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Fev 28
Comiket: O Maior Evento de Quadrinhos do Japão
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Lancaster |
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18
Categorias: Artigos e Reviews

O jornalista, radialista e produtor de tv Franklin Ruão tem um currículo extenso. Com duas décadas de estrada como radialista, produtor de tv e jornalista (com presença em redes de televisão como o SBT, Record e a Bandeirantes), e com passagem na extinta revista de cinema Paisá, ele é um aplicado discípulo do Jornalismo Gonzo, encabeçado por gente como o finado Hunter S. Thompson – aonde o jornalista também é personagem da história que narra. Pesquisador dos quadrinhos, da cultura japonesa e do comportamento dos nipo-brasileiros, ele vem colaborando com o blog Na Minha Rolleiflex – um dos vizinhos do Maximum Cosmo aqui na Interney. E agora está com um livro inédito no forno – Japão Inclassificável – aonde narra sua experiência de viagem ao país em 2008. Como um gostinho do que vem por aí, estamos apresentando em primeira mão em nosso blog o capítulo dedicado ao Comiket, o maior evento de quadrinhos do Japão – que é dedicado exclusivamente aos fanzines (conhecidos por lá como Doujinshi). A palavra é sua, Franklin.
COMIKET 74
15, 16 e 17 de agosto de 2008
Tokyo Big Sight

Eram 9 horas da manhã, e a temperatura já atingia 34 graus centígrados. Pela janela do monotrilho automático, sem a presença de condutor humano, era possível ver o imenso centro de exposições localizado na ilha artificial de Odaiba, na baía de Tóquio.
O Ariake Tokyo Kokusai Tenji Jo, também conhecido como Tokyo Big Sight, tem o formato de pirâmide invertida e se tornou uma referência tão grande para os fãs de animes e mangás que é possível vê-lo em várias produções do gênero, inclusive na internacionalmente conhecida série Evangelion.
Cheguei ao local acompanhado pela minha equipe de apoio composta por Issao “Dengue”, Magrão e Mariko “Cambalacho”. Após grande expectativa, finalmente iria presenciar a edição de número 74 do maior evento de quadrinhos independentes do mundo, conhecido como Comic Market, ou simplesmente Comiket.

Em 1975, um grupo de 32 pessoas organizou no Japão o primeiro evento conhecido como Comiket, um espaço onde entusiastas de mangás pudessem divulgar o material criado por eles mesmos. O que nós chamamos de fanzines, no Japão recebe o nome de doujinshi, que são histórias em quadrinhos que transitam por todos os subgêneros possíveis, muitas vezes utilizando livremente personagens já existentes em publicações de sucesso, tudo feito de forma independente e sem interferências.
Atualmente, o evento é realizado duas vezes por ano (uma no verão, outra no inverno, acompanhando as férias escolares), durante três dias consecutivos, e recebe cerca de 550 mil
pessoas por edição. A entrada é gratuita, porém a organização encoraja a compra do catálogo oficial, que custa 2 mil ienes (cerca de 20 dólares) e possui mais de 1.400 páginas, apresentando a localização de cada um dos 35 mil artistas expositores.
O Comiket é o segundo maior evento coberto do Japão organizado por um único grupo não governamental, só perde em tamanho e popularidade para o Tokyo Motor Show, que é patrocinado pelas gigantescas companhias do setor automobilístico [1].
Todos esses dados, contudo, não são capazes de preparar o visitante para a visão do local, tomado por milhares de fãs, organizados em gigantescas filas, aguardando pacificamente a abertura dos portões.
A organização do Comiket conta com 2 mil e 400 voluntários. Logo na saída do monotrilho, encontramos uma garota da organização que nos encaminhou para o atendimento internacional da imprensa, mas é claro que antes tivemos que dar uma imensa volta pelo subsolo até chegar ao local determinado.
Uma vez lá, fomos recepcionados pelo alemão Oliver, que mora no Japão há anos e auxilia gringos como nós. Os japoneses adoram os alemães de longa data, não podemos esquecer que foram parceiros na Segunda Guerra Mundial, e Oliver parecia gostar da popularidade que desfrutava: mesmo usando um boné que imitava orelhas de guaxinim e uma cauda colada na bunda, ele era admirado pela sua legião de fãs, composta exclusivamente por homens. Oliver nos encaminhou para a imensa fila de cadastramento da imprensa, fazendo questão de lembrar a todo instante a interminável lista de proibições e censuras da organização do evento.

