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Fev 06

Karakuridouji Ultimo e Heroman, de Stan Lee

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Lancaster | PERMALINK | 20

Categorias: Artigos e Reviews

Karakuri Douji Ultimo

Sinceramente, eu acho que os mangás Karakuridouji Ultimo (publicado pelo almanaque Jump Square, da Shueisha) e Heroman (que sai na Shonen Gangan da Square Enix), ambos com a assinatura de Stan Lee, são os quadrinhos mais com a cara da Marvel no mercado – incluindo aí tudo que a Marvel tem produzido nos últimos anos.
Eu tenho um certo prazer em dizer isso. Virou lugar comum jogar pedras em Stan Lee e dizer que ele é ultrapassado, que se tornou datado, e que ele não é capaz de fazer mais nada que preste. E Karakuri Douji Ultimorealmente ele parece ter chegado ao novo século mais com um perfil de entertainer do que de criador, como atesta aquele reality show que passou em canais de tv por assinatura por aqui.
Mas as pessoas se esquecem que já no final dos anos oitenta – longe de sua fase áurea – ele entregou a obra-prima chamada Parábola, estrelada pelo Surfista Prateado, e que por mais que os fãs de quadrinho europeu esbravejem quando eu digo isso, foi o melhor roteiro que Moebius teve em mãos em toda a sua vida (incluindo aí o datado Incal com roteiro de Jodorowsky, que fez coisa muito melhor posteriormente em termos de texto com seu Metabarões). Aliás, o próprio Moebius disse isso, nos extras da edição que foi lançada por aqui pela Abril, em um passado muito distante. Mas a geração de velhuscos fãs da Metal Hurlant jamais aceitaria uma declaração como essa – que a melhor história desenhada por um de seus ídolos foi uma história de super-herói que ainda por cima não é desconstrutiva, como Watchmen. Se Lee encerrasse sua carreira ali, essa história seria lembrada para sempre com a pompa e a circunstância com que ela deveria ser lembrada. Mas é claro, Stan Lee não parou e seu desligamento da Marvel foi seguido por um processo de tentativa e erro. Todos criticam seu "Stan Lee reimagina o Universo DC" por ele fazer mais do mesmo, mas sejamos honestos, ele faz ali o que sempre fez com precisão: apresenta conceitos amarradinhos para séries de aventura. Todos eles funcionam, nada mais, nada menos. Por que a grande rejeição?
Karakuri Douji UltimoPorque Lee, nos Estados Unidos, vive preso a uma arapuca que ele mesmo criou ao introduzir "dramas humanos" a personagens que vivem histórias que não tem começo, meio ou fim. Ele deu um golpe de morte na Era de Prata (a verdadeira Idade das Trevas dos quadrinhos americanos, cujas consequências se fazem sentir até hoje, mas isso não é assunto para este blog) e fez com que seus leitores envelhecessem com os personagens. Só que Lee escrevia para garotos, ponto. Lee gostava de ser contemporâneo e introduziu elementos mais maduros nas suas tramas, mas o seu leitor sempre foi por excelência um garoto que comprava um gibi ao acaso com os dez centavos que sobravam do troco do sorvete na loja de conveniência da esquina de seu subúrbio – e ele sempre soube disso. Lee nunca escreveu efetivamente para adultos e suas tentativas nesse sentido jamais funcionaram muito bem. Repetindo, ele sempre escreveu para garotos – e cadê os garotos?
Escrevi longamente sobre isso em um artigo anterior que pode ser visto AQUI (e nesse caso específico eu peço uma olhadinha em nome dos pontos que apresento neste post), e não vou me repetir. O ponto é que o verdadeiro público de Lee foi exilado dos quadrinhos americanos nos anos 80, e eis a armadilha: os nerds que tomaram de assalto as gibiterias nessa época cultuam Lee por ter criado os personagens em torno do qual suas vidas orbitam...

