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Fev 01

O Mangá no Festival de Angoulême

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Lancaster | PERMALINK | 5

Categorias: evento

Angoulême

Sim, estamos apresentando aqui o nosso primeiro colaborador regular do blog: Pedro Bouça, o correspondente europeu da casa. Ele já escreveu artigos para blogs como o Omelete e toca o blog Euroquadrinhos, atualmente em pausa. E ele irá cantar a bola sempre que acontecer alguma movimentação interessante dentro do universo mangá no Velho Mundo, ainda mais dentro do atual cenário aonde as editoras japonesas já estão fincando os pés na Europa – e o mangá criado por europeus já é uma realidade. Então sem mais delongas, seja bem-vindo, Pedro, e vamos ao que vende. :)

––––––––––

One PieceComo o Alexandre já mencionou aqui algumas vezes, a cidade de Angoulême na França é palco todos os anos do maior festival de quadrinhos do mundo. O deste ano realizou-se entre os dias 28 e 31 de janeiro.
Para quem nunca teve o privilégio de estar lá é até difícil de descrever. A pequena cidade, de pouco mais de 40 mil habitantes, é completamente tomada pelos quadrinhos, com eventos pipocando por todos os lados – e os mangás não ficam de fora!
Aqui cabe um parêntesis para explicar a importância dos mangás no mercado francês. Embora tenha sido publicado pela primeira vez na França há mais de 30 anos, o mangá só começou a ter uma importância significativa no mercado francês há cerca de 20 anos, quando a editora francesa Glénat começou a publicar séries como Akira e Dragon Ball. Hoje o mangá corresponde a 40% dos lançamentos e 25% do faturamento do mercado francês (a diferença se explica pelo preço mais reduzido dos mangás em comparação aos álbuns de Baruquadrinhos europeus). Uma parcela bastante significativa! A série de quadrinhos mais vendida na França em 2009 foi Naruto, com One Piece e a veterana Dragon Ball dividindo com as tradicionais séries franco-belgas Asterix e Tintim o top 5 de vendas na França! (Dados da GfK)
A crescente importância dos mangás no mercado francês se reflete no festival. Há cerca de dois anos um dos principais espaços do festival, o Espace Franquin (Nota: O nome é uma homenagem ao importante autor de quadrinhos belga André Franquin) foi transformado no “Manga Building”, onde se realizam agora exposições relacionadas ao mangá. A deste ano foi dedicada à série One Piece, como o Alexandre mencionou anteriormente.
Também todos os anos o festival tenta convidar autores japoneses para fazer palestras e dar autógrafos no evento. Não é uma tarefa fácil, uma vez que os autores das séries mais populares, publicadas nos semanários japoneses, estão impossibilitados de viajar devido ao ritmo frenético de seu trabalho. No passado autores como as meninas da Clamp “participaram” no festival via teleconferência! Ainda assim autores como Hayashi Seichi (Elegia em Vermelho), Makoto Yukimura (Vinland Saga), o crítico Kosei Ono e o célebre diretor de animes Rin Taro compareceram este ano ao festival.
BaruTambém houve um grande número de palestras sobre mangá, como a já mencionada discussão crítica a respeito do mangá Adolf de Osamu Tezuka, uma análise de One Piece e uma conferência sobre a história do shoujo. Para não falar nas inevitáveis exibições de animes. Em suma, não faltaram atrações para os fãs de mangá.
Angoulême também é o local de entrega dos principais prêmios do quadrinho francês (e mundial). Não há categorias específicas para mangá como nos prêmios americanos segregacionistas (tipo o Eisner Award); qualquer quadrinho do mundo pode ser indicado e premiado para uma categoria, a única exigência é que ele tenha sido traduzido para o francês no ano anterior! Este ano nenhum mangá foi premiado, mas não quer dizer que eles tenham ficado completamente de fora, já que o principal prêmio de Angoulême, dado a um autor pelo conjunto de sua obra, foi entregue ao francês Baru (pseudônimo de Hervé Baruléa), que já trabalhou para uma editora japonesa. Mas como?
No início dos anos 90, a revista semanal japonesa para adultos Morning, da Kodansha, decidiu renovar sua proposta contratando diversos autores franco-belgas para publicar em suas páginas. Autores como Moebius (que criou o mangá Ícaro em parceria com o mangaka Jiro Taniguchi), Lewis Trondheim e Christian Lamquet publicaram nas páginas da revista por um curto período Barude tempo, até que a crise dos mangás e o relativo insucesso da iniciativa levaram a Kodansha a desistir de seus “convidados internacionais”.
Baru foi um deles, possivelmente o mais bem sucedido. Na Morning ele criou a série L’Autoroute du Soleil (“A Auto-estrada do Sol”, referência à rodovia francesa A7, que liga Lyon a Marselha), uma espécie de road movie à francesa em que dois delinqüentes juvenis precisam cair na estrada quando um deles, filho de imigrantes argelinos, seduz a mulher do dirigente de um partido de extrema direita. Sua viagem se desenrola pelas mais de 400 páginas deste mangá made in France que se tornou sua obra mais famosa e recebeu vários prêmios, incluindo o de melhor álbum no festival de Angoulême de 1996, quando de sua publicação em língua francesa pela tradicional editora Casterman (a mesma de Tintim e Corto Maltese).
Baru, portanto, também é um símbolo da relação cada vez mais próxima entre os quadrinhos da França e Japão, que se reflete também no festival.
(Aos interessados, infelizmente apenas uma pequena obra de Baru está disponível no Brasil, uma história curta que ele fez para o álbum “Asterix e seus amigos”. L’Autoroute du Soleil é inédita em português, embora tenha sido traduzida para o espanhol, alemão, finlandês e até chinês!)

(Pedro Bouça, diretamente de Angoulême)

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Comentários:

Nome: Pato_Supersonico 01/02/10 04:52
Parabéns, caro Pedro Bouça, foi uma ótima estréia.

Minhas estimas também ao Lancaster pela ótima escolha de colaborador. Os momentos de abertura para colaborações são um momento sensível para qualquer blog ou site, que longe de facilitar as coisas para o proprietário, na verdade dobra suas responsabilidades.

O futuro é sempre incerto e infeliz é aquele que não está preparado para lidar com erros próprios ou alheios. Mas não há dúvida que este post é um ótimo presságio de um futuro brilhante para o sistema de colaboração do MC.
Nome: Pedro Bouça 01/02/10 10:15
Opa, valeu Pato!

(Hmmm, isso soa estranho.)

Hunter (Pedro Bouça)
Nome: Warty 02/02/10 09:49
Matéria legal, bela estréia P. Bouça!

e que inveja tenho de você XD

O mercado europeu é bem interessante, e essa dos japoneses terem aberto pra autores franceses eu não sabia. Bacana
Nome: Antonio Pereira 03/02/10 03:42
Pedro Bouça, parabéns pela ótima matéria de estréia. Sucesso para o seu trabalho aqui no MC.
Nome: Pedro Bouça 03/02/10 10:42
Warty, essa história rolou faz um tempo, quando a indústria dos mangás estava no auge e a franco-belga patinava um pouco (início dos anos 90).

De lá para cá, ironicamente, os papéis se inverteram e há autores japoneses fazendo o caminho inverso. Hoje mesmo comprei o primeiro álbum europeu assinado pelo Jiro Taniguchi...

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