Infelizmente, o pessoal do Comiket e a mídia não têm um bom relacionamento, tudo por conta de um homem chamado Tsutomu Miyazaki.
Entre 1988 e 1989, Miyazaki seqüestrou, torturou e matou quatro meninas com idades que iam de 4 a 7 anos. Não satisfeito, ele bebeu o sangue das suas vítimas, molestou sexualmente os corpos e, após mutilá-los, enviou partes deles para as famílias. Na residência de Miyazaki, foi encontrada uma grande quantidade de mangás e fitas de vídeo com conteúdo pornográfico, o que foi suficiente para rotular todos os leitores de mangás como desajustados e assassinos em potencial. Depois de um julgamento tumultuado, Miyazaki foi condenado à morte por enforcamento.
Em 1990, iniciou-se um debate, periodicamente retomado na sociedade, para tentar proibir as obscenidades contidas nos mangás, fazendo com que o Comiket e seu público recebam uma grande exposição negativa da mídia.
Todo o material vendido no local é produzido de forma independente, sem nenhum tipo de controle editorial, além daquele exercido pelo bom senso dos seus criadores. Em algumas edições, a polícia chegou a realizar buscas no local, recolhendo material considerado imoral.

Esses incidentes não afastam os interessados em participar do evento. Um artista que queira expor e vender seus trabalhos precisa fazer sua inscrição com antecedência e aguardar um sorteio para definir se irá participar ou não. Caso seja sorteado, paga uma taxa de adesão de 7 mil e 500 ienes (cerca de 78 dólares) e recebe o direito de usar uma mesa de 90 centímetros de frente por 45 de profundidade e mais duas cadeiras.
Embora a organização do evento insista em dizer que não existem consumidores no Comiket, apenas participantes, na verdade o que fica evidente é um profissionalismo muito grande por parte de todos, inclusive no que se refere às vendas: uma única edição do Comiket pode chegar a movimentar mais dinheiro que a Copa do Mundo de Futebol [2].
Vários artistas profissionais se apresentam escondidos sob pseudônimos, evitando conflito com as editoras que publicam seus trabalhos; outros são renegados da indústria, que sobrevivem produzindo exclusivamente para o evento. Filas se formam na frente de suas mesas, alguns chegam a vender mil exemplares em um único dia, com preços equivalentes aos das livrarias especializadas.
Quando finalmente conseguimos entrar no pavilhão de exposições, a primeira coisa que notei foi a edição limitada da garrafa d’água que estava à venda na máquina automática – havia dois modelos diferentes, e às 11 horas da manhã já tinha acabado tudo.
As primeiras horas são as mais terríveis: compradores profissionais se amontoam para adquirir edições dos artistas mais cobiçados. O Comiket abre as portas às 10 da manhã e fecha às 4 da tarde; às 7 da noite já é possível encontrar material exclusivo sendo vendido nas principais lojas do bairro de Akihabara.
O primeiro dia é chamado “dia das meninas”, elas lotam todos os cantos, comprando material alusivo ao público feminino. Revistas com toques de romance e aventuras de guerreiras mágicas dividiam espaço com uma pornografia que pendia para o amor intangível entre todo tipo de criatura.
Na área externa reservada para os cosplayers, era grande a quantidade de participantes, que se exibiam debaixo de um sol forte para centenas de fotógrafos profissionais e amadores. Depois das garotas com trajes sensuais, o que mais chamava a atenção eram os cosplayers de soldados nazistas.

Na Alemanha, o nazismo é totalmente proibido. Usar uma suástica pode levar uma pessoa para a prisão. Logo, não achei estranho encontrar o alemão Roby, no Japão há uma semana, adorando o fato de poder andar pelas ruas livremente utilizando um uniforme nazista. Ele me disse que trabalha profissionalmente se fantasiando de nazista e participa de “apresentações educativas”. Perguntei
quanto ele cobrava para se apresentar em um bar mitzvah, ele deu uma risada e respondeu: “Nada. É cortesia.”
Muitos japoneses, homens e mulheres, também eram fãs dos uniformes nazistas e de toda a máquina militar do Terceiro Reich, e não se acanhavam em mostrar isso em camisetas e réplicas perfeitas e caríssimas dos uniformes.
Nos retiramos por volta das 4 da tarde, quando ainda estavam chegando muitas pessoas. Com dificuldade, conseguimos embarcar de volta e decididos a retornar no dia seguinte para ver tudo que ficou para trás.