Marvel

... mas ao mesmo tempo não são mais garotos de dez anos, nem de longe; não há como o trabalho de Lee possa fazer conexão com eles, porque ele nunca escreveu para essa gente e ninguém ali vai entender isso. Então dentro do cenário dos quadrinhos americanos, Lee vive aprisionado em uma gaiola de ouro – porque apesar de tudo esses nerds que o exilaram foram aqueles que construíram sua imagem e o puseram no Olimpo. Não foi a toa que na década de 80, quando os quadrinhos amadureceram de vez nas gibiterias americanas, Lee se voltou para a televisão, produzindo e roteirizando animações como Defensores da Terra (que passou no Brasil via SBT, lembram?). Seu público estava lá, nas manhãs de sábado, comendo cereais coloridos com leite.
Karakuri Douji UltimoO mangá devolveu os quadrinhos para o grande público nos Estados Unidos, e não podemos esquecer o que significa o SHONEN de revistas como a Shonen Jump, a Shonen Sunday e a Shonen Magazine. Olhando por esse sentido, a guinada de Lee para os quadrinhos japoneses nada mais é do que um passo natural. Os americanos tentam levar pessoas normais para as gibiterias, através de iniciativas e eventos, mas não adianta: lá você não é ninguém se não desenhar um personagem da Marvel ou da DC. Você é um "independente", e dentro do cenário americano, isso tem uma conotação outsider – em miúdos, dentro da mentalidade de high school americana do cenário local de quadrinhos, os autores da Marvel e DC são o equivalente nerd do time de futebol americano da escola, e seus personagens são as cheerleaders que só os bam-bam-bans levam para a cama; fora desse clubinho, você é o loser da classe, e se levarmos em conta quem é o público de gibiterias por lá… isso é horrorosamente patético.
Mas no mundo real, a coisa muda de figura.

Karakuridouji Ultimo

Cadeias de mega-livrarias como a Borders e a Barnes and Noble têm seções imensas de mangá que chegam a ser seis vezes maiores do que toda a seção de quadrinhos convencionais americanos – e mesmo lá, Marvel e DC perdem espaço para editoras como Top Shelf e várias outras. Lá, Lee pôde voltar aos braços de seu verdadeiro público afinal de contas, com uma escala no Japão.
Karakuri Douji UltimoE como ele está se saindo? Bem, os desenhos animados em produção ainda não saíram, e é cedo para falar da recepção de Karakuridouji Ultimo nos Estados Unidos, mas já dá para se falar da série e, admitamos: o one-shot que apresentou seu Karakuridouji Ultimo ao mundo nas páginas da revista Jump Square II (uma revista só de histórias fechadas, que é publicada poucas vezes ao ano), foi horroroso; mas isso aconteceu por conta de uma colisão entre duas formas de narrativa. Foi a paulada necessária para que Lee se tocasse que não era possível escrever mangá como se escreve um quadrinho convencional americano; seu texto parecia redundante, descrevendo aquilo que era visualmente apresentado pela narrativa visual afiada de Hiroyuki Takei (criador de Shaman King). Parecia uma edição número zero supérflua, dessas que vem como brinde nas edições da revista Wizard (no Brasil, Wizmania, publicada pela Panini). Por isso mesmo, o texto da série passou a ser feito em parceria – os diálogos finais passam pela mão da equipe japonesa, mas é visível que Lee fez seu dever de casa antes de apresentar tudo o que se tornou sua marca registrada: personagens com vidas comuns prejudicadas por segredos que complicam seu cotidiano, e estes segredos os jogam contra ameaças maiores do que a própria vida. Sempre foi assim com Lee, sempre foram estas suas regras, é pegar ou largar.

Karakuri Douji Ultimo

Para quem não sabe, a trama gira em torno de vários bonecos – os Karakuridouji – todos com seu superpoder e cada um deles ligado a um humano. Nada muito diferente (em termos conceituais) de títulos como Zatch Bell e Rozen Maiden, embora cada um dos três tenha sua própria identidade independentemente de temas comuns. Mas seu próprio background apresenta elementos que embora já tenham sido digeridos no meio dos quadrinhos americanos, ganham vigor novo ao ser Karakuri Douji Ultimojogados em outro contexto. Os mal-entendidos gerados pela manutenção dos segredos são mais constrangedores porque simplesmente há mais liberdade aqui do que nos tempos em que Gwen Stacy rompeu por Peter Parker por pensar que ele agrediu seu pai. O "melhor amigo que se torna maior inimigo" tem um histórico impensável para os quadrinhos Marvel dos anos 60 e 70 – e surge de uma virada particularmente cruel. De quebra, os grupos de heróis com conflitos internos que já foram digeridos e padronizados por décadas no universo de malha colante acabam gerando um choque na transposição de mídia, porque rompem com o tradicional conceito mangático do Nakama – o laço de união acima de tudo que norteia as aglomerações de personagens dos quadrinhos shonen, unidas pelo poder da amizade e similares.
Em miúdos: Ultimo funciona muito bem, obrigado, e é o melhor trabalho de Stan Lee desde "Parábola". Se descontarmos essa história, talvez seja o melhor trabalho do autor desde os anos setenta.
Heroman por sua vez é voltado a um público mais jovem ainda – e é assim que ele deve ser visto. E uma vez que diferentemente de Ultimo ele é ambientado nos Estados Unidos, esses aspectos são mais visíveis.

