (ou algo próximo disso) e isso facilita um pouco, mas o Japão, na minha singela opinião, é muito bom em copiar e aperfeiçoar uma coisa que já existe (como a mania deles de miniaturizar todas as revoluções tecnológicas do ocidente na década de 60 e 70). Até mesmo coisas "típicas" japonesas são, no fundo, plagiações de outros povos orientais, sobretudo os chineses.
Alexandre: Bom ponto.
Bem, mas o campo do mangá e da fantasia é livre para se sonhar. E este mangá de fato parece interessante.
(Also... porque aquela seta está apontando para o meio das pernas do Paul McCartney?)
Alexandre: Não sei, mas deve ser uma mensagem dirigida ao público feminino que comprava os discos deles, movido a adoração. Afinal, o lado B do single é "You Can't Do That." XD
Alexandre: Olha, antigamente – tipo virada dos anos 60 pros 70 – rolava muito som francês e italiano nas vitrolas de nossos pais. Não credito apenas a ausência de jabá.
Outro motivo é o protecionismo americano, que é o mesmo motivo pelo qual nós vemos zilhões de animações e séries americanas mas quase nada de séries e animações japonesas e européias na tv aberta, os americanos devem pagar muito bem pra terem tanto monopólio sobre as nossas tvs. O que é uma pena já que programas de humor ingleses são o que há de melhor.
Alexandre: Uma coisa é verdade: os ingleses fazem melhor televisão do que os Estados Unidos. Primveval, Torchwood e Dr. Who são bem melhores séries de ficção científica do que o que se faz na gringolândia. A última série decente do gênero pra mim foi Firefly e olhe lá.
Muito boa sua análise. Mas você tem que ter um guarda-chuva muito resistente para não ser ferido pelos canivetes!
A melhor parte foi esta: "Não é sintomático que nossos protagonistas sejam justamente uma banda cover – leia-se, se limitam a reproduzir?"
Concordo com Jussara, quanto a ideia de que o Velho Yamato "é muito bom em copiar e aperfeiçoar uma coisa que já existe". Tenho sempre uma visão crítica quanto ao Japão, mas o país tem sim suas coisas típicas.
Quanto às "plagiações de outros povos orientais, sobretudo os chineses", é importante ressaltar que o Japão saiu da Pré-História graças aos chineses (conheceram técnicas melhores de agricultura, forja de metais e linguagem escrita).
Então, em vez de dizer que a cultura chinesa foi em boa parte plagiada pela japonesa, é muito melhor dizer que esta foi em boa parte calcada, estruturada por aquela.
Falar em plágio nesse caso é um erro tão grande quanto dizer que Portugal imitou na cara-de-pau a cultura greco-romana. Plágio é uma coisa, base é outra.
O que Carlos Eduardo colocou me contemplou. Só gosto de uma banda de j-pop (ZONE) e de umas músicas soltas, mas digo de boca cheia que existe sim um "diferencial claro", ainda que não consiga descrevê-lo bem em palavras, pois não sei discorrer literalmente sobre música, literalmente.
Tchau.
Essa parte do texto me pareceu confusa. Ao cair ela leva dois membros do grupo. Ela quem e leva para onde?
Alexandre: Tem razão. Vou editar o texto para deixar as coisas claras.
O fato é que enquanto o Japão estiver sempre tão preocupado em massificar a cultura, não vão perceber que apenas um apelo técnico (que as vezes também falta) vai acabar levando seus filmes, músicas e produções culturais em geral para um lugar cada vez mais fundo e escuro.
Infelizmente só o li agora...
Eu acredito que é um "pacotão" de fatores que dificultam o sucesso "estrondoso" de bandas asiáticas no ocidente:divulgação,o "jabá"(como disseram aí acima),E O "exótico" idioma.
Acho que qualidade e criatividade eles tê mde sobra! aliás criatividade e qualidade que falta,(convenhamos) em muitas das bandas pop ocidentais.
Eu acredito que o estilo pode se difundir aqui pelo Brasil,desde que haja uma adaptação à "terra brasilis".Existem muitas bandas brasileiras que são influênciadas pelo "j-rock",porém insistem e compor em japonês...em minha modesta opinião: AI FICA DIFÍCIL.
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