No segundo dia, acompanhado apenas do meu bravo cinegrafista Issao “Dengue”, fui o primeiro membro da imprensa a chegar ao local. No dia anterior, havia repórteres de vários países, como Japão, Coréia, China e Índia. Eu era o único representante do continente americano, especificamente da América do Sul.
No segundo dia, eu era praticamente o único membro da imprensa internacional presente, além de um holandês um tanto quanto perdido, que logo se tornou amigo íntimo do alemão Oliver.
Mais uma vez, os japoneses fizeram questão de dificultar ao máximo o meu trabalho. Tentei argumentar que desejava entrar apenas alguns minutos antes para posicionar o equipamento para conseguir fazer imagens da abertura dos
portões e da grande onda humana adentrando o pavilhão, mas não foi permitido.
Issao e eu quase chegamos a partir para a briga contra os capangas efeminados de Oliver; contudo, diante do risco de prisão e extradição, deixamos barato. Na noite anterior, conferi na televisão o trabalho das emissoras locais. Para minha surpresa, as imagens deles eram tão limitadas quanto as que eu captei, por conta da censura exercida pela organização do evento. Durante as matérias exibidas, não faltaram imagens de arquivo do assassino Miyazaki.
Para efeito de comparação, o Comiket ocupa uma área aproximadamente seis vezes maior que o Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo. Marchando vagarosamente pelos corredores, pingando de suor, é possível comparar a devoção do público ao fervor religioso de uma procissão. Era o segundo dia do evento, o “dia dos meninos”, e a paisagem era completamente diferente do dia anterior: a suavidade das moças foi substituída pelo cheiro de suor dos marmanjos, que se acotovelavam em busca das novidades.
Havia todo um setor dedicado à venda de material digital. Muitas garotas faziam sucesso e fortuna, usando fantasias sensuais, e vendendo seus ensaios fotográficos para os fãs. A quantidade de nudez e pornografia no segundo dia era maior e não havia espaço para sutilezas.

Modelos com roupas de apelo erótico ajudavam a vender as revistas, e muitos artistas estão em um nível tão avançado que sequer vão até o local; o material é vendido por uma equipe de pessoas especializadas nisso.
Aproveitei para distribuir entre os expositores alguns exemplares de fanzines brasileiros criados pelo coletivo de quadrinistas independentes Quarto Mundo e também do Studio Vermis. Pela primeira vez na história do Comiket, um fanzine ocidental foi apresentado naquele local. Espero que esse gesto simbólico impulsione ainda mais os artistas brasileiros de quadrinhos independentes, para que um dia eles possam ter no Brasil um evento semelhante ao Comiket.
No Comiket, os artistas têm total liberdade para criar o que quiserem e cobrar o que acham válido pelo seu trabalho, o publico se encarrega de decidir quem é bom o bastante para sobreviver.
Nos retiramos às 2 horas da tarde, depois de caminhar como almas no purgatório, submetidos a um calor tão intenso que a única maneira de estancar o suor era usar o tempo todo uma providencial toalha no pescoço, hábito comum durante o verão no Japão.
Tivemos tempo de ver uma multidão cansada, que se espalhava por toda a área externa do Tokyo Big Sight: eram centenas de pessoas desfalecidas, deitadas pelo chão, semelhantes a um pelotão de soldados após um dia de duros combates. Muitos aproveitavam para organizar uma feira informal de trocas, uma vez que era impossível conferir todas as mesas antes que o material acabasse.
Os seguranças que faziam questão de proteger o prédio, mas não o público, estavam com a paciência no fim, e não faziam questão de esconder sua desaprovação pela nossa presença no local. Não seria improvável que as autoridades e o governo desejassem que toda a ilha de Odaiba afundasse no mar, levando junto toda aquela multidão de degenerados e livrando o Japão para sempre daquelas pessoas.
E tudo isso apenas no segundo dia. O terceiro e último era totalmente dedicados aos “amantes dos peitos”, um eufemismo para descrever a multidão de tarados em busca de pornografia sem limites.

No mesmo dia 17, dois meses antes, o assassino Miyazaki estava sendo enforcado pelos crimes que cometeu, e a imprensa japonesa não ia deixar essa data passar em branco.
Por via das dúvidas, achei melhor não comparecer, e fui visitar a cidade de Hiroshima. Mesmo correndo risco de contaminação pela radiação residual do local, me pareceu a melhor opção naquele domingo.
[1] What is the comic market? A presentation by the Comic Market preparations
committee, February, 2008.