Heroman

Para um leitor de quadrinhos de super-heróis velho de guerra, a impressão superficial que se tem é que Peter Parker é apaixonado por uma Gwen Stacy cheerleader que é irmã caçula de Flash Thompson e filha de Norman Osborn (ah, vocês viram os filmes e desenhos animados do Aranha e já devem saber quem é todo mundo), mas o Joey que tem sua vida transformada ao poder comandar o mecha Heroman do título (muito como nos mangás de robô dos anos 60, como Tetsujin 28 e Robô HeromanGigante), numa olhada melhor, não é um nerd estudioso como Parker. Na verdade, ele remete mais às descrições de como era a vida de Steve Rogers antes de se tornar o Capitão América, enfraquecido, trabalhando discretamente como cozinheiro em uma lanchonete e sendo amolado por valentões na escola – e valentões existem em todo lugar no mundo, mas parece que nos Estados Unidos eles são uma instituição tão nacional quanto a torta de maçã, o Partido Republicano, a NRA e a Revista Veja. Aqui é o clichê do garoto pobre e da menina rica, temperado por uma invasão alienígena e pela mão de Lee em criar vilões diferentes a cada aventura. E novamente funciona, em seu mérito em criar aventuras fechadas, amarradas, e um cast de personagens que desperte simpatia não a velhos de barba na cara, mas a garotos, pura e simplesmente. Não adianta um marmanjo reclamar de "heróis adolescentes chatos", porque o que eles realmente querem do gênero está nas amarras de seu mundinho, em seus mega-crossovers, suas guerras civis, seus reinados sombrios. Por mais que eles reclamem, que queiram ver seus personagens voltados para adultos, sendo vistos de forma "séria", sempre haverá um componente infantil na imagem de um homem vestido com uma roupa de morcego.
Hero ManO que não impede que se façam coisas espetaculares com isso de vez em quando – eu acho o filme "Cavaleiro das Trevas" um filmaço. E para ser justo, muitos dos mangás para adultos simplesmente partem dos mesmos temas apresentados nos mangás para garotos. Mas se pensarmos bem, quando isso acontece em almanaques como a Young Jump e a Young Magazine, eles estão cumprindo um papel de transição. Cinco, oito anos mais tarde, os leitores dessas revistas estarão acompanhando dramas de gênero em revistas como a Business Jump e a Afternoon da Kodansha. E não se tratam dos materiais de livraria "autorais" como os quadrinhos literários trazidos pela Companhia das Letras. Falo do entretenimento adulto de massa, que no Japão faz parte um ciclo natural de leitura. É uma amarra que os quadrinhos precisam vencer nos Estados Unidos para quebrar sua gaiola de vez.
Nos Estados Unidos, os super-heróis perderam sua razão de ser. No Japão, eles estão em seu devido lugar como mais um entre vários gêneros (não adianta dizer que eles não existem. Zetman, de Katsura, é o quê?). E foi através dos quadrinhos japoneses que Stan Lee, o mais importante nome na história do gênero, conseguiu voltar verdadeiramente para casa.
(Ah, sim, o website Comic Book Resources está publicando uma entrevista com Lee sobre seus mangás. Está em inglês e não pretendo traduzi-la, mas para os interessados, o link está AQUI).

Stan Lee


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Comentários:

Nome: Quiof 06/02/10 05:29
aquele "Just Imagine" foi bem chatinho.
texto redundante, Stan Lee escrevendo como Chris Claremont?

Alexandre: Aquilo não é nenhuma obra-prima. São pontos de partida, amarrados, aquilo que os americanos chamam de "by the book". Exigir daquilo algo revolucionário seria pedir demais.

alis a Wizmania foi pro espaço, sumiu e ninguém falou nada, a última edição prometia novidades...

Alexandre: Sinceramente eu não lia a Wizmania. Aliás, a Wizard americana sempre foi uma revista muito fraca. Uma revista que eu gostava era a Comic Scene, e ela já se foi há muito...
Nome: Pato_Supersonico 06/02/10 05:39
Parabéns por mais um ótimo texto, caro Lancaster.

Os professores de língua estrangeira costumam dizer que, por mais que você estude, só vai dominar perfeitamente uma lingua estrangeira se for viver no lugar onde ela é falada. Acho que o mesmo vale para outros tipos de conhecimentos que envolvam aptidão cultural, como é o caso da prática empresarial japonesa.

Para alguém aprender como os empresários e profissionais de outros países trabalham, não basta estudar o que eles fazem, é preciso chegar junto deles para aprender na prática como as coisas funcionam lá.

Alexandre: Bom, Lee declarou na entrevista cujo link eu passei que ele trabalhou com videoconferências. As distâncias vão sendo encurtadas com o tempo. Em Ultimo, aparecem algumas coisas impensáveis em termos de mangás, como o grupo de vilões ser apresentado praticamente de uma vez sem muito mistério, atacando em conjunto – algo usual em quadrinhos americanos mas que dá um nó na cabeça ao ser visto em mangás. Se Lee seguisse toda a cartilha dos mangás ao chegar em terreno novo, não haveria muita graça em trazê-lo.
Nome: Antonio Pereira 06/02/10 06:03
Excelente post. Saudades do Homem Aranha de antigamente...

Alexandre: Todo mundo tem. :D
Nome: Júlio Nunes da Silva Filho 06/02/10 06:06
Lancaster, adorei o seu texto; estou pensando uma coisa, será que com o "sucesso" de Stan Lee em se "reinventar" no mangá, será que não estimularia outros autores conhecidos nossos (torço de coração pelo Marv Wolfman) a fazer o mesmo, e quem sabe quebrar a gaiola de vez, como você mesmo diz?
Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva Filho
(conforme prometido, estou enviando esta mensagem SÓ uma vez, viu?)

Alexandre: Bom, o Keith Giffen produziu uma série curta pra Tokyopop chamada I Luv Haloween, mas aquilo não é mangá. O Chuck Austen, sim, escreveu um mangá que misturava quadrinho de beisebol universitário e erocom chamado Boys of Summer, mas ele gerou problemas; ele foi pago pela série como um todo, mas a história foi cancelada nos Estados Unidos porque os lojistas ao ver o conteúdo, recusavam o material – mas ela foi publicada em alguns outros países, na íntegra. E claro, não escreveu nada de novo na editora. De resto, acho mais provável que novos autores talentosos queiram fazer diretamente suas próprias obras, sem ter que passar pelo crivo da malha colante. Vamos ver o que isso vai gerar.
Nome: Pato_Supersonico 06/02/10 06:19
Ah, sim, eu soube. Eu disse "chegar junto deles" no sentido de trabalhar ao lado deles.

E de fato não é interessante para ninguém que o Lee vire um mangaka ordinário, afinal, os japoneses provavelmente o aceitaram porque querem novidade.
Nome: Quiof 06/02/10 06:58
o "Gasparzinho Mangá" (Casper and the Spectrals) foi idealizado pelo J.M. DeMatteis.

Alexandre: O que gera comparativos não tão felizes...
Nome: Pato_Supersonico 06/02/10 08:09
"O que gera comparativos não tão felizes..."

Tudo tem seu preço. =P
Nome: Marcelo Santarem 06/02/10 08:19
"...valentões existem em todo lugar no mundo, mas parece que nos Estados Unidos eles são uma instituição tão nacional quanto a torta de maçã, o Partido Republicano, a NRA e a Revista Veja..."
REVISTA VEJA??? O_o

Alexandre: Isso é para ver se você estava prestando atenção. XD

"...Ele deu um golpe de morte na Era de Prata (a verdadeira Idade das Trevas dos quadrinhos americanos, cujas consequências se fazem sentir até hoje, mas isso não é assunto para este blog)..."
Então me indique um onde eu possa ler mais sobre, puxa! Você atiça o fogo e logo apaga?...