[2] Macias, Patrick e Machiyama Tomohiro. Cruising the anime city – an otaku
guide to Neo Tokyo. Stone Bridge Press.
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Comentários:
Exatamente como aconteceu aqui lá por 2000, 2001, em relação ao RPG, lembra?
Agora, vai entender, Lancaster: um país onde autores de manga/gekiga são constantemente entrevistados, têm exposições comemorativas, recebem homenagens até em mobiliário urbano, onde um Kosaku Shima, uma Rei Ayanami ou um “Hokuto no Ken” agregam valor ao lançamento de produtos, ainda consegue conviver lado a lado com essa mentalidade "werthaniana"?
Alexandre: Sinceramente: poderio econômico. Tendo dinheiro, influência e presença midiática, você pode fazer frente contra os oponentes. Repare que mesmo nos Estados Unidos, a maior editora de quadrinhos de todos os tempos na história do país, a Dell Comics, eles não envergaram o selo do código de ética, e ai de quem os peitasse. E continuaram publicando até que sua distribuidora faleceu.
Numa sociedade capitalista, os fortes são aqueles que tem o bolso ao seu lado. E aqui, falamos de fanzineiros, não de grandes grupos editoriais. Acha que a mesma mídia que os ataca teria peito pra atacar a santíssima trindade Shueisha/ Kodansha/ Shogakukan?
Alexandre: Ele estava lá por conta de seus superpoderes. Não contavam com sua astúcia!
É! No fim, tudo é o "vil metal".
Alexandre: Às vezes, a realidade é mais cômica do que qualquer ficção...
Bem, a julgar pelo evento de Cosplay nazis e o caso desse maluco assassino citado realmente uma imagem negativa é quase que compreensível. Embora realmente o design dos uniformes nazistas sejam muito bonito e chame admiradores (existe até uma história de um menino judeu que, em PLENA Segunda Guerra, queria ser nazista porque achava os uniformes legais).
Alexandre: Isso não dá pra negar. Os nazistas entendiam de design e estética, temos que admitir – e você já viu o documentário "Arquitetura da Destruição?" É difícil não comprar a tese aparentemente absurda do filme, de que na verdade os nazistas eram guiados por um projeto estético, mais do que um projeto político ou econômico... mas quando são jogados os fatos, mais a lógica toma corpo. Tanto é que boa parte do know-how deles foi absorvido pela publicidade, mesmo nos dias de hoje. Isso é assustador: esse culto mostra que essa abordagem funciona na hora de seduzir as massas.
No entanto acho que esta birra com a imprensa só gera mais e mais visão negativa do Comiket - nós, jornalistas, somos criaturas sensíveis e detestamos ser contrariados. Mas à julgar pelo "terceiro dia" realmente nem a mais branca das chapas poderia salvar totalmente a reputação deste evento...
Alexandre: Eu tenho medo de imaginar o que seria o eventual registro desse terceiro dia. XD
Boa matéria, embora curtinha. Não sei se seria legal ter um Comiket aqui no Brasil... a julgar pelos números acho que seria o tipo de lugar que eu iria, no máximo, no "primeiro dia"...
Alexandre: Sinceramente, se ocorresse no Brasil, primeiro dia seria muito.
Adorei ver as revistas brasileiras lá, eu tenho essa edição da Tokyoaki do Studio Vermis, comprei ela no AF 2008 e desde lá acompanho o trabalho do grupo.
Também fiquei curioso para ler o livro, Japao Inclassificável. Agora é so esperar lançar.
Mas poxa, eu tenho medo de japoneses. Esse assassino, os nazis... poxa. Essa "atração" pela iconografia nazi parece ser até meio comum por lá, não é? O autor de Hellsing tem uma quedinha também pelos nacionais-socialistas.
Ah, e eu acredito que ele foi no terceiro dia mas ficou com vergonha de admitir! hhauahauahaHAuah Brincadeira.
Agora penso eu acho que nesses eventos eu só iria nos que tem lá na França e na Jump Festa e só.
Nunca tinha ouvido falar no evento e fiquei MUITO impressionado!