Alexandre: O fato é que aqui o tema é mangá e anime. Então vou ser breve: olhe para o cenário das tiras de jornal. Tínhamos dramas, comédias, séries policiais, tudo popular, tudo de massa, e muitos desses materiais poderiam estar sendo tranquilamente publicados hoje em revistas seinen em termos conceituais. Os autores eram importantes – e sim, os bem-sucedidos faziam verdadeiras fortunas! Alex Raymond morreu ao mostrar seu Corvette esportivo a Stan Drake, que tinha uma Mercedes – na verdade Raymond era um colecionador de carrões! Há um texto interessante sobre esse contexto AQUI.
Já a Era de Prata era um monte de baboseira mal escrita, e lembre que eu gosto de super-heróis. Não há como comparar os operários da DC ao que gente como Raymond e Drake fizeram na época. E convenhamos, como é que se pode endeusar um artista como
Curt Swan (aqui) quando se olha uma página de Mary Perkins On Stage, de Leonard Starr feita NA MESMA ÉPOCA (aqui)?

Mas creio que você se referia à concorrente DC, não? Que à época da renovação de Lee na Marvel, seguia a cartilha iniciada na virada dos 50 pros 60 com a reformulação de seus heróis clássicos, que, independente de renovação ou não, já vinham com cheiro de mofo.
Engraçado que, mesmo garoto, eu não gostava da DC como me amarrava em Marvel, seja pelo visual dos personagens, pelo clima das histórias e pelas próprias revistas (EBAL dum lado, Bloch [argh!] doutro).

Alexandre: A DC teve sua cota de coisa boa nos anos setenta, como O Caçador (de Goodwin e Simonson), Kamandi e Novos Deuses (de Jack Kirby) e O Guerreiro (de Mike Grell). Mas só fui gostar dela após a Crise nas Infinitas Terras. Mas o universo dela era canhestro e apesar de algumas pessoas que tentaram subir o nível dos roteiros (como Denny O'Neill, que tentou fazer com o Super-Homem um ensaio daquilo que Byrne fez nos anos 80 – e foi castrado editorialmente), sempre haviam boitatás para fazer o papel de operário padrão e desfazer tudo (como Elliot S. Maggin). Se você notar bem, a Marvel elevou o nível do discurso e talvez nem houvessem esses materiais que falei se não fosse a existência dela. Mas todos eles eram materiais para garotos, mesmo quando tinham outras leituras.

Hoje eu acho os gibis da Bloch engraçados, com sua colorização exagerada, personagens de cores trocadas e diálogos mal-traduzidos ao ponto da descaracterização. Mas eles ganharam algum tipo de charme nostálgico por causa disso.
Nome: Kaesar 06/02/10 10:17
Em minha humilde opinião como entusiasta da produção de quadrinhos, Lee e uma daquelas referências primordiais no que tange a: "E assim que você diverte o leitor". para qualquer um que se meta a escrever historias em quadrinhos.

E sinceramente eu quero que o bom velhinho continue produzindo bastante pois sim eu gosto dele e como disse em um comentário anterior e ressaltado na competente resenha ele é uma lufada de criatividade, reiventando a roda em um mercado que da sinais claros de saturação.

Acredito ate que Lee servira mais como inspiração para novos artistas do que os antigos aqueles que não se adaptaram ao esquemão dos comics se retiraram e foram tocar suas vidas ou estão muito cansados para tentar navegar em novos mares.

Aloha.

Alexandre: Bom ponto. É isso que ele sempre foi: um homem do entretenimento, inclusive quando tocava praticamente sozinho os roteiros da Marvel.
Nome: Quiof 06/02/10 11:18
engraçado é saber que o Lee está na Marvel desde quando era Timely, poderia ter ficado como o outro Lee, o Falk que continuou fazendo o mesmo feijão com arroz até morrer.
Nome: Carlos Eduardo 07/02/10 12:13
Eu acompanhei Homem-aranha e X-men dos 11 até os 14 +/-, foi a época em que os quadrinhos passaram a custar 10R$ e ser em formato americano. Por conta do preço estratosférico (para a época) eu tive que largar. Dia desses quando eu fui pegar pra ler X-men (A Fênix Negra)eu quase morri, vi que era um monte de porcaria em tom professoral.
Acho que isso significa que meus gostos mudaram (acho que foi por volta de 1996 até 1999 - mas eu li bastante coisa dos anos 80 em bibliotecas) com o tempo. Um quadrinho que atrai adolescentes já não funciona com adultos, mas o engraçado é que esses quadrinhos já não eram feitos para crianças há muito tempo.
Sinceramente, hoje em dia eu jamais pagaria para ler algo como X-men. Eu me sinto embromado, eu pago para ler uma história, mas ela jamais terá uma conclusão, ela é feita por 50 mãos diferentes, todo mundo que morre não morreu etc. Mas sinceramente, o que mais me incomodou quando estava relendo "A morte da Fênix Negra" foi o tom professoral. Me senti como um idiota com aquele narrador tendo que explicar tudo o que se passava como se fosse um professor de Moral e Cívica (sim, eu tive aula disso durante algum tempo - a escola considerava benéfica essa lavagem cerebral).
Nome: Jussara Gonzo 07/02/10 12:21
Como eu disse naquele seu outro post, Stan Lee é um fenomeno cósmico! É ridiculo gente que fica contra ou mesmo a favor dele... aceite-o como é! Ele é um FATO da natureza! E bem ou mal, contribuiu para a evolução dos quadrinhos.

Achei legal essa visão - de fato Stan Lee é o cara que produz para garotos! Nada a ver ele ficar escrevendo para estes nerds babões de comicshop. Pois ele se torna uma espécie de "deus duo", unido por ódio e amor ao mesmo tempo pelos fãs.

Alexandre: Na verdade os escritores que se dirigem a nerds babões eles mesmos tem um perfil fanboy, e esses caras surgiram muito mais tarde na linha de tempo dos quadrinhos americanos. São os que cresceram lendo gibi mas não procuraram leituras para um público mais velho. E acredite, nos anos 70 elas existiram e nem falo de viagem setentista como o material da Hurlant traduzido. Howard o Pato era para adultos, tinha os quadrinhos de humor da National Lampoon, e mesmo materiais como Jonah Hex e Iron Jaw não eram para moleques se pensarmos bem. Opção não faltava nas gibiterias.

Anyway, tava acompanhando do Heroman, mas acho que vou bizoiar este Ultimo. Se Stan Lee voltar a vender na casa dos milhões nos isteies atravéz do mangá vai ser O TAPA na cara dos doidos do Big Bang Theory.

Alexandre: Eu também gostaria de ver isso, mas é melhor esperar o desenho animado sair.
Nome: Júlio Nunes da Silva Filho 07/02/10 08:51
Lancaster, fugindo um pouco do assunto do seu post, e partindo do comentário do Marcelo Santarem, uma coisa que os leitores mais novos não entendem era a força das tiras de jornal no quadrinho americano.
Todos os grandes quadrinhistas americanos eram desenhistas de tira de jornais (Alex Raymond pode ser tratado como o desejo o e o arquetipo de todos os quadrinhistas da epóca); quem escrevia para as revistas(comics)eram os caras que não passavam nos testes de qualidade das editorias de quadrinhos das grandes distribuidoras (o caso mais famoso é do proprio Super-Homem, que foi recusado por todas, antes de ser publicado na Action Comics, em 1938).
Outro caso conhecido é do nosso amigo aqui citado, Stan Lee, que teve o Capitão America recusado para a publicação em tiras em 1941.
Partindo da premissa do seu texto sobre manga nos Estados Unidos
(http://www.interney.net/blogs/maximumcosmo/2008/10/22/crescimento_manga_global_estados_unidos_1/), uma coisa que faltou ser comentada, e acho que neste caso é fundamental, foi o colapso dos jornais nos EUA nos anos 60, que afetou toda a cadeia de quadrinhos local [o decrecímo das vendas de jornais, que atingiram o auge nos anos 40 e 50, que com a concorrência da TV, que se tornou universal nos EUA entre o fim dos anos 50 e o começo dos 60, foi impressionante; até hoje o caso mais comentado é o do New York Herald-Tribune, que já tinha sido o jornal mais lido dos EUA, e a casa original do Fantasma, de Lee Falk, que perdeu metade dos seus leitores em um periodo de sete anos (1963-1970), devido a criação de redes locais de TV na cidade de Nova Iorque, e que acabou falindo em 1977, depois da Grande Greve Jornalistica de 1976], privando-os de seu principal meio de divulgação.
Aproveitando o mote, Lancaster, não seria uma boa ideá um texto sobre tiras de quadrinhos de jornais japoneses/
Fica aqui a sugestão.
Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva Filho

Alexandre: Eu conheço poucas tiras de jornal japonesas, e a única de peso que conheço é Sazae-San. E acho que a melhor pessoa a falar dessa série seria a Valéria da Shoujo Café, não eu (mesmo Sazae-san não sendo exatamente um shoujo).