Sobre o uniforme nazista, é só lembrar da marca Hugo Boss, o criador além de afiliado ao partido nazista desenhou os uniformes. Eu fui dar uma pesquisa para poder comentar melhor e achei esse artigo:
http://mundodasmarcas.blogspot.com/2006/06/hugo-boss-elegncia-alem.html
"Sinônimo de elegância e luxo, a HUGO BOSS é um produto “Made in Germany” altamente respeitado no mundo da moda. A tradicional marca alemã carrega no entanto um passado de envolvimento nazista. Hugo Ferdinand Boss teve uma relação muito estreita com o nazismo. Em 1931 se filiou ao Partido Nacional-Socialista (NSDAP), de Adolf Hitler. Antes e durante a Segunda Guerra Mundial, a empresa desenhou e produziu uniformes de tropas e oficiais da Wehrmacht e SS. Além disso, a empresa foi acusada de usar mão-de-obra forçada, onde os trabalhadores tinham um carga diária de 12 horas, com um curto período de intervalo. O empresário Hugo Boss, após a guerra, foi tachado de “oportunista do Terceiro Reich“, multado em 80 mil marcos, e sendo privado de seus direitos civis. “A fábrica de roupas fundada pelo senhor Hugo Boss produziu roupas de trabalho e achamos que também uniformes da SS. Até agora, nós não temos arquivos na companhia e nós estamos tentando descobrir o que aconteceu“, declarou Monika Steilen, porta-voz da empresa, em 1997, quando a notícia foi divulgada por uma revista austríaca."
Vale muito a pena ler esse trecho. Os uniformes nazistas são muito bonitos.Falando em mangás dá pra ver referências claras a ele nos uniformes dos carcereiros de "Impel Down" em "One Piece." O que tem que ser levado em consideração é aonde está a admiração pelo uniforme bonito e onde está a fascinação pelo regime opressor.
Uma dúvida: para mim, "mangá" é o quadrinho publicado no Japão. Portanto, pode existir no máximo um quadrinho brasileiro inspirado em mangá (com leitura no sentido oriental), mas nunca um mangá "brasileiro". Estou errado?
Alexandre: Sinceramente, eu acho que está – e acho que sentido de leitura oriental não faz um mangá. Os mangás coreanos podem ser chamados de manhwa, mas eles são mangás e o fato deles serem produzidos da esquerda para a direita não faz deles menos mangás. O Yoshiyuki Tomino, quando esteve no Rio de Janeiro, disse que só havia visto materiais que imitam aspectos superficiais dessa estética sem ter noção do que a faz ser o que é, mas também disse que é possível para os mangás de outros países superarem o Japão – só que precisariam trazer sua própria identidade cultural à estética ao invés de copiarem seus temas, senão viveriam a sua sombra. O Ministério do Exterior Japonês promove anualmente um concurso internacional dedicado aos melhores mangás produzidos fora do Japão, já premiou séries dos Estados Unidos e da China.
Acho difícil dizer que mangá é quadrinho publicado no Japão, porque ele tem uma carga estética própria, com suas próprias regras. Já cheguei a conclusão de que se seguir essas regras, é mangá – da mesma forma que um rock não deixa de ser rock por ser produzido na frança, japão, estados unidos ou brasil. E pra mim o maior indicador do que é ou não é um mangá é sua linguagem narrativa.
por enquanto esses "mangás" estão bem aquem, quem sabe surge algo interessante.
Alexandre: De um modo geral eu separaria em quatro vertentes primordiais – cada uma com suas várias subdivisões, mas acho que o que define sua linguagem narrativa são os formatos em que são publicados. O mangá e o comic book tem suas próprias regras e niveis de densidade, mas eles são muito definidos pela sua forma de publicação.
Por exemplo, o quadrinho americano é o que é porque é publicado em revistas finas, de cerca de 24 páginas, e precisa concentrar dados o suficiente nesse espaço. Por outro lado, como são serializados de modo geral, podem levar a um número relativamente breve de capítulos para fechar uma história. Quantas compilações de quadrinhos americanos não compõem cerca de três ou quatro capítulos, seis quando muito? Isso basta.
Já o japonês tem até menos capítulos por página dependendo da periodicidade (uma revista semanal em média tem 19), mas ele vem imprensado em revistas com quinze, vinte séries no bolo e por isso o leitor não se sente tão necessitado de que as coisas aconteçam em massa, como acontece nos quadrinhos americanos. Então ele tem uma densidade narrativa muito rarefeita. Numa revista mensal japonesa, há mais exigência de que as coisas aconteçam, porque se levou mais tempo entre um capítulo e outro – ele quer sentir que a espera valeu a pena. Quanto menos breve a periodicidade, maior a exigência do leitor. Pode verificar: acontece mais coisa em trinta páginas de Full Metal Alchemist do que em quarenta páginas de Bleach.