Mas embora as tiras estejam em decadência nos Estados Unidos, volta e meia elas fazem barulho. Não se esqueçam que Calvin e Haroldo são frutos dos anos 80.
Nome: Pedro Bouça 07/02/10 11:51
E Dilbert é uma tira atual! Nem todo mundo gosta, mas é impossível negar o seu impacto e sucesso.

A decadência das tiras de jornal não veio com a queda de circulação destes nem nada assim. As tiras de ponta eram publicadas em 500, 600 jornais!

O que aconteceu foi que a partir dos anos 50 os jornais quiseram economizar reduzindo o tamanho de suas páginas E, em particular, o tamanho das tiras nelas publicadas.

Ora, para uma série como Peanuts, que prosperou durante esse período, a redução não produzia muito efeito na sua arte ultrasimplificada. Mas um Rip Kirby de Alex Raymond ou o exemplo do Alexandre, Mary Perkins, eram DESTRUÍ;DOS pela redução, que aniquilava a linha delicada e detalhista dos seus artistas.

A crescente perda de hábito de leitura diária de jornais também foi muito ruim para as séries que tinham histórias continuadas, que hoje são cada vez mais raras. Ninguém tinha mais interesse de ler tiras de jornal todos os dias (ou todas as semanas, no caso das páginas dominicais) para acompanhar as hitórias. O humor descartável virou rei das tiras de jornal!

Ou seja, no caso das tiras de jornal foi o formato em si que ficou obsoleto, não os trabalhos. Como os comic books eram (e infelizmente ainda são) incapazes de dar vazão ao tipo de material das tiras, o pessoal que as deixava (como aconteceu com Starr - que ainda está vivo - nos anos 70). Starr, por exemplo, tentou trabalhar nos comic books, incluindo aí uma série de álbuns chamada Kelly Green, desenhada pelo seu colega Stan Drake (que fora autor de uma "tira novela" similar chamada The Heart of Juliet Jones) e publicada pela filial americana da poderosa editora francesa Dargaud, mas não encontrou seu público porque as livrarias americanas dos anos 80 não tinham interesse em quadrinhos. Acabou tendo que trabalhar na detestável tira Little Orphan Annie ("Annie, a Pequena Órfã") até se aposentar, o que é um destino pior que a morte!

Aliás, Starr e Drake trabalharam em muitos comic books depois que suas respectivas tiras de jornal foram encerradas, mas os fanboys detestavam seu estilo clássico (acho que alguns trabalhos de Drake chegaram até a sair no Brasil, mas o antigo mestre da arte fotorealista não passava de uma sombra do que fora).

Sobre Moebius, Alexandre, você não leu as melhores histórias de Blueberry ou o resto do material que ele fez com o Jodo (tipo La Folle de Sacré Coeur). Adoro Parábola, mas esse não é o melhor argumento que o homem já desenhou, mesmo você não gostando de Incal!

Chegando finalmente ao verdadeiro tema do post (ufa!), eu dei uma olhada nesses mangá do Lee nos recônditos da internet. Heroman parece sim uma série da Marvel das antigas, mas o Ultimo me pareceu bem diferente do trabalho habitual dele. Aliás, não pareceu nem muito boa (bem, melhor que Shaman King, mas QUALQUER COISA é melhor que Shaman King...). Eu teria de ler um volume inteiro para dar uma opinião mais concreta, mas não vi muito Stan Lee (bem, exceto na parte flashback com o "Stan Lee samurai) na história.

Hunter (Pedro Bouça)

Alexandre: Bom, não discordo que Heroman seja mais Marvel ainda do que Ultimo, mas acha que os elementos de Lee não estão lá? (seguem spoilers):

1) Deus ex machina (o protagonista não é ultimo, e sim Yamato Agari): ele tinha uma vida normal, quando surge algum acidente que lhe dá superpoderes (Yamato Agari encontra Ultimo ao procurar um presente para a garota que ele está a fim no antiquário. Ultimo É o próprio superpoder!)