O europeu tem duas divisões básicas: o franco-belga e o fumetti italiano. O franco-belga em geral publica seus quadrinhos em cerca de 48 páginas (já vi álbuns de 52, apesar disso). Eles saem com uma periodicidade muito, muito espaçada – há séries que saem uma vez por ano. Por isso mesmo ele tem a mais alta carga de densidade narrativa nos quadrinhos – você pode levar um dia inteiro lendo um desses álbuns, em alguns casos, enquanto você lê as 200 páginas de um tanko-hon japonês a jato. Eu acho complicado ler um álbum europeu dentro de um ônibus, aquilo pelo próprio formato exige uma certa disponibilidade de tempo – a mesma disponibilidade que se tem para ler um livro. Acredito inclusive que um dos motivos da difusão dos mangás é justamente sua velocidade de leitura. Nesse tempo em que mal se tem tempo para dizer oi para a pessoa ao lado, o mangá oferece certa digestividade.
Curiosamente, o fumetti eu acho – apesar de suas diferenças radicais com o mangá – aquele que mais se aproxima dos japoneses. Ele é serializado em revistas grossonas, de 100 páginas (125 em alguns casos), em preto e branco. No superficial, ele é caracterizado pelo oposto: diagramação ultra-tradicional (nem os americanos estão presos ao molde básico de seis quadros por página como os italianos), traço ultra-anatômico, uma predisposição a composição de pontos áureos (estabelecendo quatro pontos básicos de composição, formando uma espécie de "X" em cada imagem. Isso é muito comum em quadros, tem origem renascentista e pode ser encontrado inclusive no quadrinho franco belga). Mas ele tem uma narrativa visual mais espaçada, até por ter bem mais páginas para contar uma história do que franco-belgas e americanos. É fácil de encontrá-los em nossas bancas (Tex, Zagor, Aventuras de uma Criminóloga) e tenho certeza que quando os mangás chegaram por aqui, o formato meio-tankohon com que eles aportaram em nossas praias teve diretamente a ver com a presença sólida desse tipo de quadrinhos em nossas bancas. Tex já passou do número 400 aqui no Brasil! Isso não é pouco!
De modo geral as vertentes básicas são essas, em termos de influência de formato. Porque de certa forma tudo que se faz ao redor do mundo costuma refletir o domínio desses formatos básicos. O mangá já apita em termos de influência nos manhwas e em certos manhuas chineses (vide a antologia chinesa Monthly Speed Up Magazine, do premiado 1520, ou antologias coreanas como a Comic Champ) – sem falar que o formato de publicação já chegou aos Estados Unidos, via Shonen Jump e Yen Plus. Vários países já mergulharam no tradicional formatinho americano, nem que sejam em tentativas. Aqui já fizemos quase de tudo: Volta e meia lançam material nos formatos de álbuns franco-belgas nas livrarias, tivemos nossos próprios fumettis (Chet, da editora Vecchi; teve mais de vinte edições), e a quantidade de material de super que tivemos aqui não está no gibi, em geral morrendo na praia ou sendo concluído sem maiores consequências.
Há outros formatos, mas eles tem uma presença bem mais limitada regionalmente. Quadrinhos britânicos, como a 2000 AD ou a finada Warrior, são publicados em um formato de jornal tablóide, e por isso tem bem mais quadros por página – e menos páginas por capítulo. Por isso a concentração é gigantesca e o volume de texto, idem, o que explica a formação narrativa de gente como Alan Moore.
http://www.youtube.com/watch?v=dNdQMoRxfeg
Sobre os uniformes nazistas: são considerados bonitos e talvez entrem no fetiche de "proibido" que atrai diversas pessoas. Fora que há um interesse grande dos japoneses pelo povo germânico em animes, de Legend of the Galactic Heroes (já li em fóruns acusações de "simpatia ao nazismo" por parte desse) ao querido das fujoshis Axis Powers Hetalia.
Alexandre: Não entendi muito bem o que você quis dizer.
Bobba Feet é realmente um grande apreciador e conhecedor da cultura japonesa. Só quem o conhece sabe do que estou falando. Somente com sua perseverança poderia nos brindar com esta matéria, dividindo com nós, pobres mortais, sua experiência de estar em um evento tão grandioso e importante do outro lado do mundo a que poucos brasileiros (talvez pouquíssimos) tiveram contato. E claro, sua narração nos traz de forma clara, leve e divertida, muita informação que é ignorada pela imprensa de massa.
Permissão para retirada Coronel (Hannibal)!!.
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