2) De repente, as circunstâncias o jogam em conflito com o seu primeiro supervilão

3) Sua vida é horrorosamente bagunçada, especialmente a amorosa (a garota pensa que ele é um tarado ao vê-lo tentar reanimar ultimo deitado na cama. Inclusive ela pede que ele não apareça em sua festa de aniversário).

4) Em grupo, temos conflitos internos (diferentemente da "força da amizade", os aliados que Agari encontra parecem não se bicar muito bem).

5) Supervilão com um twist dramático (um dos karakuridouji malignos, o karakuridouji da inveja, é seu melhor amigo, que na verdade (selecionem com o mouse se quiserem
realmente saber) foi sua esposa em uma reencarnação anterior. Quando sua memória veio a tona, ele virou a "bicha má", disposto a destruir a vida de Agari por recusá-lo, e com um ódio especial por Sayama, a menina pelo qual Agari está apaixonado. Podem traçar um paralelo com aquela postura "não posso pegar pesado com o Duende Verde, porque ele é o pai do meu melhor amigo!"

Se isso não é Stan Lee, não sei o que é. ;)
Nome: Pedro Bouça 07/02/10 02:10
Não li o bastante para ver os elementos que você mencionou. Até aonde eu vi havia apenas dois seres artificiais (semi-)onipotentes trocando porrada sem muitos dos elementos "humanos" que o Stan Lee costuma usar.

Alexandre: Pelo visto, você só deve ter lido o capítulo zero que saiu na Jump Square II. E que é horrível, diga-se de passagem.
Nome: Quiof 07/02/10 02:41
Alexandre, você podia fazer um texto sobre fanzines japoneses (ou doujinshis), até o Cultura Livre de Lawrence Lessig cita
os Doujinshis.
nessa matéria diz que existem fanzines oficiais, isso procede?
http://www.abrademi.com/cavaleiros_fanzine.html

Alexandre: Eu diria que existem fanzines com qualidade profissional. "Oficialização" está entre aspas, mas o que acontece é que esses fanzines acabam circulando em algumas redes de lojas especializadas, com alta qualidade gráfica. Mas não deixam de ser fanzines por causa disso. Há gráficas especializadas nesse tipo de serviço, deve ser disso que o texto fala.

Shotaro Ishinomori fez fanzine?

Alexandre: Porque um autor veterano e bem estabelecido no mercado o faria?
Nome: Quiof 07/02/10 06:28
dizem que o Alan Moore tá fazendo, só já ouvi falar em editora e site oficial, fanzine não é sinônimo de independente?
Nome: Pedro Bouça 07/02/10 10:01
O que o Alan Moore fez (e eu tenho a primeira edição comigo para comprovar) é uma revista no espírito dos fanzines dos anos 70.

Tecnicamente não é um fanzine, pois teve impressão e distribuição profissionais (diabos, chegou até aqui em Portugal!).

Agora, independentemente do que seja, eu achei ilegível...

Hunter (Pedro Bouça)
Nome: Vinícius 01/02/11 09:55
Passando aqui por causa dos links do último post, conheci o site recentemente, bem bacana =p

Enfim, sempre achei o Stan Lee genial. Achei bacana a idéia por trás de Ultimo, mas não estou acompanhando... Ouvi dizer que vão fazer um anime da série, é verdade?

E, acho que sou exceção, mas vou dizer que gosto das mega-sagas e histórias de hoje em dia dos quadrinhos americanos. Não todos, claro, mas adorei histórias como Guerra Civil por exemplo. Mas não é por isso que deixo de ler outras coisas, minha curiosidade sobre mangás num geral só vem aumentando nos últimos tempos.
Nome: Beto 04/11/11 03:57
Opa beleza? To vendo que esse post é meio antigo, achei no google por acaso enquanto procurava por Ultimo stuff e aproveitando a deixa (e pra agradecer pelos ótimos textos e imagens), deixo aqui uma prévia do anime de Ultimo!

http://acepalm.deviantart.com/#/d4eg6db

Ok desculpem, é um fanart XD Mas DOIDO DEMAIS!
Falows!

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